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EDITOR

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Gisele Gomes

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Fatima Gonçalves

Gisele Gomes

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Juan Crisafulli

Leticia Castro

Paula Nakahara

Willy Hajli

CADERNO N. 9

São Paulo, maio 2016

Tema: Vozes do Velho Chico

ISSN 2357-8572

Editor: Globo Comunicação e Participações S.A.

Globo Universidade

Endereço: Rua Evandro Carlos de Andrade, 160

São Paulo – SP – CEP 04583-115

EDIÇÃO DIGITAL

O aplicativo do Caderno está disponível para computadores, tablets e celulares de todos os sistemas operacionais.

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© Copyright 2016 Globo Comunicação e Participações S.A.

O São Francisco é um rio de muitas vozes. Em suas margens pulsa uma sociedade vibrante, de gente que vem aprendendo ao longo dos anos a conviver com as dificuldades do semiárido, a enfrentar seus desafios e a descobrir seus potenciais, desenvolvendo tecnologias e práticas de plantio, manejo e produção de alimentos que conjugam ecologia, sustentabilidade, desenvolvimento e bem-estar da população local.

O Velho Chico, como é apelidado carinhosamente em todo o país, é o rio que inspira o rap, a poesia e o grafite de Euri Mania e tantos outros jovens artistas e ativistas locais. É o rio que produz vinhos de alta qualidade, que têm atraído enólogos do mundo todo com suas condições sem igual de produção.

É o rio que irriga um dos principais celeiros da fruticultura nacional, num local que vem desenvolvendo e ampliando sua vocação turística. É o rio dos amantes de rapel, canoagem e mergulho. É o rio de Ozaneide Gomes dos Santos, assentada da reforma agrária que, ao lado de outras mulheres de sua comunidade em Petrolina, vem encontrando soluções onde antes só se viam obstáculos. É o rio que transborda de expressões artísticas e manifestações culturais, de uma gastronomia rica e variada. E também o rio que inspira cuidados, emite seus recados de alerta, agoniza com anos e anos de descaso e descuido ambiental.

São as vozes desse rio do Brasil do século XXI, com toda a sua diversidade, polifonia e potência, que esta edição do Caderno Globo se dedica a escutar e repercutir.

A publicação aproveita o momento em que o São Francisco está em evidência nas telas – como protagonista e cenário da novela das nove, Velho Chico, de Benedito Ruy Barbosa, escrita por Edmara Barbosa e Bruno Luperi, com direção artística de Luiz Fernando Carvalho – e na pauta de várias reportagens e programas da Globo para estimular o debate e aprofundar a reflexão sobre o rio e suas vozes. Para essa conversa, convidamos antropólogos, historiadores, sociólogos, artistas, músicos, críticos de arte, ambientalistas, agrônomos, jovens estudantes e representantes das comunidades ribeirinhas para compartilhar seus pontos de vista e histórias relacionadas ao Velho Chico.

Em sua nona edição, o Caderno também aparece de cara nova. O projeto gráfico, remodelado pelos designers da Casa 36, reflete as cores, a vibração e a diversidade dos temas abordados pela publica ção. Outro destaque são os títulos, todos caligrafados manualmente pela artista Ale Kalko.

Este Caderno faz parte de um projeto mais amplo voltado para o Velho Chico, que incluiu atividades como:

Workshops para a equipe da novela Velho Chico, antes do início das gravações, em novembro de 2015 O seminário Vozes do Velho Chico, com debates, palestras e intervenções artísticas, no Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro

O seminário Vozes do Velho Chico, com debates, palestras e intervenções artísticas, no Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro, em março de 2016

O lançamento da parceria inédita de cooperação técnica entre a Globo e a Conservação Internacional (CI-Brasil), em março de 2016

A oficina para alunos de Artes Visuais e estagiários de Jornalismo da Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf), em abril de 2016, que resultou em minidocumentários sobre moradores da região

O lançamento do Caderno Globo , em maio de 2016, no Rio de Janeiro e em Juazeiro, com debates, bate-papos, exibição de documentários e palestras abertas ao público


Boa leitura!

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DO BATISMO AO FUTURO INCERTO, ESTUDIOSO FAZ UM APANHADO DOS PRINCIPAIS ASPECTOS QUE ENVOLVEM A HISTÓRIA DO RIO SÃO FRANCISCO

Discorrer sobre o rio São Francisco requer navegar por vários sentidos, de diferentes modos. Foi com essa abordagem múltipla que Roberto Malvezzi falou, durante um workshop em novembro do ano passado, antes de começarem as gravações da novela Velho Chico, para integrantes da equipe e do elenco. Paulista de Potirendaba, chegou ao interior da Bahia em 1979 com a intenção de ficar um mês nas comunidades rurais de Campo Alegre de Lourdes, divisa com o Piauí. Acabou fixando residência e está até hoje na região. A seguir, extratos da apresentação de Malvezzi

Os rios e as civilizações

As grandes civilizações surgiram ao redor de grandes rios: o Nilo, no Egito; os bíblicos Tigre e Eufrates (na região da Turquia, Síria, Iraque e Irã), que estão na origem da civilização humana tal qual a conhecemos; o Tâmisa, na Inglaterra; na França, o Sena e o Loire, este o mais longo rio do país, com mais de mil quilômetros; o Ganges, na Índia; o rio Congo, com o maior delta do mundo; o Mississippi, nos Estados Unidos – o primeiro vapor que chegou ao São Francisco veio do Mississippi; há uma réplica dele numa praça em Juazeiro, na Bahia. Um rio não vem sozinho, quando há um povo em volta, constrói-se toda uma cultura, todo um jeito de lidar com aquele rio, toda uma personalidade para aquela população

Fluxo das águas

Do total da água do planeta, 97% são salgadas, só 2,5% são doces. E desses 2,5% de águas doces, 68% estão nas geleiras, 30% no subsolo, nos aquíferos, e só 0,3% nos lagos e rios. A natureza se organizou assim. Tem muita gente que diz: “Tanta água salgada e tão pouca água doce”. Não, a água doce que nós bebemos vem dos oceanos, pelo processo do ciclo das águas. Quando a água do oceano evapora, só vem H2O, o sal não vem junto. Depois as águas retornam aos oceanos, e tem muita vida que depende da água salgada. Agora que os rios são poucos e frágeis não tem dúvida nenhuma.

No Brasil, temos a maior rede de bacias hidrográficas do planeta, até dividimos em grandes regiões. A região hidrográfica do São Francisco é uma das dessas 12 regiões hidrográficas do território brasileiro. Possui uma área de 640 mil km² (7,52% de todo o território nacional) e abrange sete estados brasileiros, representando 1,7% de nossas águas.

História que vem de longe

Ao longo do rio São Francisco, embora não esteja propriamente na região de sua bacia hidrográfica, encontram-se painéis rupestres, tanto na região de Paulo Afonso como na região de Sento Sé, de populações que habitavam o Brasil há 17 mil, 18 mil anos. Ou, de acordo com estudos da antropóloga Niède Guidon, há mais de 48 mil anos. Entre os animais desenhados, há tatus gigantes – dizem os antropólogos e arqueólogos que eram do tamanho de um Fusca – e o tigre-dente-de-sabre. No Museu do Homem Americano, em São Raimundo Nonato (PI), existem fósseis desses animais e também das pessoas que habitavam a região.

Brasileiro de fato

O São Francisco é o principal rio brasileiro, ele é totalmente nacional. Nasce e termina no Brasil. Se considerarmos sua nascente da serra da Canastra, ele tem 2.814 km – mas novas medições consideram agora a nascente em outro município, e dessa forma ele iria ainda mais longe, atingindo 2.863 km. Passa por oito estados, termina entre Alagoas e Sergipe. São 505 municípios – 409 totalmente dentro da bacia e alguns com parte do seu território fora –, população de 18 milhões de habitantes.

É o único rio que corre do sul para o norte. Desce na chamada depressão sertaneja. É o único rio perene no semiárido brasileiro. Fora o Parnaíba, que não é um rio propriamente só do semiárido.

Ciclo da Caatinga

O semiárido tem alguns meses de chuva e durante o resto do ano ele é seco mesmo. Mas isso não é um problema para a natureza: a Caatinga não morre, ela dorme. Ela poupa água, poupa energia, poupa flores para quando a chuva voltar. Uma semana depois da primeira chuva, a vida reaparece – quando tudo parecia morto, a Caatinga, as flores, as borboletas, as abelhas, as formigas, os pássaros. É uma espécie de ressurreição. Não tem nada mais espetacular. Existe todo um processo vinculado ao ciclo das águas do semiárido que faz com que aqueles rios só corram em tempos de chuva.

Porta do sertão

A história do Brasil, sertão adentro, começa no São Francisco. Para identificar o litoral brasileiro, Vasco da Gama, a cada lugar a que chegava, olhava o calendário católico e via qual era o santo do dia – por isso, São Sebastião do Rio de Janeiro, São Vicente ou baía de Todos os Santos, em Salvador. Ele chegou à foz do rio no dia 4 de outubro, dia de São Francisco. Assim, deu o nome de São Francisco ao rio que os índios chamavam de Opará, que significa “o rio que é um mar”, ou “rio-mar”.

A entrada no São Francisco representou um massacre da população indígena local. Os colonizadores entravam e se apropriavam das terras, faziam guerra aos índios. Com eles vinham os franciscanos, que faziam os aldeamentos e ocupavam o São Francisco. A ocupação do São Francisco começou em 1550 e continuou até os séculos XVII, XVIII.

Origens da mistura

Até a Independência (1822), vigorou no país o regime de sesmarias, segundo o qual lotes de terra eram distribuídos aos sesmeiros, que ficavam obrigados a cultivá-la para a produção agrícola. Esse sistema foi abolido no Império, a partir de um projeto de José Bonifácio de Andrada e Silva, e a posse de terras só começou a ser regularizada, no Brasil, a partir de 1850, com a promulgação da Lei de Terras, que de certa forma está presente até hoje.

Só tem acesso à terra no Brasil quem puder comprar ou receber por herança. Formalmente, depois que acabou o regime das sesmarias, o sesmeiro podia continuar na terra que tivesse efetivamente trabalhado; as demais, tinha de devolver. Esses lotes seriam as chamadas terras devolutas.

Para muitos, a promulgação da Lei de Terras, em 1850, foi uma forma de antecipar o fim da escravidão. Quando se percebeu que não dava mais para segurar a mão de obra escrava, prende-se a terra.

Nos Estados Unidos foi diferente. Após a abolição, cada casal de escravos ganhou um pedaço de terra, uma junta de bois e uma carroça para começar a vida. No Brasil, não. Os negros foram libertos, mas não tinham para onde ir. E aí surgiu uma imensidão das chamadas terras devolutas. Calcula-se que 40% das terras da Bahia são devolutas. Se a terra é devoluta, é de quem? É do Estado. O retalhamento das sesmarias originou as fazendas, do núcleo central se originaram os povoados e as cidades. E da miscigenação de índios, negros, brancos surgiu o povo são-franciscano. Um povo que surgiu seja por violência, seja por estupro, seja porque os donos das casas se sentiam donos sexualmente das negras, seja por consentimento. Os estudiosos dizem que havia muita miscigenação de negros e índios. E aí pode-se dizer que talvez fosse mais por consentimento. Ainda havia muita “índia pega a laço”, que era obrigada a fazer trabalhos domésticos e também os serviços sexuais para os donos das casas e das fazendas.

Briga de coronéis

Na disputa pela terra do Vale do São Francisco, já no final do século XVII, há registro de fazendas ao longo do São Francisco. No século XIX, os coronéis entravam pelas terras, ao longo do rio, e instalavam um casal de escravos, negros, de 50 em 50 quilômetros. A função deles era criar gado, por isso o São Francisco ficaria conhecido também como rio dos Currais. Eles instalavam esses currais ao longo do rio, deixando os escravos para cuidar do gado, porque no litoral havia plantações de cana-de-açúcar, e elas não eram cercadas. Se o gado ficasse ali, comeria a cana. Então, criavam o gado no sertão.

Desenvolveu-se então o costume dos chamados “fundos de pasto”, que perdura até hoje. O gado é criado solto, pastava num canto, pastava no outro, ia pastar no quintal do vizinho, até na terra do vizinho, não tinha problema. As comunidades que vieram depois vão guardar esse costume até hoje, as áreas comunitárias, chamadas fundo de pasto. Você tem comunidades em que a área da terra é comum. É fantástico, o pessoal que vem de fora tem uma imensa dificuldade de entender isso.

Dinâmica da política

Dinâmica da política Em 1831, se formou a chamada Guarda Nacional, da qual o coronel podia comprar uma patente. Coronel era alguém que se nomeava assim não por metáfora, mas porque podia ter um grupo armado, seus jagunços. Isso só acabaria com Getúlio Vargas, que, na Revolução de 1930, passou a derrubar os coronéis do Brasil inteiro – pelo menos aqueles coronéis clássicos, porque o modo coronelístico de fazer política ainda se manteria. Hoje muito mais enfraquecido, mas presente. Os jagunços tinham controle total do município. Se hoje o sertão ainda tem áreas isoladas, imagine 200 anos atrás. Para ir de um lugar a outro, ou se ia a cavalo ou pelo rio São Francisco. Depois veio a ferrovia, ligando Salvador a Juazeiro, mas, de resto, para ir ao Sudeste era preciso subir de Juazeiro até Pirapora para pegar a estrada de ferro. Ali ficava o trecho navegável, por isso os vapores vieram depois.

Com essa política do poder local, veio também o compadrio. Ele funcionava de acordo com a lógica: “Você me serve, faz o serviço da minha casa, eu deixo você morar na minha terra, dou-lhe de comer, você ajuda a proteger a minha propriedade e eu o protejo”. Um era padrinho, o outro era afilhado, tinha de pedir a bênção. Na relação de compadrio, não há só a questão política de dominação, há algo afetivo.

Beatos e jagunços

Fala-se muito nos beatos, nos jagunços, nos cangaceiros do sertão. Eles não são tão distantes uns dos outros nem representam rupturas; são fenômenos de uma mesma realidade, brutal, dominada por coronéis. Para escapar desses coronéis, ou a pessoa se rebelava como um cangaceiro e formava o próprio grupo ou aderia a uma daquelas comunidades que foram se formando, como Canudos, como Caldeirão, no Crato, no Ceará. E esses beatos eram ligados àquelas figuras históricas do sertão nordestino, como o padre Ibiapina, o padre Cícero.

Lampião era devoto de padre Cícero. A Coluna Prestes passou pelo sertão e o Estado brasileiro estava armando quem quisesse combatê-la. Padre Cícero, que tinha patente de coronel, chamou Lampião: “Eu vou te dar armas e você vai combater a Coluna Prestes”. Lampião pegou as armas, as mais modernas que havia, e a Coluna Prestes pendeu para um lado e ele pendeu para o outro. Aí ninguém pegava mais Lampião porque ele tinha as armas melhores que as da polícia e dos grupos oficiais.

Lampião não era um Robin Hood, o grupo dele era violento, mas também protegia, na mesma lógica de quem tinha poder. Ele foi chamado de “governador do sertão” durante 20 anos. Eu conversei com um homem que o perseguiu durante décadas, numa daquelas chamadas volantes, e ele não se conformava. Vejam o que é a lógica sertaneja, ele dizia: “Um homem como Lampião não se podia matar do jeito que se matou”. E ele passou a vida inteira correndo atrás de Lampião. Por quê? Porque Lampião era um homem corajoso. Pegar de surpresa, matar de surpresa sem dar chance de defesa? “Isso é coisa de covarde, isso não é coisa de homem.”

Esse ditado “o sertão vai virar mar, o mar vai virar sertão” é de um beato, Severino, que esteve preso com os comunistas na Intentona de 35, no Rio Grande do Norte. Quando saiu, foi morar na comunidade do Caldeirão do Crato. E muita gente na mesma condição foi também; por isso, eram chamados comunistas. Era um comunismo primitivo.

O Antônio Conselheiro esteve muito tempo com o padre Ibiapina, depois eles se separam. Ele não queria gente atrás dele, mas, à medida que foi andando, aconteceram duas coisas importantes da nossa história: a chamada abolição da escravatura e a proclamação da República. E os negros libertos iam para onde? Não tinham ganhado terra, não podiam ficar na fazenda. Os índios e desaldeados iam para onde? Quando passavam essas figuras, esse povo começou a enfileirar atrás. Então, quando Conselheiro chegou a Canudos, onde havia água, terra, comida, ele formou a cidade de Canudos, e começou a chegar gente. Aqueles que fugiam dos coronéis, dos jagunços, dos outros controles e iam para lá. Sem pretender idealizar Canudos, pode-se dizer que as pessoas se instalavam ali porque encontravam mais liberdade. Canudos era formada por casas simples do sertão, mas havia casa para morar, lugar onde trabalhar e os homens não eram escravos de ninguém. Conselheiro não tinha ascendência sobre a população nesse sentido. Ele era um místico, celebrava e organizava a comunidade. Considera-se que Canudos chegou a reunir 30 mil habitantes.

Sincretismo à beira do rio

Se não for abordada a dimensão religiosa do povo franciscano, perde-se a alma do São Francisco. E não é só a religião católica. Fundamentalmente sim, mas há toda uma tradição afro à beira do rio, com as danças, o samba de velho, os indígenas e seus rituais. Tudo isso é encontrado no São Francisco.

Intervenções do Estado

O Estado brasileiro começou a intervir no São Francisco e no semiárido a partir de 1909, quando foi criada a Inspetoria de Obras contra a Seca (Iocs). Em 1945, virou Departamento Nacional de Obras contra a Seca e, no mesmo ano, foi criada a Companhia Hidrelétrica do São Francisco (Chesf). Em 1959, surgiu a Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste (Sudene) – que hoje é a Agência de Desenvolvimento do Nordeste (Adene) –, uma criação de Celso Furtado, dom Hélder Câmara, intelectuais e lideranças daquela época. Em 1967 foi criada a Codevasf, que antes era Companhia do Vale do São Francisco, depois Superintendência do Vale do São Francisco.

