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CADERNO GLOBO 10

São Paulo, agosto 2016

Tema: Somos Todos Olímpicos

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© Copyright 2016 Globo Comunicação e Participações S.A.

 

EDITORIAL

A realização da 31ª edição dos Jogos Olímpicos e 15ª dos Paralímpicos no Brasil foi o ponto de partida para o Caderno, em sua 10ª edição, propor uma série de reflexões sobre o esporte e as várias relações que se estabelecem com as pessoas ao redor do mundo e através dos tempos. Adotando como título o conceito da comunicação e cobertura jornalística dos Jogos pela Globo, Somos Todos Olímpicos, a publicação procurou apresentar uma visão panorâmica do tema, contemplada em três vertentes principais:

 

MULTICULTURALISMO

Aborda temas que perpassam a relação do esporte com a sociedade desde os primórdios das competições até os dias atuais, em que as disputas são capazes de mobilizar e captar a atenção das pessoas em escala global. Essa mobilização é capaz de produzir fenômenos sociais e comportamentais, num espectro que vai do congraçamento dos povos a manifestações nacionalistas. Este primeiro bloco conta com artigos do historiador Victor Andrade de Melo (UFRJ), do sociólogo Ronaldo Helal e do comunicólogo Fausto Amaro (UERJ) e do antropólogo Arlei Sander Damo (UFRGS). Traz ainda uma entrevista com o historiador italiano Stefano Pivato (Università degli Studi Carlo Bo) e uma crônica do escritor Antonio Prata.

 

SUPERAÇÃO

Signo intrínseco da própria atividade esportiva, o tema é tratado de diversas formas, contemplando a superação física, emocional e das barreiras sociais. Esta segunda parte do Caderno conta com os artigos do educador Gustavo Andrada Bandeira (UFRGS) e do administrador e empreendedor social Rodrigo Hübner Mendes. Traz também, como exemplos de superação de limites, os depoimentos do ex-jogador de vôlei e campeão olímpico Giba, que superou uma leucemia na infância, e da corredora Terezinha Guilhermina, uma das melhores atletas paralímpicas do mundo, além de uma entrevista com a psicóloga do esporte Katia Rubio. Três jornalistas com experiência na cobertura de eventos esportivos dão seus relatos, comentando episódios marcantes que vivenciaram. A crônica desta seção é assinada pela cantora Zélia Duncan, praticante de corrida.

 

TRANSFORMAÇÃO

Mudar realidades é uma característica do esporte que pode ser observada tanto em termos individuais quanto coletivos. Aqui, o Caderno traz à tona a questão da atividade física como ferramenta de inclusão social e do direito à prática esportiva e de lazer. Trata também das transformações nas cidades que sediam grandes eventos e dos legados físico e simbólico que podem ser deixados no espaço urbano. Os artigos são assinados por Marlova Jovchelovitch Noleto e Fabio Eon (representantes da Unesco), pelo arquiteto e urbanista João Masao Kamita (PUC-Rio) e pelos pesquisadores Lamartine DaCosta (Uerj) e Ana Miragaya (Unesa). Atletas e ex-atletas expõem relatos sobre como se tornaram empreendedores sociais. A crônica fica a cargo do escritor e jornalista Joaquim Ferreira dos Santos, que saúda o novo desenho do Rio de Janeiro pós-Jogos. Uma homenagem à cidade que sedia os Jogos Olímpicos de 2016.

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Os grandes eventos esportivos têm mobilizado ao longo da história mais e mais pessoas de todos os quadrantes do planeta. Tamanha movimentação permite observar uma série de manifestações, que vão do lúdico ao mercadológico, do simbólico ao tangível, do múltiplo ao peculiar.


O corpo no centro do debate – por Victor Andrade de Melo

Embate moderno – por Ronaldo Helal e Fausto Amaro

Novas cartas na mesa – com Stefano Pivato

Emoções uniformizadas – por Arlei Sander Damo

Íadas, íadas, íadas! Frescobol nas Olimpíadas – por Antonio Prata

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ARTIGO por Victor Andrade de Melo

 

FUNDADOR DAS OLIMPÍADAS MODERNAS, PIERRE DE COUBERTIN CONSIDERAVA O ATLETISMO E OS JOGOS ESPORTIVOS FERRAMENTAS FUNDAMENTAIS PARA REGENERAR A JUVENTUDE. NO SEU ENTENDER, SERIAM ESTRATÉGIAS PARA REMEDIAR OS MALES DA CIVILIZAÇÃO INDUSTRIAL E PERMITIR A CONTINUIDADE DO PROGRESSO

 

A primeira edição dos Jogos Olímpicos modernos foi realizada em Atenas, na Grécia, em 1896, desdobramento de um congresso promovido na França, em 1894, bem como da criação do Comitê Olímpico Internacional, em 1895, um processo liderado pelo francês Pierre de Coubertin. Foram intensos os debates que antecederam a organização do evento.

 

Naquela transição de séculos, em algumas cidades e entre certas lideranças grassava uma sensação de desconforto e descontentamento com os problemas advindos da nova dinâmica social e econômica, desdobramentos do processo de industrialização. Aquele fin de siècle era marcado por certa perplexidade e insegurança em função da reordenação dos padrões de vida. Havia preocupações com o que se pensava ser o declínio moral da sociedade.

 

Nesse âmbito, o corpo foi para o centro do debate, algo que dialogou com o desenvolvimento científico, com a redução da influência religiosa, com o crescimento e a valorização das vivências públicas de lazer, com a organização dos primórdios do que anos depois se chamaria de “sociedade do espetáculo”.

 

Se uma nova relação e consideração com o corpo estavam sendo construídas, um novo sistema de regulação, de disciplinarização, se fazia necessário. Fortaleceu-se uma tendência de, desde uma leitura peculiar da Antiguidade grega, encará-la como exemplo a ser seguido em busca de estabelecer a ideia de harmonia, perfeição, saúde.

 

Pierre de Coubertin participou ativamente desse debate. Inspirado na experiência britânica, na qual o esporte vinha se sistematizando e sendo valorizado desde a transição dos séculos XVIII e XIX, considerava o atletismo e os jogos esportivos ferramentas fundamentais para regenerar a juventude. No seu entender, seriam estratégias para remediar os males da civilização industrial e permitir a continuidade do progresso. Possibilitariam trabalhar a autodisciplina e forjar corpos sadios.

 

Nesse cenário, surgiu a ideia de recriar os Jogos Olímpicos. As competições não deveriam ser entre países, mas entre indivíduos. Os atletas seriam amadores. As mulheres não eram bem-vindas como competidoras. Os eventos seriam promovidos a cada quatro anos. As guerras cessariam para sua realização.

 

Essas são algumas facetas que explicitam a busca de conexão com a Grécia antiga. Na verdade, devem ser consideradas mais como manifestações das necessidades do tempo em que os Jogos Olímpicos foram recriados. Não se tratou de “reproduzir” o passado, mas sim de “inventar novas tradições” a partir de releituras.

 

O olimpismo foi concebido como um tipo de humanismo universal que tem o esporte como uma prática capaz de articular imagens e ex-periências na constituição de uma forma de intervenção no contexto social. Construído com base no diálogo com diversos parâmetros filosóficos – procedimento típico do ecletismo que marcava a transição de séculos –, foi mais uma das iniciativas que aderiram à ideia de internacionalismo, tais como o movimento escoteiro (fundado em 1907), o esperanto (criado em 1887), a Cruz Vermelha (que surgiu em 1863 e cresceu muito no fim da centúria), a Associação Internacional de Trabalhadores (Primeira Internacional, instituída em 1864; a Segunda foi estabelecida em 1889).

 

Assim sendo, o movimento olímpico não conseguiu fugir da organização política que paulatinamente se tornou preponderante no decorrer do século XIX, o Estado-nação. Dependia das contribuições dos países das mais distintas formas: para promover os eventos, para enviar delegações, para legitimar a proposta. A ideia de celebração dos povos se chocaria em diversas ocasiões com os interesses das nações, algo cada vez mais complexo no tabuleiro geopolítico internacional. Com isso, a relação entre esporte e política se tornaria progressivamente aparente, mesmo que não poucas vezes isso seja publicamente negado pelos órgãos esportivos.

 

Coubertin rapidamente percebeu que precisava “conquistar” o maior número de países, inclusive de outros continentes, especialmente da América. Vale lembrar que a terceira edição dos Jogos Olímpicos foi realizada em Saint Louis (Estados Unidos), em 1904. O evento foi marcado por diversas dificuldades, que mostraram ao idealizador francês os desafios de execução de sua proposta.

 

No Brasil, chegaram ecos dos Jogos Olímpicos de 1896. Os jornais publicaram algumas informações sobre as cerimônias de abertura e encerramento, bem como alguns resultados, já estabelecendo uma associação entre esporte, nação e a ideia de internacionalismo.

 

Na ocasião, o termo “Jogos Olímpicos” não era desconhecido, pelo menos nas maiores cidades. Já se conhecia o evento até mesmo porque era grande a influência do neoclassicismo entre os intelectuais brasileiros, inclusive alguns médicos que, no decorrer do século XIX, defenderam o valor da educação física. A referência aos Jogos ajudava a defender a legitimidade e a necessidade de institucionalização dos exercícios corporais. Uma representação do modelo grego de educação era considerada exemplo a ser seguido.

 

As principais responsáveis pela difusão do termo foram, contudo, as exibições gímnicas promovidas em outra esfera e com intencionalidades distintas: o circo. Companhias como a do Círculo Olímpico, entre tantas outras, apresentavam números denominados “jogos olímpicos”. A sedução e o encanto que tais espetáculos despertavam no público eram indícios de que se gestava uma nova sensibilidade ligada a certas habilidades corporais (força, vigor, equilíbrio, energia).

 

Algumas agremiações esportivas também usavam o termo. Um exemplo é o Clube Olímpico Guanabarense, fundado em 1883, que promovia eventos dedicados às corridas a pé, além de ser um dos primeiros do país a organizar competições de bicicletas.

 

A despeito de tanta veiculação do termo, os Jogos Olímpicos de Atenas (1896) e de Paris (1900) foram pouco percebidos pelos brasileiros. No nosso país, a conformação de uma maior relação com o olimpismo se deu na primeira década do século XX, a princípio mais em razão de certos festivais esportivos realizados na América do Sul, eventos nos quais equipes representativas do Brasil tomaram parte.

 

Por exemplo, no caso de uma competição realizada no Uruguai em 1907, houve especial interesse em função de alguns bons resultados obtidos por atletas brasileiros. Esses sportsmen receberam destaque por supostamente demonstrar “o valor atlético” do país. Essa participação em eventos internacionais gerou novas expectativas, induzindo a mobilização mais intensa do esporte em discursos sobre a nação.

 

Nessa década, um brasileiro obteve destaque no movimento esportivo internacional. Santos Dumont, em 1905, recebeu o diploma de Mérito Olímpico por seus feitos na aviação. Isso, contudo, não trouxe impactos significativos na divulgação do olimpismo no Brasil. O Comitê Olímpico Brasileiro foi fundado em 1914, mas, devido a problemas diversos, se tornou efetivamente ativo apenas na década de 1930.

 

De fato, somente a partir dos anos 1920 nosso país começou a prestar maior atenção ao movimento olímpico, em grande parte graças à primeira participação do Brasil nos Jogos, na edição de 1920, em Antuérpia (Bélgica). A delegação nacional foi integrada por atletas de tiro, natação, salto ornamental, remo e polo aquático. O grupo enfrentou uma verdadeira saga para comparecer ao evento. Deve-se considerar que, mesmo que o esporte já fosse popular e estivesse se consolidando no país desde o século XIX, ainda não estava totalmente estruturado e muitos eram os conflitos entre as lideranças.

 

 

O destaque foi a participação do selecionado de tiro: uma medalha de ouro (Guilherme Paraense), uma de prata (Afrânio Costa) e uma de bronze (por equipe, integrada por Sebastião Wolf, Dario Barbosa e Fernando Soledade). Os cronistas narraram com euforia tais conquistas. O maior mérito teria sido colocar o nome do país entre as grandes nações domundo. Porisso, os participantes foram encarados como heróis, agraciados com condecorações e homenagens. Chegaram a ser recebidos pelo presidente da República, Epitácio Pessoa, em cerimônia promovida pela Liga de Defesa Nacional.

 

Fortaleceu-se a ideia de que o Brasil deveria organizar um grande evento esportivo. A oportunidade surgiu em 1922, no âmbito das comemorações do Centenário da Independência, festividades promovidas com algum atraso e atropelo em meio a um clima político bastante tenso.

 

As celebrações tinham como intuito projetar internacionalmente a ideia de que o Brasil era um país pacífico, ordeiro, unido e moderno. Foram organizadas várias competições, entre as quais os Jogos Internacionais de Militares e os Jogos Olímpicos Latino-Americanos. Pela primeira vez se tornava plausível à população acompanhar mais amiúde o que propunha o movimento olímpico.

 

A despeito do entusiasmo, os problemas foram muitos. Sentindo os efeitos de uma crise econômica, o governo brasileiro demorou a passar recursos para a organização do evento. A inexperiência na promoção de competições de grande porte foi mais um fator dificultador. Além disso, o clima tenso da política nacional, aliado a certa precariedade na estruturação do campo esportivo, se fez refletir nos confrontos de interesses entre as lideranças envolvidas.

 

Ainda assim, os Jogos Latino-Americanos foram um sucesso. As competições ocuparam um lugar de destaque entre as celebrações de 1922, atraindo um dos maiores públicos das festividades. Foram fartamente divulgadas pela imprensa e mobilizadas em discursos que exaltavam uma nação para a qual se pretendia forjar uma identidade que apontasse para o que havia de mais “civilizado”.

 

Algumas instalações construídas para o evento tornaram-se um patrimônio esportivo para o Rio de Janeiro. Todavia, nem sempre foram de uso amplo e irrestrito, além de terem custado mais do que poderiam em razão de atropelos na organização. Da mesma forma, os Jogos foram, sim, importantes para o movimento olímpico internacional e sem dúvida trouxeram alguma projeção da imagem do país no exterior.

 

Convém registrar que também deixaram claras certas deficiências nacionais no que tange ao gerenciamento e à administração. Eventos dessa natureza, de fato, são uma faca de dois gumes. Os Jogos Olímpicos podem trazer contribuições ao mobilizar as imagens esportivas a serviço dos interesses das nações, mas ao mesmo tempo a trajetória desses eventos mostra que eles podem ser nocivos às cidades nas quais são sediados. Há tensões recorrentes, especialmente as ligadas aos investimentos necessários e ao modo de organização.

 

De lá para cá, muita coisa aconteceu no movimento olímpico internacional, no esporte brasileiro, na história do país. No momento em que estamos prestes a realizar os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro 2016, cabe a pergunta: aprendemos com o exemplo de 1922 e a experiência de eventos semelhantes organizados pelo Brasil ou outros países?

 

O quadro atual do Brasil guarda semelhanças com o da década de 1920. O país passa por um difícil momento na política e na economia. Isso vai interferir na realização dos Jogos Olímpicos? Que legado o evento deixará para a cidade?

 

O futuro nos dirá se essa ocasião significou uma oportunidade para garantir ganhos para os cidadãos e para a cidade ou se foi apenas uma grande festa que reforçou momentaneamente determinadas representações. Se for somente isso, o evento será mais lembrado por trazer muitos custos e incômodos para a população.

 

Este texto recupera de forma resumida alguns argumentos apresentados em dois outros artigos: “De Olímpia (776 a.C.) a Atenas (1896) a Atenas (2004): problematizando a presença da Antiguidade clássica nos discursos contemporâneos sobre o esporte” (revista Phoînix, 2007); e “Primeiros ventos olímpicos em terras tupiniquins” (escrito em conjunto com Fabio Peres para a Revista da USP, junho de 2016).

 

 

VICTOR ANDRADE DE MELO

é professor associado da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), onde atua nos programas de pós-graduação em História Comparada, no Instituto de História, e em Educação, na Faculdade de Educação.

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ARTIGO por Ronaldo Helal e Fausto Amaro

 

ESPORTE ATUAL ENVOLVE UM CHOQUE DE FORÇAS QUE OPÕE A DESTRUIÇÃO DO LÚDICO E A SACRALIZAÇÃO DE ELEMENTOS ENVOLVIDOS NAS COMPETIÇÕES

 

Na maioria dos clássicos da literatura da sociologia do esporte, encontramos uma discussão sobre o fim do elemento lúdico e sobre as Jogos Olímpicos que têm o Rio de Janeiro como sede são um bom ponto de partida para uma reflexão mais séria acerca do impacto e da presença do esporte na sociedade moderna. O que se segue são alguns pontos sobre esporte, modernidade e sociedade brasileira que merecem uma reflexão mais profunda.

 

1 O esporte é um fenômeno social que permeia a vida do homem moderno. A quantidade de tempo e afeto que as pessoas lhe dedicam é frequentemente maior do que às outras esferas da vida social. Por conseguinte, o espaço concedido ao tema na mídia é, muitas vezes, maior do que o dedicado à economia ou à política. Os estudos sociais do esporte já possuem certa tradição na Europa e nos Estados Unidos, e, devido à expressiva popularidade do futebol no Brasil, o tema tem adquirido cada vez mais destaque nas Ciências Sociais e Humanas. Ainda assim, muito tem de ser feito. O esporte, à exceção do futebol, precisa ser mais discutido e deve-se abandonar de vez o estigma de tema menor ou de “patinho feio” das humanidades. Cabem aqui alguns comentários críticos sobre as questões mais recorrentes elaboradas por essa área.

 

2 Na maioria dos clássicos da literatura da sociologia do esporte, encontramos uma discussão sobre o fim do elemento lúdico e sobre a profanação dos esportes modernos. Johan Huizinga argumenta, em seu Homo ludens: o jogo como elemento da cultura (Perspectiva, 2014), que o esporte moderno destrói um dos aspectos fundamentais para o prazer e a satisfação dos grupos humanos: o elemento lúdico. Para Huizinga, “o espírito do profissional não é mais o espírito lúdico, pois lhe falta espontaneidade, a despreocupação”. Muito dessa crítica de Huizinga deve ser atribuído à realização dos Jogos de 1936, em Berlim, e ao intenso uso do esporte como propaganda do regime nazista. Stanley Eitzen, em Sport in contemporary society (Paradigm Publishers, 2005), critica a “corrupção do esporte” afirmando que este, ao se transformar em um espetáculo, substitui o prazer do atleta “por aquilo que dá prazer aos torcedores, dirigentes, televisão e empresas que pagam os comerciais televisivos”. Gregory Stone faz uma crítica parecida em American sports: play and display (Chicago Review 9, outono 1955). Segundo ele, a “exibição” (display) para os espectadores é “des-brincadeira” (dis-play) destruidora do “puro elemento lúdico”. Seguindo essa tendência, Georges Magnane, em Sociologia do esporte (Perspectiva, 1969), expressa sua crítica ao esporte moderno afirmando que este “corre o risco de perder o seu caráter lúdico para tornar-se uma empresa comercial, sujeita às regras da propaganda e da publicidade”. O conjunto dessas críticas nos remete à ideia de que a transformação do esporte em um “espetáculo” das multidões é responsável pelo declínio do lúdico e de que a erosão desse elemento é acompanhada e até mesmo causada pelo advento da comercialização do esporte, tornando-o um negócio e, consequentemente, um evento profano. Essa crítica pode ser desdobrada para análise do doping nos esportes olímpicos, que simboliza o ápice da “cultura de resultados” no esporte, em detrimento da diversão descompromissada.

 

3 A ideia de que a erosão do lúdico foi acompanhada pelo advento da comercialização e de que os esportes modernos se tornaram atividades totalmente seculares foi alvo de questionamentos. As afirmações de Huizinga, por exemplo, foram questionadas por Eric Dunning e Kenneth Sheard no livro Barbarians, gentlemen and players (Routledge, 2005). Esses autores não acreditam que os esportes teriam mantido a sua popularidade se o elemento lúdico inerente a eles tivesse sido atrofiado na extensão colocada por Huizinga, ou se eles tivessem se transformado em uma atividade profana. Segundo eles, o que parece estar ocorrendo é justamente o contrário, ou seja, “a centralidade cultural do esporte tem crescido de tal forma que hoje ele parece ser um fenômeno social de proporções quase que religiosas”.

 

LIMITES ENTRE SAGRADO E PROFANO NÃO SÃO BEM DEFINIDOS NO UNIVERSO DOS RITUAIS OLÍMPICOS

 

4 O caso do futebol no Brasil, por exemplo, confirma as asserções de Dunning e Sheard. Apesar de sua crescente comercialização e da tendência contemporânea de elitização presenciada nas novas “arenas”, ainda encontramos espaço para manifestações “sagradas”. Em jogos entre rivais tradicionais, os torcedores cantam, reverenciam seus ídolos, símbolos e cores de seus times, choram e rezam nos estádios, demonstrando que certa aura sagrada permanece, ou melhor, é ressignificada. É como se a mercantilização do esporte fosse absorvida pela necessidade da “sacralidade”, fazendo com que os limites entre o sagrado e o profano não sejam bem definidos nesse universo. A ritualidade também é parte precípua dos Jogos Olímpicos modernos, veja-se o aparato criado em torno do evento ao longo do século XX: hino, bandeira, juramentos, desfile de nações, revezamento da tocha olímpica. Atualmente, o próprio acendimento da chama olímpica em Atenas, com atrizes vestidas de sacerdotisas e ampla cobertura midiática, mimetiza o elemento do sagrado religioso. No Brasil, por razões culturais, a racionalização tem enfrentado fortes resistências dos torcedores, principalmente após a Copa do Mundo de 2014.

 

5 A Olimpíada de Londres e a participação do Brasil – não somente a dos atletas, mas também a dos torcedores – reforçam esse debate e acirram a polêmica. Se existe uma força que caminha na direção da destruição do lúdico e da profanação do espírito esportivo, existe também uma outra que vai na direção oposta, reforçando o lúdico e sacralizando elementos corriqueiros. Émile Durkheim, em As formas elementares da vida religiosa (Martins Editora, 2003), já chamava atenção para a capacidade da sociedade de “sacralizar” elementos mundanos, triviais e corriqueiros. O universo do esporte é um exemplo emblemático desse processo de “sacralização” de coisas mundanas na sociedade moderna. Vimos nos Jogos Olímpicos de Londres, e provavelmente veremos no Rio de Janeiro, atletas “profissionais” serem adorados, idolatrados e festejados como semideuses do Olimpo. Presenciamos o “espírito olímpico” reafirmado e celebrado no esforço “sobre-humano” de alguns competidores, seja para vencer uma prova ou somente para terminá-la. Que o esporte é um grande negócio, não resta a menor dúvida, porém esse “grande negócio” é um terreno fértil para a produção de mitos e ritos representativos da comunidade. Desde seus primórdios, em meados do século XIX, o esporte moderno incorporava valores da industrialização e do capitalismo nascentes. A crítica da sociologia do esporte é elaborada, contudo, sem levar em conta a resistência desse universo aos elementos “racionais” e “profanos” e os aspectos “positivos” que daí emanam. Por exemplo, percebemos, ainda com relação às Olimpíadas, que a atração que o esporte exerce nas pessoas faz parte de um processo intrínseco ao fenômeno em questão, que simultaneamente une povos em um sistema de comunicação universalizante e proporciona manifestações de diferenças culturais em estilos, comemorações e performances. Hans Ulrich Gumbrecht, em seu livro Elogio da beleza atlética (Companhia das Letras, 2007), tentou explicar os motivos de nossa atração pelas performances atléticas; o autor enumera seus sete possíveis fascínios: “corpos esculpidos, sofrimento diante da morte, graça, instrumentos que aumentam o potencial do corpo, formas personificadas, jogos como epifanias e timing”.

 

6 Assim, entre as manifestações de massa da cultura moderna, o esporte é a que melhor expressa o significado mais plural de globalização – uma comunicação universal que respeita as diferenças. O esporte é uma manifestação de massa que integra sem trivializar ou homogeneizar, sem destruir as características básicas da cultura local, temor constante dos críticos da cultura de massa. Antes, trata-se de um processo de adaptação e de tradução cultural. Já dizia Peter Burke, no livro Variedades de história cultural (Civilização Brasileira, 2000), que a transferência cultural “só é possível em solo adequado”. O caráter extraordinário do esporte está justamente no fato de exigir a cooperação das diferenças ao mesmo tempo que as estimula. Em todos os níveis, da competição mais local a uma Olimpíada, atletas e equipes diversas cooperam, aceitando e concordando com as regras e normas da competição e prometendo lutar pelo mesmo ideal: a vitória. Some-se essa característica do conflito esportivo à incerteza dos resultados e percebemos, subjacente na mensagem esportiva, o seu discurso altamente democrático. Não obstante, cada vez mais temos visto que os bastidores do esporte comportam escândalos semelhantes aos experimentados em outras esferas sociais (vejam-se os casos recentes na Federação Internacional de Futebol, Fifa).