Com a Chesf foram construídas as grandes barragens para geração de energia elétrica. Começou com o complexo Paulo Afonso, a partir de 1950; Sobradinho, 1975; Itaparica, 1979; Xingó, a última a ser construída, 1994, e Três Marias – que não pertence à Chesf, mas à Companhia Energética de Minas Gerais, Cemig –, construída em 1956. O primeiro grande impacto que o São Francisco sofreu foi a desflorestação das matas ciliares por conta da navegação, com o chamado vapor; depois vieram as barragens.

Delmiro Gouveia

Tem uma cidade em Alagoas com o nome do industrial Delmiro Gouveia (1863-1917). No final do século XIX, começo do século XX, ele foi o primeiro a aproveitar o rio São Francisco para gerar energia elétrica. Era a época da Guerra da Secessão nos Estados Unidos, que por isso não estavam produzindo algodão. Ele viu uma brecha no mercado e começou a produzir algodão no sertão, onde construiu uma tecelagem, e gerava energia elétrica para abastecer sua fábrica, que está lá até hoje, em Delmiro Gouveia. Ele era um visionário. Foi ele quem puxou uma estrada de ferro de Piranhas até Delmiro Gouveia, porque aquela parte do rio não era navegável. Foi a primeira tentativa de gerar energia sem interferir na dinâmica do rio, pois só utiliza um braço lateral.

Rio sem fôlego

Com o desmatamento, a bomba injetora da Amazônia está perdendo força e nós estamos tendo menos chuvas, menos águas. Além disso, no Cerrado, que era o grande armazenador das nossas águas, com o solo poroso, a água penetrava, formava os grandes aquíferos. O Cerrado foi impermeabilizado pela destruição da mata. O Cerrado é o bioma mais antigo da face da Terra, tem 65 milhões de anos e o solo ficou compactado – se jogar água em cima, não penetra nada, escorre e evapora. No sertão nós não temos nascentes porque o subsolo é cristalino. A água que cai escorre, vai embora, mas no Cerrado ela penetra e abastece o São Francisco. Cientistas que não se conheciam, de lugares diferentes, chegaram à mesma conclusão – o professor Altair Sales, de Goiânia, e os cientistas da Universidade Federal do Vale do São Francisco [Univasf].

Com a morte do Cerrado, do jeito que está acontecendo – e aí a palavra é dura mesmo, mas é preciso ser intelectualmente honesto –, o biólogo e professor da Univasf José Alves Siqueira disse: “O São Francisco é um rio inexoravelmente condenado a morrer, o São Francisco não tem mais volta”. E ele disse o porquê: porque o Cerrado morreu e o São Francisco depende das águas do Cerrado. Vai ser um rio como os outros rios do Nordeste, que vai correr em tempos de chuva.

Convivência com o semiárido

Nós propomos a chamada convivência com o semiárido, quer dizer, a cada lugar do mundo aonde você chega tem que se adaptar. Vocês já ouviram falar que no Alasca o pessoal combate a neve? Não combate a neve. Ou que no deserto do Saara o pessoal combate a areia? Não combate. Só no Brasil tinha um Departamento Nacional de Obra contra a Seca; lugar nenhum no mundo tem um negócio desse. É a mesma coisa que falar “eu vou acabar com a neve em Nova York”, “eu vou acabar com o gelo no Alasca”, “eu vou acabar com a seca no Nordeste”. Não tem quem acabe com a seca, é um fenômeno natural. O sertão é assim, o semiárido é assim, alguns meses com chuva e alguns meses sem chuva, não tem por que querer acabar com isso; é preciso se adaptar a essa realidade. É o que chamamos de convivência, viver com.

Energia abundante

O Nordeste tem um grande potencial: 12 horas de sol por dia – o que indica como o semiárido poderia aproveitar o sol para a geração de energia. Recentemente, um projeto, desenvolvido em Juazeiro da Bahia, mostrou como isso pode funcionar. Em mil casas, foram instaladas quatro placas de energia solar nos telhados. Os painéis fazem a captação de energia, que, em vez de ficar guardada em bateria, por meio de um conversor é direcionada à rede de distribuição. Durante o dia as casas despejam energia na rede nacional. Pela noite invertem o interruptor e captam energia para suas casas. Resultado: o excedente é muito maior que a consumida, o que acabou gerando renda para as famílias. Assim, cada família, além de não pagar energia, passou a vender o excedente, o que acabou gerando uma renda extra média de R$ 100 por mês.

Revitalizar é preciso

A única coisa que estão fazendo na revitalização do São Francisco é o saneamento, que é importante porque melhora a qualidade da água, mas não basta. Se o saneamento não for acompanhado da recomposição das matas ciliares, com o respeito pelas áreas de recarga dos aquíferos, não vamos ter revitalização. Mas pelo menos o saneamento está sendo feito ao longo do rio São Francisco inteiro.

Em Januária [MG], um rio tinha secado e a comunidade o revitalizou: cercou em volta, deixou a capoeira tomar conta, a mata ciliar, a água voltou. Um trabalho com oito comunidades permitiu revitalizar rios. Mas há um rio revitalizado – como esse – para a morte de mais de 1.200 outros. Precisa ser uma política, não pode ser uma iniciativa isolada – ela serve como exemplo, mas não resolve sozinha.

Futuro do rio

Vai depender do que vamos fazer com o Cerrado; se o Cerrado morrer, como o São Francisco depende do Cerrado, não teremos muita saída – é o que dizem alguns cientistas. Depende da política de revitalização. O modelo de desenvolvimento tem de respeitar os limites do São Francisco, os limites do semiárido; se ele for predador, a gente destrói as bases naturais do desenvolvimento e depende das mudanças climáticas; aí não se sabe como vai ser. O futuro vai depender do que vai ser feito agora. Se continuar como está hoje, não temos chance.

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O CERRADO CONCENTRA OS AQUÍFEROS QUE ALIMENTAM OS PRINCIPAIS RIOS DA AMÉRICA DO SUL, COMO O SÃO FRANCISCO. ESPECIALISTA FALA SOBRE ESSA RELAÇÃO E ALERTA: MUITOS DOS AFLUENTES DO VELHO CHICO ESTÃO SECANDO, DE MANEIRA IRREVERSÍVEL, A CADA HORA QUE PASSA

O sistema biogeográfico do Cerrado, que ocupa desde a aurora do Cenozoico a parte central da América do Sul, recebe também o nome de “berço das águas” ou “cumeeira” do continente, porque é distribuidor das águas que alimentam as grandes bacias hidrográficas sul-americanas.

Isso ocorre porque na área de abrangência do Cerrado encontram-se três grandes aquíferos, responsáveis pela formação e alimentação de grandes rios continentais. Um desses é o aquífero Guarani, associado ao arenito Botucatu e Bauru. Esse aquífero é responsável pelas águas que alimentam a bacia hidrográfica do Paraná, além de abastecer alguns formadores que vertem para a bacia Amazônica. Os outros dois são os aquíferos Bambuí e Urucuia. O primeiro está associado às formações geológicas calcárias, que constituem o grupo Bambuí, e o segundo, à formação arenítica Urucuia, que em muitos locais aparece sobreposta à formação Bambuí, e, em certos pontos, é possível verificar até o contato entre os dois aquíferos, apesar de existir, entre ambos, uma imensa diferença cronológica. Os aquíferos Bambuí e Urucuia são responsáveis pela formação e alimentação dos rios que integram a bacia do São Francisco e as sub-bacias hidrográficas do Tocantins e Araguaia, além de outras tantas.

Esses três grandes aquíferos intercalam-se na parte central dos chapadões do continente sul-americano, formando lagoas e olhosd’água conhecidos como “águas emendadas”, que tomam a direção norte, sul, leste e oeste do continente, conforme a estrutura geomorfológica que caracteriza cada espaço. Definindo e delimitando, dessa forma, as bacias e sub-bacias hidrográficas.

Dos planaltos do centro da América do Sul, brotam águas responsáveis pela alimentação do rio Amazonas, pela sua margem direita. Das entranhas dos arenitos de idades mesozoicas, brota a grande maioria das águas da imponente bacia do Paraná, que verte para o sul do continente. Do alto da serra da Canastra, juntando águas oriundas da formação Urucuia e águas retidas nas galerias do calcário Bambuí,correm em direção ao Nordeste do Brasil as águas do São Francisco.

Além dessas imponentes bacias hidrográficas de dimensões continentais, do Cerrado ainda brotam águas que dão origem a bacias hidrográficas independentes, de importância regional. Algumas são tão fenomenais que formam acidentes únicos. É o caso da bacia do Parnaíba, que nasce na chapada das Mangabeiras, alimentada com águas oriundas do Urucuia, situado no cerrado do Jalapão, estado de Tocantins. A bacia do rio Parnaíba, apesar das dimensões bem menores que as anteriores, está associada a um grande transporte de sedimentos, que são distribuídos por vasta área do litoral norte e nordeste do Brasil. Esses sedimentos, relacionados às oscilações das marés e aos ventos alísios, formam dunas, lagoas, os Lençóis Maranhenses e os Lençóis Piauienses e se estendem até Jericoacoara, no Ceará. No encontro com o oceano Atlântico, forma o delta do Parnaíba, tão complexo e impressionante que está entre os maiores do planeta.

Outro exemplo importante refere-se à sub-bacia do rio Gurgeia, situada no cerrado piauiense, responsável pela irrigação de uma vasta área e pela formação dos poços jorrantes. Nesse contexto, podem ser incluídas outras bacias, como a do rio Doce e a do rio Jequitinhonha, cujas nascentes são provenientes do aquífero Bambuí.

DE TODOS OS AMBIENTES TERRESTRES ATUAIS, O CERRADO PODE SER CONSIDERADO O MAIS ANTIGO NA HISTÓRIA RECENTE DO PLANETA, QUE COMEÇOU POR VOLTA DE 65 MILHÕES DE ANOS, NA ERA GEOLÓGICA DENOMINADA CENOZOICA

Origens do rio

O rio São Francisco nasce no cerrado de Minas Gerais, na serra da Canastra, percorre mais de 3 mil quilômetros até sua foz. Ao longo desse percurso, vai engrossando suas águas, principalmente, com seus afluentes da margem esquerda, que formam as sub-bacias dos rios Paracatu, Urucuia, Carinhanha, Corrente e Grande. Todos esses rios e seus alimentadores menores estão morrendo a cada hora que passa. Alguns já desapareceram para sempre. Isso acontece porque os dois grandes aquíferos que fazem o São Francisco brotar e o alimentam ao longo do seu percurso estão secando.

Para entender esse fato, é necessário recuar no tempo, pelo menos 45 milhões de anos. Foi nessa época que o Cerrado adquiriu suas feições atuais, com uma vegetação que possui um sistema radicular complexo e, por esse fator, começou a reter as águas das chuvas que caíam principalmente nos chapadões do noroeste de Minas, oeste da Bahia, Distrito Federal, nordeste goiano e parte do Tocantins. Essas águas são primeiramente armazenadas nas rochas decompostas, que formam o lençol freático, depois, pela abundância, infiltram-se pelas brechas das rochas do subsolo e se acomodam nos lençóis profundos. No Bambuí, essa água, após atravessar a formação Urucuia, que é arenosa, se armazena nas imensas galerias comuns às formações calcárias. No Urucuia, a água foi, com o tempo, formando grandes reservatórios que se acomodavam entre os poros do arenito.

Quando os aquíferos retiveram água suficiente, esta começou a brotar, na forma de nascentes, principalmente nas testas da serra e na forma de pequenas lagoas nas áreas aplainadas, formando as veredas. Com o tempo, as águas, como lágrimas milagrosas, começaram a descer em direção a leste, alimentando a calha do seu condutor-mor, o rio São Francisco. E, assim, foram se formando paisagens que deveriam ser maravilhosas. Ao longo dos rios surgiram lagoas e banhados, onde se multiplicavam em grande quantidade os peixes que outrora eram abundantes não só no São Francisco, mas em todos os seus afluentes.

Na realidade, os afluentes da margem esquerda são os principais responsáveis pela perenização do rio São Francisco e pela sua oxigenação e, em última instância, pelo seu nascedouro e sua existência. A água armazenada nesse grande espaço geográfico abrange desde a serra da Canastra, ao sul, até a chapada das Mangabeiras, ao norte, e se limita a oeste pelo Espigão Mestre, que separa Goiás e Tocantins de Minas e Bahia. Nos chapadões formados a leste do Espigão Mestre, existem grandes depósitos de arenito que constituem a formação geológica Urucuia, de idade cretácea, formada entre 140 milhões e 65 milhões de anos. A formação Urucuia repousa sobre a formação Bambuí, calcário de idade pré-cambriana e paleozoica inicial, com média de 1 bilhão de anos. Essas duas formações geológicas armazenam águas que formam dois grandes aquíferos, responsáveis pelas águas que fazem jorrar a nascente do São Francisco e de todos os seus afluentes da margem esquerda, que em função de seções geomorfológicas estão agrupadas em dois grandes conjuntos.

O primeiro situa-se desde a serra da Canastra até a serra da Capivara, na divisa entre Minas Gerais e Bahia. O segundo situa-se desde esta serra até os contrafortes da chapada das Mangabeiras, na divisa entre Bahia, Tocantins, Piauí e Maranhão.

Dentre os rios do primeiro conjunto, se destacam: Abaeté, Paracatu, Urucuia e Pardo. A partir da serra da Capivara, um aglomerado de capilares hidrográficos forma importantes rios, como o Carinhanha, que deságua diretamente no São Francisco, e uma série de outros, como Pratudão, Pratudinho, Arrojado, Correntina, do Meio, Guará etc., que nas proximidades de Santa Maria da Vitória se juntam dando origem ao rio Corrente, que deságua no São Francisco nas proximidades de Bom Jesus da Lapa.

Mais ao norte, outro grande conjunto de inúmeros capilares aquosos, que vêm desde o Jalapão, se junta dando origem ao rio Grande, que deságua diretamente no São Francisco. Todos esses rios são perenes durante todas as épocas do ano e, até cerca de 30 anos atrás, o volume era no mínimo cinco vezes maior que o volume atual.

A partir da década de 1970, as áreas dos chapadões onde se situam as nascentes e os cursos médios desses rios vêm sofrendo uma grande transformação, com a retirada da cobertura vegetal natural para a produção de grãos e outras plantas exóticas. Esse fato tem impedido a realimentação normal dos aquíferos, contribuindo para o desaparecimento de inúmeros afluentes menores e a diminuição drástica do volume dos cursos maiores.

ESTIAGEM PROLONGADA

A maior parte dos afluentes da margem direita do rio São Francisco é formada por rios temporários, que costumam desaparecer na estação seca. Isso ocorre porque esses rios não são provenientes de aquíferos, dependem das águas armazenadas no fino lençol freático, que repousa sobre rochas não porosas que constituem o cráton do São Francisco. O lençol freático está na dependência das águas pluviais e da vegetação. Portanto, o desmatamento associado a um período de estiagem prolongada o afeta totalmente. O rio mais importante pela margem esquerda não é temporário, porque vem do aquífero Bambuí. Trata-se do rio das Velhas.

De todos os ambientes terrestres atuais, o Cerrado pode ser considerado o mais antigo na história recente do planeta, que começou por volta de 65 milhões de anos, numa era geológica denominada Cenozoica. Os processos iniciais da história evolutiva do Cerrado começaram no início dessa era e se concretizaram por volta de 45 milhões de anos antes do presente. Por isso, o Cerrado como um todo é um ambiente especializado, que já atingiu seu clímax evolutivo – ou seja, uma vez degradado, não mais se recupera na plenitude da sua biodiversidade.

Como já mencionado, a partir de 1970, a vegetação nativa do Cerrado, que ocupava os chapadões, campinas e tabuleiros, foi sendo substituída por plantas exóticas. Consequência: o índice pluviométrico continua o mesmo, mas não infiltra como anteriormente. As plantas exóticas introduzidas têm raiz subsuperficial e não chegam a reter 20% das águas; além do mais, como se trata de culturas temporárias, durante uma parte do ano o solo fica desnudo, aumentando a perda da umidade. Acrescentemse a isso os pivôs centrais que, nos chapadões, são alimentados por meio de poços artesianos. Ou seja, além de os poços não estarem sendo recarregados normalmente, a pouca água existente hoje nos aquíferos ainda é sugada para umedecer as grandes plantações que não retêm o excesso dessa água, que acaba evaporando.

Alimentadores hidrográficos

A retirada da cobertura vegetal natural do Cerrado tem influenciado a própria vida do São Francisco, já que este depende de fatores ecológicos extremamente complexos e interdependentes. O processo de desaparecimento dos seus alimentadores hidrográficos está ocorrendo num ritmo muito acelerado, em função desse fator.

O raciocínio é simples: as águas das chuvas eram absorvidas em grande parte pela vegetação nativa que alimentava os aquíferos, que fazem suas descargas nos declives e áreas baixas, formando os rios.

É como um imenso reservatório, assemelhando-se a uma grande caixa-d’água com vários furos enfileirados de cima para baixo. Quando o reservatório estava cheio, a água jorrava por todos os furos. À medida que o nível foi baixando, a água que anteriormente jorrava dos furos superiores deixava de correr. Esse fenômeno é conhecido pelo nome de migração de nascentes, que provoca o desaparecimento de pequenos cursos de água no início, mas, conforme o processo se acentua, os cursos maiores são afetados, até desaparecerem totalmente. De vez em quando, vão ocorrer cheias estrondosas, provocadas ciclicamente por fenômenos naturais como o El Niño e o La Niña, mas isso não significa que o rio tenha ressuscitado; são fenômenos efêmeros provocados por enxurradas resultantes de chuvaradas que se deslocam pelos antigos caminhos das águas.

O que aconteceu com o quadro vegetacional vem ocorrendo também com os animais, incluindo os insetos polinizadores, que se encontram em acentuado processo de extinção. No caso específico da fauna aquática do rio São Francisco, ela era abundante, com variadas espécies de peixes que saciavam a fome das populações ribeirinhas e ainda mantinham o comércio dinâmico. Esse panorama não existe mais.

A RETIRADA DA COBERTURA VEGETAL NATURAL DO CERRADO TEM INFLUENCIADO A VIDA DO SÃO FRANCISCO, QUE DEPENDE DE FATORES ECOLÓGICOS COMPLEXOS E INTERDEPENDENTES

O incentivo oficial, por meio de verbas governamentais e internacionais para a pesquisa aplicada, visando à produtividade, demonstrou que a área dos chapadões onde nascem e correm os principais afluentes do São Francisco, com muito insumo, poderia se transformar num potencial agrícola de dimensões grandiosas, associado ao fato de ser uma das últimas reservas da Terra capaz de suportar, de modo imediato, a produção de grãos e cereais e a formação de pastagens e canaviais. Esse fato atraiu recentemente grandes investimentos, criando modificações significativas do ponto de vista da infraestrutura de suporte. Fenômenos que, tomados em conjunto, têm provocado situações ecológicas e socialmente nocivas, com perspectivas preocupantes em níveis regional e global.

A causa fundamental dessa situação pode ser creditada ao modelo econômico que se instalou, voltado para o lucro imediato, sem nenhuma preocupação com as questões globais do meio ambiente e o conhecimento necessário do funcionamento da ecologia do Cerrado. Também pode-se associar a esse determinante a falta de ações integradas de pesquisa técnico-científica para o conhecimento holístico das interações ambientais existentes, que tem causado a ausência de propostas concretas de zoneamento ecológico, com ênfase socioeconômica e planejamento global do uso dos recursos naturais da terra. Em suma, a pesquisa ficou voltada apenas para a produtividade; em nenhum momento se pensou na pesquisa visando à preservação.

Com a concretização do atual projeto de transposição das águas do rio São Francisco para os dois eixos adutores maiores e para os eixos menores, cuja finalização está prevista para 2017, e quando as bombas sugadoras instaladas em Cabrobó e Itaparica estiverem funcionando a todo vapor, todo o sistema hidrográfico da bacia será afetado. Isso porque a dinâmica do grande rio e de toda a sua bacia, formada por rios senis, que já atingiram seu estado de equilíbrio, será também drasticamente afetada.

As consequências da transposição serão danosas e num curto espaço de tempo levará à morte a maioria dos afluentes do São Francisco, incluindo o próprio rio. Isso acontecerá porque, com a dinâmica alterada, o transporte de sedimentos arenosos aumentará de forma assustadora, gerando, entre as consequências, o assoreamento, já que a maioria dos afluentes do São Francisco corre por áreas da formação Urucuia, cuja característica principal é a ocorrência de um arenito frouxo.

A transposição, da forma como se nos apresenta, aumentará também a velocidade dos rios na sua calha principal, e isso provocará em todos os afluentes o fenômeno denominado sugamento dos aquíferos, que serão sugados em velocidade maior para alimentarem os rios agora mais velozes, desde seus cursos superiores.

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CHAMAR ATENÇÃO PARA A QUALIDADE DOS RIOS PODE TRAZER À TONA A QUESTÃO DO QUANTO AINDA PRECISA SER FEITO EM TERMOS DE SANEAMENTO NO PAÍS

O ano de 2016 vai ficar marcado como aquele em que o rio São Francisco, um dos maiores e mais importantes rios brasileiros, invadiu a casa de milhares de pessoas. Não estamos falando de nenhum desastre natural, como as já típicas inundações dos períodos chuvosos, em que há o aumento da vazão de rios e córregos, principalmente nas cidades mais urbanizadas, nas quais a natureza foi mais modificada. A notícia, nesse caso, é para ser comemorada.

O rio São Francisco foi transformado em cenário e protagonista de novela exibida em horário nobre, que é responsável por influenciar culturas e moldar hábitos no nosso país. Assim, a causa ambiental ganha um importante reforço para resgatar o papel dos rios no cotidiano das pessoas, já que, ao se envolverem com a história do Velho Chico no mundo da ficção, entre as tramas e personagens da novela, as pessoas poderão se interessar mais pela realidade dos rios próximos às suas casas.

Infelizmente, na maioria dos casos, vão se deparar com uma triste realidade: a falta de saneamento, um problema que afeta milhões de brasileiros diariamente e parece longe de uma solução.

Ainda hoje, 60% dos esgotos gerados no país são despejados nos rios e no mar sem tratamento adequado, e 35 milhões de brasileiros não têm acesso a água tratada para consumo. Os impactos desse descaso são imensos: mais de 70% das doenças que levam a internações hospitalares no país são decorrentes de contato com água contaminada.

Para mobilizar as pessoas para esse tema, a SOS Mata Atlântica lançou com parceiros uma petição em prol do “Saneamento Já!”, pois é preciso uma ação conjunta de toda a sociedade para mudar essa realidade.

Um ótimo exemplo de mobilização tem acontecido na cidade de Penedo, em Alagoas, uma das últimas cortadas pelo rio São Francisco a caminho do mar. Lá, um grupo de voluntários do projeto Observando os Rios, da Fundação SOS Mata Atlântica, monitora, desde novembro de 2015, a qualidade das águas do Velho Chico.

O grupo foi formado por alunos e professores da Universidade Federal de Alagoas (Ufal). Eles pretendem cruzar os resultados do monitoramento com pesquisas científicas e iniciativas de educação ambiental. De acordo com os professores Taciana Kramer e Cláudio Sampaio, responsáveis pelo grupo, apesar do curto período de atuação na região do baixo São Francisco, foi possível observar um grande interesse no monitoramento do rio, não apenas por seus alunos, mas também da comunidade.

As duas análises realizadas até agora indicaram que a qualidade da água ali é regular, devido ao estado de conservação do rio e pontos de poluição.

Para os professores, o projeto Observando os Rios é uma oportunidade de realizar uma atividade prática de grande interesse acadêmico e social. Na visão deles, sair da sala de aula e manter contato íntimo com a natureza é, muitas vezes, o ponto alto das disciplinas, pois sensibiliza professores, técnicos e alunos, além de atrair a atenção da população.

A intenção é que os resultados do monitoramento sejam utilizados em trabalhos de conclusão de curso, além de serem apresentados em congressos. Ao final, esses documentos serão enviados ao poder público, solicitando providências para os problemas apontados.

A análise de um único ponto do rio São Francisco não é suficiente para espelhar a situação em que se encontra o grandioso Velho Chico, que nasce no Parque Nacional da Serra da Canastra e passa por três biomas – Cerrado, Caatinga e Mata Atlântica – e um total de 521 municípios dos estados de Minas Gerais, Bahia, Pernambuco, Sergipe e Alagoas, até atingir o mar. Entretanto, são indicadores bastante simbólicos da qualidade das águas dos rios brasileiros e reforçam a necessidade urgente de investimentos em saneamento ambiental.

No caso do São Francisco, nos alertam ainda sobre as tão aguardadas obras de revitalização que ainda não saíram do papel.

Hoje, apesar de o rio São Francisco não ter mais a mesma quantidade e variedade de peixes e de apresentar continuado processo de degradação por causa das grandes transformações e agressões ao longo dos anos, ele se mantém vivo e presente na cultura e na identidade das pessoas que habitam sua bacia. Para que permaneça presente e saudável no cotidiano dessas pessoas, seja na gastronomia, nas lendas, na pesca ou no desenvolvimento sustentável das regiões que beneficia, é preciso executar as ações de revitalização que deveriam ter começado com as obras de transposição.

A criação de um grupo de trabalho para essa finalidade, anunciada pelo Ministério do Meio Ambiente, em 14 de março deste ano, chega tarde, 12 anos após a instituição do programa de revitalização. Porém, ainda há tempo para promover as mudanças necessárias, como o reflorestamento da mata ciliar, a recuperação de áreas degradadas, o uso dos recursos do rio de forma sustentável pelas comunidades locais e, sobretudo, investimentos em saneamento básico na busca de mais qualidade de vida para as pessoas que vivem nessa região. Que 2016, o ano do Velho Chico, seja marcado pela renovação e transformação, com cada vez mais engajamento de novos voluntários em prol de um futuro melhor e mais saudável para todos.

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AMBIENTALISTA EXPLICA A CONEXÃO ENTRE OS CICLOS DAS ÁGUAS E AFIRMA QUE A DEGRADAÇÃO DO RIO IMPACTA VÁRIOS OUTROS ECOSSISTEMAS

ENTREVISTA COM RODRIGO MEDEIROS

Recurso indispensável para a vida no semiárido brasileiro, a água do rio São Francisco tem um ciclo que depende de outros fatores, como a vegetação, a biodiversidade e, sobretudo, a atuação do homem. A ocupação humana e o consequente uso dos recursos na região podem ameaçar a natureza e as atividades desenvolvidas ao longo do curso do rio. O quadro é preocupante, mas reversível, na opinião do biólogo e professor Rodrigo Medeiros, vice-presidente do braço brasileiro da Conservação Internacional (CI-Brasil), organização não governamental que, com sede em Washington, atua em mais de 40 países e é voltada para a proteção da biodiversidade em diversos pontos do mundo. Em entrevista a Gisele Gomes, Medeiros considera que a solução para revitalizar o São Francisco passa pela recomposição da vegetação do vale e pelo uso mais racional do recurso hídrico. Na conversa a seguir, ele explica como os ecossistemas estão inter-relacionados e comenta o projeto de transposição do rio.

A natureza tem vários movimentos cíclicos. como está a situação do rio São Francisco?

A situação do rio São Francisco é crítica como a da maioria dos rios hoje no Brasil. São bacias hidrográficas que durante muito tempo sofreram com o processo de ocupação humana. As bacias da região Sudeste, que foram ocupadas por grandes cidades como Rio de Janeiro e São Paulo, tiveram um processo acelerado de degradação no passado, e o que a gente observa é que as bacias como a do rio São Francisco já começam a dar sinal de esgotamento. Os problemas das bacias hoje, resumidamente, são dois: uso e ocupação. Ocupação que leva à transformação do solo e da cobertura vegetal nativa, que antes cobria as margens e o vale onde os rios estão encaixados – e essa vegetação, com o tempo, passou a ser substituída por atividades agrícolas, no caso do rio São Francisco. E o segundo, como decorrente da própria ocupação, é o uso.

No momento em que se dá um uso diferente para aquele solo, que não está mais ocupado pela vegetação nativa, há demanda de uso mais intenso do principal recurso do rio, que é a água – para as pessoas beberem, para dessedentar animais e para irrigação. O resultado que temos visto hoje num cenário de mudança climática – um período de seca mais prolongado, menos chuva – é o rio secando e a falta de água, que, por uma triste e infeliz coincidência, prejudica a própria existência daquelas atividades que lá se instalaram. Atividades que foram atraídas pela água e que hoje se veem nessa escassez.

O rio corre o risco de morrer?

A natureza não morre. Ela colapsa, entra em crise – e isso a história do planeta já mostrou para a gente várias vezes –, mas ela é resiliente e capaz de se reinventar. Quem morre antes, na verdade, é a vida que depende dela. Acho que a população humana sofre, vem sofrendo e sempre sofreu no semiárido. Mas junto com ela sofre a biodiversidade, todos os animais e plantas que também dependem da água e se veem suprimidos desse recurso, basicamente por mau uso.

Quais as repercussões nos outros ecossistemas? haveria uma interligação entre alguma alteração do São Francisco e os rios voadores da Amazônia, por exemplo?

A água no mundo está conectada em um grande ciclo. Os processos de evapotranspiração da água, seja a do rio, seja aquela que a gente sua, seja a que as plantas suam, seguem um ciclo em que a água da Amazônia, por exemplo, por meio dos rios voadores, abastece por meio da chuva parte desse semiárido e parte do Sudeste brasileiro. Eu costumo dizer que, de fato, sim, está tudo interligado.

Um rio como o São Francisco, que é determinante para a vida na Caatinga e no Cerrado do Brasil, vai alterar o regime hídrico não só daquela região, mas de todas as adjacentes. E o processo de desertificação avança dessa forma. Se não diretamente, indiretamente. Por exemplo, aquelas populações que antes estavam ali e que não contam mais com esse recurso, certamente vão migrar e exercer pressões sobre áreas que ainda têmesse recurso. E, de novo, será um ciclo que se repete. A maior pressão leva a uma escassez, e a escassez vai levar ao desaparecimento.

Esse processo é reversível? o que poderia ser feito, tanto no próprio rio quanto no entorno, em relação às matas ciliares, por exemplo?

É totalmente reversível. A primeira coisa a ser feita é, basicamente, recompor parte da vegetação nativa do Cerrado e da Caatinga que foi suprimida pelo processo de transformação do uso do solo. Por que a vegetação é importante? Primeiro porque a vegetação ao longo do curso do rio, chamada de mata ciliar, tem um papel fundamental de manter a estabilidade geológica da margem do rio. Aquela vegetação impede que o barranco, a margem, desmorone. O fato de não ter vegetação fixa faz com que esse processo comece a assorear o rio. E o que isso significa? Assorear o rio é aquele acúmulo de sedimento no leito, que vai deixando o rio raso até que a água não consegue mais passar. Então, recuperar as matas ciliares é essencial para manter a própria vitalidade local. Mas recuperar essa vegetação no vale que circunda o rio também é importante como um processo de alimentação daquela água subterrânea, dos aquíferos que existem nessa região e que também são responsáveis, de alguma forma, por melhorar a capacidade e a disponibilidade da água no conjunto da bacia. Há também medidas relativamente simples, dependendo da decisão do homem, para usar melhor o recurso hídrico – seja para irrigação, seja para dessedentação ou para produção de energia hidrelétrica, por exemplo – que são parte desse processo.

A NATUREZA NÃO MORRE. ELA COLAPSA, ENTRA EM CRISE – E ISSO A HISTÓRIA DO PLANETA JÁ MOSTROU PARA A GENTE VÁRIAS VEZES –, MAS ELA É CAPAZ DE SE REINVENTAR

Que impactos a transposição pode causar?

A transposição em si não é o problema se você tem água para transpor. Esse não é um projeto recente, mas há que se lembrar de que as primeiras pessoas que imaginaram essa transformação viram um rio São Francisco muito diferente do que a gente tem hoje. Viram um rio muito mais protegido, muito mais conservado, mais farto de água. A gente chega, no entanto, aos anos 2000 com essa missão de resgatar um projeto de transposição, que é absolutamente legítimo no que diz respeito a levar água para regiões que precisam de água. A discussão do uso da água é outro. Mas a primeira ideia é boa. Fizemos isso no mundo inteiro, inclusive na própria cidade do Rio de Janeiro: a grande metrópole só é abastecida por uma transposição do rio Paraíba do Sul que joga água para o rio Guandu. Se essa transposição não tivesse acontecido há 70 anos, dificilmente teríamos água hoje. Isso significa que, idealmente, se o projeto de transposição for pensado com o objetivo de levar água de um lugar que tem mais para outro, é absolutamente correto do ponto de vista até humanitário. Agora, é necessário garantir que essa água continue existindo. Porque de que adianta fazer uma obra de infraestrutura para levar a água para outro lugar se essa água depois vai faltar?

Então, talvez a grande crítica que hoje ainda haja com relação ao projeto de transposição é que ele deveria ter vindo acompanhado de duas partes. Uma realmente da infraestrutura, de levar água para aquele lugar. E outra de uma lógica de revitalização do rio, basicamente reflorestamento, recomposição da vegetação, que é o que na verdade mantém e traz a água. O que não aconteceu. É como uma caderneta de poupança em que você tem o dinheiro e diz: tenho a minha poupança e ela rende tanto por mês, posso tirar parte desse dinheiro para financiar o estudo do meu filho ou fazer uma doação de caridade, mas ainda assim continuar garantindo que aquela poupança vai prover os benefícios e os recursos de que preciso. O problema é que, quando você só tira e não coloca, vai chegar um momento em que aquela poupança vai acabar. E isso acontece com a água do rio: quando ela acabar, talvez gere a maior tragédia de todas, pois, além de tirar daquelas pessoas que são do vale, que utilizam aquele recurso, vai tirar também daquelas pessoas para as quais ofereceu esperança de dar um futuro. O projeto da transposição é o projeto da esperança, de levar água para pessoas que não tinham. Como é que se cria essa esperança, leva essa água e depois diz que não tem mais água? Isso significa que o projeto da transposição não pode ser olhado só sob o ponto de vista da transposição, do canal que vai levar a água. É o canal que vai levar a água, mas todo um conjunto de intervenções que precisam ser feitas, que vai continuar garantindo que aquela água seja entregue. Infelizmente, ainda há um desequilíbrio entre essas duas coisas.

HOJE, POR CONTA DO DESMATAMENTO E DESSE REGIME DE ESTIAGEM MAIS LONGA QUE A GENTE TEM OBSERVADO, O CLIMA MUDOU, A DISPONIBILIDADE DA ÁGUA MUDOU

Você vê diferença do São Francisco que corta o cerrado para o São Francisco que corta a caatinga, por exemplo?

Tem. O rio nasce na serra da Canastra, na porção mineira do Cerrado, ou seja, nas áreas mais altas onde você tem um tipo de formação de vegetação um pouco diferente daquela que é observada no semiárido. Quando você chega na Bahia, é realmente uma vegetação mais seca, e o próprio regime de chuvas daquela região já é um regime de chuvas menor. É claro que um rio da dimensão do São Francisco, das proporções que ele tem, oferece soluções diferenciadas. Onde o rio sofre mais é na sua porção no semiárido. É onde a vegetação foi mais modificada. O rio São Francisco tinha histórico no passado que era o rio que nunca secaria. E era aquela coisa do presente da serra da Canastra, da vegetação da serra, que nasce na montanha, no cerrado mineiro, naquela área que tem ali chove, ali tem um pouco mais de água, ela abasteceria perenemente toda a área que não tem água. Hoje, por conta do desmatamento e por conta desse regime de estiagem mais longa que a gente tem observado, o clima mudou, a disponibilidade da água mudou. A gente observa que a seca que aconteceu neste último ano foi um dos piores anos em termos de seca do rio São Francisco, e todas aquelas cidades que estavam submersas nos reservatórios de Sobradinho emergiram. Apareceram as cidades que tinham sido inundadas há décadas.

Que projetos a conservação internacional desenvolve na região do São Francisco?