 

 

7 Por tudo isso, o esporte deve ser entendido como um ritual que proporciona sentido à coletividade. Nas competições internacionais, como uma Olimpíada ou uma Copa do Mundo, nos deparamos com um expressivo drama da modernidade que fala de igualdade em um plano e diferenças em outro. O esporte pode ser, então, visto como uma metalinguagem – no caso, a linguagem esportiva falando sobre a própria sociedade. Assim, o esporte é um espaço privilegiado no qual a sociedade moderna produz seus mitos e ritos e deposita aí as representações de seus desejos, frustrações e medos. Utilizamo-nos do esporte para expor quem somos e o que queremos ser. O Rio de Janeiro, por sua história esportiva e vocação lúdica, expressa pelo Maracanã, por sua tradição em sediar eventos esportivos relevantes, pelas práticas esportivas experimentadas pela população nas praias, clubes e praças, é uma cidade síntese das polaridades do esporte e, por conseguinte, apta à realização de um evento global e multicultural como as Olimpíadas. As candidaturas fracassadas anteriores (para os Jogos Olímpicos de 1936, 2004 e 2012) reforçam a importância simbólica deste momento tanto para a história do esporte brasileiro quanto para a memória da própria cidade do Rio. Temos aí uma oportunidade singular de produzir para o mundo e para nós mesmos um ritual paradigmático da sociedade moderna, momento para refletirmos sobre nossas identidades (nacional, regional, local) e sobre a(s) cultura(s) brasileira(s).

 

 

RONALDO HELAL

É sociólogo e professor da Faculdade de Comunicação Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).

 

FAUSTO AMARO

É doutorando em Comunicação pela Uerj.

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ENTREVISTA com Stefano Pivato

 

PARA O HISTORIADOR E ENSAÍSTA ITALIANO, ATÉ A METADE DO SÉCULO PASSADO, OS GRANDES EVENTOS ESPORTIVOS EXPRESSAVAM A COMPETITIVIDADE ENTRE AS POUCAS NAÇÕES ONDE SE PRATICAVA ESPORTE. HOJE, A GLOBALIZAÇÃO MUDOU ESSE PANORAMA

 

Tradução Celina Olga de Souza

 

Autor de um dos estudos mais importantes sobre a história do esporte moderno, o historiador italiano Stefano Pivato considera que o eurocentrismo e o americanismo que caracterizaram as grandes competições mundiais até a primeira metade do século XX chegaram ao fim. “Hoje o esporte se tornou um modo de dizer ao mundo: ‘Eu também estou aqui’.”

 

Em entrevista concedida por e-mail ao Caderno, o professor, nascido em uma cidade litorânea perto de Rimini, analisa a evolução das relações entre esporte, nação e sociedades, fala sobre a realização da Olimpíada no Brasil e desfaz as ilusões ligadas à ideia de competição apenas pela diversão: “No esporte, chegar em segundo ou terceiro lugar nunca contou. O importante sempre foi vencer: a qualquer custo”.

 

Em seu livro L’era dello sport, o senhor mostra como o esporte moderno encontra suas origens nas mesmas circunstâncias que favoreceram a produção industrial e faz um paralelo entre a formalização do atletismo e as leis do liberalismo econômico. Quais são essas coincidências e como a regulamentação dos jogos tradicionais pode ser entendida a partir de seu valor “civilizatório”?

 

Os jogos tradicionais (pelota, jeu de paume ou tipos de jogos com bola que precederam o advento do futebol) eram uma “desordem” em estado puro e expressavam a percepção do jogo e do divertimento de uma maneira totalmente desinteressada. O esporte estabelece regras e disciplinas e expressa as mesmas normas de competitividade que comandam o desenvolvimento econômico da Idade Contemporânea. O esporte está ligado ao século XX, à modernidade industrial e seus modelos “educativos” da mesma forma que os esportes coletivos à cooperação, adequando-se aos mitos daquele século, como os da velocidade e do aperfeiçoamento dos movimentos. Enfim, o esporte se tornou a expressão dos ritmos da civilização das máquinas. Mas, sobretudo, o esporte ensina a livre-iniciativa, verdadeiro motor do liberalismo econômico.

 

Tomando como marco a realização dos Jogos Olímpicos da era moderna em 1896, quais as transformações mais significativas pelas quais o esporte passou até os dias atuais?

 

Nas últimas décadas, a metamorfose “de jogo em esporte” completou-se definitivamente. Quando, no final do século XIX, nasceram as Olimpíadas, o esporte passou a expressar a competitividade entre nações: ou melhor, entre aquelas poucas nações onde se praticava o esporte, particularmente na Europa e nos Estados Unidos. Hoje a globalização embaralhou as cartas. O eurocentrismo e o americanismo que caracterizaram o esporte, pelo menos até a primeira metade do século XX, chegaram ao fim. Hoje o esporte se tornou um modo de dizer ao mundo “eu também estou aqui”. Pensemos na explosão do futebol africano nos anos seguintes à independência colonial: uma fase que se afirmou definitivamente com a realização da Copa do Mundo na África do Sul, em 2010. Ou então consideremos, nos anos 1990, a dissolução da União Soviética e o nascimento de toda uma série de nações que, exatamente graças ao esporte e aos recordes obtidos, gritaram ao mundo seu direito à visibilidade. Desfilar na abertura de uma Olimpíada significava, para nações como Eslovênia, Bielorrússia ou Ucrânia, mostrar a bandeira daquelas nações a uma plateia de milhões de pessoas.

 

Durante grande parte do século XX, as Olimpíadas explicitaram tensões entre nações ou foram usadas a serviço da propaganda política e ideológica. Como se apresentam hoje as relações entre esporte, nação e sociedades? Que outras disputas estariam em jogo em eventos dessa natureza no século XXI?

 

O patrocinador assumiu o lugar do conceito de nacionalidade nas grandes competições esportivas, mas não completamente. Hoje assistimos a fenômenos novos. Tomemos como exemplo o futebol. Na Europa está ocorrendo um remanejamento das bandeiras nacionais e das cidades. Magnatas russos compram times ingleses; holdings chinesas compram times italianos. Contemporaneamente, assistimos a um remanejamento da torcida. Hoje não é raro encontrar jovens chineses torcendo por times como Inter, Milan ou Liverpool. Ou contemporâneos italianos que torcem pelo Real Madrid, time espanhol em que atua Cristiano Ronaldo, jogador português. Ou ainda que torcem por um time catalão, como o Barcelona, cuja estrela é Messi, um argentino. Digamos que a globalização embaralhou as cartas, mas o conceito de torcida nacional ainda está enraizado no esporte. Aliás, o esporte muitas vezes ocupou o lugar da política e das ideologias como um instrumento da afirmação da ideia de pátria e de nação. O desinteresse pela política, fenômeno generalizado em todo o mundo ocidental, levou a uma identificação difusa com o próprio país graças ao esporte, mais do que pelas instituições estatais ou símbolos de caráter político. Desse ponto de vista, o esporte não parou de exercer o desejo de domínio de um Estado ou de uma nação. O país que ganha uma medalha afirma uma vitalidade que não é apenas física, mas também moral. A nação que organiza uma competição como as Olimpíadas mostra o grau de perfeição alcançado pela sua engenharia, pela sua tecnologia e pela sua organização social em geral.

 

Com o desenvolvimento e a profissionalização do esporte moderno, há quem ressalte a perda de seu aspecto lúdico. Em seu lugar, teria ficado a busca pelo rendimento máximo, pela superação dos limites do corpo a qualquer preço. Casos de doping, de problemas de saúde de atletas causados pelo excesso de treinos, rigorosos contratos comerciais atrelados a resultados seriam exemplos dessa deriva. Fomos longe demais?

 

Estamos diante da última grande hipocrisia do esporte. Acredito que uma das frases mais equivocadas de todo o século XX seja aquela atribuída a Pierre de Coubertin: “O importante não é vencer, mas competir”. Coubertin comprovou isso durante as três primeiras Olimpíadas ao não conceder medalhas aos vencedores. Mas, depois, o barão francês teve de se render: em Londres, em 1908, foram introduzidas as medalhas para os vencedores. No esporte, chegar em segundo ou terceiro lugar nunca contou. O importante sempre foi vencer – a qualquer custo. Ainda mais hoje, quando o esporte movimenta negócios e somas colossais e vencer ou perder uma competição pode fazer mudar de mãos somas enormes ou provocar o aumento ou queda dos lucros de um patrocinador. São conhecidos casos de países que organizaram uma espécie de doping legalizado, e não me refiro apenas aos levantadores de peso do Leste antes da queda do Muro de Berlim. Pensemos nos casos da Rússia do [presidente Vladimir] Putin. Mas pensemos também na Itália, onde foram descobertos casos de federações esportivas que financiavam laboratórios de pesquisa que coordenavam programas de doping de vanguarda. Na minha opinião, há uma espécie de acordo tácito em que todos sabem que os atletas se dopam. Porém, o caso é abafado para salvaguardar a ilusão de “pureza” do esporte. É uma espécie de teatro no qual todos, talvez os espectadores inconscientemente, são cúmplices. Sem nenhuma hipocrisia: o esporte sem doping é como a “Terra do Nunca”. Todos aqueles envolvidos com o esporte se comportam como o eterno adolescente chamado Peter Pan e fingem não saber e não ver para não estragar a brincadeira.

 

O PAÍS QUE GANHA UMA MEDALHA AFIRMA UMA VITALIDADE NÃO APENAS FÍSICA, MAS TAMBÉM MORAL

 

Tanto é verdade que, quando o atleta transgride aquelas regras e estraga a brincadeira, ele é punido. O caso mais clamoroso? Diego Armando Maradona. Todos sabiam que Maradona era usuário de cocaína, porém todos se calavam, coniventes. Quando Maradona começou a acusar a Fifa e todo o sistema esportivo, foi “punido” e a sua culpa, revelada. O fato de alguns países punirem casos de doping ocorridos oito anos atrás causa perplexidade. Que sentido há em ressuscitar as análises da Olimpíada de Pequim e perceber, passados oito anos, que a atleta russa de salto em altura Anna Chicherova (medalha de ouro) estava dopada? Que sentido há em Lance Armstrong disputar e vencer sete vezes o Tour de France para descobrirmos anos depois que na última vitória estava dopado? Quer dizer, entre outras coisas, que os responsáveis pelo fornecimento das substâncias aos atletas escondem a sua presença dos aparelhos dos comitês olímpicos e das federações, que são muito velhos? Ou quer dizer que se trata de um “acerto de contas” entre federações esportivas e comitês olímpicos oito anos depois? Em um caso ou outro, seria muito mais correto “legalizar” o doping entre os profissionais. Chego até a dizer, e não é de modo algum uma contradição, que seria mais “ético”. O diletantismo morreu há tempos também dentro daquela instituição, o olimpismo, que defendeu esse princípio desde o início. A ideia romântica de Olímpia não existe mais. O esporte passou de modelo educativo, como o concebia Coubertin, para uma forma de espetáculo com uma exasperada busca pelo desempenho, como ocorre com os cantores, bailarinos ou diretores de orquestra. E então? Por que para essas pessoas não se exige um controle antidoping e para o atleta sim? Poderia se manter um controle severo para o esporte juvenil e por diletantismo, mas, entre os profissionais, deixar a liberdade de escolha.

 

Em termos simbólicos, houve mudanças no esporte com o advento da chamada “sociedade do espetáculo”? Qual o papel dos Jogos Olímpicos atuais nesse contexto?

 

No início, a competição esportiva envolvia os estudantes das escolas: o público tinha pouca relevância. A partir dos anos 30 do século XX, com a construção dos estádios, e mais ainda a partir dos anos 1950 e 1960, com o advento da televisão, a presença de um público, real ou virtualmente presente, modificou profundamente o esporte. Na América do Norte, por exemplo, o olhar vigilante da câmera de televisão provocou, no beisebol, excessos de perfeccionismo em um esporte em que os especialistas em determinados papéis substituíram os jogadores genéricos. Também no futebol e nos outros esportes coletivos europeus, a introdução da televisão e de cada vez mais sofisticadas repetições em câmera lenta condicionou significativamente a sua evolução técnica. A partir de 1965, o lançamento dos primeiros satélites geoestacionários permitiu as transmissões ao vivo de um continente a outro, revolucionando e amplificando o espetáculo esportivo. Com os Jogos Olímpicos da Cidade do México (1968), o esporte se torna um espetáculo universal, e os organizadores descobrem a importância do público televisivo. Mas a política também descobre isso. Os Jogos da Cidade do México entraram para a história não apenas como um evento esportivo, mas graças a uma das imagens mais marcantes já impressas na memória coletiva: aquela que retrata os velocistas afroamericanos Tommie Smith e John Carlos com braços erguidos usando luvas pretas e de punhos cerrados durante a premiação dos 200 metros, em sinal de protesto contra o racismo e em apoio ao movimento pelos direitos civis. Seis meses antes daquele gesto, Martin Luther King, profeta da libertação do povo negro, havia sido assassinado em Memphis. Aqueles punhos cerrados levaram também à notoriedade a revolta estudantil, que alguns dias antes da cerimônia de abertura dos Jogos no México tinha sido reprimida pelo exército, com um total de 40 mortos. Na Olimpíada seguinte, de Munique, em 1972, foi a questão palestina que dominou a cena. A partir dos anos 1960, graças à televisão, o espetáculo esportivo tornou-se algo que vai além das competições.

 

A realização de Olimpíadas sempre envolve debate sobre o legado para as cidades-sede e, num plano maior, o desempenho esportivo dos países é visto como um indicador da saúde e prestígio de uma nação. Na sua visão, quais são os benefícios tangíveis e intangíveis de um evento dessa magnitude numa cidade como o Rio de Janeiro e num país como o Brasil? E quais são as desvantagens?

 

A próxima Olimpíada, no Brasil, será a primeira organizada em um país sul-americano. Desde sempre a organização de uma grande manifestação esportiva foi desejada pelo país organizador para mostrar a potência, a vitalidade e o estado de saúde não apenas do próprio sistema econômico, mas também do moral. As Olimpíadas sempre tiveram um significado não apenas esportivo, mas também político. A realização dos Jogos em Barcelona, em 1992, marcou o fim do franquismo e o início da democracia e da modernização de uma nação como a Espanha. Os Jogos de Pequim, em 2008, representaram o reconhecimento de uma nova potência econômica mundial. Hoje, raramente a força econômica da nação anfitriã está em sintonia com um antigo e romântico conceito de ideal olímpico: em 1996, as Olimpíadas deveriam ter sido na Grécia para celebrar o centenário dos primeiros Jogos Olímpicos modernos. Porém, ficou a cargo de Atlanta, cidade de uma das empresas patrocinadoras dos Jogos Olímpicos desde tempos imemoriais. Outra forma de hipocrisia olímpica: quando, em 1980, os Estados Unidos boicotaram os Jogos de Moscou, essa empresa fez o mesmo, mas somente na aparência: patrocinou a Olimpíada via outra marca de sua propriedade. Porém, atenção: aqueles que afirmam que as Olimpíadas trazem dinheiro e postos de trabalho mostram apenas experiências positivas. A crise que a Grécia está atravessando e que colocou a Comunidade Europeia em risco teve origem exatamente na Olimpíada de 2004. Hoje, com um sentimento sinistro e irônico, os gregos falam das “modernas ruínas gregas” em referência aos equipamentos olímpicos de 2004. O orçamento de 15 bilhões de euros previsto para financiar aquela Olimpíada foi ultrapassado: para cobri-lo, foram contraídas enormes dívidas no plano internacional. Daquele buraco contábil a Grécia nunca se reergueu, e a voracidade da dívida pública levou a nação à beira da falência, arrastando para a lama a população do país. O caso do Brasil é anômalo: a designação para os Jogos Olímpicos, que foram precedidos pela Copa do Mundo de 2014, de que o país também foi sede, remonta a 2009. Ou seja, isso foi decidido quando o país atravessava um momento particularmente feliz do ponto de vista econômico. Hoje o país se encontra em meio a uma profunda crise que não é apenas econômica, mas também moral e política. Acredito que uma manifestação esportiva jamais ajudou uma realidade econômica a decolar, mas eventualmente serviu para confirmar sua vitalidade. Enfim, a organização de uma competição esportiva como a Olimpíada pode se revelar um bumerangue. Obviamente eu espero, para o bem do Brasil, ser desmentido. Mas a eventualidade, a história nos ensina, existe.

 

 

STEFANO PIVATO

É ensaísta e historiador, professor de História Contemporânea na Università degli Studi Carlo Bo, de Urbino (Itália), da qual foi reitor de 2009 a 2014. É autor de mais de 20 livros, entre eles L’era dello sport (A era do esporte, sem tradução no Brasil, Giunti Editore, 1994) e dezenas de ensaios.

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ARTIGO por Arlei Sander Damo

 

A RELAÇÃO ENTRE ESPORTE E NACIONALISMO SE CONSTRÓI A PARTIR DE UMA SÉRIE DE FATORES, MAS ESPECIALMENTE PELA POSSIBILIDADE DE UM FORTALECER O OUTRO

 

Por definição, a Antropologia contemporânea tende a enfatizar a diversidade dos significados em vez de procurar uma essência, seja qual for o tema em questão. Essa premissa é ainda mais importante quando se trata de megaeventos esportivos, dadas a extensão e a pluralidade de agentes envolvidos na sua realização. Qualquer síntese jamais conseguirá abarcar a diversidade de significados, embora seja possível identificar algumas tendências que dão sentido e fazem dos eventos esportivos um tipo peculiar de megaespetáculo.

 

Mas, afinal, o que há de tão interessante com os esportes que mobiliza tantos apreciadores? Duas são as tendências para tentar responder a essa questão. Uma delas, representada pelo filósofo Hans Ulrich Gumbrecht, destaca a efemeridade das performances atléticas. Segundo o pensador alemão, a efemeridade estaria relacionada tanto à beleza e plasticidade dos gestos quanto ao inusitado. Um “gol de bicicleta” seria um exemplo perfeito dessa combinação, pois é raro e acrobático. A quebra de um recorde no atletismo – imaginemos os feitos de Usain Bolt – também se enquadraria nessa perspectiva, dada a expectativa que cerca a prova dos 100 metros rasos. Em qualquer dos casos, e esta seria a aposta de Gumbrecht, o público esportivo atribuiria sentido às performances a partir de outras do mesmo gênero. O público teria, pois, um gosto informado, capaz de diferenciar tanto a performance de um profissional em relação a um amador quanto dos profissionais entre si.

 

Outra linha tende a dar menos importância à beleza e à raridade dos gestos e mais ênfase aos nexos do esporte com o espectro mais amplo da cultura e da sociedade. O antropólogo francês Christian Bromberger poderia ser tomado como um dos representantes dessa perspectiva, pois, na sua interpretação acerca do sucesso do futebol, o destaque recai sobre o engajamento do público, e não sobre as performances em si mesmas. Para Bromberger, ninguém iria a um estádio para ver um gol ou um drible inusitados, embora eles sejam celebrados, mas para dar suporte a um atleta ou equipe em relação aos quais se tem identificação, sendo esta estabelecida de antemão. A abordagem de Bromberger prioriza a compreensão do engajamento do público, da maneira como este se veicula a dada agremiação, projetando-se nela e experenciando as performances dos profissionais como se fossem sua.

 

As duas abordagens não são excludentes, embora aquela sugerida por Gumbrecht seja mais apropriada para analisar o ponto de vista dos experts – profissionais do esporte, sejam eles atletas, treinadores, comentaristas e certas frações do público. Quando se quer compreender megaeventos do porte de uma Copa do Mundo e dos Jogos Olímpicos, não há como dispensar o olhar de Bromberger, uma vez que eles suscitam o interesse de um público mais amplo do que os seguidores habituais desses esportes. Nos Jogos Olímpicos, temos 42 modalidades, e poucos especialistas estariam em condições de falar apropriadamente sobre todas elas. Isso não impede, no entanto, que certas performances possam ser acompanhadas com enorme expectativa, bastando que seja constituída uma identificação entre atleta ou equipe e público.

 

Olhando-se para os espetáculos esportivos e seu público nos dias atuais, pode-se afirmar que nenhum outro mediador é tão importante quanto o nacionalismo, uma modalidade de identificação que, na origem, nada tem a ver com o esporte. Veja-se a Fórmula 1, por exemplo, uma competição totalmente privada, que tem até proprietário. Embora seja uma disputa entre construtores (equipes) e pilotos (indivíduos), nas premiações são executados os hinos nacionais dos vencedores, uma forma sutil, porém eficaz, de agregar valor simbólico às disputas. O sucesso de Ayrton Senna como piloto e como ídolo nacional, no final da década de 1980 e início da seguinte, tornou a Fórmula 1 um assunto recorrente entre os brasileiros, até para pessoas que jamais haviam tido interesse pelo automobilismo e não tornaram a ter depois da morte de Senna. Não há dúvidas quanto à excepcionalidade técnica desse piloto, mas seu sucesso no Brasil não pode ser compreendido sem considerar o fato de ele ser um vencedor carismático que comemorava seus feitos empunhando a bandeira nacional.

 

O mesmo vale para o caso de Daiane dos Santos, cuja expectativa pela medalha de ouro em Atenas, em 2004, mobilizou a assistência brasileira para a prova de solo da ginástica artística, uma modalidade pouco conhecida pelo público em geral. Estariam por acaso os brasileiros interessados na efeméride do “duplo twist esticado”? Quantos espectadores saberiam diferenciá-lo do “duplo twist carpado”, que consagrou a ginasta internacionalmente?

 

NO FUTEBOL, EXISTEM DOIS PRINCIPAIS MODELOS DE PRODUÇÃO DE ENGAJAMENTO: O CLUBISTA E O NACIONALISTA

 

Em que pese a performance extraordinária de Daiane, seria mais crível imaginar que os brasileiros estavam torcendo por ela, identificados com sua trajetória extraordinária – uma menina pobre, negra e “velha” para os padrões da ginástica artística –, pelo seu carisma e mesmo pelo uso do chorinho Brasileirinho em sua apresentação. Em síntese, é frequente que nas competições esportivas de massa a identificação entre atleta e público seja mediada por sentimentos que tangenciam a modalidade em disputa ou a especificidade técnica dos gestos.

 

Parafraseando o historiador inglês Eric Hobsbawm, para quem nenhum outro símbolo nacional pode ser mais verossímil do que um atleta competindo, os saltos de Daiane – Dos Santos I e II, como foram batizados oficialmente – e a direção arrojada de Senna possuíam um significado hiperbólico para os brasileiros, que excedia o reconhecimento usual do público da ginástica artística e do automobilismo, respectivamente.

 

Para entender a lógica de como esses nexos são produzidos e operacionalizados, é interessante confrontar os vínculos nacionalistas com outras formas de construção de identidades no espectro do próprio esporte. No futebol, por exemplo, existem dois principais modelos de produção de engajamento, aos quais correspondem dois grandes circuitos de competições, o clubista e o nacionalista, cada qual com múltiplas segmentações.

 

O circuito clubista é mais amplo e diversificado. Entre as competições mais vistas no mundo, algumas são entre clubes de futebol, casos da Premier League (Campeonato Inglês) e da Champions League (de clubes campeões nacionais europeus), mas não custa lembrar que os primeiros lugares no ranking dos mais valiosos, à frente da Copa do Mundo de Futebol e dos Jogos Olímpicos, encontram-se duas outras ligas de clubes: a de futebol americano e de beisebol, ambas estadunidenses. Seguindo com o futebol, temos outros exemplos de circuitos clubísticos que vão desde a Libertadores da América a competições municipais e, em muitos casos, ligas reunindo equipes de bairros, que nem sequer são profissionais. O que está em questão aqui não é a capacidade desigual de mobilizar torcedores de cada qual desses clubes ou dessas ligas, mas o fato de que, no seu conjunto, essa forma de organização das disputas é capilarizada, muito diferente de uma Copa do Mundo, que é concentrada e elitizada. Os chamados grandes clubes do futebol brasileiro – uma elite de aproximadamente 13 agremiações que detém em torno de 90% da preferência dos torcedores – um dia foram clubes de bairro ou mesmo de quarteirão. Enquanto eles prosperaram, outros tantos sucumbiram por razões muito variadas, cada clube tendo uma história que não se limita às performances esportivas. Alguns são associados a grupos étnicos ou religiosos, quase todos têm vínculos com suas cidades e regiões de origem, e observam-se entre eles rivalidades que exploram tensões de classe social e de raça, ainda que tais clivagens seguidamente sejam mais um marcador simbólico do que sociológico.