Temos um projeto de transição agrícola para uma agricultura de baixo carbono e sustentável que abrange a região da margem esquerda do rio São Francisco. A outra parte cobre o trabalho na Caatinga, principalmente com conservação e manutenção de áreas protegidas nessa região. Há uma grande área em que trabalhamos, chamada Boqueirão da Onça, na Caatinga. Também apoiamos a reintrodução na natureza da ararinha-azul, que está extinta – agora é que vão começar os primeiros projetos de reintrodução da ave. A ararinha-azul foi extinta na Caatinga por falta de hábitat.

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SE OS VINHOS PRODUZIDOS NO SEMIÁRIDO NORDESTINO SÃO RECONHECIDOS E PREMIADOS, AS ORIGENS DESSA HISTÓRIA BEM-SUCEDIDA REMONTAM AOS TEMPOS IMPERIAIS, QUANDO DOM PEDRO II BUSCAVA CONHECER OS POTENCIAIS E AS SOLUÇÕES QUE O RIO SÃO FRANCISCO PODERIA PROPORCIONAR

O vapor imperial Pirajá deixou o oceano para trás e sulcou com força as águas do Velho Chico. A imponente foz, com mais de 1 légua geométrica, não ofereceu resistência, e a embarcação do imperador navegou rio acima até Piranhas. Nessa viagem, para conhecer os potenciais do rio na produção de energia elétrica, dom Pedro II teve tempo para ancorar no porto de Penedo (AL), em outubro de 1859.

De perto, pôde ver as grandes embarcações de bandeiras europeias, bem como numerosos barcos de cabotagem. Naqueles tempos, o comércio fervilhava no porto penedense. Naquelas bandas, a margem esquerda do Velho Chico abarcava alfândega e consulado provincial, e vários países – tais como Inglaterra, Portugal, Espanha e Noruega – mantinham ali seus representantes. As transações comerciais eram tão intensas que as negociações eram realizadas em libra esterlina, moeda inglesa da época.

Dom Pedro II não estava ali por acaso; em mãos, tinha documentos que o faziam conhecer o rio palmo a palmo. Em 1852, o monarca recorreu aos serviços do engenheiro francês Emmanuel Liais para estudar o São Francisco, das nascentes até Pirapora, com severa observação do rio das Velhas, seu principal afluente. De posse do documento original Hydrographie du Haut San-Francisco et du rio das Velhas , contratou, em 1855, os serviços do engenheiro alemão Henrique Guilherme Fernando Halfeld, que fez um minucioso detalhamento do rio, desde Pirapora até a sua foz, no oceano Atlântico, denominado Atlas e relatório concernente à exploração do rio de São Francisco desde a cachoeira de Pirapora até ao oceano Atlântico.

Quase duas décadas depois, a seca de 1877-1879 fez o imperador retornar para o sertão. Chegavam à corte, no Rio de Janeiro, as notícias da dramática situação no Nordeste brasileiro. A Caatinga estava por se evaporar. Os diferentes rebanhos morriam, junto com seus donos, cotidianamente. Cenário macabro, cadáveres de animais e de seres humanos eram encontrados corriqueiramente ao relento, cozinhados na escaldante e longa estiagem.

Nessa viagem, o imperador se demorou pelas águas do Velho Chico, e Penedo foi sede do Império durante sua longa estada. Dom Pedro II estendeu-se até Piranhas e arredores e conheceu a plasticidade encantadora da cachoeira de Paulo Afonso. Identificou no rio a possibilidade de integração e de desenvolvimento dos sertanejos para, dessa forma, amenizar e tornar mais digno o convívio com as adversidades das intempéries.

As exuberantes cascatas, porém, tornavam proibitiva a navegabilidade naquele trecho do Velho Chico. O monarca idealizou, como alternativa para as mercadorias superarem aqueles obstáculos naturais, a construção de uma ferrovia. Foi contratada a companhia inglesa The Great Western of Brazil Railway Company Limited, e a Caatinga começou a ser rasgada por aproximadamente 116 km de trilhos da Estrada de Ferro Paulo Afonso (EFPA). Nas suas extremidades foram levantados os cais de Piranhas e de Jatobá (PE), posteriormente chamada de Petrolândia, em homenagem a Dom Pedro II.

Primeiras vinhas

Aquele pedaço do sertão virou um grande canteiro de obras; era gente chegando de todos os cantos para trabalhar. Quando a estação de Petrolândia foi inaugurada, em 1885, o município se consolidou como principal entreposto comercial, com mercadorias trazidas do Sul e do Norte do Brasil pelas águas do “rio dos Currais”.

Essa estação de Petrolândia, hoje submersa no lago de Itaparica, gerou desenvolvimento socioeconômico, o que justificou sua escolha para receber o primeiro projeto de colonização irrigada do Brasil, palco das primeiras vinhas e dos primeiros vinhos do São Francisco.

E as sementes desses primeiros vinhos começaram a germinar nas frias e encharcadas trincheiras de diferentes guerras na Europa e na África. Personagens guerreiros, todos vinhateiros em suas origens, como num complexo enredo de uma grande novela, cruzaram seus papéis e deram vida à aridez do sertão, transformando-o em desenvolvimento e nos ofertando diferentes prazeres nos nossos cálices e nas nossas mesas.

Era 1939 quando tudo começou pelas mãos de Apolônio Sales, engenheiro do Instituto Nacional de Integração e Colonização (Inic), que atendia a recomendação do Ministério da Agricultura. Esse projeto pioneiro foi planejado para 800 hectares e posteriormente ampliado para 3 mil hectares. Atualmente, toda essa área dorme sob as águas tranquilas do grande “mar” de Itaparica.

Quando o projeto de colonização estava sendo implantado, do outro lado do Atlântico, a sangrenta Guerra Civil Espanhola e a ditadura de Franco que a sucedeu provocavam a migração de seus filhos para diferentes portos do mundo, entres eles os do Brasil. Aportaram em solo brasileiro dois amigos espanhóis de Barcelona, José Molina Membrado e Alex Garulla. Estabeleceram-se primeiramente em São Paulo e de lá partiram para o interior do Nordeste no final da década de 50 do século passado.

Diferentes culturas

Naqueles tempos inóspitos, num sertão de veredas, sem estradas, sem oferta do que beber e do que comer, eles tinham apenas um rumo. No coração, carregavam a certeza de terras baratas, da água do velho Chico e o sol do ano inteiro para fartas lavouras. Enquanto Molina trabalhava a terra no interior de Pernambuco, seu sócio financeiro seguia com suas atividades como caixeiro-viajante de uma empresa de material corante, com sede em São Paulo.

Molina, mesmo trabalhando com diferentes culturas, porém tocado pela saudade da sua infância nos vinhedos de seus pais na aldeia Ripollet, nos arredores de Barcelona, fez brotar, em 1962, no solo tórrido do sertão, experimentos com diferentes variedades de uvas de vinho de origem espanhola.

Na Espanha, a ditadura de Franco, impiedosa com os seus compatriotas, foi ainda mais cruel com aqueles que se posicionavam contra. Mesmo baleado nas pernas duas vezes, Josep Farres Girona, diferentemente de alguns de seus parentes, sobreviveu. Caminhando escondido entre arbustos para não deixar rastro de sangue na estrada, conseguiu alcançar a aldeia Martorelles, distante 18 km de Barcelona.

A bem-sucedida fuga contou com a ajuda dos frágeis ombros do filho Afonso, de apenas 13 anos, e da mulher, Rosario Raflos, que arrastava pela mão Geni, seu outro filho de 6 anos. Escondeu a família na pequena casa dos fundos da residência de seus pais e de lá, mesmo baleado, partiu e conseguiu retornar ao porto de Barcelona. A sorte continuou ao seu lado. A bordo havia um médico que cuidou dele, embalado nas ondas do Atlântico.

DEPOIS DE PESQUISAR DIFERENTES PLANTAÇÕES EM CONDIÇÕES SIMILARES ÀS DO SERTÃO BRASILEIRO, INVESTIDOR SE CONVENCEU COM A FARTURA DE ÁGUA OFERTADA PELO VELHO CHICO

Foram tempos dramáticos para todos. A saudade da família e a falta de notícias instilavam-lhe uma dor profunda no peito. O medo de ter suas correspondências interceptadas não permitia remeter ou receber nenhuma mensagem.

Em São Paulo, Girona conheceu Alex Garulla, um dos espanhóis, sócio de Molina em terras no sertão pernambucano, e, a partir de então, uma nova vida começou a se descortinar para ele. Garulla se encarregou de fazer chegar e receber a correspondência de Girona com seus familiares, e, tão importante quanto, foi a ponte para fazê-lo conhecer o Nordeste. Assim Girona descobriu o projeto de colonização irrigada, adquiriu 5 hectares e plantou seus vinhedos. As práticas culturais e o rigor nos procedimentos de produção de suas uvas tornavam-nas de uma qualidade extrema, comercializadas no mercado de São José, no Recife.

Foi nesses tempos que uma empresa italiana produtora de vermute se instalava nos arredores do Recife. Seu proprietário, um conde italiano que comprava pessoalmente suas frutas, descobriu essas uvas e ficou instigado a conhecer o sertão, origem daqueles néctares. Quando chegou àquele rincão, ficou impactado. Seu encantamento o levou a comprar uma fazenda nas margens do Velho Chico, no município de Floresta (PE), e assim, em outubro de 1964, obteve o primeiro registro de uma vinícola nordestina.

Para capitaneá-la chegou Jean Vitrat, enólogo com experiência em vinhos de alta temperatura, uma vez que já tinha vinificado nas margens do deserto do Saara. Vitrat nasceu e se criou na histórica região francesa da Normandia. Muito menino assistiu demasiadamente de perto aos bombardeios do famoso Dia D, marco divisório da Segunda Guerra Mundial. Quando jovem, deixou para trás suas cicatrizes da guerra e seus traumas de menino e foi fazer enologia em Argel, capital da Argélia.

Tão logo se formou, aceitou um convite para gerenciar um projeto de elaboração de vinhos no Marrocos. Em pleno desenvolvimento de seu projeto de vinhos marroquinos, os movimentos de libertação no norte da África intensificaram seus conflitos e a França entrou na guerra. O soldado Vitrat foi convocado pelo exército francês. Para não guerrear com seus amigos de universidade e de trabalho desertou para o Brasil.

Vitrat chegou ao Rio de Janeiro em 1955, um dia após a eleição de Juscelino Kubitschek. Enquanto cumpria os procedimentos para se naturalizar, recebeu o convite para trabalhar na alfândega, no departamento de avaliação dos vinhos importados, inclusive os da França. Foi esse trabalho que o gabaritou para gerenciar a Estação Experimental de Vitivinicultura de Campo Largo, no Paraná.

Terras quentes e ensolaradas

O desempenho nessas pesquisas o levou a ser descoberto pela empresa nordestina de vinhos e de vermute. Não precisaram insistir. Tudo o que o enólogo Vitrat queria era trocar os dias frios e chuvosos do Sul pelas terras quentes e ensolaradas banhadas pelo Velho Chico.

Esse mesmo Paraná, em sua divisa com São Paulo, durante a Segunda Guerra Mundial, foi local de produção de bicho-da-seda por uma família japonesa. Toda a produção era vendida para o exército americano, matéria-prima para a confecção de seus paraquedas. Ao findar o conflito, desprovida de clientes, a família se mudou definitivamente para as terras paranaenses. Oportunidade para um de seus filhos, Mamoro Yamamoto, ainda bastante jovem, se tornar um dos maiores produtores brasileiros de batata e café.

Inquieto, já avaliando a possibilidade de investir no Nordeste, Yamamoto visitou a Califórnia (EUA) e Israel, regiões mundiais de reconhecidas deficiências hídricas. Nessas viagens pesquisou diferentes plantações em condições similares de aridez às do sertão brasileiro. Suas convicções de investimento foram ainda mais ampliadas com a fartura de água ofertada pelo Velho Chico, quesito fundamental, não encontrado em nenhuma região semiárida do mundo.

Adquiriu uma propriedade sertaneja no interior de Pernambuco, e logo a Caatinga cedeu seus espaços para extensos parreirais de uva de mesa. Para cuidar das espécies vitis viníferas, variedades exclusivas para a elaboração de vinhos finos, contratou a consultoria de Idalêncio Angheben, um dos maiores especialistas brasileiros na produção de uva e de vinho.

Angheben, pesquisador mundial e professor da maioria dos enólogos brasileiros, projetou os vinhedos e a vinícola. Dessa forma, Yamamoto, conciliando suas pescarias, fez brotar vinhos para serem comercializados em São Paulo, concorrendo com os produzidos pelas cantinas multinacionais do Rio Grande do Sul.

As frias e encharcadas trincheiras da Segunda Guerra ainda nos reservaram um outro autor de grandes e soberbos vinhos nos solos quentes banhados pelo grande Chico. Nascido no Piemonte, norte da Itália, Francesco Luigi Persico, ainda criança, viu seu pai migrar para a França, fugindo dos soldados de Benito Mussolini. Assim sendo, restou a ele, junto com sua mãe, assumir a propriedade agrícola da família.

Muito jovem, foi convocado pelo exército italiano para as batalhas da Segunda Guerra. Eram tropas fascistas, que não comungavam com as suas ideologias. Desertou do exército regular e ingressou na clandestinidade, tornando-se um soldado partisan. Lutando contra as forças de Mussolini, Persico conheceu os soldados da Força Expedicionária Brasileira e se encantou com o Brasil.

Fim da guerra

Tão logo a guerra acabou, o italiano partiu para conhecer os potenciais brasileiros. No seu regresso para a Itália, conheceu uma linda mulher, Lina Eva Pizzamiglio. Um amor recíproco, porém dramático, digno de grandes roteiros cinematográficos. Isso porque a Itália tradicionalista não permitia a uma moça de família se juntar a alguém descasado e pai de um menino. E os pais de sua amada tinham descoberto um caso de amor fugaz de Francesco que ocorrera durante a guerra.

Apesar de todas as dificuldades, Persico juntou suas poucas economias, conseguiu tirar o passaporte de Lina Eva e reunir o dinheiro das passagens, assim ambos viajaram por um país destruído pela guerra, sem transporte adequado. Entre uma caminhada e uma carona, cortaram o Piemonte, chegaram ao porto de Gênova e fugiram para o Brasil.

Tempos depois, voltaram para Milão. Ganharam o perdão e a bênção da família. E ainda mais: Persico convenceu o sogro a investir no Brasil. Dessa forma, no início da década de 1950, foi aberta, no estado de São Paulo, uma pequena empresa de cabos de guarda-chuva e, posteriormente, de tubos galvanizados. Com constante crescimento anual, quase duas décadas depois a empresa se tornou a maior do setor na América Latina, dando emprego a mais de 3 mil funcionários.

BONS VINHOS EXIGEM VERÕES QUENTES E SECOS NA PRODUÇÃO DE SUAS UVAS. O NORDESTE BRASILEIRO APRESENTA UM TERÇO A MAIS DE SOL QUE A REGIÃO DE BORDEAUX

Mas as raízes do campo falaram mais forte. E dessa forma Persico partiu para o Nordeste. Adquiriu terras e começou a trabalhá-las com pecuária e agricultura regada pelo rio São Francisco, ainda no início da década de 1970. Dentro das diferentes culturas agrícolas adotadas, estava a videira, e para conduzi-la chegou o enólogo Jean Vitrat. Foi dessas vinhas que, em 1990, nasceu o primeiro prêmio para um vinho nordestino. Ele foi eleito, entre tantas amostras avaliadas, o melhor vinho tinto brasileiro por uma seleta confraria, a convite de revista de circulação nacional.

Extensão do rio

Mas, nessa história, quem é o grande protagonista? É o Velho Chico. Um rio que permite dupla interpretação desde seu nascimento. Para unificar os dados relativos ao rio, como o local de seu nascimento ou até seu tamanho, o engenheiro agrônomo Geraldo Gentil Vieira coordenou a chamada Expedição Américo Vespúcio. Durante 32 dias, no fim de 2001, Vieira percorreu toda a extensão do rio São Francisco, liderando uma equipe de 28 técnicos, que usaram imagens de satélite e medição por GPS geodésico.

Para o engenheiro, o rio brota no planalto de Araxá, a 1.255 metros de altitude, na serra D’Água, a 70 km do município de Medeiros (MG). O rio Samburá liga essa nascente àquela historicamente identificada, dentro do Parque Nacional da Serra da Canastra. Se a referência for a nascente na Canastra, o Velho Chico mede 2.814,12 km. Porém, levando em consideração essa outra nascente geográfica, no planalto de Araxá, que Vieira identificou seguindo a normatização e os padrões da Agência Nacional de Águas (ANA), o rio mede 2.863,30 km. A oficialização dessa nova metragem aguarda o reconhecimento oficial do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Ainda muito tenro para buscar o mar, o rio “Opará” ignora a altura e se joga nos 186 metros da cachoeira Casca d’Antas, a mais alta queda-d’água de todo o rio. Recomposto, sai serpenteando por cinco estados brasileiros, lavando mais de 500 municípios. Nessa busca incansável pelo mar, faz felizes os ribeirinhos, saciando-os de água e alimento.

O rio cria um oásis ao passar pela ponte de ligação Petrolina a Juazeiro, transformando as pessoas, e, tão importante, fez brotar ali uma grande mancha verde de prosperidade e desenvolvimento. O Velho Chico do aproveitamento energético é generoso com o grande Vale do São Francisco, a região mais árida do semiárido brasileiro. Seus extensos pomares são responsáveis por 100% das exportações brasileiras de uva e por 97% das exportações brasileiras de manga. E assim, irrigadas pelo generoso Chico, nossas mais diferentes frutas alcançam as mesas de reis e rainhas nos quatro cantos do mundo, nos mais exigentes mercados. É essa diferenciação que chega, também, a nossos vinhedos.

E por que somos tão especiais? Os bons vinhos exigem verões quentes e secos na produção de suas uvas. O Nordeste brasileiro, famoso pelas suas secas, apresenta no Vale do São Francisco a média anual de 3.100 horas de luz solar. Temos um terço a mais de sol quando comparamos as 2.008 horas da propalada região francesa de Bordeaux.