 

No caso dos países europeus, cujas distâncias geográficas entre as cidades são relativamente menores do que no Brasil, e cuja malha viária se estruturou muito antes do que em nosso país, surgiram competições nacionais na primeira metade do século XX, tanto para o futebol quanto para outros esportes. No Brasil, um campeonato nacional de futebol só se mostrou viável a partir da década de 1970, quando o transporte aéreo se tornou uma realidade. Tendo em vista as longas distâncias entre as principais metrópoles nacionais e a precariedade dos outros meios de transporte, teria sido impossível para os clubes suportar a logística desses deslocamentos pelo país, sobretudo em termos de tempo e de dinheiro. Isso revela que a história do desenvolvimento do esporte não pode ser circunscrita àquilo que observamos por ocasião dos jogos. Antes o contrário: a possibilidade de realizar competições em níveis cada vez mais abrangentes – nacional, continental e até intercontinental – possibilitou o incremento exponencial do valor simbólico das disputas e a condensação do público em torno de algumas poucas agremiações representativas. Em todo caso, a questão do nacionalismo reaparece: por que quase todas as modalidades esportivas elegeram as fronteiras nacionais como um dos critérios para circunscrever as competições? A resposta parece óbvia: porque o nacionalismo é um dos mais importantes espaços de produção de identidades coletivas na modernidade e passível de ser apropriado.

 

Na verdade, o que ocorreu na relação entre o esporte e o nacionalismo foi uma parceria com vantagens de parte a parte: o nacionalismo propiciando o adensamento dos significados das competições e os esportes dramatizando o sentido de pertencimento coletivo. Para compreender isso, é preciso ter em mente o fato de que muitas das modalidades esportivas, em particular as coletivas, possuem uma estrutura agonística. Trata-se de uma disputa, medida por regras consentidas, em que, partindo-se de uma situação de igualdade, busca-se estabelecer uma diferença. Por causa disso, muitos pensam ser o esporte uma guerra por outras vias, mas não podemos deixar de notar algumas diferenças bastante pronunciadas. A mais óbvia, por certo, é que as guerras possuem consequências reais, enquanto nos esportes elas são miméticas ou, preferindo-se, ficcionais, o que lhes confere um trunfo inegável, como um entretenimento altamente absorvente. É certo que alguns grupos, como os torcedores organizados, seguidamente participam de conflitos que se aproximam das guerras, dado o emprego da violência física, com disputas que envolvem prisões, feridos e até mortes. Mas o que se diz sobre eles é que perderam a noção do que seria o sentido do esporte.

 

 

Se olharmos para a maneira como se organiza boa parte das disputas esportivas, sobretudo nas modalidades coletivas, notaremos como a estrutura da guerra se reproduz, inclusive em relação a certa divisão dos papéis. A relação entre os jogadores de uma equipe e seus torcedores é muito parecida com a relação entre os soldados e a população civil. Não por acaso, dizemos que os jogadores são “convocados” para uma Copa do Mundo; que um goleador é também um “artilheiro” e que um atleta de chute potente tem um “canhão” ou “petardo”, e assim por diante. Antes de afirmarmos de modo peremptório que as guerras são execráveis – é minha posição pessoal ao menos, devemos admitir que elas são objeto de grande fascínio entre diferentes grupos humanos; não por acaso existe a respeito extensa quantidade de ficção, sobretudo no cinema. Se há algo que fascina nas guerras e se o esporte tem tantas proximidades, por que não seria também fascinante?

 

Embora possamos fazer um uso alargado do termo “guerra”, para nos referirmos a uma série vasta de contendas (desde os conflitos entre traficantes até as disputas publicitárias), é no espectro dos enfrentamentos bélicos entre Estados nacionais que a noção se aplica com mais frequência. Estado é uma forma de organização política e econômica que caracteriza o Ocidente no tempo presente. Já nação é uma espécie de equivalente para o termo “povo”. Nas Ciências Sociais seguimos basicamente um conceito de Benedict Anderson, segundo o qual a nação é uma comunidade de sentimento imaginada. Imaginada porque seus membros não se conhecem pessoalmente uns aos outros, embora se reconheçam por códigos, como a língua; costumes, como a culinária; e certos símbolos arbitrários, como o hino e a bandeira. Usa-se o termo “sentimento” para frisar que essa é uma modalidade de coletivo amalgamado por laços mais sólidos do que os de interesse instrumental (como seriam aqueles vigentes no mundo dos negócios), quase tão profundos como os de parentesco (que supomos sejam laços de “sangue”). A bibliografia a respeito é vasta e, num primeiro momento, enfatizou o processo de constituição da ideia de nação, ou seja, de como determinado grupo pode vir a se reivindicar como tal, exigindo um território com autonomia para definir certas regras e cultuar determinadas tradições. Uma das principais contribuições dessa bibliografia foi afirmar que as tradições nacionais e, portanto, as identidades coletivas nacionais são inventadas, o que significa dizer que elas são, em boa medida, manipuladas.

 

O NACIONALISMO É PARA O ESPORTE UMA FONTE QUASE INESGOTÁVEL DE REPRESENTAÇÕES COLETIVAS

 

Mais recentemente, a bibliografia passou a dar mais ênfase aos dissensos, às tensões e aos grupos minoritários, àqueles não contemplados pelas versões hegemônicas. Isso precisa ser dito para posicionar adequadamente o uso que os esportes fazem do nacionalismo. Salvo notáveis exceções, as competições esportivas flertam com símbolos consolidados e não raro com a perspectiva dos grupos dominantes, sejam eles políticos ou econômicos. Não por acaso, é recorrente a presença de chefes de Estado em eventos dessa natureza, e isso vale tanto para o caso do nazismo, como na Olimpíada de Berlim, em 1936, quanto para a sua antítese, a luta contra o apartheid, como na Copa do Mundo de Rúgbi de 1995, na África do Sul. Mas há também exceções, como o protesto de Muhammad Ali, que lançou no rio Ohio a medalha olímpica conquistada em 1960 para denunciar o racismo nos EUA.

 

O nacionalismo é para o esporte uma fonte quase inesgotável de representações coletivas que podem vir a ser apropriadas, incluindo-se suas versões extremadas, a partir das quais o chauvinismo nacionalista resulta em manifestações racistas, xenófobas e sexistas no âmbito esportivo. Para o esporte, aproximações dessa natureza são essenciais, porque possibilitam expandir o sentido de certas práticas que, de outra forma, despertariam pouco interesse como espetáculo. Mas também os nacionalismos se servem dos esportes, pois as competições são uma ocasião única para performatizar publicamente tais sentimentos, laicizando os símbolos nacionais e atualizando laços de pertencimento.

 

 

ARLEI SANDER DAMO

É doutor em Antropologia Social pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e professor adjunto no Departamento de Antropologia da mesma instituição.

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CRÔNICA por Antonio Prata

 

A Olimpíada do Rio de Janeiro é uma excelente oportunidade de unirmos esforços em torno de um objetivo comum, honroso e urgente: pressionar o COI para que dê status de modalidade olímpica ao único esporte 100% brasileiro, o frescobol. Ora, se são esportes olímpicos o lançamento de dardo ou de disco, coisa que ninguém pratica a não ser que esteja caçando um antílope ou atirando os LPs do cônjuge pela janela, durante uma briga de casal, por que o frescobol não seria? Se até o tênis de mesa entra na festa, a cada quatro anos, por qual razão nosso tênis de praia não entraria?

 

Como se sabe, o frescobol (ou raquetinha, para os íntimos) foi inventado nas areias de Ipanema, em alguma manhã da década de 50, pelo escritor, cartunista, dramaturgo e, a partir dali, frescoboleiro Millôr Fernandes. De Ipanema chegou a Copacabana, de Copacabana passou para o Flamengo e do Aterro para o desterro mundo afora foi mais rápido do que a bolinha de borracha rolando em areia dura. Hoje, joga-se frescobol de Tegucigalpa a Honolulu, de Madagascar a Reikjavik, do Benim ao Butão.

 

Algum leitor mal-humorado, do tipo que está sempre tentando ver o copo meio vazio – ou a praia meio cheia –, pode argumentar que a raquetinha não se prestaria aos Jogos por não ser um esporte competitivo: como contar os pontos? Ora, amargo leitor, logo se vê que você não sabe nada sobre o frescobol – e, eu me arriscaria a afirmar, sobre a vida. Pois é justamente aí que está a beleza do frescobol. Ele é o único esporte – além do sexo, claro – em que se visa não a vitória sobre o oponente, mas o empate com o/a parceiro/a. O frescobol é, como diria outro frequentador das supracitadas areias cariocas, “a arte do encontro, embora haja tanto desencontro”. Ele está menos próximo do tênis, do basquete ou do taekwondo do que do nado sincronizado, da ginástica artística ou do salto ornamental.

 

Minha ideia é que, transformado em modalidade olímpica, ele fosse jogado diante de juízes e analisado enquanto performance: finda a partida, o júri levantaria suas notas naqueles famigerados quadradinhos brancos, avaliando diversos quesitos. Número de bolas trocadas. Harmonia da dupla. Elegância das raquetadas. Gemidos. (Assim como no tênis e nas artes marciais, geme-se muito no frescobol.) Criatividade. (Sempre tem aquela bolinha rebatida entre as pernas, aquela rodopiada marota, aquele salto duplo twist carpado pra pegar uma bola enviesada.) A dupla cuja média fosse mais alta, naturalmente, sairia vencedora. Mais do que a dupla, porém, seriam vencedores o Brasil, os Jogos Olímpicos e a humanidade como um todo, pois não me parece exagerado dizer que o frescobol é o mais democrático dos esportes, um esporte que pode ser praticado por crianças e velhotes, por altos e baixos, por gordos e magros, calvos e cabeludos, pode ser jogado até com um picolé ou uma latinha de cerveja na outra mão – embora esta última possibilidade dificilmente fosse aceita pelo COI. Melhor nos restringirmos ao picolé.

 

Íadas, íadas, íadas! Frescobol nas Olimpíadas!

 

 

ANTONIO PRATA

É escritor e roteirista. Autor dos livros Meio intelectual, meio de esquerda (Editora 34) e Nu, de botas(Companhia das Letras), entre outros. É colunista da Folha de S.Paulo.

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Cair e levantar. Perseverar. Manter o foco. Transformar obstáculo em objetivo a ser batido. O esporte é também metáfora da vida que merece ser vivida. E por isso carrega tantas referências que inspiram e motivam, reproduzindo o mito do herói na contemporaneidade.


No limite do humano – com Katia Rubio

Ponto a ponto – com Giba

Quando o mundo é mais mundo – com João Pedro Paes Leme, Marcos Uchôa e Renato Ribeiro

À prova de obstáculos – com Terezinha Guilhermina

Mudança de perspectiva – por Rodrigo Hübner Mendes

Espaços de provocações – por Gustavo Andrada Bandeira

A vida em movimento – por Zélia Duncan

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ENTREVISTA com Katia Rubio

 

A INCESSANTE BUSCA DA SUPERAÇÃO FAZ COM QUE O ESPORTE ATRAIA A ATENÇÃO DE PESSOAS DE TODO O MUNDO, NUMA ATIVIDADE EM QUE A AÇÃO HUMANA SE DESDOBRA NO CAMPO DO SIMBÓLICO

 

por Paulo Jebaili

 

O desejo de expandir os limites do humano pode estar na origem do fascínio que o esporte provoca nas pessoas ao redor do mundo. A busca incansável pelo melhor serve de inspiração para as ações humanas, especialmente numa atividade em que um simples gesto pode separar a glória do fracasso. Essa relação entre o concreto e o imaginário, o individual e o coletivo foi o ponto de partida da entrevista com a psicóloga Katia Rubio, realizada na Escola de Educação Física e Esporte da Universidade de São Paulo. Membro da Academia Olímpica Brasileira, órgão do Comitê Olímpico Brasileiro, destinado ao estudo do olimpismo, a professora abordou também questões que envolvem o esporte atual, como midiatização e as negociações em torno da figura do atleta.

 

Por que o esporte encanta tanto as pessoas?

 

Porque é uma atividade de limite e, embora seja absolutamente concreta – do ponto de vista de medir a performance humana em segundos, metros, centímetros, milímetros –, ela também trafega no campo do imaginário. Ela trabalha com elementos arquetipais que associam o ser humano a um mito comum a todas as culturas, que é o mito do herói. Esse atleta que busca superar as marcas, os limites, cotidianamente, ele é mais do que humano. Ele vive para isso. Embora eu, você, outras pessoas não consigamos essas marcas, espelhamos aquilo que existe como possibilidade. E essa possibilidade nos mobiliza diariamente a ser melhor naquilo que nós fazemos, cada um na sua área.

 

Por esse aspecto, a realização dos Jogos Olímpicos no Rio de Janeiro tende a deixar um legado simbólico para o país?

 

Deveria. Mas não sei se a gente consegue isso diante de tanta dificuldade por que o país passa neste momento e que tem, infelizmente, apagado aquilo que os Jogos poderiam deixar, que é justamente esse campo simbólico. Pouco se fala dos Jogos Olímpicos, pouco se vê do público médio associado a isso. Mas seria muito bom que isso tivesse sido trabalhado ao longo dos últimos anos para que fosse coroado agora com os Jogos Olímpicos. Mas, infelizmente, acho que eles vão deixar muito menos do que a gente gostaria.

 

Em edições anteriores, a Olimpíada cumpriu esse papel?

 

Depende de como foi conduzido esse processo. Barcelona, por exemplo, é um caso de vínculo com os Jogos de 1992 que permanece vivo até hoje. Mas, para que isso acontecesse, houve todo um envolvimento da população com essa questão muito antes da realização dos Jogos. Infelizmente, nós temos vários casos na história dos Jogos Olímpicos em que nada aconteceu depois: Seul [1988], Sydney [2000], Atenas [2004], só para falar dos mais recentes. Passaram, foi só mais uma competição. Mas as cidades não ficaram com aquilo que se esperava que ficassem depois que tudo aconteceu.

 

No caso da Paralimpíada, a promoção dos Jogos teria o potencial de deixar a sociedade mais atenta e sensível para adotar uma atitude mais inclusiva?

 

Eu acho que é esperar demais dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos. Os Jogos são também a síntese do que é a sociedade. Então, se você tem uma sociedade que discrimina, que desrespeita, que invisibiliza esse cidadão, esse atleta, não dá para esperar que em 17 dias isso se reverta. É muito pouco. Eu entendo que os Jogos Olímpicos e Paralímpicos podem ser a apoteose de uma política pública bem-feita, de uma realização inclusiva. Isso, sim. Mas não o inverso. Os Jogos Olímpicos e Paralímpicos ocorrem de quatro em quatro anos. Naqueles dias do evento, é possível que haja uma grande audiência, mas, se outras ações não forem realizadas ao longo do processo, os Jogos não promovem milagres, eles refletem aquilo que é a sociedade.

 

Como se dá a relação entre desempenho esportivo e autoestima do povo? Por exemplo, quando o Brasil perdeu a Copa do Mundo de 1950, veio à tona o “complexo de vira-latas”. Quando venceu em 1958, a música falava que “com brasileiro não há quem possa”. Em 1982, “a gente joga bola e não consegue ganhar, a gente somos inútil”. A propósito, essa seria uma característica nossa?

 

O esporte é um palco onde se desenrolam as dramatizações sociais daquele momento histórico. O esporte nada mais era do que uma competição, até que se começou a fazer do esporte algo mais do que simplesmente uma competição. O auge disso foi, por exemplo, nos Jogos Olímpicos de 1936 [em Berlim], quando o nazismo fez uso dos Jogos Olímpicos para demonstrar a superioridade ariana, ou, durante a Guerra Fria, quando Estados Unidos e União Soviética tentavam mostrar para o mundo quem era melhor. Em diferentes momentos históricos, isso é usado dessa forma. Então, o complexo de vira-latas só acontece depois da derrota, isso não foi pensado antes. É fácil fazer análises depois que o fato já ocorreu. Eu quero ver alguém ter a capacidade de antecipar alguns desses fatos para depois se comprovar. O brasileiro é um povo que gosta de festa, que tem prazer em desfrutar a vida, e, em relação ao esporte, isso casa muito bem. E ninguém gosta de perder. A derrota é a sombra da sociedade contemporânea. Nessa condição, brasileiro, americano, alemão, seja lá quem for, ninguém entra numa competição com a disposição ou com a perspectiva da derrota. A derrota acontece, ela dói, fere, magoa, baixa a autoestima. Basta ver o Messi imediatamente após o final dessa última Copa América [o jogador argentino perdeu a cobrança na disputa de pênaltis e o título foi para o Chile; depois do jogo, anunciou a intenção de não atuar mais pela seleção argentina]. Então, isso não é só do brasileiro, é de todo mundo que perde.

 

A DERROTA É A SOMBRA DA SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA. NINGUÉM GOSTA DE PERDER

 

Há casos de atletas que pediram desculpas para a torcida, para o povo. E estavam fazendo o trabalho deles...

 

Eles não têm de pedir desculpas de nada.

 

Mas é que de certo modo atribui-se um papel ao atleta como se ele tivesse de redimir o país das mazelas ou afirmar suas potencialidades, não é?

 

A midiatização do atleta e da sua performance é que leva a esse tipo de situação. Porque, quando você não tinha essa multiplicidade de meios para divulgar o que o atleta fazia, ele saía de campo comemorando ou lamentando o seu resultado. Hoje, diante de todas as negociações que se faz com a figura do atleta, ele se tornou um objeto, uma mercadoria valiosa, e pede desculpas para não perder o patrocinador. Ele não está pedindo desculpas para o povo, está pedindo desculpas para todas as empresas que patrocinam a sua carreira e que depois desse resultado podem ou não se manter vinculadas a ele. Então, pedir desculpas ao povo brasileiro, na verdade, é uma extensão da desculpa que ele deve a seus empregadores. Desde que o esporte se tornou profissionalizado e o atleta se tornou esse trabalhador do espetáculo esportivo, o espetáculo depende dele. E ele pode ser trocado ou não no meio do processo.

 

Mas ele não carrega essa carga de estar representando o país? E isso não pesa?

 

Isso acontecia mais no amadorismo do que no profissionalismo. O atleta hoje é um profissional do mundo, como qualquer profissional de qualquer profissão. Se você, na sua condição de jornalista, for chamado pela BBC para trabalhar em Londres, ganhando três vezes o que ganha aqui, você irá. Com o atleta é a mesma coisa. Isso leva inclusive a processos de naturalização onde o mercado de trabalho é mais favorável a ele. Há muito romantismo ou um discurso construído para cobrar do atleta um nacionalismo que deixou de existir há muito tempo no esporte.

 

O fato de os Jogos serem aqui não aumentaria a pressão sobre os atletas brasileiros?

 

Talvez isso possa acontecer para aqueles atletas que de alguma forma mantêm um vínculo emocional com o que fazem, mas hoje em dia os psicólogos trabalham intensamente esses aspectos emocionais dos atletas justamente para que eles não entrem em quadra no momento da competição. Eles competem ali pelo resultado, que não é do país. Esse resultado é do atleta. Essa individualização daquilo que o atleta faz é fundamental inclusive para ele ter um bom resultado. Houve épocas nos Jogos Olímpicos em que a performance de um atleta garantia o seu futuro: casa para morar, benefícios para a família. Então, não era nacionalismo, era uma necessidade concreta, real, material. Isso mobiliza, às vezes mobiliza mais do que cantar o hino com a mão no peito.

 

Katia Rubio comenta o processo de encerramento da carreira de um atleta

 

 

A figura do psicólogo está cada vez mais disseminada nas modalidades esportivas. Quais as principais funções da psicologia aplicada ao esporte?

 

É preparar o atleta para enfrentar a vida de treinamentos e competições. Entender quem é essa pessoa, que escolha foi essa, os objetivos que se tem e o repertório cognitivo e emocional para lidar com esse feito. E há então todo um projeto de atendimento desenvolvido para que esse atleta possa se mover nesse campo, que é dinâmico, complexo e sobre o qual nem sempre o atleta tem controle. Ele precisa lidar tanto com aquilo que é possível quanto com aquilo que é imediato, se apresenta como novidade e que é preciso resolver de imediato.

 

Há uma aproximação desse trabalho com os treinadores? É possível notar, por exemplo, que nos pedidos de tempo nas partidas de vôlei treinadores ora procuram acalmar, confortar, ora são mais incisivos para dar uma chacoalhada no time.

 

Os bons técnicos hoje não só estudam psicologia como trabalham com psicólogos especialistas nessa matéria. Porque o psicólogo hoje faz parte da comissão técnica. Não é um sujeito que vem de fora, com uma varinha de condão, um dia antes de um jogo decisivo ou de uma competição decisiva fazer uma palestra para fazer o sujeito render. O trabalho de psicologia demanda longo prazo tanto quanto demanda, por exemplo, a preparação física. Nenhum preparador físico põe um atleta em condições de fazer uma maratona, por exemplo, na véspera. Esse é um trabalho de longo prazo. E a psicologia também.

 

Até para conhecer o perfil de cada atleta e saber como reage aos estímulos, não é?

 

Esse conhecimento demanda tempo. Não é a aplicação de um questionário que faz você saber quem é quem. É a dinâmica desse cotidiano de treino e competição que vai dar elementos tanto para o técnico quanto para o psicólogo saber com quem ele lida.

 

 

KATIA RUBIO

É professora da Escola de Educação Física e Esporte da Universidade de São Paulo (USP). Graduada em Jornalismo e Psicologia, tem mestrado em Educação Física, doutorado em Educação e pós-doutorado em Psicologia Social. É autora de 22 livros sobre psicologia do esporte e estudos olímpicos.

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INSPIRAÇÃO, Giba

 

DETENTOR DE TRÊS MEDALHAS OLÍMPICAS NO VÔLEI, GIBA CONTA COMO O ATRIBUTO DA SUPERAÇÃO FOI FUNDAMENTAL EM SUA TRAJETÓRIA

 

por Gisele Gomes

 

Foram 26 títulos em 20 anos jogando pela seleção brasileira de vôlei. Entre as conquistas, três medalhas olímpicas (ouro em 2004 e prata em 2008 e 2012) e oito títulos da Liga Mundial, além de ter sido eleito o melhor jogador em seis competições internacionais. Não há dúvida de que a carreira do paranaense Gilberto Amauri de Godoy Filho, mundialmente conhecido como Giba, foi extremamente vitoriosa. Mas, para chegar a esse patamar, ele precisou superar vários obstáculos – e não apenas os montados pelos bloqueios adversários do outro lado da rede. Giba teve de enfrentar uma leucemia ainda bebê; aos 11 anos, uma queda de uma árvore lhe custou 150 pontos justamente no braço. Pelo lado emocional, ainda suplantou a falta de apoio da família no início e uma reprovação na primeira peneira de que participou.

 

Giba encerrou a carreira de atleta em 2014, aos 37 anos, e iniciou a de comentarista na Olimpíada de 2016. Também está prestes a inaugurar o Núcleo do Gibinha, projeto social voltado para incentivar a prática esportiva e a reeducação alimentar para combater a obesidade infantil. Na entrevista exclusiva concedida ao Caderno, ele conta como encarou os momentos mais difíceis dentro e fora das quadras.

 

Você teve leucemia com 4 meses de vida. Apesar de muito pequeno, como essa história lhe foi passada e como marcou a sua vida? Esse episódio serviu de motivação em algum momento da sua carreira como atleta?

 

Marcou bastante a minha infância. Até os 7 anos, havia exames a serem feitos, pois foi uma leucemia rara, que ninguém sabe como foi curada. No início, minha mãe achava que era insuficiência de ferro. Um dia, minha tia entrou no quarto, começou a rezar e pediu para Deus ou que acalmasse a família ou que acalentasse, porque poderia não ter volta. Ela falou que viu minhas veias de brancas ficarem vermelhas. No outro dia, eles fizeram um exame e eu não tinha mais nada. Enfim, foi um milagre. Continuamos o tratamento – eu tinha 7 meses mais ou menos –, foram três, quatro meses de perrengue com a família e minha mãe ainda não sabia da doença. Na época, o médico falou: “Ele só vai andar e falar com uns 4 anos”. Eu não tinha nem feito quimioterapia, rádio, nem nada, o tratamento foi só à base de medicação mesmo. E fiquei curado. Com cerca de 1 ano e 2 meses, fui fazer um exame e comecei a andar na sala do médico. Foi quando ele falou: “Não acredito que aquele menino com leucemia já está andando”. E minha mãe desmaiou. Isso foi o começo de tudo. Depois dos 7 anos, não tive mais nada. Acho que a superação disso me mostra que não tem como desistir, se desde pequeno eu já tive que brigar pela vida. Por isso, hoje eu ajudo bastante. Já ajudei muitas instituições e estou inaugurando em Araucária, região metropolitana de Curitiba, o primeiro Núcleo do Gibinha, um projeto social contra a obesidade infantil, por meio do esporte e da reeducação alimentar.

 

Aos 11 anos, outro percalço: um acidente que lhe rendeu 150 pontos no braço. Você estava começando no vôlei e, diferentemente da leucemia quando bebê, já tinha memória do fato. De que forma esse acidente afetou você?

 

Caí da árvore, o galho quebrou, e rasguei o braço. Foi o ano em que eu comecei a jogar, mas não afetou nada. Só que eu tive que ficar um ano parado, foi mais uma superação pela qual passei. E essas duas coisas [a leucemia e o acidente], principalmente, me levaram a um ponto, que foi em 1993. Eu estava muito bem no Paraná [no Canadá Country Club, de Londrina], era um dos principais jogadores, mas queria crescer. Fui para o Esporte Clube Banespa, no qual jogavam Tande, Giovane, Maurício, Marcelo Negrão, Montanaro – enfim, era a elite do voleibol brasileiro. Fiz uma peneira e não passei. Ali comecei, na verdade, a recordar as dificuldades que tinha passado na infância. E pensei: “Não posso desistir”. É uma coisa que eu gosto, que eu amo fazer. E pensei: “Vou treinar igual a um maluco, na areia”. Na época, não passei por causa da altura. O técnico disse que não tinha como, pois eu tinha 1,88 m de altura – e o mínimo era 1,90 m. Hoje eu tenho 1,93 m. Eu sabia que era um jogador bom, mas se não fosse para ser “o jogador”, chegar à seleção brasileira adulta, eu ia pegar esse meu talento para estudar nos Estados Unidos com bolsa. Eu tinha separado três universidades: Utah, Boston e uma universidade no Havaí. Já estava quase indo para lá. Mas fui indicado para a seleção infantojuvenil, por causa do Campeonato Brasileiro, em que o Paraná ficou em segundo lugar. Eu fui e duvidaram de mim. Em setembro do mesmo ano, em Istambul [Mundial Infantojuvenil da Turquia], fomos campeões mundiais e, na época, fui o melhor jogador e o melhor atacante. Daí em diante as coisas foram acontecendo muito rápido. Eu disputei a primeira Superliga [Campeonato Brasileiro, o principal torneio nacional], fui o jogador mais novo, pelo Curitibano. A questão é que, por volta de 1993, 1994, eu estava um pouco na dúvida entre praia e quadra. No tempo livre, eu jogava praia. Até que um dia o técnico falou: “Se você for jogar de novo na praia, eu te mando embora”. Logo depois, joguei na praia e ele me mandou embora mesmo. Fiquei aquele período inteiro jogando na praia até que o técnico da seleção juvenil me disse: “Se você não arrumar um clube, eu não te convoco para a seleção”. Naquela semana mesmo, me ligou o Dema [o técnico Valdemar Umbelino da Silva, da equipe Cocamar], de Maringá, para me contratar. Foi quando eu optei realmente pela quadra. Nesse momento, minha carreira deslanchou.

 

Quando você começou a enveredar mais firmemente pelo vôlei, como foi o apoio da família?

 

Minha família não me apoiou de jeito nenhum, minha mãe não queria que eu jogasse. Na época, o que dava dinheiro era o futebol. O voleibol, não. Minha mãe dizia que eu tinha que estudar e trabalhar. Em Londrina mesmo, ela me colocou para fazer um curso de auxiliar de escritório e de datilografia. Eu ia para a escola de bicicleta – pegava carona no caminhão de soja para chegar ao colégio. Eu ia de calção por baixo da calça jeans e fazia o seguinte: segunda, quarta e sexta, eu fazia o curso de datilografia e, terça e quinta, o de auxiliar de escritório. Todos os dias eu treinava e estava fazendo os cursos. Bobo eu, né? Porque minha mãe dava aula no mesmo lugar em que eu fazia o curso. Por outro lado, ela também fazia vista grossa. E assim as coisas foram acontecendo.

 

Tentar fazer sempre algo a mais foi uma busca contínua na minha vida

 

Como atleta em formação, houve algum fundamento com o qual você tinha mais dificuldade e teve de superar?

 

Não. Eu sempre pensei em fazer tudo bem feito, todos os fundamentos. Meu primeiro técnico falava o seguinte para mim: “Baixinho tem que saber passar e defender muito bem”. No começo, eu me aperfeiçoei muito nisso, e todas as outras coisas – bloqueio, ataque, saque, levantamento – vieram com o tempo. Tentar fazer sempre algo a mais foi uma busca contínua na minha vida. Não deixar de se superar a cada dia.

 

Quando você se firmou na seleção e se tornou um dos protagonistas, passou a ser requisitado para publicidade, pela mídia em geral. Como manter o foco?

 

O Brasil tem uma coisa muito ruim que impõe que o atleta seja só atleta, ponto e basta. Hoje eu estou fazendo MBA em Marketing Esportivo na Universidade Federal do Rio de Janeiro e o que vejo é que o atleta não é só um atleta. A gente tem que seguir o modelo que funciona, que é o norte-americano. O atleta é um produto. Ele tem que saber falar para a câmera sem perder a concentração. Mas hoje a mentalidade brasileira imposta para os atletas diz o seguinte: “Você tem que treinar, não pode perder horas de sono, não pode dar entrevista, não pode gravar propaganda”. Isso não existe, nós vivemos disso. Hoje eu vivo do que eu construí durante 20 anos na seleção. Vivo da minha imagem, de como eu falo, de como eu me apresento, onde eu me apresento. Para manter o foco, a primeira coisa é nunca se esquecer de onde você veio, das suas origens. Quando começar a querer ir além, tem que falar: “Calma, pé no chão, lembra de quando você não tinha dinheiro pra pegar ônibus?”. E tem deslumbre no começo, sim, não tem como. Imagine você com 17, 18 anos de idade, ganhando R$ 10 mil por mês. Mas eu sempre tive um bom foco, porque desde o começo ajudei muito minha mãe, minha irmã, tinha contas a pagar e responsabilidades desde pequeno.

 

Na Itália, você foi pego no antidoping pelo uso de maconha. O que passou pela sua cabeça no momento em que o resultado do exame veio à tona?

 

Todos falam que foi o momento mais difícil da minha vida. Eu digo que foi o melhor momento da minha vida. Não pelo fato em si, mas por como tudo aconteceu. Dali pra frente, eu fui seis vezes o melhor jogador do mundo. Errar é humano, persistir no erro é burrice, sábio é aquele que aprende com o erro dos outros. Aprendi bastante e passei a levar isso comigo. Ou eu me enfiava num buraco ou eu me superava. A primeira coisa é levantar a mão e admitir: “Errei, desculpa, não vou errar mais”. Não adianta ficar se enrolando, falando qualquer tipo de coisa.

 

Depois de chegar ao topo, campeão olímpico, com a prateleira cheia de títulos e prêmios individuais, como conseguir se manter motivado e focado? Quais os maiores fatores de risco para o jogador de ponta se acomodar?

 

O Bernardo [Rezende, o Bernardinho, técnico da seleção brasileira] teve uma influência muito grande nesse sentido. Ele falava muito sobre essa zona de conforto, é algo muito normal entre atletas, que ganham, chegam ao topo e falam “eu sou”. Nessa hora, caem. Pelo fato de ele incutir isso na gente, nós buscávamos não só melhorar, mas procurávamos a excelência. O bom não estava bom. Ele tinha que ser ótimo, perfeito. Com isso, a gente escreveu a história da nossa seleção campeã. Tinha também o modo como a gente jogava, a garra, o fato de a gente mostrar emoção, paixão, orgulho de representar o país. Nessa fase, por exemplo, o Bernardo passava o exercício e não abria a boca. Nós nos cobrávamos tanto que ele não precisava falar nada. Ele marcava duas horas de treino, às vezes dava uma hora e quinze e falava: “Gente, não tem mais o que fazer”.

 

E o que passava na sua cabeça quando estava jogando uma final?

 

A final olímpica [de 2004] foi quando mais estávamos tensos, porque era a primeira que estávamos disputando em Olimpíadas, um sonho de qualquer atleta. Estávamos na decisão contra a Itália – que naquele ciclo olímpico estava sendo o maior adversário. Mas, quando se chega a uma final, você só quer ganhar. Passa a lembrança do quanto você ralou, o quanto treinou, o quanto ficou fora de casa, quanta dor sentiu, o que sacrificou para chegar àquele momento. Acho que, tanto num momento difícil quanto num momento fácil, a superação, principalmente num esporte coletivo, é muito grande e você precisa muito do parceiro que está do seu lado.

 

E o vôlei é um esporte que envolve o individual e o coletivo.

 

O vôlei é o único esporte que é completamente individual e totalmente coletivo. Se eu erro um saque, estou errando individualmente, mas um time inteiro está pagando. E eu não tenho como pegar a bola e pedir para sacar de novo, como no futebol, no basquete, em que a gente corre atrás da bola para roubar e fazer de novo. No vôlei não, a bola já foi. Tem que ter essa consciência de que você tem que fazer muito bem num nível individual para o bem do coletivo.

 

Como foi o seu processo de aposentadoria das quadras?

 

Um atleta precisa saber a hora dele. Não adianta prorrogar uma coisa que você não vai conseguir. O Giba de 2004, de 2008, de 2012 não seria o Giba de 2016. Fisicamente, a idade pesa, não adianta falar que não. Você já não é mais aquele atleta que era. O corpo às vezes não corresponde, eu já tinha uma cirurgia na tíbia que foi consequência disso. Eu tive uma fratura por estresse de tanto saltar. É muito impacto, eu cheguei a saltar 1,10 m, 1,15 m. Chega uma hora que o corpo fala: “Ei, se você não parar, eu vou parar com você”. Imagine, 95 kg caindo o tempo inteiro? Duro é o atleta que para frustrado ou por lesão ou porque alguém parou com ele – veio outro mais novo e conseguiu fazer o que ele mesmo havia feito antes –, e a pessoa não consegue entender isso.

 

Giba fala sobre a nova profissão ao encerrar a carreira de jogador de vôlei

 

 

O que você considera mais difícil para um atleta de alto rendimento?

 

A pior coisa para um atleta é ficar parado por lesão. Porque é difícil, você quer fazer e teu corpo não te responde. Você sabe que consegue e a dor não te deixa fazer. Eu tive uma tendinite crônica no joelho antes da Olimpíada e consegui me curar a tempo. Mas para o atleta a dor é a pior coisa. E o segundo ponto: acho que depois que você tem filho tudo muda.

 

O que o esporte deu de mais significativo para você em termos de experiência de vida, de convivência com outras culturas e de valores como ser humano?

 

Conhecimento. A gente nasce e morre aprendendo. A primeira vez em que eu fui jantar com o time na Itália, já entendia italiano, eles ficaram 15 minutos falando sobre o treino, o jogo, o campeonato. E os demais 45 minutos falaram sobre Van Gogh, Napoleão, a Segunda Guerra Mundial. Eu pensei: “Gente, fugi da escola”. Tive que aprender aquilo ali para poder continuar conversando. Isso tudo me trouxe um conhecimento muito grande. Eu falo muito isto para os meus fi lhos: “Aproveitem esse legado que vocês tiveram, de morar na Itália, na Rússia, o fato de a mãe de vocês ser estrangeira [a ex-jogadora de vôlei Cristina Pirv, romena], de a gente viajar bastante, todas as línguas que vocês têm a possibilidade de conhecer”. O esporte me trouxe todo esse conhecimento, além dos valores de viver em sociedade, ajudar o próximo. Isso se reporta à humanidade: se você ajudar o próximo e não viver de forma egoísta, estará pulverizando o bem e fazendo que tudo à sua volta seja melhor.

 

 

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ENTREVISTA com jornalistas

 

PROFISSIONAIS RELATAM EXPERIÊNCIAS NA COBERTURA DE GRANDES EVENTOS ESPORTIVOS E CONSIDERAM AS OLIMPÍADAS UM MOMENTO ÚNICO DE UNIÃO DOS POVOS

 

por Gisele Gomes e Ana Paula Brasil

 

João Pedro Paes Leme

 

Em 23 anos de coberturas esportivas, o diretor executivo de Esportes na Globo trabalhou em oito Olimpíadas, seis de verão e duas de inverno. Para ele, os Jogos mantêm o espírito de congraçamento entre os povos que marcaram sua origem. Além disso, têm a capacidade de atrair as pessoas diante da expectativa de presenciar uma façanha humana, que não necessariamente resulte em medalha ou em quebra de recorde. Hoje atrás das câmeras, Paes Leme conta que sua função atual exige um olhar diferente de quando acompanhava as competições de perto, como repórter. Mas que as duas perspectivas têm em comum a emoção que o esporte desperta.

 

 

Os Jogos Olímpicos modernos nasceram com o espírito de congraçamento entre povos. Ainda se vê isso nas Olimpíadas?

 

Os Jogos Olímpicos começaram, na Antiguidade, com um simbolismo muito forte: eles interrompiam as guerras helênicas. E isso acabou inspirando os Jogos Olímpicos da atualidade. Na Grécia antiga, os Jogos não eram só esportivos, eram também desafios musicais, de oratória, eram jogos culturais. Depois, ficaram atrelados ao esporte, que foi o que sobreviveu. Isso era no século XI a.C., época de muitas conquistas, disputas. Mas também era uma época de nascimento da inteligência, digamos assim. Os gregos estavam no auge da filosofia, começando alguns textos também poéticos. Isso, trazido para 1896, quando o barão de Coubertin começou a recuperar esse espírito, fez com que a imagem da Olimpíada moderna trouxesse alguns daqueles elementos. E acho que isso nunca se perdeu, na verdade. Acho que até hoje, nesse ciclo olímpico que se chama Olimpíada exatamente por isso – é um ciclo de quatro anos, assim como uma década são dez anos –, é o tempo suficiente, do ponto de vista ideal, utópico, para criar um ciclo de reflexão sobre o que aquilo que passou, simbolizou. E quatro anos depois repetir aquele congraçamento. Acho que a gente vive um mundo hoje tão louco, com atentados por todo lado, com todos os tipos de violência, que a Olimpíada tenta trazer talvez um humor diferente, uma coisa que seja própria dela, para despertar esse congraçamento nas pessoas. Tanto que o lema do Comitê Olímpico Internacional é “Celebrate humanity”, que é celebrar a humanidade.

 

Eu lembro do caso de um nadador da Guiné Equatorial, na Olimpíada de Sydney, 2000. Um atleta que veio nadando de uma maneira quase cômica, mas que, no final, as pessoas não riam do que ele estava fazendo. Viram que ele estava fazendo o máximo esforço que podia. Depois se soube da história: chamava-se Eric Moussambani e tinha treinado na única piscina que existia na cidade dele, dentro de um hotel. E ele treinou, treinou porque queria ir como único representante do seu país na Olimpíada. É claro que ele não era o Michael Phelps e nem ia chegar perto de medalha – tanto que o tempo que ele tinha para entrar nas eliminatórias era tão distante do último colocado, do penúltimo colocado, que ele teve que nadar sozinho. Mas as pessoas o aplaudiram de pé. Aquele foi um momento em que o esporte falou sem palavras.

 

Sem nenhuma palavra você consegue comunicar mil mensagens, porque diante daquele negro da Guiné Equatorial, com o esforço todo que tinha sido feito, havia judeus, muçulmanos, católicos, protestantes aplaudindo uma façanha humana. E essa é a dimensão olímpica que me encanta.

 

Jornalista relembra casos de integração entre culturas nas Olimpíadas

 

 

Participar de uma Olimpíada é um dos pontos altos da carreira de um atleta. Todos estão lá para testar seus limites. Que casos refletem para você esse ideal de superação?

 

Eu olho para a Olimpíada com o olhar da Gabrielle Andersen, aquela suíça que chegou aos trancos e barrancos na Olimpíada de 1984. Para mim, aquilo ali também é o espírito do que deve ser a superação humana. Ela sabia que não ia conquistar uma medalha e foi até o fim, preferiu chegar em último – ela foi uma das últimas – e continuar. Ela acabou inspirando muitas pessoas. Em 1992, eu vi um caso parecido e tenho certeza que aquele atleta se inspirou nela. Era um caso de superação de um atleta [Derek Redmond] que estava indo para a final com muitas chances. Ele corria os 400 metros. De repente, como um carro que quebra, você sente que o músculo da coxa dele rompeu. Ele caiu sofrendo de dor, se debatendo, e os médicos já iam entrar – ele seria desclassificado se recebesse assistência médica. Ele levantou a mão, levantou o corpo e saiu mancando. Os outros já tinham chegado. O mais emocionante é que um senhor invadiu a pista. E as pessoas ficaram sem saber o que fazer, podia ser um atentado. Mas era o pai dele, que pegou o filho pelo braço e foi abraçado até o fim. Ele foi balançando a cabeça e dava para ver, na leitura labial, o pai falando: “Eu vim com você até aqui e eu vou até o fim”. É de arrepiar. A mensagem de um superatleta que mostra sua dimensão humana. Seria o fracasso, mas a família estava ali como suporte.

 

João Pedro Paes Leme comenta casos de superação nas Olimpíadas

 

 

Tem um outro caso também, na Olimpíada de 1988, de um velejador canadense [Lawrence Lemieux]. Era praticamente certa a medalha de ouro dele, mas a regata estava muito turbulenta, com vento. Quando ele fez a curva para a última boia, para ir em direção à reta de chegada, viu que um velejador tinha capotado e estava se afogando. Ele voltou, perdeu a medalha, resgatou a pessoa, botou dentro do barco e foi aplaudido de pé. Perdeu a medalha de ouro, mas naquele dia deram pela primeira vez a Medalha Pierre de Coubertin a um atleta em vida, que condecora esse tipo de atitude. Quem ganhou depois foi o Vanderlei Cordeiro de Lima, nosso brasileiro que foi atacado por aquele padre em Atenas (2004). São histórias muito simbólicas de fazer o que é certo, ter uma atitude ética. O fato de o velejador se importar com a vida do sujeito antes de se importar com a medalha é um pouco a dimensão do que se tem de um grande atleta, de um grande herói, aquilo que se espera da atitude de um grande herói olímpico. Seria a atitude humanamente correta, aquela que seria esportivamente esperada.

 

Quando alguém se encanta pela história de uma pessoa, se encanta pelo esporte

 

O que difere a cobertura de uma Olimpíada de uma de futebol ou Fórmula 1, por exemplo?

 

Você tem mais países na Olimpíada do que na Organização das Nações Unidas (ONU). Então, de certa forma, não é um acaso, é uma prova, talvez, de que a linguagem que o esporte propõe tem muito mais do que apenas o esporte, tem também a linguagem do respeito, da ética, de algum elemento de relacionamento humano que a gente vê se perder no dia a dia. O que eu acho que há é um certo desencanto com a humanidade e a Olimpíada, de certa forma, traz uma esperança de que haja – e isso pode ser totalmente utópico – um jeito de celebrar a humanidade de uma forma mais divertida, lúdica e respeitosa. Talvez não exista em outro esporte ou competição. Talvez exista em um esporte isoladamente, como vemos o respeito no judô, atitudes bonitas no tênis, mas, quando juntamos todos esses esportes numa supercompetição – até alguns que são mais agressivos –, vemos que eles acabam assumindo um comportamento que é olímpico, e isso talvez explique e seja explicado por aquela raiz olímpica ancestral de 700 anos antes de Cristo.

 

Quais os desafios da cobertura jornalística de uma Olimpíada, sobretudo no caso do brasileiro, que está familiarizado com alguns esportes e não com todos?

 

Como o futebol é autoexplicativo para o público brasileiro porque ele nasce vendo aquilo, dificilmente esse público terá visto algum outro esporte tanto quanto. Então, não é necessário no futebol o excesso de informação ou de explicação. A emoção já convive com essa compreensão que o cara tem desde pequenininho. A grande questão desses outros esportes é mostrar que eles são tão ou mais desafiadores que o futebol e que, ao mesmo tempo, para entender como o sujeito é desafiado ou vai ao limite da sua força ou talento, você precisa entender o que aquilo é. Então, é importante conhecer as regras, os limites, mas o que é fundamental e sempre normatiza a nossa cobertura é que é importante conhecer o ídolo. O ídolo inspira demais. A gente vai sempre para a Olimpíada com três pilares de cobertura muito definidos: os grandes atletas do Brasil, os grandes atletas do mundo e as grandes histórias. Tenho certeza de que, quando alguém se encanta pela história de uma pessoa, se encanta pelo esporte. O ídolo vem antes do esporte. Por exemplo, o Isaquías Queiroz, um menino do interior da Bahia, que começou a remar a canoa porque era de uma cidade ribeirinha, e ele convivia com aquilo desde pequeno. Ele simplesmente se tornou o melhor do Brasil e o melhor do mundo na canoagem. E até hoje convivem o canoísta com os canoeiros no mesmo rio. São histórias quase de conto de fadas. Então, essas transformações – acho que o esporte transforma demais – dificilmente são vistas em outro setor da sociedade de uma forma tão possível. Porque, se você der uma oportunidade e o cara tiver um mínimo de talento, você realmente democratiza aquele tipo de atividade.

 

Durante muito tempo você participou da cobertura jornalística em campo, muito perto do fato. Hoje, na área de planejamento, ainda se emociona da mesma forma?

 

Passei muito tempo cobrindo, quando eu era repórter. Fui correspondente por quase dez anos, morando fora ou circulando com a Fórmula 1 e saindo para fazer muitos eventos. O jeito de olhar o esporte quando você está lá em campo, próximo do atleta, vendo a emoção do atleta, é um. E o jeito de você olhar quando planeja, decide aquilo que vai ao ar e como vamos fazer o aquecimento de um evento é outro. Mas tem uma coisa em comum, que continua sendo a emoção. Olhar a emoção de um atleta de perto, entrevistando, claro que te faz ficar emocionado. Cansei de chorar junto com atletas. Mas você também se emociona quando olha uma série bem construída, de atletas que você conhece, às vezes, pela história, pela televisão, mas que de certa forma foi um planejamento que sua equipe fez, se juntou para pensar nas minúcias. Olhando as séries que a gente fez de aquecimento para a Olimpíada, algumas muito fortes, como a do Fantástico, a Geração 16, com atletas que a gente seguiu por quatro anos sem saber se iriam se classificar ou não – e alguns não se classificaram, outros sim –, ou a do Jornal Nacional, com o perfil de 16 superatletas do Brasil, que é uma síntese da emoção, não consegui ficar sem chorar em nenhuma delas. Aquilo, talvez inconscientemente, meio que me transportou para a época em que eu ficava do lado deles. Mas de fato é emoção que tento passar dentro de casa para os meus filhos. Eles veem que eu vibro e vivo intensamente isso. São dois momentos diferentes, mas, se tem um ponto de interseção, é a emoção.

 

 

CONSCIENTE E COLETIVO

 

União dos povos é traço marcante nas recordações de jornalistas em coberturas de Jogos Olímpicos

 

Marcos Uchôa

 

“A minha primeira Olimpíada foi a de Los Angeles, em 1984. Daí em diante, cobri todas as de verão e uma de inverno, em dez cidades. Embora nós, brasileiros, tenhamos uma predileção por Copas do Mundo de futebol, eu prefiro bem mais os Jogos Olímpicos: um esporte x 28 esportes (com várias modalidades); 32 países x 206 países; 1 sexo x 2 sexos; 736 atletas x 10.500 atletas. E tudo concentrado na metade do tempo. Não tem comparação! Numa época em que nacionalismos e xenofobia gritam contra o diferente, essa variedade humana que, ao mesmo tempo tem tanto em comum, deveria ser celebrada não só em Olimpíadas. Se o exemplo desse grande evento pudesse frutificar em outras áreas, alguns dos maiores problemas do mundo, como a poluição e o aquecimento global, seriam de mais fácil solução. Só numa Olimpíada nós podemos sentir que, entre tantas identidades possíveis, pode-se acrescentar mais uma: somos todos terráqueos.”