É natural: se temos tanto sol, definitivamente nos faltam chuvas. E quando elas chegam, regularmente no primeiro trimestre, são muito bem-vindas, e as igrejas lotam em romarias para agradecer São José. E, melhor, nossos vinhedos jamais conheceram a causticidade de tempestades de vento ou de chuva de granizo, tampouco a desalentadora geada tardia nos seus períodos de brotação, floração, frutificação ou ainda da geada precoce nos frutos já maduros em véspera de colheita, como acontece nas mais diferentes regiões pelo mundo.

Essa condição climática, ímpar em relação a qualquer região vínica do mundo, faz jorrar de seus vinhedos, anualmente, 6 milhões de garrafas. Nesse mar de vinhos, temos mais de uma dezena de rótulos premiados em renomados concursos do mundo. Além disso, o crescimento constante do enoturismo ratifica o Vale do São Francisco como a segunda maior região brasileira na produção de vinhos finos.

Alquimia Sol e Velho Chico

E o pensar do século XXI para a questão “vinho & saúde”? É muito relevante a resposta da planta para a falta de água e o sol forte diário, do qual naturalmente busca se proteger. Essa condição, de muito sol e pouca água, obriga nossas uvas a produzir, na casca de seus frutos, uma grossa camada de diferentes polifenóis, entre estes o resveratrol e outros compostos tão importantes para a saúde humana. Os vinhos do sertão são dez vezes mais ricos em resveratrol que qualquer outro vinho tinto oriundo das mais afamadas regiões vínicas do mundo.

Essa alquimia do sol e do Velho Chico nos permite a quebra de paradigmas. Nenhuma região do mundo consegue colher duas safras anuais. Valorizam-se os vinhos ao máximo quando a colheita chega e as chuvas, durante o ciclo produtivo, foram muito poucas. Isso, na nomenclatura vínica, é uma safra excepcional. E o que dizer de um vinho oriundo de uvas que,durante o seu ciclo de produção, não receberam uma gota de água do céu? Os vinhos do Velho Chico, mais do que safras excepcionais, oferecem colheitas todos os dias do ano. Essa típica condição climática apresenta uma verdadeira enciclopédia de enologia, pois oferece, lado a lado, o ciclo completo de uma videira.

A poucos passos se encontram videiras em repouso, videiras podadas com a seiva derramando e exalando seu cheiro forte e característico, videiras brotando, videiras em floração, videiras em frutificação, videiras com cachos amadurecendo e ainda videiras com cachos maduros e outros sendo colhidos. Isso não acontece em nenhuma outra região do mundo, uma vez que as regiões temperadas obedecem ao calendário da videira e todas estão sempre no mesmo estágio da planta, nos mais diferentes vinhedos. Aqui temos videiras que copiam a nossa vida em todas as estações.

E, assim, o rio – “Opará” para os índios; “rio dos Currais” para os antigos criadores de gado em suas margens; “rio São Francisco” para os órgãos oficiais; e “Velho Chico” para nós que o sorvemos todos os dias – apresenta, gota a gota, afamados e premiados vinhos. São vinhos variados, de jovens e frutados, descompromissados, aos complexos, elegantes, com sinais fortes de longevidade – pois certamente o futuro provará o que o presente já degusta.

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UNIVERSIDADE, ÓRGÃOS DE PESQUISA, AGRICULTORES FAMILIARES E ORGANIZAÇÕES DE APOIO ESTÃO SE UNINDO PARA DESENVOLVER NOVAS TECNOLOGIAS E FORMAS DE PRODUZIR NO SEMIÁRIDO A PARTIR DA ÓTICA DA AGROECOLOGIA, QUE CONCILIA DESENVOLVIMENTO RURAL, ECOLOGIA, ESTRATÉGIAS DE CONVÍVIO COM AS ESPECIFICIDADES DA CAATINGA E VALORIZAÇÃO DAS POTENCIALIDADES E COMUNIDADES LOCAIS

ENTREVISTA COM HELDER RIBEIRO FREITAS

A vida no sertão para os agricultores e suas famílias mudou muito ao longo dos anos, com o desenvolvimento de novas formas de atuação econômica, baseadas na necessidade de se adaptar à complexidade da Caatinga. Não se trata apenas de viver, mas sim de conviver com o semiárido, com uma produção que valoriza e respeita os saberes, a cultura e a identidade dos moradores da região. Utilizando práticas e tecnologias apropriadas ao ambiente do semiárido, agricultores vêm enfrentando a seca e as variações climáticas locais, garantindo melhor qualidade de vida e permanência na terra. Elementos como a valorização dos conhecimentos locais e a troca de experiências entre os diferentes atores sociais do semiárido são determinantes para a adoção da produ ção baseada nos princípios da agroecologia e sustentabilidade na região. Em entrevista, o professor Helder Ribeiro Freitas, coordenador do Núcleo de Estudos do Sertão Agroecológico da Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf), de Petrolina, comenta as experiências bem-sucedidas na região, mas também adverte sobre os riscos da degradação do rio São Francisco.

Hoje, as atividades econômicas na região do São Francisco são muito diferentes daquelas de algumas décadas atrás. Como está o panorama atual e o que mudou?

Do ponto de vista de exploração econômica, a realidade aqui é bem contrastante e complexa. Nós temos, por exemplo, os agricultores que trabalham na área de sequeiro, sem uso de irrigação, em um lugar onde chove 400 mm por ano – na região Sudeste, são normais precipitações anuais de 1.500 mm a 2.500 mm. Esses agricultores trabalham na perspectiva de conviver com o semiárido, que consiste em produzir a partir de plantas e espécies de animais que são adaptadas a esse ambiente, além de utilizar estratégias de uso eficiente da água para consumo e produção. Ao longo dos últimos 20, 30 anos, além da experiência desses agricultores, temos o trabalho de organizações de apoio que atuam com os agricultores familiares, construindo junto, sistematizando e desenvolvendo uma série de tecnologias e estratégias de promoção da convivência com o semiárido. Quando analisamos os ambientes à beira do rio São Francisco, vemos os projetos irrigados, embora isso não signifique que próximo ao rio não haja, além dos ribeirinhos, os agricultores tradicionais. No caso dos projetos de irrigação, são outras questões que chamam atenção, dentre as quais podemos destacar as ligadas à gestão desses projetos, pois são empreendimentos mais articulados com o mercado, com sistemas agroindustriais de produção, que fogem muito da lógica das comunidades tradicionais que estão no universo da convivência com o semiárido. Vemos os agricultores que se adaptam a esses sistemas mais empresariais, de gestão de recursos financeiros, insumos e articulação com o mercado, e que trabalham esse modo de vida e produção articulado com o agronegócio. Há, por outro lado, aqueles que não conseguem se manter, porque tudo é muito caro: energia, água, é preciso pagar mão de obra. Nesse caso, não é só a família que trabalha, pois em 1 hectare de uva – 1 hectare corresponde a 10.000 m2, por exemplo, é necessário ter muita gente para dar conta do volume de atividades demandadas pelo sistema produtivo. Trata-se de um sistema de produção extremamente inadequado às características socioculturais das populações tradicionais locais. É um contraste muito grande.

Os assentamentos da reforma agrária, de maneira geral, têm propostas mais coletivas de organização, porque são experiências essenciais para sua constituição e desenvolvimento. Aqui em Petrolina temos um caso interessante,do assentamento Mandacaru [leia mais sobre esse projeto a partir da pág. 54]. Mesmo vivenciando todas as dificuldades e desafios de vida e produção no ambiente sequeiro, eles têm conseguido certo equilíbrio, de modo a implementar experiências individuais e coletivas de sucesso de organização social e produção, além de superar algumas limitações a partir das formas de organização associativas e colaborativas. E isso é fundamental, pois muitos podem ter todo o potencial – terra boa, água, além de recursos materiais e financeiros –, entretanto, se não estiverem organizados a partir de iniciativas próprias, as coisas não andam.

OS ASSENTAMENTOS DA REFORMA AGRÁRIA, DE MANEIRA GERAL, TÊM PROPOSTAS MAIS COLETIVAS DE ORGANIZAÇÃO, EXPERIÊNCIAS ESSENCIAIS PARA SUA CONSTITUIÇÃO E DESENVOLVIMENTO

Você coordena o Núcleo de Estudos do Sertão Agroecológico, na Univasf, que desenvolve projetos em parceria com assentamentos como o Mandacaru, além de outros grupos de agricultores e organizações locais. Qual é o principal foco de atuação desse núcleo?

A Univasf é nova, tem 11 anos, e o curso de Agronomia tem seis, formou a terceira turma agora. Estamos no processo de construção das perspectivas de atuação da instituição na região e, a partir dessa aproximação com as comunidades, com os grupos, temos chegado aos agricultores, organizações de apoio, ONGs, sindicatos. Hoje temos editais internos e bolsistas e propomos disciplinas para fazer a interação dos alunos com a comunidade. O foco principal do núcleo é divulgar a agroecologia como uma perspectiva de desenvolvimento sustentável no campo, além de promover a produção de comida saudável e de qualidade para a população, de uma forma justa para os agricultores e consumidores. E uma das principais estratégias consiste na identificação e na sistematização de experiências de sucesso em transição agroecológica com agricultores e organizações dos territórios do sertão baiano e pernambucano – que envolve 18 municípios. Começamos com ações muito pontuais em escolas há quatro anos. Atualmente já temos uma dimensão territorial, pela relação que temos construído com agricultores e organizações. A partir daí, trabalhamos para captar demandas de pesquisa para dentro da instituição, saber o que a universidade pode trabalhar e potencializar no campo dessas experiências que os agricultores já estão tendo, divulgar essas experiências, que são de referência na região, para outros agricultores e comunidades que estão tentando se organizar. Trabalhamos com formação na escola, com agricultores e com agentes técnicos por meio das ações de Assistência Técnica e Extensão Rural – Ater. Atuamos também no campo da formação para intervenção nas comunidades, nessa perspectiva de continuar valorizando o conhecimento local e tornando possível que esse conhecimento dialogue com as diferentes propostas de práticas e técnicas de produção e desenvolvimento rural.

SE A SECA QUE O SERTÃO NORDESTINO VIVEU NOS ÚLTIMOS TRÊS, QUATRO ANOS FOSSE NA DÉCADA DE 1980, TERÍAMOS VISTO MUITAS PESSOAS MORRENDO DE FOME. E ISSO NÃO SE VIU.

A região rural do semiárido foi uma das que mais cresceram no Brasil nos últimos anos. Muitos falam no “paradigma de convivência com o semiárido”. Como você enxerga essa evolução e para que caminhos ela aponta?

O que se observa é que a questão da convivência com o semiárido tem valorizado aquilo que, em um primeiro momento, os próprios agricultores não tinham e não identificavam como potencialidade. O que se tem trabalhado muito hoje é a valorização dos produtos locais como o umbu, o maracujá-do-mato, entre outros frutos da Caatinga. Isso tem sido um potencial e temos algumas associações e cooperativas que trabalham em prol disso. Por exemplo, em Curaçá, Bahia, existe a Cooperativa Agropecuária Familiar de Canudos, Uauá e Curaçá – Coopercuc –, que atua só com processamento do agroextrativismo da Caatinga. Eles conseguem comercializar no mercado nacional e também exportam. Têm todo o conhecimento e articulação necessários, além de produtos certificados. Trata-se de uma experiência de sucesso. Temos também o Instituto Regional da Pequena Agropecuária Apropriada – Irpaa –, uma instituição criada há 26 anos para atuar em conjunto com agricultores de modo a trabalhar as potencialidades regionais e estratégias de convivência com o semiárido. Ambas as organizações têm contribuído muito nesse sentido.

Se a seca que o sertão nordestino viveu nos últimos três, quatro anos fosse na década de 1980, teríamos visto muitas pessoas morrendo de fome. E isso não se viu. Na realidade, não se viu por conta de todas as tecnologias, intervenções, ações voltadas a potencializar e dispor de água das formas mais tradicionais, além das ações de convivência com o semiárido. Posso citar uma série de iniciativas nesse campo de tecnologias sociais de convivência que ajudam: construção de barreiros-trincheira, barragens subterrâneas, captação de água de chuva por meio de cisternas, entre outras.

Vemos também a valorização da criação do caprino em detrimento de outras criações que consomem muita água, por exemplo. No caso do caprino, tem toda uma discussão sobre o impacto dele no meio ambiente, mas, do ponto de vista da identidade cultural e também da convivência com o semiárido, tem sido uma atividade importante. Evidentemente, faz-se necessário o aprimoramento dessas formas tradicionais de criação de caprino e mesmo pensar em outras possibilidades para construir e aprimorar formas mais sustentáveis de atividades produtivas articuladas com a identidade cultural local dos agricultores.

O que significa transição agroecológica e de que forma esse processo e as experiências nesse sentido contribuem para uma mudança no cenário produtivo e socioeconômico do Brasil, em especial na região do São Francisco?

A transição agroecológica é um processo que passa por algumas etapas. Temos vários contextos socioambientais no Brasil, e em cada um ela vai acontecer de uma forma. No contexto daqueles grupos de agricultores familiares, que já vivenciaram tudo na agricultura convencional e que foram impactados do ponto de vista econômico e de degradação ambiental, vemos que eles acabaram obrigados a iniciar um processo de transição. Isso ocorre justamente porque esses agricultores ou já viveram intensamente o impacto dos sistemas convencionais de produção, altamente dependentes de insumos e agrotóxicos, ou viveram a frustração com o sistema convencional, o qual não deu as respostas socioeconômicas esperadas, ou por causa de uma conscientização de que o sistema é insustentável. Nesse sentido, alguns grupos passaram a buscar tecnologias, práticas, estratégias que já existem, em grande parte, para produzir substituindo os agroquímicos. Ou seja, o primeiro passo é eliminar os agroquímicos e substituí-los por insumos que não agridem o meio ambiente e a saúde dos agricultores e consumidores. Esse seria um primeiro nível da transição. Na medida em que se avança, é demandado mais conhecimento local dos agricultores sobre os agroecossistemas manejados e construídos. Para manejar, é preciso observar e avaliar, demandando do agricultor envolvimento direto com o sistema de produção. Por isso, a agroecologia é extremamente ligada à agricultura familiar. Quanto maior a dimensão da terra e maior a intensidade do sistema de cultivo, mais difícil implantar um sistema agroecológico. Porque, nesses casos, é necessário trazer gente de fora, contratar muita mão de obra. E qual é a relação das outras pessoas com aquele recurso? Eles são funcionários que vão cumprir horas. É um processo de alienação do trabalho. Fica realmente difícil ser agroecológico em grandes propriedades e em sistemas muito intensivos, mesmo no caminho de uma transição e substituição de insumos. Essas iniciativas de grandes propriedades buscando substituir insumos dos sistemas convencionais têm sido denominadas por uns de “agricultura sustentável”, o que ainda assim é questionável.

No caso dos agricultores familiares, eles vão construindo o conhecimento local dos agroecossistemas de como lidar com os problemas, os recursos, e passam a construir sua autonomia, com estratégias próprias, sem depender tanto dos recursos externos. É nesse sentido que o processo de transição avança. Pode-se ficar no nível de troca de insumo, e há uma discussão em torno da agricultura orgânica – de que ela acaba, em muitos casos, trabalhando muito mais na substituição de insumo –, mas no sentido do avanço dessa transição, não é simplesmente uma troca. É uma construção de conhecimento local, de autonomia em relação ao conhecimento e ao recurso também.

Com base em trabalhos de pesquisa na universidade, poderia citar experiências que estão fazendo a diferença, transformando o semiárido em território de desenvolvimento sustentável?

A identificação de algumas dessas experiências vem da relação que construímos com agricultores, grupos, instituições, organizações de apoio, bem como pelo que temos observado na região ao longo dos anos. É uma relação positiva estabelecida com a comunidade que tem um bom retorno para a universidade, porque ela consegue ter acesso a um espaço que precisa de gente formada para atuar. Também é bom para os agricultores, porque trocamos experiências e conhecimentos que, em alguma medida, também contribuem com a condução das experiências. Isso também acontece no campo da pesquisa. De maneira geral, as experiências que identificamos passam por construção de estratégias de produção de alimentos para consumo, comercialização e geração de renda nas comunidades no contexto do semiárido. Nesse sentido, destacam-se as experiências envolvendo os processos de captação, armazenamento e manejo da água de chuva nos diferentes contextos sociais; implantação de hortas comunitárias agroecológicas ou orgânicas e quintais produtivos, agroindustrialização de produtos locais, com diferentes formas de organização social para produção e comercialização; bem como iniciativas de qualificação dos processos de assessoria às comunidades.

Em Petrolina, por exemplo, existem mais de 20 hortas urbanas, ocupando uma área de 5 hectares e produzindo alimentos dentro da cidade. E isso é extremamente importante do ponto de vista produtivo, econômico e social, porque são mais de 80 famílias envolvidas nessa produção. Outra experiência é a formação de agentes de Ater que desenvolvemos no ano passado com o Irpaa aqui de Juazeiro e com o Instituto Agronômico de Pernambuco – IPA. Fizemos diversos trabalhos nesse sentido, envolvemos nossos alunos nas ações de Ater coordenada pelo Irpaa nas comunidades e percebemos que já teve efeitos positivos, o que demonstra a necessidade de continuar esse processo, capacitando quem está fora – nas escolas técnicas e universidades – e quem já está atuando nas organizações de Ater.

A AGROECOLOGIA É EXTREMAMENTE LIGADA À AGRICULTURA FAMILIAR. QUANTO MAIOR A DIMENSÃO DA TERRA E MAIOR A INTENSIDADE DO SISTEMA DE CULTIVO, MAIS DIFÍCIL IMPLANTAR UM SISTEMA AGROECOLÓGICO

Muito se fala da morte do rio São Francisco, como consequência de uma série de modificações que ele vem sofrendo ao longo da história por causa, sobretudo, da ação humana. Alguns especialistas consideram o processo irreversível. O Velho Chico vai resistir?