 

Renato Ribeiro

 

“O que é mais impressionante em Olimpíada, que a torna diferente da Copa do Mundo, é o fato de estar realmente o mundo todo em um lugar só. Desde o círculo de imprensa nas Olimpíadas – em que você vê jornalistas do mundo inteiro – até a cerimônia de abertura, que é impactante e talvez a única oportunidade em que vemos representantes de todos os países juntos em um mesmo lugar. Na minha primeira Olimpíada, em Atlanta (1996), eu trabalhava em jornal ainda, lembro que na área de imprensa, perto de mim, tinha uns jornalistas de Belarus, que a gente chamava Bielorrússia. Era a primeira Olimpíada em que os antigos países da União Soviética estavam disputando com o nome dos seus países. Então, quando teve o desfile e entraram os atletas de Belarus, o grupo de quatro ou cinco jornalistas chorou de um jeito, porque era a primeira vez que eles estavam se vendo representados como um país. É uma dimensão que, talvez, a gente nem tenha como perceber, como entender e sentir. Esse é um exemplo claro. Acho que a todo instante nas Olimpíadas você se depara com quem é diferente de você. Religiões diferentes e formas de entender o outro, um gesto que alguém faz e que se torna especial. Lembro em Sydney (2000), quando as duas Coreias entraram juntas na cerimônia de abertura, que foi algo bem simbólico também: países inimigos estarem juntos ali em um mesmo lugar. É uma grande utopia, na verdade, que dura 17 dias, mas é uma utopia bonita e que acontece.”

 

Geração 16

 

Ao longo de quatro anos, a reportagem do Fantástico acompanhou a vida de oito atletas. Assista aos vídeos:

 

 

Ygor Coelho (badminton)

 

Thiago Braz (salto com vara)

 

Lucas Bebê (basquete)

 

Laís Nunes (luta olímpica)

 

Matheus Santana (natação)

 

Tamiris de Liz (atletismo)

 

Rebeca Andrade (ginástica artística)

 

Gabi (vôlei)

 

Perfis nacionais

 

O repórter Pedro Bassan apresenta, na série exibida no Jornal Nacional, os perfis de 16 atletas olímpicos brasileiros. Um trabalho que durou um ano, 21 viagens e 170 horas de gravação em busca das histórias, curiosidades e intimidade de alguns dos principais atletas que representam o Brasil na Rio 2016.

 

 

Arthur Zanetti

 

Yane Marques

 

Marcos d’Almeida

 

Ana Marcela

 

Fabiana Murer

 

Fabiana (vôlei)

 

Thiago Pereira

 

Robert Scheidt

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INSPIRAÇÃO, Terezinha Guilhermina

 

A DOENÇA CONGÊNITA QUE AFETOU A VISÃO DESDE O NASCIMENTO FOI SÓ UM DOS DESAFIOS DE TEREZINHA GUILHERMINA NO PERCURSO QUE A GUINDOU À CONDIÇÃO DA CORREDORA CEGA MAIS RÁPIDA DO MUNDO

 

por Juan Crisafulli

 

Ela tem uma compreensão tão clara da vida que os obstáculos que surgiram no seu caminho aparentam ser minúsculos. Apequenam-se a tais dimensões que parecem nem mais existir. Não obstante, ela reconhece já ter tropeçado, aliás, que nasceu tropeçando, mas que nunca deixou de buscar sua meta. Nem quando o cenário parecia desfavorável. Quem a acompanha no dia a dia atesta que, diante de sua determinação, não há desafio grande o suficiente para tirá-la do pódio.

 

Tricampeã paralímpica nos Jogos de Pequim (2008) e de Londres (2012), Terezinha Guilhermina possui também um título de técnica em Administração e um diploma de graduação em Psicologia. Nasceu em Betim (Minas Gerais), com retinose pigmentar, uma doença congênita que provoca a perda gradual da visão. O problema também acometeu outros quatro dos seus 12 irmãos. A corredora conversou com o Caderno sobre sua trajetória antes de começar seu treino matinal sobre o tartan, pista que a consagrou como a atleta mais rápida do mundo em sua modalidade.

 

Em que condições você nasceu?

 

Sou de uma família de 12 irmãos, na qual cinco são deficientes visuais. Meu pai era faxineiro e minha mãe, empregada doméstica. Na época em que eu nasci, meu pai era carroceiro, ele trabalhava fazendo carreto. As pessoas compravam as coisas no mercado e ele entregava em suas casas. Minha mãe já tinha ficado internada mais de uma semana e eu não tinha nascido, aí o médico a mandou voltar para casa. Ela voltou, passaram-se alguns dias e ela resolveu acompanhar meu pai na cidade para fazer esses carretos. Na volta, ela começou a sentir as dores do parto. A bolsa estourou e ela disse: “Eu preciso passar para trás”. Havia um saco de ração para animais, ela deitou sobre ele e foi ali que eu nasci. Meu pai pegou a faca de pão, cortou o meu cordão umbilical. Chamaram uma parteira para fazer a higienização, e eu nasci no meio do caminho. Por isso sou velocista, até para nascer eu fui rápida.

 

Como a sua doença nos olhos [retinose pigmentar] começou a se manifestar? Como ela impactou a sua infância?

 

Desde criança, já bem pequena, eu nunca consegui enxergar as coisas nitidamente. Sempre tive perda superior a 95% – fui descobrir isso depois –, mas eu brincava com as outras crianças. Como os meus últimos irmãos tinham a deficiência – que é a falta de célula de luminosidade na retina –, para mim todo mundo enxergava igual. Não era eu que trombava nas pessoas, eram as pessoas que trombavam em mim. Quando entrei na escola, percebi que era diferente. Era a única que não enxergava na lousa o que a professora escrevia. E aí eu tive a sensação e a clara informação de que eu realmente tinha alguma deficiência, algo muito grave que me impediria de fazer algumas coisas como as outras crianças. Porque, até então, tudo que elas faziam eu fazia também – só que eu não sabia que fazia trombando, caindo. Como eu não conseguia enxergar no quadro na escola, minhas irmãs, que enxergavam melhor, me ensinaram a ler e a escrever. Eu colocava a mesa no meio do quintal, porque precisava de muita luz. E aí, quando o sol quente batia diretamente no papel, eu conseguia escrever, mas não conseguia ler o que eu tinha escrito, então não tinha como corrigir, tinha que escrever certo. E assim fui alfabetizada. Na escola, as professoras não percebiam isso, então eu era tachada como a menina hiperativa, que não obedece. Até que entrou uma professora que percebeu que eu era alfabetizada, mas o meu problema era que eu não enxergava. Eu já tinha repetido duas vezes o primeiro ano. Quando ela percebeu, passou a ditar para mim o que escrevia no quadro. E foi assim que eu consegui passar de ano. Quando eu tinha 17 anos, descobri que a minha doença era a retinose pigmentar e era incurável.

 

Como você descobriu o seu talento para a corrida? E como você equacionou essa habilidade para correr com a dificuldade para enxergar?

 

Nessa escola onde eu estudei no primeiro momento, tinha uma menina que era mais repetente que eu, e maior também. E ela me batia. E, como eu só conseguia perceber vultos, quando estava muito próxima, eu corria para não apanhar. E tinha que ser rápida. Eu descobri que podia correr, e nas brincadeiras de criança eu sempre fui muito rápida para correr, mesmo sem enxergar. Depois de ter concluído o segundo grau técnico em Administração, eu já tinha 22 anos, soube de um projeto da prefeitura de Betim que iria oferecer atletismo e natação para as pessoas com deficiência. No primeiro momento, eu me inscrevi para natação, porque eu tinha maiô. Eu queria correr, mas não tinha tênis. Voltei para casa e contei isso para a minha irmã, que me deu um tênis, e eu me inscrevi, no dia seguinte, para o atletismo. Eu encontrei no atletismo uma porta que o preconceito não fechou. Ninguém me impediu. Embora eu tenha cursado Administração e tenha sido uma das melhores alunas, não consegui emprego por ser deficiente. No atletismo eu podia correr. Mas, por ter a visão muito baixa, eu tinha que correr em horários meio alternativos, em condições um pouco arriscadas. Eu corria na rua, tropeçava, desviava de saco de lixo achando que era cachorro, cumprimentava poste, mas eu treinava e falava para mim mesma: “Ninguém vai me impedir de treinar”. Tive alguns problemas, porque esse tênis que minha irmã me deu desgastou muito rápido e virou um “tamanco” na lateral. Tive dores na canela bem terríveis, fui para a fisioterapia e um dos fisioterapeutas avisou: “Terezinha, se você não parar de correr, a gente vai ter que amputar a sua perna de tanto que a canela está inflamada”. E eu respondi: “Primeiro vocês amputam, depois eu paro. Antes, não”. Eu chegava para o treinador e sempre falava: “Eu vou ser a melhor do mundo”. Muitas vezes as pessoas me falavam que eu sonhava alto demais para quem não tinha nada nas mãos.

 

Você praticou algum outro esporte antes ou durante o seu início na corrida?

 

Eu pratiquei natação, por isso até eu tinha maiô. Quando era adolescente, participei de um programa em Betim que tinha natação para crianças carentes. Mas era com convencionais, era um pouco complicado, porque a professora não tinha dimensão do quanto eu enxergava. Mas eu conseguia nadar bem.

 

Terezinha Guilhermina compara sua atuação na Psicologia e nas pistas de corrida

 

 

Suas primeiras corridas foram provas de rua. Em que circunstâncias você decidiu participar?

 

Como na pista não tinha dinheiro, não tinha nada, soube que ia ter uma corrida de rua que ia dar premiação para pessoas com deficiência. E a premiação seria de R$ 100, R$ 80 e R$ 60 para os três primeiros lugares. Era uma corrida de 5 km. Eu fui lá, me inscrevi. Não tinha guia nessa corrida para mim. Eu corri meio trombando no povo. Como eu via vultos, ia acompanhando aqueles que eu via correndo. Eu ganhei em segundo lugar, ganhei os R$ 80. Sempre quis comer um iogurte quando eu era criança, aí peguei esse dinheiro e me senti rica. Eu nunca tinha visto tanto dinheiro na minha mão, na minha frente, então comprei um iogurte. Assim, entendi e acreditei ainda mais que eu realizaria todos os meus sonhos.

 

Muitas vezes as pessoas me falavam que eu sonhava alto demais para quem não tinha nada nas mãos

 

Como foi quando você começou a treinar em clubes?

 

A maioria dos meus primeiros treinadores não acreditava que eu realmente tinha potencial. Meu irmão, que começou a correr depois de mim, corria mais e já começou ganhando de todo mundo. Só que eu corria errado. Por ter canelite, precisava chegar muito antes para aquecer, para os treinadores não verem que eu estava sentindo dor, que eu estava mancando. Eu ouvi muitas coisas. Ouvi que a diferença entre mim e as minhas adversárias era a mesma que existia entre um fusquinha e um avião. Ouvi que eu não tinha nada e elas tinham tudo. Eu não enxergava, não tinha dinheiro, a minha família não tinha como me ajudar financeiramente e as competições eram muito novas para mim. Só que eu falei: “Eu vou ser a melhor do mundo e vou mudar a minha história”.

 

Terezinha Guilhermina conta como percebeu que poderia ser uma atleta de ponta

 

 

Hoje você corre vendada e com um atleta-guia ao lado. A doença nos olhos evoluiu depois que você começou a competir?

 

São três classes. A T11 é para cegos ou atletas que têm a visão desprezível e precisam competir vendados. A T12 é para atletas que têm resíduo visual até 10%, que seguem as mesmas regras que T11, com duas raias, guias, mas não precisam ser vendados. E a T13 é para atletas que enxergam acima disso e na qual se aplicam as regras convencionais. Desde o primeiro momento, o meu campo visual era muito reduzido. Eles faziam a classificação com o oftalmologista. Minha irmã e meu irmão, que enxergavam um pouco melhor do que eu e também competiam, passavam por essa classificação. Eles entravam antes na sala e falavam: “Você anda dois passos e vira à direita para não trombar”, porque eu tinha muito medo de mudar de classe. Desde as primeiras classificações, os oftalmologistas sempre falavam: “Você é uma 12, mas que pode competir como 11 porque enxerga muito pouco”. E eu falava: “Não, eu enxergo muito, eu enxergo muito”. Eu achava que enxergava que era uma beleza! Só que, em uma das classificações, a minha irmã entrou numa sala e eu, em outra. E já entrei trombando, porque eu não sabia o que estava à frente. Numa das classificações, eu lembro que o médico mostrou umas letras e eu sempre falava o alfabeto inteiro para tentar adivinhar qual era. Mas tinha uma pessoa do Comitê Paralímpico me acompanhando e ela explicou que na verdade era um número [risos]. Deu para perceber nitidamente que eu estava tentando burlar, mas me mantive no T12 até 2005 – com o campo visual muito ruim. Já antes de Atenas, em 2004, como eu não queria me submeter à classificação funcional, fui ao oftalmologista e pedi para ele dar um laudo constatando que eu enxergava 10%. Ele foi fazer os exames e, para a minha surpresa, não muito agradável, ele me falou que não poderia me dar o laudo porque eu não enxergava mais que 5%.

 

Como você fez para conciliar os estudos com os treinamentos? Você se formou no curso técnico de Administração. Por que escolheu essa área?

 

O técnico em Administração foi no meu segundo grau. Eu escolhi porque não me considerava com habilidade para fazer Magistério e era um dos dois cursos técnicos que a escola oferecia. A diretora da escola me chamou e falou: “Terezinha, você está fazendo uma escolha totalmente louca. Você não vai conseguir. Tem que usar calculadora e você não enxerga nem a calculadora, quanto mais os números”. Aí eu disse que ia fazer de qualquer jeito e acabei fazendo. Acho que eu gosto de desafios. Depois, em 2005, eu entrei na Faculdade de Psicologia na Pontifícia Universidade Católica [PUC]. Essa foi difícil, porque eu já estava fazendo esporte e precisava ler a matéria, então alguém lia para mim e me mandava o texto gravado em fitas. Conclui o curso de Psicologia em 2013, cursei em três universidades diferentes. Acabei fazendo em nove anos o que daria para fazer em cinco. A mesma disciplina que eu uso no esporte eu usava na faculdade.

 

Qual foi o seu maior incentivo?

 

Meu pai. Por ele, eu não desisti. Por causa dele. Eu queria mudar a história dele. Eu perdi a minha mãe com 9 anos de idade. Quando eu vi o meu pai, ao voltar de Pequim, com a medalha na mão e ele não tinha nem luz em casa pra ver a medalha, pensei: “Vou comprar uma casa pro meu pai”. Vou treinar, vou correr tudo que eu tiver para correr, vou melhorar e conseguir mudar a história dele. No final de 2008, consegui dar essa casa para ele. Para mim, foi uma realização. Eu consegui ajudar a minha família e realizar muitos sonhos.

 

Agora que você obteve todos esses recordes e essas medalhas, que você já venceu muitas coisas na vida, não sofre uma pressão, uma responsabilidade muito grande?

 

Essa pressão constante sempre foi interna minha, independentemente de a Paralimpíada ser no Rio, aqui no Brasil. Em todas as competições em que entrei, eu me preparei. Essa pressão interna minha, essa vontade de ganhar e de fazer bem feito sempre foi maior do que qualquer torcida, sempre foi maior do que a opinião da sociedade em si. Eu quero vencer, eu quero ganhar, porque eu sei que eu fiz para chegar lá. Eu sei que eu fiz por merecer. Eu não decidi ganhar medalha de ouro na Paralimpíada este ano. Eu estou treinando intensamente desde que saí de Londres. Eu não parei para ir para balada e virar a noite. Eu não parei para comer tudo que eu tenho vontade e engordar. Eu escolhi abrir mão porque eu considero que, para ter aquele momento ali no pódio, vale qualquer renúncia.

 

Terezinha Guilhermina fala sobre a possibilidade de medalha nos Jogos Paralímpicos do Rio

 

 

Como você avalia o apoio ao esporte paralímpico no Brasil?

 

Faz 16 anos que eu corro, e a evolução foi muito estável, muito constante. O Comitê Paralímpico fez um trabalho plausível no que tange a realmente fortalecer o movimento, a oferecer estrutura para que novos atletas surgissem, para que os atletas que existem fossem bem estruturados. Hoje nós somos uma potência paralímpica. Estamos em sétimo lugar no mundo. E estamos buscando estar entre os cinco nessa Paralimpíada, o que eu acho extremamente possível. Hoje nós temos uma paralimpíada escolar, de atletas entre 13 e 18 anos, com mais de mil atletas. É a maior paralimpíada escolar do mundo. Nós temos um centro de treinamento para o nosso esporte com uma estrutura de deixar de queixo caído. Além de ter um governo federal que fez uma lei criando a Bolsa Atleta, que respeita as especificidades de uma pessoa com deficiência e atleta, dando as mesmas condições e as mesmas oportunidades que eles dão para uma atleta convencional. Hoje o Brasil é uma potência paralímpica, porque várias e várias pessoas, várias empresas e o governo federal, sem dúvida, e alguns governos estaduais e municipais reconheceram que somos tão brasileiros quanto os atletas que não têm deficiência.

 

Você está sempre maquiada. Você é muito vaidosa?

 

Eu gosto. Até o mundial de Christchurch, na Nova Zelândia, em 2011, eu não era tão colorida. Eu sempre corria de óculos escuros e meio padronizada. Quando cheguei lá, eles me deram uma venda para correr. Mas aquela era uma venda de dormir, de avião. Aí eu disse: “Eu não vou dormir, vou correr”. A partir de então, decidi fazer vendas para mim que ninguém teria igual. Eu sempre gostei de combinar as cores, as coisas. Eu digo que não precisa ficar bonito, tem que ficar colorido. Porque meu mundo é colorido. Não gosto do estereótipo de que – nada contra – a pessoa que é cega não tem expressão. Eu mesma me maquio, só preciso de alguém que confirme que está tudo ok, mas às vezes não tenho essa pessoa e vou do mesmo jeito. A gente está na vida para ser feliz, e eu não quero ser menos que isso.

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ARTIGO por Rodrigo Hübner Mendes

 

RESSIGNIFICAÇÃO DA EDUCAÇÃO FÍSICA ENFATIZA MAIS A COOPERAÇÃO DO QUE A COMPETIÇÃO E TORNA-SE UMA IMPORTANTE FERRAMENTA DE INCLUSÃO SOCIAL

 

No Brasil, pelo menos 30 milhões de pessoas têm algum tipo de deficiência. Essa parcela da população envolve crianças e adolescentes que enfrentam enormes barreiras para exercer a cidadania e construir sua autonomia com dignidade. O esporte, assim como a educação física, pode atuar como uma ferramenta extraordinária para a mudança desse contexto, desde que pensado de uma perspectiva inclusiva, garantindo a participação de todos. Para isso, precisa romper com o paradigma do alto desempenho, da competição e da formação de atletas, concepção que tem gerado, sistematicamente, a exclusão de muita gente, em especial a pessoa com deficiência.

 

Atualmente, estamos acompanhando o surgimento da educação física inclusiva, que promove a participação de todos estudantes em uma mesma atividade, sob as mesmas regras, que podem até mesmo ser concebidas de forma colaborativa entre professores e alunos. Essa proposta implica o entendimento das especificidades de cada aluno e a flexibilização de recursos e regras das atividades. Isso significa tanto alterações nas práticas físicas existentes como a criação de novas atividades. 1

 

Um exemplo é o projeto de miniatletismo desenvolvido na Escola Municipal Professora Terezinha Souza, em Belém. Segundo o professor de Educação Física Itair Santos de Medeiros, no início “as atividades eram executadas de acordo com os métodos de competição aplicados nos esportes institucionalizados, ou seja, com a observação da técnica, o uso de cronômetros, a fixação de distâncias etc.”.

 

Em 2015, uma grande mudança ocorreu após a participação do professor Itair na segunda turma do projeto Portas Abertas para Inclusão – Educação física inclusiva2,do Instituto Rodrigo Mendes em parceria com o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e a Fundação Futebol Clube Barcelona. De maneira sucinta, a iniciativa busca formar educadores de diversas regiões do Brasil para promover a inclusão escolar de meninas e meninos com deficiência por meio de práticas esportivas seguras e inclusivas. Nesse sentido, dialoga com o ideal de garantir o “desfrute total e igual de todos os direitos humanos e liberdades”, previsto no artigo 1º da Convenção Internacional sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, publicada pela ONU em 2006.

 

Durante o curso, Itair e outros 450 educadores, incluindo professores de diversas disciplinas do Atendimento Educacional Especializado (AEE)3e gestores escolares, desenvolveram projetos de forma integrada, unindo diferentes atores da comunidade escolar para encontrar e implementar propostas que beneficiaram todos os estudantes.

 

Foi o que aconteceu em Belém, onde ocorreu a flexibilização das atividades de educação física e passou-se a valorizar o potencial dos estudantes, especialmente daqueles atendidos pelo AEE (16 crianças e adolescentes com deficiência intelectual e auditiva, paralisia cerebral, distúrbio de comportamento, hiperatividade, transtorno do espectro autista e síndromes de Turner e Down). “Ao entendermos que as diferenças individuais são potenciais favoráveis ao aprendizado, reformulamos os exercícios, possibilitando a plena participação dos estudantes a partir do respeito às condições físicas, sensoriais, comportamentais e comunicacionais de cada um”, conta Itair4

 

O miniatletismo passou a ter oito estações, com salto em altura, triplo, sobre pneus, em distância, com vara, corrida com obstáculos, arremesso de dardo e peso e corrida de revezamento com bastão. Todas foram planejadas dentro dos fundamentos do atletismo: correr, saltar e lançar, mas com flexibilização nos conceitos. “Atirar-se de um lugar para o outro” mudou para “passar”. Em vez de “arremessar esferas com força”, valia “abandonar em determinado ponto”. E a relação tempo/velocidade da corrida deu lugar à superação de limites individuais. Durante o circuito, não havia o mais rápido ou correção dos colegas. Todos podiam brincar do seu jeito.

 

Em Belo Horizonte, as professoras Keyla Murched, Ingrid Lobo e Jane Silva, da Escola Municipal Dom Orione, ao longo do curso de formação do projeto Portas Abertas, abraçaram o desafio de tornar a bocha adaptada, um esporte paralímpico, uma atividade inclusiva, que estimula os alunos com e sem deficiência a jogar juntos.

 

Para isso, além de ajudarem a todos no desenvolvimento motor, cognitivo, afetivo e social, elaboraram uma estratégia de implementação da prática esportiva que trabalhou desde aspectos da comunicação, passando por reuniões com a família para reforço do uso das mesmas estratégias e adaptação de regras e materiais para todos os alunos participantes.

 

Os estudantes praticaram a atividade em duplas, variando a forma de arremesso em pé, sentados e até com a calha para jogarem nas mesmas condições. O tapete esticado na quadra evitava que as bolas rolassem demais. A professora Ingrid ajeitava a bola branca (chamada de jack), e os participantes se posicionavam em uma das extremidades do tapete. O resultado foi a vivência da bocha inclusiva por todos os alunos.

 

Além de novas possibilidades de atuação e ampliação de conhecimentos por diferentes atores envolvidos no projeto Portas Abertas, um dos resultados a destacar foi a maior interação entre os alunos. Por conviverem mais intensamente com as diferenças humanas, passaram a compreender que todos têm dificuldades e habilidades e podem participar de tudo, desde que haja algumas flexibilizações em determinadas atividades. Os educadores notaram também um avanço no convívio entre todos os estudantes, favorecendo valores como respeito às diferenças, colaboração e empatia. A educação inclusiva, nessa perspectiva, é realmente uma grande oportunidade, e a educação física, como área do conhecimento, potencializa sua relevância quando permite que todos brinquem, joguem e aprendam juntos.

 

Pensando no contexto da realização dos megaeventos esportivos no Brasil (Copa do Mundo 2014 e Jogos Olímpicos e Paralímpicos Rio 2016), inspirações para o projeto Portas Abertas, acreditamos que o esporte pode ser uma ferramenta de complemento à educação, com potencial de aumentar o interesse dos estudantes pela escola e de melhorar seu desenvolvimento integral.

 

 

1 O Instituto Rodrigo Mendes realizou, em 2012, o estudo Educação física inclusiva no Brasil, que mostra um panorama dessa área do conhecimento, seu histórico e aspectos desafiadores:bit.ly/28ZqERW.

 

2 Os resultados, relatórios e vídeos estão disponíveis em rm.org.br/portas-abertas. Em 2015, cerca de 51 mil pessoas foram impactadas pelo Portas Abertas para Inclusão – Educação Física Inclusiva.

 

3 O AEE é um serviço de atendimento gratuito aos estudantes com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidades/ superdotação, para ser oferecido de forma transversal a todos os níveis,etapas e modalidades, preferencialmente na rede regular de ensino. Compreende um conjunto de atividades, recursos de acessibilidade e pedagógicos, organizados institucional e continuamente, prestados de forma complementar à formação de estudantes com deficiência e transtornos do espectro autista, e suplementar à formação de estudantes com altas habilidades/ superdotação.