Olha, é bem difícil, muito complicado, porque historicamente é um rio que foi muito maltratado. Morei 13 anos da minha vida no estado de Minas Gerais, onde nasce o rio São Francisco, lá tive a oportunidade de trabalhar no Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária – Incra –, viajar pelo estado e ver o estrago feito na bacia do São Francisco. A região do Cerrado foi toda devastada em Minas Gerais, toda a área de captação do rio está em um processo extremamente crítico de degradação. E é a água do São Francisco que está no oeste da Bahia e Minas Gerais, né? Então, se formos ao oeste da Bahia, a água é intensamente utilizada pelo agronegócio, por meio de sistemas de irrigação denominados pivô central. De Minas Gerais até a Bahia, em suas áreas de captação de água, é muita degradação, erosão e assoreamento no rio. Não se veem ações nas dimensões necessárias para preservar o rio. E isso significa que predomina o processo da degradação. Vemos que a luz no fim do túnel está se apagando, porque essas ações já deveriam estar ocorrendo para, em um futuro ainda não tão próximo, começarmos a ver seus efeitos. Há muito a ser feito no sentido de formação, de educação, para que a gente possa mudar a realidade do sertão, do Nordeste, do semiárido, em relação ao desenvolvimento socioambiental sustentável, porque a agroecologia é uma das estratégias. Temos de valorizar o ser humano, dar condições dignas de vida e, apesar de algumas coisas estarem acontecendo, ainda há muito a ser feito. O campo da educação é uma das principais estratégias para que o processo acelere, se reverta. A Univasf é uma instituição importante para a região. Se a gente parar para pensar, numa região enorme como essa, há 11 anos havia um vazio institucional no campo do ensino e pesquisa para pensar sua diversidade sociocultural e econômica em toda a sua complexidade. E ela já vem dando sua contribuição do ponto de vista de reflexão, de pensamento, de elaboração de discussão de propostas e estratégias de desenvolvimento junto a essas iniciativas da população do semiárido para potencializar o desenvolvimento local. A própria implantação da universidade já foi um avanço, entretanto ainda há muita coisa a ser feita.

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CACTO VIRA SOLUÇÃO E DÁ INÍCIO A UMA SÉRIE DE INICIATIVAS QUE MELHORARAM A QUALIDADE DE VIDA DE COMUNIDADE AGRÍCOLA EM PERNAMBUCO

A agricultura orgânica deve movimentar R$ 2,5 bilhões este ano no Brasil, meio bilhão a mais que em 2014. Os números mostram o crescimento desse segmento e abrigam histórias como a de Ozaneide Gomes dos Santos, presidente da Associação de Produtores Orgânicos do Vale do São Francisco e uma das coordenadoras da Associação de Agricultores e Agricultoras Familiares do Assentamento Mandacaru, em Pernambuco. O artesanato foi a primeira atividade econômica do assentamento, que depois se notabilizou por encontrar soluções em um cená rio aparentemente com poucas opções. Do cacto, conhecido como xique-xique, se originaram doces e cocadas com alto valor nutricional. As alternativas foram surgindo e, com a produção em curso, outras iniciativas foram postas em prática para melhorar a qualidade de vida das pessoas da comunidade, como alfabetização e a realização de oficinas culturais para estimular a permanência de jovens no campo. Essas ações estão dentro do conceito de agroecologia, que Ozaneide explicou durante o evento Vozes do Velho Chico, promovido pela Globo em março de 2016 no Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro. Diante de uma plateia formada por estudantes universitários, contou as histórias vividas por ela e sua comunidade nas proximidades do rio São Francisco. A seguir, um resumo da apresentação da produtora de orgânicos.

As mulheres e a terra

A agroecologia muda de fato a vida de qualquer pessoa, principalmente a das mulheres. Quem idealizou a agroecologia foi a mulher, pensando na segurança alimentar dos seus filhos, da sua família. A mulher tem uma sobrecarga na vida, seja no meio urbano, seja no meio rural. No meio rural, sua situação é ainda pior porque ela acorda ao amanhecer, às 4 da manhã. Ele leva uma vida dupla, tripla, pois é, acima de tudo, cuidadora. É a mulher que pensa no bem -estar dos filhos; é a mulher que pensa “como eu vou melhorar a qualidade de vida da minha família?”. A partir daí, começa a desenvolver atividades como o artesanato, o beneficiamento de frutas. Além disso, se preocupa com a alimentação saudável. Dados dizem que no Brasil se consomem mais de 5 litros de agrotóxico por ano. Isso faz a gente refletir: “Que alimento é esse que a gente está colocando nas nossas mesas?". A mulher parte do princípio de que “se eu tenho uma alimentação saudável, futuramente eu não terei problema de saúde".

Até 2008, a Associação de Agricultores e Agricultoras Familiares do Assentamento Mandacaru era composta, na sua totalidade, por homens. Depois, houve uma revolução e, hoje, as mulheres representam 90% de sua composição – minha mãe, aliás, foi a primeira mulher na presidência da associação.

Crescimento sustentável

A nossa Caatinga, que é único bioma realmente brasileiro, é pouco estudada. O Cerrado é o que mais se estuda, mas a Caatinga não. Existe, nesse bioma, um cacto chamado xique-xique, que é o que sustenta a criação de caprino e ovino, e de bovino na época da estiagem. Minha avó fazia um doce desse cacto, e fomos estudar como poderíamos comercializar essa receita. Mandamos o xique-xique para o laboratório, e pasmem: em sua composição, ele tem 23% de magnésio e 42% de fibra. Ou seja, um alimento riquíssimo, e ninguém nunca tinha visto isso. Temos essa planta em abundância na nossa região e começamos a desenvolver esse doce para comercialização.

Temos na comunidade uma horta comunitária, que foi a primeira na região a ser certificada como orgânica. Hoje nós temos as certificações, tanto a de auditoria quanto a de controle social. Nós também desenvolvemos outros projetos, como os de beneficiamento, fazendo doces de frutas típicas da região. Nós temos um projeto inovador, que é o da uva orgânica, que ninguém acredita ser possível produzir. Tem uma área de 35 hectares, que é uma área coletiva na qual se produzem as frutas que serão beneficiadas. Não é uma agroindústria, é uma cozinha que foi construída por nós, mulheres. Colocamos a mão na massa e fizemos tudo, desde o piso até a parte final.

Com essa produção expandindo, a gente tinha de comercializar em algum local. E nós não tínhamos nenhuma feira agroecológica ou orgânica na comunidade, no município, na região. Nós nos organizamos por meio da Associação de Produtores e Produtoras de Orgânicos do Vale do São Francisco – Aprovasf –, da qual sou presidente. Em 2013, criamos a primeira feira orgânica de Petrolina. Deu tão certo que hoje nós já somos duas, expandimos, temos uma na cidade vizinha, Lagoa Grande, e a pretensão é criar um mercado de orgânicos lá na região.

Gestão da água

Apesar de estarmos a 20 km do rio São Francisco, a comunidade em que eu moro não tem água encanada para produção, tem água apenas para o consumo humano. Nós tivemos de nos virar com essa água que temos para o consumo humano para produzir. E tivemos de fazer toda uma gestão de uso: durante o dia, essa água vai para as famílias e, à noite, temos de dividi-la nesses projetos. Eu não sou contra a transposição do São Francisco, porém acho que o rio deveria ser, primeiramente, revitalizado. Se vocês tiverem a oportunidade de fazer o passeio pelo rio de catamarã, vão ver que ele realmente precisa ser revitalizado. Não é uma questão de egoísmo, pois a água tem de chegar também para os que precisam, mas a gente tem de cuidar também do nosso Velho Chico.

A AGROECOLOGIA NÃO PENSA APENAS NA PRODUÇÃO, MAS EM TUDO O QUE ESTÁ ENVOLVIDO NO CONTEXTO DE UMA COMUNIDADE

Agricultura orgânica x agroecologia

Uma perguntinha básica: vocês sabem a diferença entre agricultura orgânica e agricultura agroecológica? A agricultura orgânica é uma agricultura limpa, porém feita em grande escala. Quando se pensa em produzir sem produtos agroquímicos, mas não se pensa na comunidade e em tudo o mais. A agroecologia, essa técnica de produção, não pensa apenas na produção, mas em prol da organização social, do meio ambiente, em tudo o que está envolvido no contexto de uma comunidade.

A nossa comunidade tem pouco mais de 500 pessoas. Destas, 32 mulheres não sabiam fazer o seu nome. Então a gente foi ver de que forma poderia melhorar essa questão educacional, porque a educação é a base de tudo. A gente começou a alfabetizar essas mulheres. Dessas 32 mulheres, 30 agora são alfabetizadas, sabem ler e fazer o seu nome.

Nessa comunidade, a grande maioria dessas pessoas tem mais de 60 anos, e a gente tem de criar atrativos para que a juventude permaneça no campo. Temos algumas oficinas de teatro e de cultura da nossa região.

Rumos da produção

Existem 11.084 produtores de orgânicos, entre produtores e propriedades no Brasil. Aqui no Rio de Janeiro existem 527. Esses dados estão no mapa do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. São Paulo tem 1.438, e o Rio Grande do Sul é o estado com o maior número de produtores certificados (1.554). Em Pernambuco, temos 651 – destes, 102 estão na nossa região do Vale do São Francisco, e Petrolina e Juazeiro contemplam 65 produtores, que são os nossos associados. A agricultura familiar no Brasil é responsável por mais de 70% da comida que vai para a mesa do brasileiro, principalmente com feijão, mandioca e aves.

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UMA ENGENHEIRA AGRÔNOMA NASCIDA NA ÁUSTRIA FOI A PIONEIRA NO DESENVOLVIMENTO DA AGRICULTURA ECOLÓGICA E ORGÂNICA NO BRASIL. AOS 95 ANOS, ELA DEFENDE O CONVÍVIO ENTRE PRODUÇÃO DE ALIMENTOS E PRESERVAÇÃO DO MEIO AMBIENTE

ENTREVISTA COM ANA MARIA PRIMAVESI

Ana Maria Primavesi nasceu em 1920 numa família de nobres da Áustria. Cresceu em um castelo e foi uma das poucas jovens a entrar na Universidade de Viena para estudar Agronomia. Ali conheceu o marido, com quem, ao final da Segunda Guerra, desembarcou no Brasil. Aqui chegando, deparou-se com práticas de agricultura convencional que copiavam aquelas utilizadas em clima temperado, como o da Europa. Passou então a estudar as características próprias do solo tropical e, como professora e pesquisadora da Universidade de Santa Maria, no Rio Grande do Sul, onde começou a dar aulas, elaborou estudos e teorias que defendiam o desenvolvimento de uma agricultura que tratasse, antes de tudo, da preservação da diversidade orgânica do solo. Pois o solo, como diz, é a base da vida – inclusive dos rios.

Ela formou gerações de agrônomos, e suas pesquisas – reunidas em mais de uma dezena de livros e artigos científicos e difundidas em congressos e seminários internacionais – representaram um marco na agricultura tropical. Precursora da agricultura orgânica e ecológica, Ana Maria continua inspirando produtores rurais a adotar o manejo ecológico do solo. Aos 95 anos, colecionando diversos prêmios internacionais, ela concedeu esta entrevista ao Caderno Globo, contando sua trajetória, seus estudos e pesquisas e a importância do trato correto do solo para garantir seu uso por milhares de anos.

A senhora nasceu na Áustria, numa família de nobres, cresceu num castelo e dedicou-se intensamente ao estudo da agricultura e do solo. Como surgiu o interesse por esse tema?

A nobreza rural não discriminava as pessoas. Os amigos da família eram todos da nobreza rural, e a população do povoado via meu pai como líder político da região. Na realidade, meu pai era antes de tudo um agropecuarista convicto, voltado para o desenvolvimento rural. Minha mãe também era voltada para a jardinagem, a horta caseira e as plantas medicinais. Na época, a agronomia era a profissão mais interessante e instigante para mim. Existiam muito poucas meninas fazendo esse curso. Mas eu estava determinada.

Como foi sua vinda para o Brasil? Quando chegou, pensava em aplicar os conhecimentos sobre agronomia adquiridos na Universidade Rural de Viena? De que forma?

A guerra matou muitos entes queridos. Era morte por todo lado. Eu queria ter uma famí lia e não queria que uma guerra levasse meus filhos. Queria trabalhar a favor da vida – o que fiz minha vida inteira, por meio do solo, base da vida. No pós-guerra, o futuro ainda estava nebuloso quando meu esposo recebeu convite para trabalhar com trigo no estado de São Paulo, e eu iria acompanhar esses trabalhos e dar meus palpites nos problemas a serem enfrentados. Foi um período de adaptação a uma nova realidade de língua, de povo, de cultura, de alimentação, de doenças tropicais, e de aferição dos conhecimentos tropicais teóricos e de fortalecimento de certas convicções técnicas que havia aprendido em Viena. No início vivíamos em ambiente rural e periurbano, e eu mais no ambiente doméstico, mas colaborando com meus conhecimentos na plantação de trigo e depois de cana, na tradução de textos técnicos e na redação dos primeiros livros, que foram nove na década de 1950.

A Universidade Rural de Viena era uma das melhores do mundo na época, pois aprendemos sobre todos os tipos de solos e climas do mundo, tínhamos inclusive uma matéria sobre solos tropicais. Isso ajudou muito nosso trabalho no Brasil. É lógico que observamos, analisamos, tirávamos conclusões para a realidade local.

Depois de 11 anos, com os resultados impressionantes na cultura do trigo, surgiram oportunidades de trabalho na área de ensino, pesquisa, desenvolvimento e inovação. Fomos convidados simultaneamente a trabalhar em Botucatu, Brasília e Santa Maria. Passamos a atuar no Rio Grande do Sul. Foi um período excelente, com muita produção de trabalhos inéditos, apresentação em congressos internacionais e palestras em universidades europeias.

QUERIA TRABALHAR A FAVOR DA VIDA – O QUE FIZ MINHA VIDA INTEIRA, POR MEIO DO SOLO, BASE DA VIDA

Quando a senhora começou a perceber que o solo tropical do Brasil exigia outro tipo de cuidado, de manejo, diferente do que se fazia na Europa?

Como na universidade já tínhamos tido muitas noções sobre o solo tropical, sabíamos que ele merecia um olhar específico. Mas como o Brasil é muito extenso, levando em conta as diversidades da química e física do solo, da ecofisiologia vegetal, da água no solo, precisava-se mostrar que não há uma receita pronta. Cada lugar precisava de uma tecnologia apropriada. O problema é que cada disciplina ensinada aqui nas universidades era estanque, não estabelecia as interações. Aí, como generalista, vendo o conjunto dos fatores e o corpo inteiro do sistema de produção, me dediquei a reunir e unir esses dados, com base na experiência das pesquisas feitas e as práticas adquiridas no Brasil todo, e escrevi o livro Manejo ecológico do solo. O livro, inicialmente com 200 páginas, tem um formato generalista, e foi preciso crescer para mais de 600 páginas para que todos os tipos de especialistas entendessem o processo todo do manejo ecológico do solo tropical. Isso porque o generalista tenta saber de todos os aspectos envolvidos no sistema de produção e os especialistas só conhecem bem sua disciplina desse todo. Esse é um dos problemas que a gente enfrenta. O produtor rural precisa de uma visão do todo e o especialista não entende esse todo. E, pior, o especialista se sente pouco confortável em estabelecer os links, as ligações, e as interações entre as diferentes disciplinas – partes.

Outro dia recebi a visita de um missionário – não agrônomo - que morou no alto Xingu. Lá o solo é rico em alumínio, e ele conseguiu ajudar toda a comunidade agrícola a manejar o solo saudavelmente, só lendo atentamente o livro – leu centenas de vezes, sabendo praticamente de cor. Não tiveram nenhuma praga ou doença. Depois ele se mudou para o Paraná, onde o solo é rico em ferro e o clima é diferente. E igualmente conseguiu ajudar os agricultores, sabendo analisar as condições locais.

O que o solo tropical, em especial o brasileiro, tem de particular?

O manejo biológico, em que o manejo do material orgânico é peça fundamental no trato dos solos tropicais. Mas esse manejo foi lamentavelmente negado e banido insistentemente durante o auge da chamada Revolução Verde, programa adotado em diversos países nas décadas de 1960-1970, que visava aumentar a produção por meio da adoção de sementes, agrotóxicos, maquinários e adubos químicos, em substituição ao orgânico. Do ponto de vista químico, os solos em geral são ácidos, grande parte arenosos, e muitos com alumínio tóxico, por falta de matéria orgânica suficiente no solo. Quanto ao aspecto de proteção contra a insolação e ao impacto das chuvas fortes, é a manta generosa de folhas, galhos picados e restos de culturas anteriores que conserva a permeabilidade e saúde dos solos. Em realidade, a natureza utiliza os mesmos processos para construir e manter os solos a partir dos ambientes naturais primários. Só que em velocidade muito mais rápida do que em solos de clima temperado.

Quando a senhora começou a falar de “agricultura natural”, “manejo ecológico do solo”, “solo vivo”, nos anos 1960, como essas ideias eram recebidas? Agricultura e ecologia eram noções associadas?

Essas ideias conflitavam com as ideias da Revolução Verde. Foi um embate duro. As pessoas tiveram de passar pelos processos da Revolução Verde para chegar à conclusão de que algo estava errado no manejo e que a nossa proposta era mais adequada. Veja, os professores do curso de Agronomia que fizeram pós-graduação nessa área, que eu e meu marido implantamos na Universidade Federal de Santa Maria, disseram que concordavam com tudo o que se falava, mas nada podiam alterar nos currículos, pois tinham de capacitar os alunos a passar nos concursos, que tinham como base os métodos da Revolução Verde, importada de clima temperado. Desistimos da universidade e fomos para a consultoria de empresas agrícolas. Em 1980, um grupo de jovens agrônomos da Associação de Engenheiros Agrônomos do Estado de São Paulo – Aeasp – comprou as ideias e ajudou a lutar.

O QUE SE DEVE PROCURAR SÃO OS PROCESSOS INTEGRADOS QUE A NATUREZA ENSINA

Quais são as diferenças entre agricultura orgânica e ecológica? Em seus artigos e aulas, a senhora ressalta os riscos de um crescimento desenfreado da agricultura orgânica. Quais são esses riscos?