 

4 Itair Pedro Medeiros foi vencedor do segundo lugar no Prêmio Paratodos de Inclusão Escolar e escreveu um artigo sobre a mudança das atividades para se tornarem mais inclusivas e seus resultados positivos, disponível em bit.ly/29816Yo.

 

 

RODRIGO HÜBNER MENDES

É fundador do Instituto Rodrigo Mendes, organização que desenvolve programas de educação inclusiva. É mestre em Administração pela Fundação Getulio Vargas (Eaesp), membro do Young Global Leaders (Fórum Econômico Mundial) e da Ashoka Empreendedores Sociais.

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ARTIGO por Gustavo Andrada Bandeira

 

OS CÂNTICOS E OS GRITOS DA TORCIDA SERVEM PARA DAR ÂNIMO AOS JOGADORES, MAS TAMBÉM PARA DIMINUIR AS VIRTUDES DOS ADVERSÁRIOS. QUASE SEMPRE COM INSULTOS

 

Estar em um estádio, em um ginásio ou em uma quadra de quaisquer das modalidades olímpicas que veremos no Rio de Janeiro durante os Jogos, geralmente remete a emoções e sensações narradas como espontâneas ou livres das amarras da vida social. Por se tratar de experiências bastante mais vinculadas com experiências afetivas do que com o que, no senso comum, chamamos de racional, existe uma expectativa de que essas ações aconteceriam a partir de impulsos mais próximos da natureza.

 

Dentro dos estudos culturais em educação, entretanto, trabalhamos com o entendimento de que as mais diferentes experiências sociais estão envolvidas por diferentes currículos que nos ensinam modos adequados de ser e estar no mundo. Em diálogo com a antropologia das emoções, nos permitimos supor que existe aprendizagem para que determinadas práticas nos emocionem e outras não. É preciso passar por diferentes processos pedagógicos para se tornar um espectador e, especialmente, um torcedor.

 

Infelizmente no Brasil, vivemos uma monocultura esportiva. Quase todas as narrativas vinculadas à apreciação esportiva se traduzem por intermédio do futebol masculino. Esse esporte é o que possui a maior cobertura midiática, além de ser o único com calendário cheio durante o ano todo, e ainda se diferencia das demais práticas esportivas se pensamos tanto no montante de dinheiro envolvido quanto na presença constante de público.

 

Se nos propusermos a pensar no que sejam práticas torcedoras no Brasil, acabaremos, de um modo ou outro, pensando sobre as práticas dos torcedores de futebol.

 

O que significa ser torcedor no Brasil? O futebol brasileiro é vivido e narrado de forma local com as principais rivalidades circunscritas a pares opostos, como Grêmio e Internacional, em Porto Alegre; Atlético e Cruzeiro, em Belo Horizonte, ou Bahia e Vitória, em Salvador. Mesmo no Rio de Janeiro ou em São Paulo, que possuem um maior número dos chamados “clubes grandes”, os enfrentamentos também se dão de forma binária, a partir de um confronto agonístico.

 

Uma das primeiras aprendizagens que o torcedor de futebol faz é a vinculação a um clube ou time. Mais do que um apreciador ou espectador, o sujeito se faz torcedor, ele faz parte de uma das equipes. O objetivo de um torcedor vincula-se mais à vontade de vencer do que à vontade de ver um espetáculo virtuoso.

 

Fazendo parte desse ritual disjuntivo, o torcedor é convidado a participar do enfrentamento. Ao contrário dos atacantes, que procuram usar a velocidade e a capacidade de finalização, ou de um defensor, que buscará utilizar sua força e capacidade de antecipação, aos torcedores sobram os cânticos e os gritos. Essas manifestações servem para dar ânimo aos seus, mas também para diminuir as virtudes dos adversários quase sempre com distintos insultos.

 

A partir dessa observação, como pensar gênero e heterossexismo nos ginásios, arenas e estádios? Como dito acima, vivemos uma monocultura esportiva. Essa limitação de nossas experimentações também aparece quando olhamos para os modos de torcer. Há uma lógica masculina nos enfrentamentos das mais diferentes arquibancadas ou cadeiras. Se a moeda que o torcedor possui para participar ativamente dos enfrentamentos contra os adversários é o insulto, este precisa dialogar com o que pode ser considerado ofensivo em determinado contexto cultural específico.

 

Não é possível usar qualquer xingamento em qualquer contexto. Quando olhamos para as torcidas de futebol em um contexto machista e heterossexista, a ofensa quase sempre dialoga com o que historicamente se atribui como o contrário do homem heterossexual. Nesse caso, um jogador ruim chutará como uma mulher, e o árbitro que marcar alguma infração contra sua equipe será um “viado” (sic).

 

A naturalidade que esses gritos adquiriram, especialmente os heterossexistas, é tão grande que mesmo os ofendidos entendem que isso faz parte do esporte. Lembremos o caso Michael, então atleta do Vôlei Futuro, que foi vítima de homofobia na semifinal da Superliga Masculina de Vôlei, edição de 2011. Quando reclamou da ofensa, o atleta lembrou que estava acostumado a escutar gritos dessa ordem quando ditos pelo público de torcidas de futebol. Ele afirmou ter feito a reclamação após perceber que todo o ginásio gritava contra ele. Ou seja, a expectativa de que torcedores de futebol (mesmo quando integrantes do público do voleibol) gritem impropérios diminuindo as masculinidades não heteronormativas aparece até mesmo entre os sujeitos ofendidos.

 

 

Quando estamos em um contexto de enfrentamento, em que valores de uma masculinidade hegemônica são postos em cena, seriam “esperados” comportamentos que diminuíssem sujeitos identificados com outras práticas sexuais. Termos como “viado” e “bicha” nunca são citados quando se pretende discutir a violência nos esportes.

 

E o racismo nesses contextos? Se diminuir a masculinidade do adversário faz parte do jogo de provocações socialmente aceito e esperado nesse contexto, parece que, felizmente, o mesmo não ocorre mais em relação ao racismo. O caso mais paradigmático nesse sentido talvez envolva o goleiro Aranha, alvo de ofensas racistas na Arena do Grêmio, em 2014 [em partida válida pela Copa do Brasil, quando defendia o Santos].

 

Algumas das explicações que justificariam a diferença de tratamento se dão na própria lógica de construção dos enfrentamentos esportivos no Brasil. Em nossa cultura, a disputa esportiva é lida, comumente, como um enfrentamento entre homens. Nesse contexto, seria “natural” que a sexualidade aparecesse como um elemento relevante em disputa. O enfrentamento se daria entre duas torcidas, personificadas em dois sujeitos pretensamente heterossexuais que colocariam na representação do outro uma identidade que ele nega; no caso, a homossexualidade. No contexto dessas disputas, todos os atores são possivelmente xingados. Ser mais homem ou mais masculino do que o adversário é um desejo que temos como participantes do enfrentamento esportivo.

 

Felizmente, essa situação não mais ocorre quando pensamos nas construções étnicas. Aparentemente, no esporte brasileiro, não existe mais o desejo de pertencer a uma torcida mais branca que a do adversário. Nesse caso, a ofensa proferida a um atleta negro fugiria do campo da disputa esportiva. Além disso, é necessário lembrar que não são todos os envolvidos nos confrontos que poderão ser ofendidos pela alcunha de “macaco”.

 

O próprio caso Aranha mostra o quanto certo “zoológico linguístico” transita entre o permitido e o proibido nas manifestações torcedoras. Como torcedor do Grêmio, consegui acompanhar os episódios que envolveram o goleiro, então no Santos, e os torcedores gremistas. No polêmico jogo em que Aranha foi ofendido, o termo “macaco” foi entendido como injurioso, constituindo uma violência. Três semanas mais tarde, o goleiro retornou à Arena do Grêmio para outra competição [pelo Campeonato Brasileiro] e foi novamente ofendido. Entretanto, dessa vez os termos referiam-se a suas capacidades técnicas, como o popular “frangueiro”, ou a sua suposta falta de masculinidade, com o recorrente “viado”. Nesse caso, o entendimento que se seguiu ao final da partida era que o comportamento dos torcedores foi adequado: pressionou o goleiro, mas sem ofendê-lo.

 

Se a hipótese de que é necessário um importante processo pedagógico para nos ensinar formas adequadas de torcer e de nos manifestar nas diferentes praças esportivas, que tipo de comportamento podemos prever dos torcedores brasileiros para os Jogos do Rio? Aqui talvez caiba uma rápida distinção. Não teremos, nesse contexto, os torcedores de clubes. Seria possível acreditar que em alguns casos teremos espectadores, e não torcedores. Tenho dúvidas sobre o quanto o “time Brasil” conseguirá mobilizar uma torcida eufórica.

 

Nos Jogos Pan-Americanos, em 2007, tivemos uma experiência muito interessante quando torcedores comemoravam a queda de estrangeiros durante a ginástica artística para aumentar a possibilidade de medalhas para os atletas brasileiros. Por mais que não tenham existido vaias ou ofensas heterossexistas, machistas ou xenófobas, torcer contra não era uma experiência adequada naquele contexto. Como viveremos situações como essa desta vez?

 

Na memória mais recente, temos a Copa do Mundo de 2014. É interessante que, ao menos em Porto Alegre, a relação com os estrangeiros foi muito distinta. Enquanto brasileiros “se fantasiaram” de holandeses, australianos e franceses (chegando a carregar a bandeira desses países), a relação com nossos Hermanos argentinos não seguiu a mesma lógica. Para a participação de nossos vizinhos, sobraram muitas reclamações quanto à falta de modos, à ocupação das ruas e, mesmo, à falta de consumo em nossos comércios locais.

 

Torcer exige um engajamento que talvez os atletas brasileiros não consigam despertar nos espectadores dos Jogos. Ao mesmo tempo, quando torcemos, acabamos colocando em questão dilemas de nossa cultura.

 

Se a transposição dos torcedores de clubes fosse feita para as arenas e ginásios dos Jogos Olímpicos, me arriscaria a apontar que o heterossexismo e o machismo produziriam uma homofobia e misoginia intensas. No Brasil de 2016, a responsabilidade pela violência contra mulheres e homossexuais ainda é colocada nas vítimas. Em nosso país, os direitos humanos ainda não estão estabelecidos como uma política de Estado, sendo atacados por grupos conservadores, defensores da tortura, que destilam discursos de ódio. Isso autoriza aqueles que nunca experimentaram essas violências a praticar diferentes ofensas sem perceber nisso seu conteúdo reprovável.

 

QUANDO TORCEMOS, ACABAMOS COLOCANDO EM QUESTÃO DILEMAS DE NOSSA CULTURA

 

Em tempos de informação rápida, em que vemos notícias serem trocadas por opiniões simplistas e com diferentes manifestações preconceituosas, seria de imaginar que a relação com o estrangeiro poderá variar de acordo com a região do mundo de onde esses atletas ou visitantes vierem. Em tempos em que refugiados das guerras e misérias são tratados a pontapés em diferentes pontos do globo, espero que esse intervalo festivo dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos seja um momento especial de congraçamento, e não de reforço aos discursos preconceituosos. E que momentos excepcionais como este nos permitam refletir sobre nosso cotidiano nas praças esportivas e nos demais espaços públicos de nosso país.

 

 

 

GUSTAVO ANDRADA BANDEIRA

É doutorando do programa de pós-graduação em Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e técnico em assuntos educacionais da mesma instituição.

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CRÔNICA por Zélia Duncan

 

O esporte se apresentou na minha vida quando eu tinha 12 anos. Porque sempre fui meio comprida, me convidaram para treinar basquete com o time do colégio. A princípio fui porque tinha colegas que jogavam e pareceu divertido. Logo levei a sério, ralei pra ser titular e, nos quatro anos seguintes, só pensei naquilo. Quando comecei a arranhar meu violão, era pra animar o fundão dos ônibus que nos levavam para as competições. O esporte coletivo me ensinou muitas coisas que trago comigo até hoje, como um ensinamento sagrado. A importância de passar a bola, não ser fominha. Entender que um bom passe faz parte do próximo ponto tanto quanto as mãos que levam a bola até a cesta. Não ser violenta nas divididas, ser punida se o for. Comemorar, incentivar, mesmo do banco. Consolar e ser consolada. Ceder, olhar pra frente, não desistir. Saber que nem a vitória nem a derrota são eternas, tudo depende do que se faz durante a partida e de como nos preparamos para ela.

 

Amava a bola, a quadra, o uniforme e, sobretudo, sonhava em jogar na seleção. Meu ídolo era Magic Paula. Quando já profissional, soube que ela estava na plateia, tive que me sentar, tomar um gole d’água, me preparar para enterrar a bola e impressionar aquela que foi a inspiração da atleta que sonhei ser, até que me apareceu um microfone e essa paixão avassaladora me levou das quadras. Melhor pro basquete eu sei que foi! Mas eu até que dava meus pulinhos bem dados na quadra. Hoje Paula, ainda um ídolo, é também amiga querida e damos boas risadas. Cantar me consumiu e deixei o esporte por muitos anos. Não sem pesar, mas por necessidade. Fazia algo aqui e ali, mas nada realmente consistente, em termos de exercício físico. Até que um belo dia, andando numa esteira, resolvi correr nos últimos três minutos. Aquilo evoluiu para uma aulinha de corrida na própria academia. Depois, influenciada por duas amigas, comecei a correr na rua.

 

Porém, correr já foi um sacrifício. Mais que isso, eu olhava para um corredor de rua com pena, achava que estava diante de um extraterrestre, carente de tudo, fazendo aquilo por desespero. Mesmo assim, aproveitando o privilégio das paisagens cariocas, comecei. Me inscrevi numa corrida de 5 k. Completei em 28 minutos. Todos acharam bem bom, a medalha piscou pra mim. Amei o evento, as pessoas com uma disposição bonita. Então, treinemos um pouco mais: 10 k. Por que não sonhar com uma meia maratona? Isso foi em 2009. Jamais vou esquecer quando, já munida de um relógio GPS, alcancei os 16 k. Correr se tornou uma arma secreta, um brilho interno e particular, um alento, um vício bom. Foi em Nova York. A saída era no Central Park, eu nem acreditava que tinha ido tão longe com aquilo tudo. As pessoas levam cartazes para incentivar os corredores. Crianças, mães, pais, namorados, amigos. Há os que vão pelos desconhecidos mesmo, só pra dizer: “Vamos lá, você pode!”. Aqui no Rio o povo não liga muito, es era a gente passar pra atravessar a rua, mas há sempre uma alma boa que não quer que você desista. Qualquer estímulo é bem-vindo, podem ter certeza!

 

O esporte salva vidas. Devia ser uma obsessão para qualquer governo estimular e promover a atividade física.

 

Hoje, cinco maratonas depois, minha vida mudou bastante. Duas no Rio, a primeira em Chicago, depois Berlim e, em 2015, Tóquio. Esta última, minha melhor e mais deliciosa, terminei em 4h19. Oito meias-maratonas, uma de 25 k em São Paulo e outras menores.

 

Escolha algo que te afaste de móveis e eletrodomésticos, tipo sofá e geladeira. Escolha o movimento, escolha a saúde pra enfrentar os dias!

 

 

ZÉLIA DUNCAN

É cantora e compositora, com 12 CDs autorais, colunista de O Globo e corredora.

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Um gesto pode determinar o fracasso ou a glória de um atleta. Um movimento também pode significar uma mudança efetiva na vida de alguém que descobre as possibilidades proporcionadas pela atividade física. Até mesmo as cidades podem ganhar novos contornos no contato com o esporte.


Direito fundamental – por Marlova Jovchelovitch Noleto e Fabio Eon

Para além do esporte – com Raí, Leandro Ribela, Fernanda Keller, Flavio Canto, Ana Moser, Paula

Urbanismo estético – por João Masao Kamita

Legado simbólico – por Lamartine DaCosta e Ana Miragaya

A volta das calçadas – por Joaquim Ferreira dos Santos

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ARTIGO por Marlova Jovchelovitch Noleto e Fabio Eon

 

OS MEGAEVENTOS PODEM OFUSCAR OUTRAS DIMENSÕES SOCIAIS DO ESPORTE. TIRANDO O FOCO DA COMPETIÇÃO E DO ALTO RENDIMENTO, A ATIVIDADE FÍSICA PODE SER UM INSTRUMENTO DE EDUCAÇÃO E PARTICIPAÇÃO

 

A Olimpíada e a Paralimpíada do Rio de Janeiro brindaram o Brasil com a oportunidade ímpar de sediar o maior encontro dedicado ao esporte no mundo. O frenesi em torno das chances advindas de ambos os eventos – em particular aquelas relacionadas ao potencial de atração de investimento, desenvolvimento e prestígio internacional para o país – tem pontuado o imaginário dos brasileiros.

 

O esporte é mecanismo que permite a autodescoberta e o aumento da autoconfiança e da autoestima, mas é também um meio poderoso de mobilização, ao reunir pessoas de diferentes crenças, culturas ou origens étnico-raciais. As competições esportivas internacionais, além de oferecerem entretenimento, reforçam a construção da identidade cultural e do sentimento de pertencimento dos povos.

 

Parafraseando uma reflexão de um professor do programa Escola Aberta – que, criado pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), se tornou política pública federal, de abertura das escolas nos finais de semana para atividades esportivas, culturais e sociais –, “quando você dá uma bola a um menino, você incute nele um sentido e uma direção”. De fato, a prática esportiva fornece a qualquer criança um primeiro contato com a vida em sociedade, com um conjunto de regras, objetivos e senso de equipe. Em uma quadra, em princípio, não há distinções, e todos estão sujeitos – em pé de igualdade – aos regulamentos do esporte praticado.

 

Contudo, o gigantismo da organização de megaeventos como os Jogos Olímpicos, somado aos consideráveis investimentos financeiros envolvidos, por vezes tende a ofuscar outras dimensões sociais relacionadas ao esporte, apontadas pelo professor Manoel Tubino (1939-2008), em especial as ideias de “esporte de educação” e “esporte de participação”.1 O chamado “esporte de alto rendimento”, como o próprio nome diz, é por natureza extremamente seletivo e, dadas as dinâmicas de transmissão e cobertura da mídia esportiva, muitas vezes se torna um simples item de entretenimento e consumo de massas, sem que se realize uma reflexão apropriada sobre as trajetórias pessoais, os sacrifícios ou as conquistas daqueles homens e mulheres que conseguiram participar do seleto grupo de esportistas de alto desempenho.

 

Portanto, há que se rever a proporcionalidade e razoabilidade na atenção dada pelas políticas públicas às três tradicionais dimensões do esporte: alto rendimento, participação e educação.

 

Sem desmerecer a importância dos megaeventos esportivos, os ministros do Esporte dos 195 Estados membros da Unesco, reunidos na V Conferência Internacional de Ministros e Altos Funcionários Responsáveis pela Educação Física e o Esporte (Mineps V), realizada em Berlim em maio de 2013, já reconheceram o efeito nefasto do chamado overbidding, que ocorre quando os países comprometem recursos além dos suficientes para sediar eventos esportivos internacionais.

 

Na Declaração de Berlim, carta firmada pelas autoridades esportivas presentes no encontro, é claro o compromisso de “tratar os grandes eventos esportivos como parte do planejamento nacional da educação física e do esporte, assegurando que outros programas não sofram desvios orçamentários em decorrência da realização desses grandes eventos ou do esporte de alto rendimento”. O mesmo documento apresenta recomendações claras e incisivas sobre os limites máximos de custo para as candidaturas, critérios para a escolha das sedes de grandes eventos esportivos, preceitos de sustentabilidade e apelos para que tais investimentos não acarretem efeitos negativos para o desenvolvimento econômico do país e das cidades-sede.

 

O fato é que grande parte da discussão sobre o eventual “legado” dos Jogos Olímpicos para o Brasil, infelizmente, tem menosprezado o uso do esporte como instrumento de educação ou de participação. Apesar dos reconhecidos investimentos em centros esportivos e de treinamento de ponta, segundo o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), pouco mais de 30% das escolas brasileiras contam com quadras de esporte ou outros bens ou equipamentos esportivos.

 

Segundo uma pesquisa recente da Unesco2, 97% dos países declararam que a educação física é parte obrigatória do currículo escolar. Apesar de essa ser, à primeira vista, uma declaração animadora, existe ainda um enorme hiato entre o discurso e a prática no que diz respeito a políticas de apoio à educação física nas escolas. Dos países que responderam à enquete, 54% reconhecem que a educação física tem um “status considerado inferior” comparado a outras matérias “tradicionais” do currículo, e apenas 53% das escolas primárias desses mesmos países contam com professores de educação física adequadamente treinados.

 

O mesmo estudo da Unesco aponta efeitos alarmantes se nada for feito quanto à valorização do esporte e da atividade física entre os jovens. A inatividade física contribui para 3,2 milhões de mortes prematuras por ano, assim como é responsável por 6% da mortalidade mundial em decorrência de enfermidades relacionadas ao sedentarismo, como doenças coronarianas, diabetes e hipertensão. Em outras palavras, a educação física e o esporte, ministrados por sistemas formais ou não formais de ensino, levam a estilos de vida mais sustentáveis e mais saudáveis e, consequentemente, a uma redução na sobrecarga e na demanda por serviços públicos de saúde.

 

A inatividade física contribui para 3,2 milhões de mortes prematuras por ano, assim como é responsável por 6% da mortalidade mundial em decorrência de enfermidades

 

Assim, existem inúmeras definições ou maneiras de entender o esporte. Além de uma questão de saúde pública, o esporte pode ser, por exemplo, um importante fator de empoderamento para mulheres e meninas e, também, de superação de estereótipos de gênero, uma manifestação cultural – veja-se a capoeira, reconhecida pela Unesco como Patrimônio Imaterial da Humanidade – ou, ainda, um mecanismo para a construção e transmissão de valores, como a promoção do jogo limpo (fair play), do companheirismo e do espírito de equipe.

 

Independentemente de que definição se adota para o esporte, a postura oficial da Unesco é considerá-lo, antes de mais nada, como um “direito humano por excelência”.

 

Tal visão ganhou força a partir da década de 1970, quando o mundo ainda se encontrava polarizado pela Guerra Fria e as Olimpíadas eram um grande palco para manifestações de poder e grandeza dos dois blocos. A partir daquele momento, a comunidade internacional passou a cobrar da Unesco a construção de um consenso internacional que reconhecesse o enorme potencial do esporte para a paz e para o desenvolvimento internacional. Como um importante divisor de águas, surgiu então, em 1978, a Carta Internacional da Educação Física e do Esporte, que já em seu Artigo 1º, reconhecia a “prática da educação física, da atividade física e do esporte como um direito fundamental de todos”.

 

Em 1978, a Unesco cria a carta internacional da educação Física e do esporte

 

Passados quase 40 anos, atletas e formuladores de políticas públicas para o esporte apontaram a compreensível necessidade de realizar uma releitura e uma atualização da Carta de 1978. Assim, em novembro de 2015, a Unesco promulgaria sua nova versão, agora intitulada Carta Internacional da Educação Física, da Atividade Física e do Esporte. Nesse que é, sem dúvida, o principal posicionamento da ONU sobre a importância do esporte, foram agregados novos conceitos e demandas que, talvez, não fossem tão visíveis ou presentes nos anos 1970. Dentre esses conceitos, destacam- se, por exemplo, a própria ideia de “atividade física”, a importância da igualdade de gênero, o acesso ao esporte para pessoas com deficiência e a busca incessante pela integridade no esporte – aqui, não limitada apenas à luta contra a dopagem, mas englobando o combate à combinação de resultados (match fixing), às apostas ilegais e à corrupção na gestão de recursos ligados ao esporte.

 

O esporte é o que fazemos dele e é – teoricamente – um elemento neutro. Ele será violento se assim o praticarmos. Será segregador ou excludente se assim o quisermos. Será supérfluo ou desnecessário se assim o virmos.

 

Portanto, há que se pensar no esporte em uma escala mais ampla e evitar um foco exclusivo no esporte de competição. Assim, torçamos para que a realização dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos de 2016 não se converta em uma oportunidade perdida para o país e saibamos pensar e cobrar de nossos governantes políticas públicas e maiores investimentos nessa área. Que esporte e que legado queremos para o Brasil após as Olimpíadas e as Paralimpíadas de 2016? Essa é a pergunta que nós, como cidadãos brasileiros, devemos fazer.

 

HÁ QUE SE PENSAR NO ESPORTE EM UMA ESCALA MAIS AMPLA E EVITAR UM FOCO EXCLUSIVO NO ESPORTE DE COMPETIÇÃO

 

É preciso resgatar, nas discussões sobre os programas e as políticas de esporte, os próprios elementos educacionais, lúdicos e prazerosos relacionados à atividade física. A Unesco, em sua Carta da Educação Física, da Atividade Física e do Esporte, reconhece que esses elementos podem trazer diversos benefícios individuais e sociais, como a saúde, o desenvolvimento social e econômico, o empoderamento dos jovens, a reconciliação e a paz. Por meio do documento, a Unesco ressalta ainda que a oferta da educação física, da atividade física e do esporte de qualidade é essencial para a plena realização do seu potencial na promoção de diversos valores, entre eles a igualdade, a integridade, a excelência, o compromisso, a coragem, o trabalho em equipe, o respeito pelas regras e pelas leis, a lealdade, o respeito por si próprio e pelos demais participantes, o espírito de comunidade e de solidariedade, bem como a diversão e a alegria.

 

Que possamos fazer dessa oportunidade para o Brasil uma maneira de ver o esporte como direito e como instrumento de inclusão e de transformação social.

 

 

1 TUBINO, M. J. G. Dimensões sociais do esporte. São Paulo: Cortez/Autores Associados, 1992.

2 UNESCO, Toward universal learning – recommendations from the learning metrics task Force, 2013. Disponível em: bit.ly/1odrmiT

 

 

MARLOVA JOVCHELOVITCH NOLETO

É diretora da Área Programática da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) no Brasil.

 

FABIO EON

É coordenador adjunto de Ciências Humanas e Sociais da Unesco no Brasil.

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Mosaico Atletas

 

Craques em diferentes modalidades, eles resolveram ampliar sua atuação e investir em projetos sociais. Seis atletas respondem a três perguntas

 

por Paulo Jebaili

 

1

Que aspectos você levou em consideração para se tornar um empreendedor social?

 

 

2

Qual o peso de ser um esportista nessa tomada de decisão?

 

 

3

Como o esporte pode funcionar como ferramenta de inclusão social?

 

 

RAÍ SOUZA VIEIRA DE OLIVEIRA

EX-JOGADOR DE FUTEBOL

– Campeão na Copa do Mundo de 1994

– Medalha de ouro nos Jogos Pan-Americanos de Indianápolis (1987)

– Campeão mundial interclubes pelo São Paulo (1992)

 

Fundação Gol de Letra

Em parceria com o ex-jogador Leonardo, a entidade surge em 1998, com o objetivo de propiciar acesso à educação para crianças, adolescentes e jovens em situação de vulnerabilidade social.

 

1

Sempre acompanhei de perto os movimentos sociais. Eu joguei cinco anos na França e, quando estava decidido a voltar ao Brasil, em 1996, 1997, estava preparando o meu pós-carreira. E, a cada vinda ao Brasil, via movimentos da sociedade civil se organizando e isso foi me contagiando. Eu tinha uma vivência limitada e queria começar a minha atuação na área social com um projeto de ponta. Considerava e ainda considero que uma das maiores injustiças do país está nas diferenças de oportunidades.

 

2

Em 20 anos no esporte, isso me impactou de diferentes formas. O esportista é acostumado a desafios. E eu tinha desafios novos, não tinha experiência na área, mas o esporte traz muito essa coragem de lidar com os desafios. Outro aspecto é que, por ser de um esporte coletivo, sabia contar com outras pessoas. A liderança no esporte me encorajou também a liderar um grupo e a trazer pessoas com o conhecimento que eu não tinha. Em termos de repercussão, pelo fato de eu ser uma figura reconhecida e respeitada, havia um potencial que eu não poderia desperdiçar e resolvi canalizar isso para uma causa na qual eu acredito.

 

3

O esporte sempre foi subestimado. Não só no Brasil, mas aqui é um desperdício muito maior, porque o país tem uma vocação esportiva e o esporte sempre foi relegado a uma coisa quase supérflua e elitizada, tirando o futebol ou outro esporte de fácil acesso. Existem provas de que a atividade esportiva, de maneira geral, pode impactar a saúde, a segurança e a educação. Eu acho que está crescendo essa conscientização, mas ainda falta uma política. Faço parte de uma associação chamada Atletas pelo Brasil, e uma de suas grandes causas é participar da discussão de um sistema nacional de esportes. O esporte, além de tudo, é uma atividade barata pelo impacto que pode ter. E, quando falo em sistema de esporte, significa debater qual o papel da cidade, qual o papel do estado, qual o papel da Federação, das escolas, dos clubes no esporte. Isso ainda não está bem definido. Há programas esportivos parecidos em todas as esferas: federal, estadual e municipal. Mas são programas que não se conversam, então há um desperdício ou sobreposição. É uma questão de repensar para onde vão os recursos do esporte, qual o orçamento e quem vai fazer o quê. Numa visão mais macro, é uma questão de inteligência e de vontade política para ter o esporte com representatividade, peso e impacto muito maiores nessas questões que produzem benefício social.

 

 

LEANDRO RIBELA

ESQUIADOR DE CROSS-COUNTRY

– Disputou duas Olimpíadas de Inverno: Vancouver (2010) e Socchi (2014)

– Hexacampeão brasileiro de ski cross-country (de 2007 a 2012)

 

Ski na Rua

O projeto social teve origem em 2012 e busca promover a inclusão social pelo esporte, apresentando o esqui cross-country por meio do rollerski (equipamento com rodinhas) e dando oportunidade a crianças

e adolescentes de baixa renda.

 

1

A questão da desigualdade social sempre me incomodou e me intrigou, no sentido de tentar conhecer os fatores culturais, econômicos e sociais que levaram o Brasil a ter esse quadro. Sempre utilizei o espaço da USP [Universidade de São Paulo] para os meus treinamentos. Via milhares de pessoas usando o espaço para praticar esportes e as crianças e adolescentes da comunidade vizinha guardando carro, entregando água. Essa situação sempre me incomodou e despertou o desejo de mudá-la. Surgiu o projeto social Ski na Rua. A proposta despertou bastante interesse e começaram a ocorrer transformações num curto espaço de tempo: a questão da autoestima, a maneira como encaravam as pessoas e o espaço que utilizavam. Vimos que era preciso ir além da parte esportiva e trabalhar efetivamente com a parte educacional pelo esporte.

 

2

Nesses dois ciclos em que competi nos Jogos Olímpicos de Inverno (2010 e 2014), tive oportunidade de conhece rmais de 20 países, treinar fora, vivenciar várias realidades, e isso proporcionou uma aquisição de conhecimento grande. E sempre tive o desejo de retribuir isso de alguma forma. O atleta precisa se desenvolver e trabalhar com pessoas que o ajudam na conquista de um objetivo. Nem sempre é possível retribuir para a pessoa que nos ajudou, mas, se a gente propuser algo que transforme avidade alguém e essa pessoa fizer o mesmo pelo próximo, geraremos uma corrente infinita. Outro ponto é que o fato de ser esportista e contar com a admiração das pessoas abriu muitas portas. Conheço o meio do esqui, sei onde estão as oportunidades, quem são os contatos, potenciais patrocinadores, doadores, e resolvi criar algo que tivesse um impacto social.

 

3

Os esportistas têm incorporado os valores do olimpismo, como amizade, igualdade, solidariedade e fair play. Eles são muito presentes no nosso dia a dia e podem ser extrapolados para qualquer outra realidade: escola, trabalho, família. São valores que podem ser trabalhados e abordados dentro do esporte, de uma maneira muito mais acessível, principalmente quando se fala com crianças e adolescentes. Falar de valores numa sala às vezes pode ficar maçante ou idealista demais, enquanto com atividades é possível propor uma reflexão sobre isso de uma forma muito mais simples. Esse é um dos pontos de como se pode trabalhar por intermédio do esporte a questão da educação com valores, extrapolando para o dia a dia, de modo a atingir muitas outras pessoas – família, colegas, comunidade –, e não apenas aquelas com quem trabalhamos diretamente.

 

 

FERNANDA KELLER NUNES

TRIATLETA

– Recordista de participação no Campeonato Mundial de Ironman no Havaí: 24 vezes

– Seis vezes terceira colocada na prova, que consiste em 180 km de ciclismo, 3,8 km de natação e uma maratona (42 km)

 

Instituto Fernanda Keller

A sociedade civil sem fins lucrativos foi criada em 1998 com finalidades educacionais, sociais e esportivas

destinadas a crianças e adolescentes da rede pública de ensino.

 

1

Eu comecei a fazer ação social pensando muito mais em compartilhar o meu aprendizado como atleta com crianças e jovens, principalmente de comunidades menos favorecidas, que não têm acesso ao esporte. Nunca pensei “vou ser uma empreendedora social”. Sou mais uma sonhadora social, uma pessoa que conseguiu tudo por intermédio do esporte, uma atleta que quis compartilhar a experiência e a atitude positiva. A capacidade que o esporte tem de transformar é enorme, então este era o meu objetivo: atingir, transformar e deixar um legado.

 

2

Perseverar, nunca desistir – isso vem muito da atitude positiva que o atleta tem. Eu vejo um monte de coisa feia no meu país, mas quero acreditar que é possível mudar. Não vou conseguir mudar a vida de todo mundo, mas as pessoas que eu conseguir atingir, se elas forem beneficiadas, para mim já é uma vitória enorme. Às vezes as pessoas falam: “Ah, mas você não vai conseguir atingir o mundo inteiro”. Tudo bem, mas eu faço a minha parte. Eu acredito em fazer o que eu consigo e o máximo possível. E tento fazer o impossível virar possível. Vou acreditando, lutando o tempo inteiro. Meu sonho era ver o Brasil sem criança na rua, sem criança assaltando, sem criança abandonada. Que elas estivessem estudando, aprendendo línguas, fazendo esporte, arte. O país só vai estar no topo quando houver oportunidade igual para todos, e isso só vem com educação.

 

3

O esporte faz com que você sonhe. No meu esporte, por exemplo, eu acordo pensando no que tenho de correr, pedalar, nadar, que eu tenho um objetivo. E a criança precisa aprender que ela tem um objetivo na vida, que é preciso trabalhar muito para atingi-lo, que nada cai do céu. Que é preciso ter disciplina, que tudo tem ônus, embora o esporte tenha muito bônus. Que ela tem de lidar com a superação; quando dá tudo errado, tem de fazer tudo denovo até conseguir acertar. E é muito parecido com o que acontece na vida. Aprender que perder não é o fim do mundo. Tem a questão da regra, do respeito ao próximo, de saber que aquele que compete com você não é seu inimigo, mas uma pessoa que vai te estimular a buscar o seu melhor. É só um adversário momentâneo e que você ganha sendo melhor do que você é. Quando a criança tem acesso ao esporte, ela respeita muito mais a regra, ela entende o processo. Quando ela não tem, não entende os limites, fica desgovernada, acha que vale tudo. O esporte tem essa capacidade de apontar um rumo certo, uma visão de respeito ao próximo.

 

 

FLAVIO VIANNA DE ULHÔA CANTO

EX-JUDOCA

– Medalha de prata na Olimpíada de Atenas (2004). Disputou ainda os Jogos de Atlanta (1996)

– Medalhista em três Pan-Americanos: bronze em Mar del Plata (1995), prata em Winnipeg (1999) e

ouro em Santo Domingo (2003)

 

Instituto Reação

A ONG promove o desenvolvimento humano e a inclusão social por meio do esporte e da educação,

fomentando o judô desde a iniciação esportiva até o alto rendimento.

 

1

A primeira motivação veio do Rio de Janeiro, cidade em que cresci. Nasci na Inglaterra, minha família é toda brasileira, vim para cá, depois fui para a Califórnia, aí voltei para o Brasil. Com 19 anos, fui para a seleção. Essa minha vida de viajante me ajudou a ter um olhar com um distanciamento mais crítico do Rio de Janeiro. Foi um componente importante para essa minha caminhada no terceiro setor. E com 18, 19 anos, comecei a fazer com amigos ações pontuais de filantropia. Aos poucos, o que começou como assistencialismo foi chamando para fazer algo maior. A história do Instituto Reação nasceu em agosto de 2000, eu tinha ido para a Olimpíada de Atlanta (1996), mas perdi a seletiva para a de 2000, em Sydney. Aquilo, para mim, foi muito ruim, mas, ao mesmo tempo, libertador. Acho que percebi que o mundo não acabava e que eu tinha que iniciar outros sonhos.

 

2

Esse olhar eu carrego desde garoto. Sempre olhei para uma favela, e a primeira coisa que vinha na minha cabeça era potencial. O que mais me chateia é ver essa desigualdade alargada que a gente tem. Não sei até que ponto o esporte contribuiu para esse olhar, mas certamente o esporte foi escolhido porque é o que eu acredito. A gente trabalha com luta, então ela atrai muito a garotada, até os jovens em maior situação de risco, que tendem a ter um lado que pode ser levado para a violência, vão descobrindo que no judô a última coisa que existe é a relação com a violência. Então, o judô foi um aliado incrível na minha transformação. Na minha e na do meu irmão Geraldo, também judoca. Meu técnico Geraldo [Bernardes] foi meu segundo pai, apoiou minha educação a vida inteira. Meus pais também sabiam disso, hoje eu sei disso e quis compartilhar um pouco do que eu aprendi com o esporte. Agora, na Olimpíada do Rio, temos dois atletas do Reação competindo [Rafaela Silva e Victor Penalber] e dois congoleses que foram convocados para essa primeira delegação de refugiados [Popole Misenga e Yolande Mabika].

 

3

Quando comecei a dar aula na Rocinha, notei uma transformação muito rápida das crianças, na melhora na escola, comportamento em casa, relação interpessoal. E fui percebendo que o esporte é uma ferramenta poderosa. Teve um acontecimento que foi duro, mas ao mesmo tempo me fez perceber ainda mais essa força. Um dos nossos alunos foi assassinado e, no enterro, um outro aluno colocou uma camisa do Reação em cima do corpo. Ali eu vi que tinha encontrado aquilo que eu sabia que faltava para muitos: pertencimento, autoestima.

 

 

ANA BEATRIZ MOSER

EX-JOGADORA DE VÔLEI

– Medalha de bronze na Olimpíada de Atlanta (1996)

– Disputou também os Jogos de Seul (1988) e Barcelona (1992)

– Tricampeã do Grand Prix de Vôlei: 1994,1996 e 1998

 

Instituto Esporte & Educação

Criado em 2001, atua no atendimento direto a crianças e adolescentes em atividades

esportivas e socioeducativas, na formação de professores e estagiários e no desenvolvimento de metodologia de esporte educacional.

 

1

Empreender era o único caminho para construir a visão que eu tinha, no caso, com relação ao ensino do esporte e o esporte como fator de desenvolvimento humano e comunitário/social. Isso porque era um tipo de visão e atuação que não existia, precisava ser criada em termos de tecnologia e formas de financiamento. Começou como uma coisa a mais que fazia, pouco antes de encerrar a carreira de atleta e continuou após a aposentadoria. Aos poucos, foi se realizando e crescendo, o que foi demandando o meu comando de forma mais profissional. Eu fui então me qualificando como empreendedora, fazendo parte de redes etc.

 

2

A vivência no esporte me deu esta visão como forma de contribuir para o desenvolvimento das pessoas e do país. Por vestir a camisa da seleção, parece que a gente carrega esse patriotismo, não sei, mas comigo foi assim. E o esporte me deu a coragem, confiança e várias habilidades pessoais e de gestão, que são a base da trajetória de 15 anos do Instituto Esporte & Educação. Montei um time de especialistas e comando a visão coletiva, a missão e os objetivos daquele time, muito do que aprendi no esporte.

 

3

O esporte é holístico, é um ambiente em que a pessoa se experimenta e aprende com o corpo, o pensamento e o sentimento. Existe a questão do desafio e superação, de pequenas coisas, como uma nova habilidade técnica, tática ou condicionamento físico. Existe também o ambiente de convivência, de troca, de competição com regras iguais, que vai dando uma forma ética para as pessoas se relacionarem. Também é uma forma de expressão e representatividade de grupos e comunidades: a maneira de jogar, a música que é cantada, os intercâmbios dos quais participa, tudo isso fala do jeito daquele grupo. E nesse ponto é importante levar em consideração os princípios e estratégias que o esporte apresenta. Porque, para o esporte funcionar de acordo com os resultados acima, ele precisa desenvolver estratégias para isso. Para não deixar meninas de fora, ou trabalhar somente com os mais fortes e habilidosos. Respeitando essa forma, o esporte fortalece as pessoas e os grupos, cria esse ambiente que vai preparando para a vida e criando vínculos sociais e fortalecendo comunidades.

 

 

MARIA PAULA GONÇALVES DA SILVA

EX-JOGADORA DE BASQUETE

– Medalha de prata na Olimpíada de Atlanta (1996)

– Campeã mundial de basquete na Austrália (1994)

– Campeã pan-americana em Havana (1991)

 

Instituto Passe de Mágica

Fundado em 2004, tem como objetivo desenvolver atividades de esporte educacional e atividades complementares para crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade social.

 

1

O grande aprendizado absorvido durante minha vida como atleta: como podemos ser educados para a vida praticando esporte de forma lúdica. Muitos daqueles com quem convivi não chegaram a viver como profissionais do esporte, mas tenho a certeza de que todos aprenderam valores para a vida.

 

2

As ações sociais eram frequentes na minha família, por isso acredito que, de alguma forma, eu iria seguir o exemplo dos meus pais.

 

3

O esporte é um fenômeno cultural e uma linguagem de expressão humana, mas, para promover inclusão social de fato, precisa estar atrelado intencionalmente a princípios e valores éticos e conduzido por pessoas bem treinadas que levem essa visão da inclusão para o desenvolvimento humano com metodologia e muita alma à população vulnerável.

 

Esporte Espetacular visita projeto social na Austrália que nasceu da admiração de uma inglesa por atleta olímpico brasileiro

 

Matéria exibida em 22 de maio de 2011

 

SALTO NO TEMPO E NO ESPAÇO

 

O ano era 1956. Adhemar Ferreira da Silva se preparava para a final do salto triplo na Olimpíada de Melbourne, na Austrália. Rosemary Mula, 10 anos, havia acabado de se mudar da Inglaterra para a Oceania. Fascinada, assistia pela primeira vez a uma prova olímpica. “Eu estava com um grupo de crianças de colégio bem perto da pista. Ele foi o

único que veio falar com a gente. A partir daí, torcemos para ele durante toda a competição”, recorda.

 

Aos 25 anos, Adhemar conquistou o ouro no salto triplo. Assim como havia feito quatro anos antes, nos Jogos de Helsinque, na Finlândia.

 

Vinte anos depois, Rosemary e Adhemar voltaram a se encontrar em Cingapura. “Eu o vi e perguntei: ‘Você é o Adhemar Ferreira da Silva?’. Ele disse: ‘Eu te conheço?’.

 

Contei que o vi ganhar a medalha de ouro em 1956. Ele ficou eufórico e me abraçou”, rememora. A admiração se transformou em amizade. Na Olimpíada de Sydney, em

2000, Adhemar ficou hospedado na casa de Rosemary e do marido, onde comemorou seu aniversário de 73 anos. Seria o último. Em janeiro de 2001, Adhemar morreria em São Paulo, de parada cardíaca.

 

Tempos depois, Rosemary ouviu no rádio que alunos de uma escola pública em Sydney precisavam de ajuda para competir. Foi assim que começou um projeto para formar

atletas, uma homenagem ao amigo.

 

A escola de Westfields fica na periferia de Sydney e tem uma estrutura inferior em relação ao padrão australiano. Todos os anos, um aluno recebe uma bolsa, uma viagem de duas semanas para treinar em São Paulo e um convite para disputar o Troféu Brasil de Atletismo. Estar com boas notas é um pré-requisito.

 

Com o projeto, alunos australianos vêm ao Brasil. Do mesmo modo, desde 2007, jovens brasileiros têm a chance de competir na Austrália.

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ARTIGO por João Masao Kamita

 

INTERVENÇÕES NO RIO DE JANEIRO PARA A OLIMPÍADA ESPELHAM A LÓGICA DO EMPREENDEDORISMO E DO CRESCIMENTO IMOBILIÁRIO

 

Se até a Olimpíada de Los Angeles, em 1984, o esporte ainda se alinhava simbolicamente com as disputas nacionalistas e/ou disputas ideológicas entre o bloco capitalista e o socialista, após a queda do Muro de Berlim, em 1989, o cenário se alterou e os Jogos logo entrariam na era da globalização. Nesse novo estágio, os Jogos de Barcelona, em 1992, se impuseram como paradigmáticos. O sucesso do empreendimento transformou a cidade catalã e sua imagem, tornando-a um centro turístico singular em sua história e cultura e, ao mesmo tempo, cosmopolita em sua modernidade e inovação.

 

O momento espanhol conjugava dois fatores fundamentais: a redemocratização do país após a queda do regime de Franco e o crescimento econômico com a integração na comunidade europeia. Após longo período de decadência, a cidade viu a oportunidade de recuperar vitalidade com o projeto olímpico.

 

Em termos de gestão urbana, o modelo adotado se inseria já nas políticas neoliberais inauguradas na década anterior, com o encolhimento do papel do Estado na regulação e condução de políticas públicas, inclusive com corte no repasse de verbas federais para estados e municípios. O próprio Comitê Olímpico Internacional (COI) precisou se adequar às novas políticas, aproximando-se igualmente do mercado com uma estratégia mais agressiva de marketing com as grandes empresas esportivas e transformando os Jogos em um evento midiático global.

 

Do ponto de vista do planejamento urbanístico, a ação dos administradores públicos e dos urbanistas catalães abrangeu toda a cidade, que desde a década anterior já tinha elaborado um Plano Diretor, dando base às ações planejadas que consistiram na recuperação do centro histórico, na revitalização da área do porto, na criação de novas centralidades, na melhoria do sistema de infraestrutura de transporte, na construção de grandes edificações esportivas e culturais e no investimento forte nas novas tecnologias, sobretudo as de comunicações, pela expansão da rede de fibras ópticas.

 

Das edições subsequentes dos Jogos, cabe destacar duas: Pequim 2008 apostou na grandiloquência de suas principais instalações, o Cubo d’Água e o Ninho de Pássaro; Londres 2012, ciente do início da recessão mundial, assumiu uma postura objetiva e realista e retomou o modelo de Barcelona de valorização da cidade (e não de sua arquitetura espetacular) e de preocupação com o equilíbrio social.

 

Os contrastes entre os projetos de Pequim e Londres são evidentes: um, regime comunista que censura a liberdade de expressão, decide exibir sua modernidade e poder investindo na ostensiva (e custosa) retórica arquitetônica desenhada pelo star system da arquitetura contemporânea; outro, um governo de esquerda, rebaixa o monumentalismo arquitetônico para valorizar a dimensão social do legado. A decisão de locar o Parque Olímpico na parte leste de Londres, no bairro industrial de Stratford, zona proletária pobre e desassistida em relação à City e à parte oeste, exprime claramente a intenção de reequilibrar o tecido urbanístico e social, favorecendo as camadas populares e segregadas da área periférica. Evidentemente, a avaliação do legado londrino ainda está por ser feita, mas o que nos interessa na comparação Pequim/Londres são os modelos adotados e como o projeto olímpico da Rio 2016 dialoga com estes, tendo novamente como paradigma o caso de Barcelona 1992.

 

 

A candidatura do Rio se apoiava no bem-sucedido Pan de 2007 e reaproveitou parte dessa infraestrutura para a Olimpíada 2016, em seus três polos principais: Barra da Tijuca, que concentra a maioria das arenas e a Vila Olímpica, o estádio do Engenhão e o complexo de Deodoro.

 

Nesse ponto já notamos a diferença para com o projeto social de Londres, na medida em que, ao voltar o foco sobre a região da Barra, reproduz e intensifica o sentido dominante do crescimento imobiliário que vem ocorrendo na região urbana do município. A grande concentração de intervenções na zona sul da cidade complementa o programa traçado de fortalecer as centralidades já existentes.

 

O projeto urbanístico vencedor do concurso organizado pelo Instituto de Arquitetos do Brasil [IAB-RJ] foi o do escritório inglês Aecom, o mesmo que fez o Parque de Londres. Na península triangular se implantam as principais modalidades esportivas, bem como o centro de transmissão e a Vila da Mídia, áreas de lazer e estacionamento. Uma ampla via sinuosa corta o terreno ao meio, concentrando a maior parte das instalações esportivas na parte leste; na oeste, apenas as arenas de natação e tênis. A razão é liberar a área após o evento para a construção de edifícios e assim converter o parque em bairro residencial de alto padrão, o mesmo ocorrendo com a Vila dos Atletas nas proximidades. As opções são claras: o usufruto pós- Jogos será da alta classe média carioca.