A agricultura orgânica em que somente os insumos químicos são trocados por orgânicos, mas os procedimentos continuam os mesmos, apresenta riscos quase tão grandes quanto os da agricultura convencional, só sem o problema dos agrotóxicos. Degrada os solos da mesma forma. Isso não é orgânico. O que se deve procurar são os processos integrados que a natureza ensina, e que são repassados na visão ecológica, agroecológica. Se forem adotados os procedimentos agroecológicos, naturais, tanto os alimentos têm maior valor biológico como os solos são preservados e teremos água residual à vontade.

A novela Velho Chico retrata, por meio de uma história de várias gerações de famílias instaladas no vale do rio São Francisco, uma mudança de panorama na produção de alimentos no local, primeiramente com a luta contra a seca, depois com a chegada da agricultura irrigada e, mais recentemente, com a introdução da agricultura orgânica, ecológica. Como a senhora avalia esse tipo de transformação, sobretudo nessa região do São Francisco?

Já é um bom começo. Mas falta muita coisa ainda. Veja que a bacia do São Francisco está degradada em termos de cobertura vegetal que garantiria um ciclo hidrológico adequado. Água se planta, meu marido e eu já dizíamos nos anos 1950. A função primária do solo é armazenar água disponível. O solo somente consegue realizar essa função sendo vegetado e protegido por uma tripla camada: da parte aérea da vegetação– plantas anuais ou perenes como arbustos e árvores –, passando pela cobertura de folhas, galhos e ramos em decomposição – serapilheira – na superfície da terra, e das raízes superficiais entrelaçadas. Essa tripla camada amortece o impacto das gotas de chuva e a radiação solar direta, evitando a erosão e o ressecamento e aquecimento do solo.

Quando se mantém o solo limpo, descoberto, sem vegetação, o ambiente sofre uma regressão ecológica, com recuo das características favoráveis à vida superior, como nos ambientes urbanizados sem áreas verdes. Irrigação sem se tomar providências para restabelecer o ciclo hidrológico não é solução, somente acelera os problemas de salinização, inutiliza os solos para a agricultura e avança na desertificação. Além dos processos orgânicos e mesmo ecológicos na propriedade, é preciso recuperar a paisagem no nível de bacia hidrográfica. É uma questão de conjunto, de interações positivas que são perdidas se isso não for praticado. Aqui temos, além da vegetação do solo e sua cobertura morta, o estabelecimento de quebra-ventos para aumentar ou alongar o ciclo da água local. O ciclo curto é: evaporação, chuvas, enchentes, mar. O ciclo longo é o normal: evaporação, chuvas, infiltração no solo, lençol freático, rios e mar.

Muitas pessoas ainda dissociam a agroecologia de uma produção de alimentos em grande escala; no entanto, suas pesquisas sempre mostraram o contrário. É possível obter alta produtividade com preservação do meio ambiente?

A agricultura convencional, copiada de clima temperado, atua como se o solo fosse algo descartável. Usa o solo por dois a cinco anos, degrada, abandona e procura nova área. Mas até quando vai ter novas áreas para degradar? Isso os empresários de visão imediatista e de curto prazo não querem considerar. Dizem que custa mais conservar o ambiente. É simplesmente mineração e exploração do solo. Conservar ou recuperar, então, é inviável! Agora o que não entendo é como consideram viável praticar agricultura na Lua e em Marte: tem dinheiro para financiar isso, mas não para recuperar áreas degradadas aqui na Terra. Assim, não é uma questão de produzir mais em grande escala. A questão é garantir a produção em grande escala por milhares de anos. Os sistemas agroecológicos, que têm formato de sistemas agroflorestais, já duram mais de 5 mil anos na Etiópia. Os princípios ecológicos podem ser utilizados em pequena e grande escala. Só que é um pouco mais difícil de administrar. Atualmente é jogado fora aqui no Brasil um terço dos alimentos produzidos. Com uso mais racional dos alimentos, dando preferência àqueles completos, que contêm as substâncias necessárias ao bom funcionamento do organismo e saciam em menos quantidade, e mais terras voltadas a essa agricultura, poderemos alimentar com tranquilidade as populações existentes. O que temos muito ainda é a falta de oportunidade de adquirir alimentos que, vindos diretamente do produtor, os preços baixam muito. Com boa vontade se consegue.

Seus estudos representaram um marco na agricultura tropical e foram pioneiros na introdução de conceitos ligados à produção orgânica. Até alguns anos, a agricultura orgânica era vista como um nicho e hoje é uma tendência mundial. Como a senhora avalia a evolução desse cenário? E como o Brasil se situa nesse contexto?

A agricultura foi orgânica por mais de 5 mil anos, e muitas vezes ecológica. Meu pai procurava fazer melhoramento de gado bovino e da agricultura em bases ecológicas. Só não era conhecido como tal. O que vejo é uma teimosia em aceitar os procedimentos ecológicos na agricultura após a Revolução Verde. Os venenos desenvolvidos para jogar nas pessoas durante a Segunda Guerra Mundial sobraram. As empresas querem continuar a faturar alto. Não importa se é contra a vida do solo e, consequentemente, a vida humana. No momento, a conscientização da agricultura ecológica ainda é pequena ante o grave e galopante problema das desertificações. A maioria desconhece a amplitude da gravidade.

Vejo que, se o Brasil deseja continuar a ter superávit no PIB por causa do setor agrícola, vai ser preciso adotar imediatamente os processos recuperadores e conservacionistas propagados pela agroecologia. Do contrário, vai ser como naquele município que teve um PIB enorme porque cortou toda a sua cobertura florestal. E, depois, a situação da população foi pior que antes da eliminação da floresta e seus produtos: pobreza, fome, violência, criminalidade. Isso eu não desejo para nosso setor agropecuário. Pois deve ser lembrado que em condições tropicais os processos de decomposição de matéria orgânica, que é peça-chave no processo, ocorrem de quatro a cinco vezes mais rápido – e, conforme o manejo, até 50 vezes mais rápido – que sob condições de clima temperado. Os cidadãos urbanos, com sua força política bem maior que a da população rural, deveriam conscientizar-se disso e ajudar a pedir que a agroecologia seja o procedimento para nossos solos. Quanto mais se consumirem produtos de solos sadios, mais agricultores se engajarão nesse processo e mais rápido haverá um melhoramento dos solos, reservas de água doce e saúde populacional.

CONHEÇA MAIS SOBRE ANA MARIA PRIMAVESI

Matéria exibida no Globo Rural em 16/09/2012

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O RIO SÃO FRANCISCO SEMPRE SIGNIFICOU UM LUGAR DE PASSAGEM, UMA VIA DE CIRCULAÇÃO DOS MAIS DIVERSOS ELEMENTOS E PRÁTICAS CULTURAIS. O VELHO CHICO APARECE, ASSIM, COMO ENTIDADE SIMULTANEAMENTE NATURAL, ECONÔMICA, SOCIAL, CULTURAL, SIMBÓLICA. COMO ELEMENTO CENTRAL DA EXISTÊNCIA DE TODOS OS QUE HABITAM AS SUAS MARGENS

O estado da Bahia não é uma entidade de cultura, uma realidade antropológica homogênea, mas uma unidade política criada pelo federalismo republicano. Suas fronteiras são políticas e não culturais. E marcos geográficos e limites territoriais estabelecidos politicamente não são capazes de fixar fronteiras antropológicas, separando entre si áreas de cultura. Para ficar em nosso tema, toda a margem esquerda do rio de São Francisco, ainda no tempo do Império, pertencia a Pernambuco. Cidades depois baianas, como Remanso, Pilão Arcado e Barra eram, até então, cidades pernambucanas. Quando Pedro I determinou que aquelas terras passassem a fazer parte da Bahia, não houve nenhuma transposição cultural. Apenas a região passou de uma órbita político-administrativa a outra. Culturalmente, porém, permaneceu a mesma. Ou seja: uma coisa é a Bahia como estado, outra é a Bahia como conjunto de culturas diversas entre si.

Vamos sublinhar a diversidade. Quando brasileiros e mesmo baianos falam de “Bahia” e “cultura baiana”, estão se referindo, de modo geral, a um espaço geográfico de cerca de 10 mil km2, que apresenta um alto grau de homogeneidade ecológica, genética e cultural. É a área da Bahia de Todos os Santos e seu Recôncavo, de Salvador e dos núcleos urbanos barrocos de sua interlândia. Mas a Bahia é feita de várias – e nem é somente litorânea. Formas, práticas e elementos culturais distintos e distintivos personalizam diversas regiões culturais baianas. Para que se tenha uma ideia dessas diferenças, basta lembrar que Senhor do Bonfim e os orixás, tão presentes na vida da Cidade da Bahia e seu Recôncavo, não contam ou não contavam para nada, pelo menos até à entrada da década de 1980, no sertão milenarista de Canudos ou no Vale do Rio de São Francisco, com suas visagens caboclas e as suas romarias em direção ao santuário de Bom Jesus da Lapa.

Enfim, uma é a Bahia de Caymmi e Caetano, rebentos do Recôncavo. Outra é a Bahia de Glauber, filho da cultura sertaneja amineirada da região da serra Geral, e ainda outra é a Bahia de João Gilberto, nascido em Juazeiro, às margens do Velho Chico, fronteira com Pernambuco. O principal diferencial antropológico do Recôncavo está na forte presença africana, sob a hegemonia do complexo cultural jeje-nagô. Compare-se essa realidade com a da formação étnica do Vale do São Francisco. O que se formou, ali, foi um tipo humano de extração basicamente lusitana e ameríndia. O negro chegou mais tarde, em número pouco significativo, e foi prontamente absorvido na massa etnocultural são-franciscana.

Outro lance fundamental, com relação ao mundo são-franciscano, é o rio. No passado, em tempos anteriores ao avião e aos meios de comunicação de massa, uma cadeia de montanhas poderia condenar uma vila ou uma cidade ao isolamento e à solidão. Mas rios, como o de São Francisco, sempre significaram o avesso da montanha. Em vez de obstáculo, lugar de passagem. Estrada aquática pela qual circulam e se disseminam os mais variados elementos e práticas de cultura. Cantos, rezas, utensílios e crenças deslizam à flor da água, no bojo de barcos e canoas, difundindo-se pelos atracadouros que vão pontuando as suas margens e se distribuindo por seus afluentes. A cultura e as águas: um estudioso do assunto, Nelson Araújo, fala do “imenso corpo físico e espiritual que as águas do São Francisco plasmaram no coração do Brasil”.

Antes de falar da cultura são-franciscana, porém, acho que cabe um breve apanhado histórico. Ou “pré-histórico”, como se diz. Porque muito antes que Vespúcio rebatizasse o rio, houve gente vivendo por ali. O rio, suas margens e suas ilhas convidavam ao assentamento de grupos humanos. Eram um paraíso de água, peixes e frutas. E são antigos os registros arqueológicos da ocupação humana do vale são-franciscano. Na Gruta do Padre, há vestígios de mais de 7.500 anos atrás. Nos sítios de Itacoatiara, foram encontrados instrumentos e resíduos que remontam a cerca de 2.500 anos. Havia gente vivendo – isto é: fazendo abrigos, compondo canções, tendo relações sexuais, dançando, fazendo fogueiras, caçando, observando estrelas, pescando, enterrando seus mortos, acreditando em deuses –, gente vivendo, repito, nas dunas da zona de Rodelas, há pelo menos 800 anos. O rio de São Francisco conheceu ainda a criação plástica. A “arte rupestre”. O arqueólogo André Prous identificou – no norte de Minas, na Chapada Diamantina, no Vale do São Francisco e em Sergipe – o que ele batizou como Tradição São Francisco, com seus grafismos abstratos, geométricos, seus traços nítidos e suas cores vivas. Outro arqueólogo, Etchevarne, chama a nossa atenção para o Cânion das Pinturas, na serra do Mulato, em Juazeiro, também com predominância de motivos geométricos.

A colonização luso-brasileira da região começou com a expansão da pecuária. Com os currais. Gente que vinha tanto da Casa da Torre de Tatuapara, em Praia do Forte, quanto de outros latifúndios que se formavam. Os currais foram se espalhando pela região. Pontilhando a terra com criatórios. Compondo uma rede. E essas malhas de currais formavam uma espécie de frente colonizadora. Uma frente que, no seu avanço, gerava pequeninos arraiais, futuras vilas, algumas das quais chegariam a cidades. No livro Fidalgos e vaqueiros, Eurico Alves Boaventura escreve: “Vêse que, em toda parte por onde rolou um aboio vespertino para um pouso, marcando o final de uma ‘marcha’, ou se acendeu a trempe para o repasto rude de uma tropa, caiu a semente de uma cidade ou vila sertaneja. A história de muita vila, de muita cidade, quando não é o eco de um salmo ou de uma ladainha... é a ressonância de um aboio... É uma página do romance das tropas, da crônica das boiadas”.

MUNDO DE CRENÇAS, DE LENDAS, DE FÉ. NUM PLANO GERAL, PODEMOS DIZER QUE A CULTURA SÃO-FRANCISCANA É INDESTACÁVEL DA EXISTÊNCIA DO RIO

A região são-franciscana apresentava uma cultura viva e muito própria. Mundo do “ABC do Boi do Estalo”, dos barqueiros, dos caboclos, das cantorias. Mundo da paçoca, do surubim e das piranhas. Mundo da cerimônia dos chamados “penitentes”, com as suas matracas. Mundo de remeiros no rio – e de romeiros na terra. Mundo de crenças, de lendas, de fé. Num plano geral, podemos dizer que a cultura são-franciscana é indestacável da existência do rio. Uma cultura que nasceu das relações cotidianas entretidas entre as pessoas e as águas, das mínimas póvoas ribeirinhas às cidades que se foram formando e ganhando corpo. O rio de São Francisco aparece, assim, como entidade simultaneamente natural, econômica, social, cultural, simbólica. Como elemento central da existência de todos os que habitam as suas margens.

O Vale do São Francisco é todo ele tomado pela fé. Por um catolicismo popular que tem a sua singularidade, com as suas rezas e benzeduras, as suas promessas e procissões. Um catolicismo popular que, obviamente, não tem nada de puro, trazendo consigo, inclusive, elementos de remotas raízes ameríndias. Além de contar com presenças de santos da Igreja Católica – e dos inúmeros devotos que cultuam Santo Antônio, Santa Teresinha ou São Gonçalo –, o vale é densamente povoado por visagens e encantados. Eram essas as crenças que circulavam tradicionalmente de boca em boca e de geração em geração, falando de entidades como a mãe d’água, o surubim-rei, a caipora, a mula sem cabeça, o pé de garrafa, o fogo azul – isto é, dos seres extranaturais que habitam aquelas ribeiras.

Sobre tudo e sobre todos, reina incontestável e soberana a figura do Bom Jesus da Lapa. Consta que Duarte Coelho, donatário da capitania de Pernambuco, foi o primeiro europeu a avistar o morro onde hoje se encontra o santuário do senhor milagreiro. Daquela época para cá, a lapa de pedra se firmou como lugar de penitência e gratidão. É onde as águas do São Francisco assumem cores milagrosas. Bom Jesus toma conta das roças, dos pastos, das lagoas e dos rebanhos. Reza a tradição que o fundador do santuário, frei Francisco da Soledade, vivia na gruta com uma onça – e que as ossadas do frei e da fera estão enterradas lá dentro. Conta-se também que uma enorme serpente emplumada está encerrada na gruta – o que até parece uma fantasia asteca. E é preciso fazer com que a serpente permaneça lá. Se por acaso ela escapar, teremos o fim do mundo. A serpente vai comer todos os rebanhos e beber todos os rios. Para que isso não aconteça é que todos vão orar na gruta sagrada. O mês de agosto é a época da grande romaria à lapa. Milhares de pessoas vão rezar, fazer pedidos, pagar promessas, agradecer graças recebidas, no santuário do Senhor do Sertão. Um espetáculo que se deixa caracterizar pelo singelo e pela imponência, com a fé popular ressoando nas furnas e estalactites daquele santuário de pedra.

EM JUAZEIRO, O JOVEM JOÃO GILBERTO ENTROU EM CONTATO COM A PRODUÇÃO CONTEMPORÂNEA DA MÚSICA POPULAR, TANTO BRASILEIRA QUANTO INTERNACIONAL

Vamos falar alguma coisa sobre mudanças regionais. Entre o final do século XIX e começos do XX, o Vale do São Francisco assistiu à chegada dos trilhos do trem. E à modernização da navegação no grande rio, com a introdução de embarcações a vapor. A estrada de ferro e a navegação a vapor imprimiram outro ritmo às rotinas, aos procedimentos, às trocas regionais.

Enquanto a estrada de ferro fazia a conexão do São Francisco com outras regiões, a navegação se voltou para o mundo e o mercado internos à própria região, ao longo do leito do rio – e afetando seus afluentes. Sobre a navegação fluvial, o seguinte. Ainda em inícios do século XIX, a navegação era feita com canoas de extração indígena. Foi aí que as primeiras barcas começaram a deslizar pelo rio, incrementando a vida e o comércio aquático na região. Porque essas barcas, que logo adotaram cornetas e carrancas, eram um misto de meio de transporte e casa comercial flutuante, levando de um lado para o outro o colorido de sua gente e de seus produtos. Surgiu então a preocupação com a atualização técnica da navegação são-franciscana. E o vapor, a gaiola, entrou em cena. E essas mudanças tecnológicas iriam se aprofundar com o tempo.