 

Nova Praça Mauá exprime a ideia de cultura do espetáculo

 

A revitalização da zona portuária não estava contemplada nem no projeto do Pan nem no documento de candidatura da Olimpíada, mas foi incluída como estratégia da expansão comercial e cultural do centro histórico do Rio. O estágio de abandono dos grandes armazéns do cais e a deterioração dos antigos bairros da Gamboa, Santo Cristo e Providência reiteraram a importância e a urgência de intervir na área, dando origem ao projeto Porto Maravilha. Primeiro, promoveu-se uma mudança na legislação do uso do solo, liberando o gabarito e a densidade de ocupação da faixa ao longo do porto, estabelecida sob o regime das parcerias público-privadas para viabilizar os recursos para financiar as obras de renovação. A ligação de continuidade entre o tradicional centro histórico e de negócios do Rio e a renovada zona portuária se localizou na praça Mauá. Ali, arte e arquitetura encontraram o seu grande palco. Nenhuma outra intervenção exprime melhor a ideia da cultura do espetáculo que a nova praça Mauá com seus equipamentos culturais (museus e monumentos históricos) e vista deslumbrante para a baía de Guanabara, consequência da demolição do elevado da Perimetral, que seccionava a área.

 

A nova praça é, em certo sentido, a síntese das aspirações da cidade do Rio de Janeiro pelos grandes eventos. Árida e abstrata, a nova praça tem por função se colocar como palco de chegada dos transatlânticos turísticos e mirante de contemplação da paisagem da baía. As duas instituições culturais – O Museu do Rio de Janeiro e o Museu do Amanhã – evidenciam a contradição fundamental do projeto de cidade do urbanismo olímpico. O MAR representa a conciliação do passado com o presente: o palácio eclético e o edifício modernista unidos pela jocosa cobertura sinuosa. A história do Rio de Janeiro é o seu conteúdo, por isso toma como partido curatorial expor as singularidades da cultura, do passado, da vida carioca. O Museu do Amanhã representa o voo para o futuro, essa promessa de redenção trazida pelo novo ciclo de prosperidade. Com sua arquitetura espetacular, ele é a expressão da linguagem internacional, lugar de todas as línguas, sotaques e idiomas. Essa arquitetura poderia estar em qualquer localização, pois o seu usuário-tipo é o turista. O ponto em comum entre os dois museus é a abertura para a deslumbrante paisagem da baía de Guanabara.

 

Por fim, o Parque Olímpico de Deodoro, construído na área militar, recebeu novas instalações para as competições menos divulgadas, como canoagem, tiro, hipismo, ciclismo, mountain bike e outras, com a promessa de que como legado a área se converta num grande parque de esportes radicais e de lazer para a população da região. O complexo de Deodoro é o que tem menos evidência na cobertura da mídia, embora se encontre na área de maior densidade habitacional da região metropolitana do Rio.

 

Os Jogos ocorrerão em quatro regiões: Barra, Deodoro, Maracanã e Copacabana. Logo a conexão entre tais núcleos tornou-se prioritária no projeto olímpico da cidade. Uma série de alternativas foi aberta para implementar a mobilidade urbana, como a expansão do metrô com a linha 4 e a introdução dos sistemas de ônibus rápido (BRT) e de veículos leves sobre trilhos (VLT). Acrescentem-se os investimentos na área de segurança pública (apesar da crise atual do estado), que começaram com a implementação das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs), em vista da preparação para a Copa do Mundo de 2014.

 

O discurso oficial da administração municipal não cansa de afirmar que o custo das obras foi financiado em grande parte pelo capital privado, pouco mobilizando a verba pública. Esse modelo de gestão ficou conhecido como o novo empreendedorismo. Se a parceria com a iniciativa privada se justifica pela agilidade, flexibilidade e mobilidade, fatores que a burocracia do Estado não consegue ultrapassar, o que fica em suspenso (intencionalmente, eu diria) é o papel da autoridade pública.

 

Na retórica oficial, tudo se sintetiza em uma palavra: legado. Melhoria na mobilidade urbana, criação de novos empregos, acréscimo de áreas públicas, atração de investimentos, visibilidade internacional. Porém não só de promessas de futuro se alimenta a retórica oficial; outra mais perniciosa, reiteradamente acionada, foi a de, em nome dos prazos exíguos e da necessidade das obras, invocar argumentos de “força maior” para justificar e implementar as mudanças: decisões não passíveis de discussão e avaliação, mecanismos legais de dispensa de licitações, verbas adicionais, alterações súbitas no projeto-base, enfim, um conjunto de deliberações tomadas entre as instâncias (administração pública, Fifa, COI, COB, empresas patrocinadoras) sem participação da sociedade civil, configurando um processo obscuro e arbitrário. Apenas para darmos um exemplo, tomemos o caso da linha 4 do metrô. Até agora não houve uma explicação razoável (técnica, econômica ou política) para a adoção do trajeto único e linear, atravessando meia cidade. O sistema de metrô predominantemente se define por um conjunto de linhas articuladas, para garantir uma cobertura mais abrangente do serviço. A opção pelo trajeto linear implica sobrecarga das composições e das estações ao longo do percurso, contrariando a lógica de distribuição adotada para qualquer transporte público de massa.

 

As repercussões dessa parceria entre público e privado na esfera do urbanismo são evidentes e sintomáticas. Quando o Estado tinha atribuições regulatórias tanto do uso e construção do espaço físico como da implementação de políticas públicas para suprimir desequilíbrios sociais, o urbanismo tinha a totalidade da cidade como objeto de suas estratégias e formulações. O modernismo aceitou o desafio e desenvolveu metodologias de ordenação do espaço físico para assim garantir o bem coletivo, porém a eficácia e viabilidade de suas proposições dependiam de uma forte centralização das decisões políticas. Com a crise do modernismo, surgiu a desconfiança em relação a qualquer modelo totalizador, e a cultura do local e do fragmento se impôs no pós-modernismo. No Rio de Janeiro, vimos tal mudança de concepção com o projeto Rio-Cidade, elaborado pelo arquiteto, urbanista e depois prefeito Luiz Paulo Conde, cuja ideia propulsora fora revitalizar os principais corredores da cidade para desse modo incrementar a qualidade de vida e irradiar sua energia renovadora na escala do bairro, configurando-se desse modo uma operação flagrantemente contextualista.

 

A lógica do “urbanismo olímpico” é completamente distinta: sua estratégia é realizar “grandes projetos urbanos ”capazes de atrair investimentos e desse modo trazer vitalidade econômica, especialmente pela valorização imobiliária, para áreas novas ou requalificadas.

 

A intenção é apresentar a cidade como um lugar inovador, estimulante, atrativo, com instalações modernas e adequadas para visitar e consumir.Um investimento maciço é mobilizado para criar zonas de alta tecnologia e interatividade, intensificando centralidades existentes e requalificando outras para produzir uma nova sinergia. Porém o mais perturbador é que essa lógica não considera a questão da desigualdade urbana e social; muito ao contrário, aceita tal condição e a estimula.

 

Na retórica oficial, tudo se sintetiza em uma palavra: legado

 

Nessa lógica do capitalismo tardio, o urbanismo perde sua importância de instância regulatória e organizacional do território, e a arquitetura deixa de lado sua preocupação com o programa de natureza social e com o ajuste rigoroso entre funcionalidade, economia e razão estrutural para se converter em imagem sedutora para atrair uma nova massa de consumidores. Contudo, diante da competição entre os grandes centros para captar novos olhares, a cidade deve contrabalançar a imagem de pulsante espaço cosmopolita com a afirmação da sua particularidade em relação aos seus competidores. Assim, o Rio 2016 deve oferecer estruturas tão ou mais modernas quanto as competidoras, logo deve ser equivalente a elas em brilho, velocidade e espetáculos, mas isso, paradoxalmente, significa se igualar a todas as outras cidades. Por isso, deve simultaneamente produzir a imagem de uma cidade única, singular, inigualável. Trata-se, portanto, de uma “guerra de imagens”, e aí a cultura assume importância na confecção desse capital simbólico, colocando a estética a serviço do empreendedorismo urbano.

 

 

JOÃO MASAO KAMITA

É arquiteto formado pela Universidade Estadual de Londrina, mestre em História Social da Cultura pela PUC-Rio e doutor em Arquitetura pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP. É professor da PUC-Rio.

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ARTIGO por Lamartine DaCosta e Ana Miragaya

 

TEMA QUE ENVOLVE OS BENEFÍCIOS INTANGÍVEIS DA REALIZAÇÃO DE GRANDES EVENTOS É CONTROVERSO, A COMEÇAR POR SUA DEFINIÇÃO, MAS ESTUDOS RELACIONAM CIDADES OLÍMPICAS À CONSOLIDAÇÃO DE MEGALÓPOLES E CIDADES GLOBAIS

 

As questões suscitadas pela realização dos Jogos Olímpicos no Rio de Janeiro em 2016 – tanto antes, durante e depois do evento – têm centrado a atenção na criação de legados. O tema é controverso pela própria natureza desde que são identificados legados “intangíveis”, reconhecidos como existentes, porém de difícil tradução em dados e números.

 

Um exemplo típico desse produto abstrato dos megaeventos esportivos é a imagem renovada das cidades que abrigam tais grandes acontecimentos. Ou seja, uma cidade mais receptiva a visitantes ganha uma moldura simbólica nem sempre quantificável, mas que se torna uma referência de suas atrações e sentido de pertencimento. Nessa perspectiva, insere-se habitualmente Barcelona, que hospedou os Jogos Olímpicos de 1992 e, desde então, tornou-se um modelo de legado simbólico por manter viva sua imagem de cidade acolhedora até os dias presentes.

 

Há, entretanto, outras possibilidades de criação de legados simbólicos, entre os quais pode-se incluir a megalópole São Paulo-Rio, uma aglomeração há muitas décadas existente, mas hoje potencialmente habilitada à incorporação de uma imagem de maior receptividade a visitantes, além de outras vantagens; tal possibilidade é decorrente da renovação da cidade do Rio de Janeiro com consequentes impactos em regiões vizinhas em razão dos Jogos Olímpicos de 2016 e de seu longo período de preparação, iniciado em 2009.

 

A hipótese da geração de um legado simbólico pós-evento 2016 no eixo São Paulo-Rio foi desenvolvida pelos autores do presente texto em associação com Cristiano Belém e André Gavlak numa pesquisa promovida em 2010-2011 pela Universidade de East London, no Reino Unido. 1 O foco do estudo incidiu sobre o legado como resultado da melhoria ou regeneração da cidade-sede (city building) e de seu entorno (place shaping). A justificativa dessa opção é que a escala e o custo dos Jogos Olímpicos na atualidade solicitam de seus organizadores a entrega de resultados não esportivos como legados das cidades e da nação que os sediam.

 

No contexto da definição da East London sobre legados, a aglomeração São Paulo-Rio tinha sido identificada por várias fontes, incluindo as Nações Unidas em 2005. Esses estudos em geral indicavam a existência de uma conturbação como efeito de expansão urbana descontrolada, típica dos países em desenvolvimento. Na pesquisa citada, porém, delimitou-se a megalópole contrapondo fatores subjetivos ao equilíbrio ecológico (florestas naturais e áreas de proteção ambiental) e à distribuição da população e dos meios de emprego e renda.

 

O resultado da análise socioambiental foi a identificação da megalópole SAM RIO, denominação para os relacionamentos da cidade São Paulo (SA) – maior centro econômico e industrial do Brasil e da América Latina – com áreas limítrofes do estado de Minas Gerais (M) e do estado do Rio de Janeiro (RIO), que criaram um continuum de polos urbanos em rede que incorporam a cidade do Rio de Janeiro. Nessa região definida por corredores de montanhas cobertas por florestas, há um diversificado desenvolvimento tecnológico e industrial de classe mundial. Por sua vez, a feição subjetiva foi entendida pela simples significação da megalópole em seu todo.

 

Uma tentativa de identificar os fundamentos da SAM RIO ocorreu no ano 2000 por um estudo desenvolvido na Universidade de São Paulo (USP) por Bruno Padovano, que integrava aquela megalópole às cidades vizinhas formando uma rede de núcleos habitacionais autônomos. A proposta criava a então denominada “Ecópole Oeste”, que unia São Paulo à cidade de Sorocaba (400 mil habitantes), passando por diversos outros centros urbanos menores, criando um corredor de áreas verdes entremeado de edifícios residenciais a serem construídos e apoiados por transporte ferroviário. O modelo Padovano pode hoje ser tipificado como city building e place shaping, ao passo que o modelo Alquéres atribui prioridade à sinergia econômica a ser obtida pelas históricas conexões entre as cidades do Rio de Janeiro e de São Paulo. Em suma, ambas as propostas são complementares e constituem respostas iniciais à questão central de postular a sustentabilidade (social, econômica e ambiental) como base para a ampliação da região de influência e respectivo legado dos Jogos Olímpicos de 2016.

 

Nessa questão particular, definiu-se 2, que considerou a base do legado olímpico de 2016 relativo à SAM RIO como associada ao fenômeno das cidades globais. Essa tendência geralmente refere-se à rede de localizações urbanas internacionalizadas, que estão crescentemente se tornando interdependentes entre si, com suporte na tecnologia de informação (TI) relacionada mais a intercâmbios internacionais – cultura, finanças, turismo etc. – do que à população ou ao tamanho.

 

Portanto, cidades globais são produtos finais da crescente expansão da urbanização em qualquer país, agora alcançando cerca de 80% da população mundial. Tal tendência planetária não tem sido, todavia, considerada de modo explícito pelo Comitê Olímpico Internacional (COI) nas licitações para escolha das cidades anfitriãs dos Jogos Olímpicos, preferindo-se, no caso, escolher cidades-sede com o significado de “legado” diante dos novos contextos de sustentabilidade.

 

Nessas circunstâncias, o estudo citado de 2015 partiu tanto de tendências atuais das cidades globais quanto se dirigiu à crescente adoção da sustentabilidade na qual se pôde inserir a cidade do Rio de Janeiro e de seu entorno urbanizado como cenário para testar interpretações de legados. Desse modo, fez-se um exercício comparativo, considerando o grupo das três cidades finalistas para a candidatura dos Jogos Olímpicos 2020, em conjunto com Londres 2012 e Rio de Janeiro 2016, ambas já antes selecionadas.

 

Tendo o Global Cities Index, desenvolvido pela A. T. Kearney Consulting (2014), como base de indicadores para a pretendida comparação, Londres situa-se na segunda posição entre 84 cidades globais – consolidadas e emergentes –, um total que reflete tendências abrangentes da intensa urbanização hoje em progresso nos cinco continentes. O estudo inclui também o Rio de Janeiro na 56ª posição, porém, ao fazer a associação com São Paulo, em face à amplamente reconhecida megarregião São Paulo-Rio, essa última classificação pode se alterar para a 34ª posição, referente à cidade de São Paulo. Nessa listagem, Tóquio aparece em 4º e Madri em 15º, com Istambul alcançando a 28ª colocação, depois de estar em 41ª em 2010. Em termos de conjunto, as cidades olímpicas Londres e Rio de Janeiro, em adição às três cidades candidatas aos Jogos Olímpicos de 2020, estão todas hipoteticamente mantendo seu status ou procurando uma melhor posição entre as cidades globais. Não houve surpresa, portanto, com a escolha pelo COI de Tóquio para sediar a Olimpíada que se seguirá à do Rio de Janeiro.

 

Nessa agregação, qualquer escolha para sede dos Jogos 2020 compreende um ciclo de tempo válido para comparações de 15 anos. Portanto, as cinco cidades envolvidas com candidaturas dos últimos anos revelam a coincidência de terem ou buscarem influência global. Em suma, essa constatação pode ser entendida também pelo fato de as cidades globais estarem sobrepujando os países em que se situam. Tais evidências confirmam, por meio de comparações, a existência de uma sobreposição de tendências globais que estão influenciando os Jogos Olímpicos.

 

CIDADES GLOBAIS SÃO PRODUTOS FINAIS DA CRESCENTE URBANIZAÇÃO EM QUALQUER PAÍS

 

Um teste para se apreciar tais relações globais incide sobre a observação das mudanças climáticas associadas à gestão de risco, que são inerentes à sustentabilidade. Isso posto, importa destacar que a região SAM RIO tem 46,8 milhões de habitantes, distribuídos em corredores típicos, consistindo o primeiro em agregados industriais e de serviços – incluindo tecnologias – e os demais, em três áreas longitudinais com montanhas e florestas em que ocorrem frequentemente acidentes ambientais (deslizamentos e enchentes). Essa combinação de áreas verdes,comunidades residenciais (pobres e remediadas) e locais de trabalho implica o desafio de ter uma governança ambiental que possa combinar mudanças climáticas com requisitos de sustentabilidade, além do controle de impactos negativos. Assim, a pesquisa de DaCosta, Miragaya e associados, de 2011, focalizou a distribuição da população com emprego e oportunidades de ciência e tecnologia usando o Geographic Information System (GIS, dados espaciais coletados por satélites), método que identificou uma área com extensão de 700 km lineares, que delimitou a megacidade SAM RIO, correspondendo, portanto, à área previsível de governança dos Jogos Olímpicos de 2016. Embora não seja uma área de reconhecimento oficial, o aglomerado SAM RIO representa uma moldura simbólica para a observação das relações entre cidade global e cidade olímpica. De resto, a delimitação de legados, nesse contexto de governança, será sempre um exercício de gestão e responsabilidade localizada.

 

1 Andrea Deslandes, Lamartine DaCosta e Ana Miragaya (eds), O futuro dos megaeventos esportivos, livro digital disponível em: http://bit.ly/1Rm5TjR.

2 Lamartine DaCosta e Ana Miragaya, O Futuro dos Megaeventos Esportivos: Legados e Parcerias Responsáveis, in O futuro dos megaeventos esportivos, Op. Cit.

 

 

Lamartine DaCosta

 

É professor da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj) e pesquisador do IOC Advanced Research Grant Programme, do Comitê Olímpico Internacional.

 

Ana Miragaya

É professora da Faculdade de Educação Física da Universidade Estácio de Sá e membro do Selection Committee – Olympic Studies Centre do Comitê Olímpico Internacional.

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CRÔNICA por Joaquim Ferreira dos Santos

 

Tão importante quanto os textos de Rubem Braga, a calçada é fundamental para se entender a crônica carioca. Tirem a calçada da Avenida Central, no século passado, e não teríamos João do Rio. Sem elas, J. Carlos não poderia desenhar as melindrosas perseguidas pelos almofadinhas, a melhor crônica visual da belle époque. Meio século depois, Tom e Vinicius não teriam visto passar, pela calçada da rua Montenegro, a Garota de Ipanema a caminho do mar, a melhor crônica musical da mulher carioca.

 

Há quem tenha saudade do frapê de coco do bar Simpatia ou do lapskaus do restaurante Ficha, ambos no Centro, ambos findos. Eu, cronista da cidade, tenho saudade das calçadas. Foram-se, atravancadas pela multidão, tomadas por ocupações diversas, por fradinhos e obstáculos impeditivos de sua precípua finalidade – a de passarela suave, para que a vida se deixe escorrer, leve e sem atropelamentos, como tudo deve ser.

 

Elas permitiam a meus antepassados – cidadãos como Machado de Assis e Lima Barreto – flanar de um lado para o outro. Os dois, e Benjamim Costallat, e Olavo Bilac, e mais tantos outros cronistas, observavam as modas, davam uma geral para onde caminhava a humanidade. Depois, cheios de assunto, com estilo serelepe, bem-humorado, como se conversassem com o leitor sobre o que tinham visto, escreviam suas crônicas geniais.

 

O cronista é uma instituição tão clássica do Rio quanto o malandro na Lapa e a mulata assanhada na roda de samba. Joaquim Manuel de Macedo via o mundo a partir da rua do Ouvidor, assim como João do Rio reuniu suas andanças em A alma encantadora das ruas. Antonio Maria descreveu a Copacabana dos anos 1950; Carlinhos Oliveira, o Leblon dos anos 1970.

 

Todos tinham a pena com uma tinta mais delicada que a dos demais “transeuntes”, um palavrão que certamente evitariam. O talento, no entanto, não basta. Sem as calçadas a lhes servirem de inspiração, nada da cena carioca descreveriam. Elas eram o grande mirante da nossa aldeia.

 

Por isso, sem saber se serão resolvidos os problemas viários, e principalmente sem qualquer proselitismo político, eu saúdo o novo desenho do Centro. A abertura das monumentais Praça XV e Praça Mauá, mais a transformação em boulevard de trechos da Rio Branco e da Rodrigues Alves trazem de volta os largos espaços para que as pessoas exerçam um dos mais delicados exercícios da existência – o prazer de irem daqui até ali, conversando com quem lhes estiver ao lado, chutando chapinhas ou olhando o que vai em volta.

 

A crônica existe em todos os lugares do mundo e em cada um desenvolveu um jeitão de tratar o cotidiano. É um meio de caminho descomplicado entre a literatura e o jornalismo. As calçadas do Rio foram fundamentais para que se desenvolvesse um estilo próprio, que tem a cidade como musa e o cronista como observador persistente. Ora ele é deslumbrado com a beleza invulgar do cenário, ora é crítico com os descaminhos do “progresso”. A uma ou outra conclusão, o cronista chegava durante a caminhada. Deixava que o vento das ruas batesse no rosto da sua literatura peripatética e daí dava-se o milagre da palavra que puxa outra palavra, numa conversa que flui fácil com aquele gosto de a insustentável leveza do texto.

 

O novo Centro reconhece a importância das calçadas como um direito intrínseco à carioquice. É uma pena que os tatuís tenham se ido de Copacabana, da mesma maneira que os coretos sumiram do carnaval suburbano – mas ter essas passarelas de volta, uma delícia antiga, contrastando com o design atualizado do Centro, não é pouca coisa. Fernando Sabino, Drummond e Bandeira passearam por aqui. Agora é com vocês, jovens cronistas – ocupem as calçadas modernas.

 

 

JOAQUIM FERREIRA DOS SANTOS

É escritor, jornalista e crítico musical. Autor dos livros Leila Diniz (Companhia das Letras) e Em busca do borogodó perdido (Objetiva), entre outros.

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O movimento que descreve a trajetória de um atleta de ponta e simboliza a busca de qualquer pessoa por um momento de superação está presente no lema Somos Todos Olímpicos, criado pela Globo para expressar o espírito de união em torno do maior evento esportivo mundial, que tem sua 31ª edição da era moderna no Brasil.

 

 

Somos Todos Olímpicos é um ideal que não se restringe à cobertura esportiva. É também uma estratégia de comunicação, que pretende engajar os brasileiros no conceito. Diversas ações fazem parte dessa campanha, iniciada 500 dias antes da abertura dos Jogos. Na volta às aulas, estimulando alunos a encarar a escola com garra e dedicação; no Dia Internacional da Mulher, reforçando as conquistas femininas de cada dia; na Ação Global 2016, mutirão de serviços oferecidos à população, em parceria com o Sesi, que enfatizou o esporte como elemento promotor da cidadania e de melhoria da qualidade de vida; e nos filmes de contagem regressiva, de um ano e, depois, de 100 dias antes da abertura.

 

Em termos audiovisuais, o conceito Somos Todos Olímpicos foi traduzido pelo filme Looping e virou música, com versões interpretadas pela Orquestra Sinfônica de Los Angeles e por um time de estrelas da MPB, como Zeca Pagodinho, Michel Teló, Carlinhos Brown e Ivete Sangalo, entre outros.

 

No diapasão do espírito olímpico, a Globo faz, nesta edição dos Jogos, a maior e mais abrangente cobertura da história, com 10 horas diárias de conteúdo olímpico noar, além de um canal exclusivo, disponível na plataforma Globo Play na internet. Para ajudar a contar essas histórias, a emissora formou seu Time de Ouro, reunindo alguns dos mais importantes ídolos do esporte brasileiro: Guga, Hortência, Giba, Gustavo Borges, Daiane dos Santos, Flávio Canto, Maurren Maggi, Tande, Emanuel, Fabi, Shelda e Lars Grael. Todos os telejornais da rede são transmitidos do Estúdio Olímpico, que foi especialmente construído no coração do Parque Olímpico da Barra da Tijuca. Um espaço tecnológico de três andares, com visão privilegiada de todas as arenas. Um camarote para o maior evento esportivo do planeta, que reúne 206 países, em delegações com mais de 14 mil atletas, num dos principais exemplos de congraçamento de povos que o mundo pode produzir. Por isso, somos todos olímpicos.

 

 

 

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