A região avançou com outras intervenções físicas de porte, com a ponte Petrolina-Juazeiro e a estrada pavimentada ligando Juazeiro e Salvador. Em meados do século XX, tivemos a construção da usina hidrelétrica de Paulo Afonso. A Companhia Hidrelétrica do São Francisco (Chesf) significou um salto energético regional. Já na década de 1970, o Velho Chico viu surgir uma prodigiosa obra de engenharia: a barragem de Sobradinho, construída com a tecnologia de ponta da época – e provocando a submersão de quatro antigas cidades da região: Casa Nova, Sento Sé, Remanso e Pilão Arcado. Sobradinho não apenas resolveu antigo problema das condições de navegabilidade do São Francisco, como apontou para o futuro – para a formidável expansão da fruticultura tecnologizada; para o milagre dos melões, das mangas e das uvas do São Francisco. Em 1994, foi a vez de Sergipe – de Canindé do São Francisco – entrar na dança, assistindo ao enchimento do reservatório do Xingó. Mais recentemente, formou-se na região a polêmica em torno do projeto da transposição do São Francisco. Mas é bom lembrar que não é a primeira vez que uma grande intervenção no espaço do São Francisco desperta temores e provoca protestos. Foi assim com a construção da barragem de Sobradinho, que implicou a submersão de cidades carregadas de tradições históricas e culturais. A reação só não foi maior, na época, porque vivíamos sob a ditadura militar. Hoje, temos a polarização. Técnicos, cientistas, políticos, ativistas etc. – a favor e contra. Confesso que nesse rol, em princípio, só não consigo levar a sério a Igreja Católica, com sua alergia atual a grandes obras, como se ela nunca tivesse construído catedrais. Mas, diante do quadro geral, da guerra de números em torno de demandas hídricas etc., o leigo fica perdido. Não sou técnico e não tenho como ir lá medir as coisas.

Bem. É bom a gente não perder de vista o aspecto tecnológico e inovador de intervenções realizadas no vale são-franciscano. Porque algumas coisas que falam ainda hoje da região nos deixam com a sensação de estar numa Bahia oitocentista ou, quando nada, anterior a Getúlio Vargas e à Revolução de 1930, que, aliás, desarticulou o “coronelismo” regional. Ou como se, em vez de na Salvador na década de 1960, estivéssemos na Ilhéus de Jorge Amado, nas primeiras décadas do século passado.

As mudanças não ocorreram apenas na dimensão técnica e no campo da política. No mundo da cultura, também. Ao lado dos lances mais tradicionais, havia também o dado mais provocador da modernidade cultural. A gente não deve pretender eclipsar isso. Por exemplo: se alguém vai falar da nova vida do Rio de Janeiro na década de 1950, a consolidação dos seus bairros atlânticos e a Bossa Nova serão elementos centrais disso. E a verdade é que, no centro da revolução bossa-novista, estava um sujeito nascido e criado na região do São Francisco, na cidade de Juazeiro, que era João Gilberto. Foi ainda em Juazeiro que o jovem João Gilberto entrou em contato com a produção contemporânea da música popular, tanto brasileira quanto internacional – e adiante partiu para comandar, com Tom Jobim, uma transformação radical no horizonte da nossa música, com a assimilação do jazz seguida de uma criação igualmente original, que foi a Bossa Nova. A cultura são-franciscana, nas décadas de 1940 e 1950, vai, portanto, do velho cordel ibérico ao violão de João Gilberto.

Nessa mesma década de 1950, ou entre as décadas de 1940 e 1960, Salvador aparece como cidade informada, cosmopolita, conectada com as vanguardas estéticas internacionais. Já na década de 1940, projeta-se na Bahia uma elite modernizante, decidida a romper com o atraso e recolocar a Bahia no mapa do Brasil. Uma das peças centrais desse jogo foi a criação da Universidade da Bahia, articulada e comandada por Edgard Santos. Edgard queria o casamento do poder econômico com o poder cultural para situar a Bahia na linha de frente da vida brasileira. Nessa época, a Bahia se abriu para um considerável fluxo internacional de informações estéticas e intelectuais, preparando-se para intervir, no horizonte geral da cultura brasileira, sob os signos da modernidade e da radicalidade. No caso de Edgard, ele achava que a cultura era o caminho mais rápido para a mobilização sociocultural. Sua universidade veio então marcada pela ousadia e o pioneirismo em todas as áreas. No campo da cultura, Edgard fez gestos inaugurais, criando novos cursos e escolas. Assim, a Universidade da Bahia foi a primeira instituição brasileira de ensino superior a ter uma Escola de Teatro, então dirigida por Martim Gonçalves. Criouse uma Escola de Dança, entregue a Yanka Rudzka, uma das pioneiras da dança moderna no Brasil. E o Seminário de Música, tendo à frente um criador como Koellreutter, treinado nas linguagens de vanguarda, no dodecafonismo europeu de Schönberg e Webern, trazendo para trabalhar com ele músicos como Ernst Widmer e Smetak. Na Antropologia (escrita e visual), temos o Centro de Estudos Afro-Orientais e o trabalho de Pierre Verger. Fora da universidade, o cineclubismo trazia a Nouvelle Vague, o neorrealismo italiano etc. E Lina Bo Bardi agitava à frente do Museu de Arte Moderna da Bahia. Esse elenco da vanguarda internacional trouxe uma maré de informações de ponta para a Bahia e encontrou uma geração ávida para assimilar e capaz de recriar tudo. Entre os jovens estudantes presentes a todos os eventos que aí se promoviam, destacavam-se as presenças de Glauber Rocha e Caetano Veloso. Foi esse o caldo de cultura experimental, vanguardista e antropológico que foi desaguar no Cinema Novo e na Tropicália.

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AO ANALISAR O SÃO FRANCISCO COMO FONTE DE OBRAS IMPORTANTES NA CULTURA BRASILEIRA, MÚSICO E ESCRITOR COMPARA A FORÇA CRIADORA DA ARTE COM OS BIOMAS, QUE ABRANGEM VÁRIAS FORMAS DE VIDA

A primeira aproximação do rio São Francisco com o músico e escritor José Miguel Wisnik se deu por intermédio da obra de Guimarães Rosa. No mesmo compasso, vieram as canções que extrapolam as margens e contribuem para aumentar a força do rio na cultura popular. Mas esse mesmo rio que é decantado por artistas vem sendo degradado pela ação humana. E é sobre essa relação entre o simbólico e o factual que Wisnik conversou em entrevista concedida à jornalista Ana Paula Brasil para o seminário Vozes do Velho Chico.

Professor aposentado da Universidade de São Paulo (USP), Wisnik é também compositor de várias obras da música popular brasileira. Uma delas está presente na trilha sonora da novela Velho Chico, na voz de Maria Bethânia. Trata-se de “Mortal loucura”, canção criada a partir de versos do poeta baiano Gregório de Matos (1636-1696), tido como um dos grandes nomes do barroco literário brasileiro.

Como o Velho Chico entrou na sua vida?

O rio São Francisco entrou na minha vida por meio da obra de Guimarães Rosa, antes de mais nada. A gente sabe que o rio da unidade nacional, como sempre foi chamado, percorre várias regiões do país, como se unificasse tudo. Sua importância simbólica é fundamental na obra de Guimarães Rosa, em Grande sertão: veredas, por exemplo, porque mostra os dois lados do rio: um, que é o lado fácil, e o outro que não é fácil; um onde as coisas se ajeitam e o outro onde as coisas se dificultam. Guimarães Rosa também tem uma novela, chamada “O recado do morro”, na qual há uma viagem através do sertão, em que os personagens vão de Cordisburgo até o rio São Francisco, na altura de Pirapora, fazem uma passagem até os Gerais e voltam para Cordisburgo como se fosse um verdadeiro ritual.

Considerando a importância simbólica da obra de Guimarães Rosa, qual é a mensagem que ele deixa sobre o rio?

O rio nasce nos grandes reservatórios aquíferos no cerrado mineiro, onde, na verdade, nascem todas as grandes bacias hidrográficas da América do Sul. É um centro irradiador de águas, e esse fato se deve à vegetação do Cerrado, que tem a propriedade de ser muito profunda. As raízes levam as águas até esses aquíferos e isso é o que faz daquele local essa grande riqueza hidrográfica, mas também uma enorme biodiversidade – que, por sua vez, Guimarães Rosa traduziu por uma biodiversidade poética e linguística, que é o modo como ele tratou a língua portuguesa. A obra de Guimarães Rosa é uma espécie de consagração do Cerrado, mas eu diria também que é o “canto do cisne” do Cerrado, porque esse Cerrado que está vivo na obra de Guimarães Rosa não está mais lá agora. Ele sofre, justamente, a ocupação nas frentes da produção agrícola, do desmatamento dessa mata original, da perda, portanto, dessa floresta invertida e profunda que, na verdade, mina a origem dos rios. O próprio rio São Francisco, cuja nascente passa por um processo de mitigação e se torna mais baixa, prova um indício desse esvaziamento dos reservatórios invisíveis. Significa que o problema do rio São Francisco começa lá na nascente e está ligado ao modo, vamos dizer, cego com que essas riquezas foram sendo tratadas. Assim como também vai sofrendo ao longo do seu percurso.

Pode-se dizer que, assim como há “O recado do morro” de Guimarães Rosa e “O recado da mata”, prefácio que o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro escreveu para o livro A queda do céu, depoimento do xamã yanomami David Kopenawa, há também um “recado do rio”. O rio manda recados sobre esse sofrimento crucial pelo qual ele passa. A recente catástrofe do rio Doce, aliás, é a afirmação contundente de que isso não é um acaso da natureza. Faz parte de um processo histórico.

Você é músico e professor de literatura. Como ficou tão interessado por informações geológicas e geográficas?

Eu encaro a literatura como uma espécie de interesse universal sobre a vida humana sob todos os seus aspectos. Por isso, na literatura está envolvida a linguagem, a criação da linguagem, mas ao mesmo tempo está a sociedade, a experiência das pessoas, as dimensões psicológicas profundas e, afinal, a ecologia e os biomas. A gente tem tomado consciência disso. Durante muito tempo se falou de Guimarães Rosa sem propriamente trazer essa questão para o centro, mas, se você olhar hoje, a atualidade da obra também está ligada ao fato de que aquilo é a expressão, em todos os níveis, de um bioma. Porque bioma é um universo ecológico. E, no caso da obra de Guimarães Rosa, o bioma se relaciona com a linguagem. Ou seja, a obra de Guimarães Rosa é de criação de palavras, de criação de linguagem, porque ela tem de acompanhar a biodiversidade, quantas espécies, quantas formas de vegetação, quantas formas animais, quantas formas de ser, de vida, quantas camadas de culturas estão ali. E isso é literatura também. A música também tem uma importância fundamental na obra do Guimarães Rosa, porque, para ele, a canção é um elemento quase mágico, que junta e guarda o significado de tudo. Por exemplo, no Grande sertão: veredas, a cantiga de Siruiz é uma canção que, para o Riobaldo, é como se guardasse a vida dele inteira. Assim como em “O recado do morro”, em que, na viagem que os personagens fazem pelo sertão, vão ouvindo a cada lugar que passam um maluco sertanejo que diz que o morro está falando. E é um, dois e três até o sete. O sétimo é o cantador que compõe a canção, que no final é a reunião de tudo isso.

Você falou da importância da canção nas obras de Guimarães Rosa. Na novela Velho Chico temos um violeiro. Podemos dizer que a viola é o som do Brasil?

A canção tem uma importância fundamental na vida brasileira porque é, talvez, a forma mais disseminada, mais irradiada. Ela atravessa regiões, atravessa classes sociais e atravessa principalmente a separação entre a literatura e a expressão rural. A canção se tornou no Brasil uma forma de poesia muito elevada que faz par com a poesia escrita, a poesia do livro. Caetano Veloso, por exemplo, está na trilha da novela. Ele é autor de uma canção chamada “A terceira margem do rio”, em parceria com Milton Nascimento, que é sobre esse mistério do rio, esse enigma, na verdade ligado ao conto do Guimarães Rosa de mesmo nome. Com isso eu quero dizer que é uma canção onde se junta literatura com música popular. Nesse sentido, tem um recado da canção muito forte na cultura brasileira. Tem uma expressão da canção no Brasil que é a dos interiores, do Brasil de dentro. E a viola tem um papel fundamental nisso. Talvez ela seja um instrumento por excelência. No Nordeste, no Sudeste, na região central, ela pode ser uma espécie de, ao seu modo, riozinho São Francisco da música brasileira. Um instrumento de integração nacional, exatamente, mandando os seus recados.

Que som tem o rio para você?

O som do rio é o som do rio, “rio abaixo, rio a fora, rio a dentro – o rio”, como diz Guimarães Rosa. Na canção de Caetano e Milton “o rio ri / silencioso, sério”, “água da palavra / água calada, pura”. Esse caráter enigmático do rio ganha dimensões simbólicas, que estão ligadas ao fato de você pensar o rio como uma entidade, como um ser mítico, como uma cobra – como pensavam os índios –, cheio de perigos e sortilégios, por isso as barcas com as carrancas, que justamente têm uma função mágica de enfrentar esse desconhecido que está lá dentro.

O diretor Luiz Fernando Carvalho disse que escolheu a música Tropicália para a trilha sonora da novela porque foi um momento de transformação muito grande. Você poderia comentar a relação da temática da novela com a Tropicália?

A primeira parte da novela se passa nos anos 1960, na altura de 1968, então é o momento em que existe a vida tradicional do sertão com o seu patriarcado, suas violências e tradições próprias do interior brasileiro, ao mesmo tempo em que, nessa altura, nas capitais está se dando um momento de modernização – mesmo durante a ditadura –, mas do qual o Tropicalismo foi expressão, uma espécie de inclusão do Brasil. E é nesse processo de mundialização que entram a guitarra elétrica, as experiências e a rebeldia juvenil no mundo ocidental, as transformações comportamentais, a relação com o modo de viver, a sexualidade, coisas muito diferentes da tradição provinciana urbana, como do sertão. Então há uma espécie de contraponto entre esse mundo que está se passando junto ao rio e aquele que está se passando em Salvador; e ali as duas gerações estão, a certo modo, às voltas com essas diferenças. E isso tem, na verdade, ligação com o fato de que o Tropicalismo foi um momento em que os vários tempos brasileiros entraram em uma espécie de choque, como se evidenciasse todas essas dimensões tradicionais junto com essas transformações modernas e mundiais. Essas coisas foram como uma convulsão naquele momento que Glauber Rocha nomearia de “terra em transe”.

MORTAL LOUCURA

COMPOSIÇÃO: JOSÉ MIGUEL WISNIK (2005)

SOBRE POEMA DE GREGÓRIO DE MATOS (SÉC. XVII)


Na oração, que desaterra … a terra,
Quer Deus que a quem está o cuidado … dado,
Pregue que a vida é emprestado … estado,
Mistérios mil que desenterra … enterra.

Quem não cuida de si, que é terra … erra,
Que o alto Rei, por afamado … amado,
É quem lhe assiste ao desvelado … lado,
Da morte ao ar não desaferra … aferra.

Quem do mundo a mortal loucura … cura,
A vontade de Deus sagrada … agrada,
Firmar-lhe a vida em atadura … dura.

O voz zelosa, que dobrada … brada,
Já sei que a flor da formosura … usura,
Será no fim dessa jornada … nada.

ASSISTA À ENTREVISTA COM JOSÉ WISNIK

Compositor interpreta a música "Mortal loucura":

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PEÇAS QUE CARREGAM A SIMBOLOGIA DE PROTEÇÃO AOS NAVEGANTES, CARRANCAS MARCAM UMA FORMA DE EXPRESSÃO ARTÍSTICA TÍPICA DA REGIÃO DO MÉDIO SÃO FRANCISCO

Ainda que haja registros de figuras de proa em vários momentos da história da navegação mundial, as carrancas à frente das embarcações que cortavam as águas do São Francisco têm características únicas. A originalidade estética e o contexto que envolvem a produção dessas peças conferem um caráter específico à arte que se desenvolveu ao longo de mil quilômetros no trajeto do rio. Inicialmente feita como objeto de adorno, que servia como insígnia da embarcação, a carranca passou a ser vista como uma espécie de espantalho das águas, que protegia as tripulações contra seres que compunham a mitologia do São Francisco. Com o ocaso da navegação, a produção teve uma segunda fase, mais voltada para colecionadores. Na entrevista concedida ao jornalista Paulo Jebaili, o crítico de arte Lorenzo Mammì analisa esses dois momentos e a importância das carrancas na arte popular produzida no Brasil. Curador da exposição que deu origem ao livro A viagem das carrancas (Instituto do Imaginário do Povo Brasileiro, editora Martins Fontes e Instituto Moreira Salles, 2015), Mammì reuniu um acervo de 40 dessas peças, além de fotografias.

Qual a origem da expressão artística das carrancas?

Na verdade, não tem uma tradição índia ou uma tradição anterior ao final do século XIX. As carrancas surgem meio de surpresa. Era prática nas barcas ou nos navios do litoral brasileiro ter aquela figura de proa, uma figura heroica ou feminina, que era de proteção ao navio. Às vezes, o navio de guerra tinha um leão, alguma coisa mais feroz, um soldado, enfim. Parece que as carrancas nasceram quando a região do São Francisco ficou mais rica, os comerciantes começaram a ter barcos de grandes dimensões e que eram enfeitados de maneira parecida com os barcos do litoral. Então, é uma invenção moderna, 1870, 1880, que foi um momento de grande investimento no São Francisco. Só que logo pegou um viés que não tem nada a ver com a tradição das figuras de proa no mundo. E aí, de fato, virou uma coisa muito específica daquela região, que só se encontra lá, que é um traço de originalidade muito forte da arte popular brasileira. Por isso, esse interesse nacional e internacional das carrancas como tipo de expressão popular. Na verdade, eram três ou quatro autores que faziam isso. Artistas de altíssimo nível – o [Francisco Biquiba Dy Lafuente] Guarany [1884-1987] é o maior – foram eles que inventaram as carrancas. Inicialmente as peças eram reproduções mais fiéis dos animais e depois ganharam mais expressividade.

Como se deu essa mudança estética?

Existem vários estilos de carrancas, de autores diferentes. Tem um que é anônimo, não sabemos quem é, que tem traços característicos e geralmente faz leões ou cavalos. Os leões, principalmente, têm um traço muito realista. São leões que não têm aspecto feroz, são até clássicos, parecem esculturas de igreja românica na Europa. E tem um que é mais antigo, que se chama Afrânio, de quem se conhecem três carrancas, que têm influência oriental, talvez pelo comércio com a China, com Macau, que chegava ao rio São Francisco pela Bahia. Parecem dragões ou aqueles leões chineses com a cara feroz. No caso do Guarany, tem uma mistura de várias coisas, mas já com uma ideia de ser uma carranca grotesca, às vezes até engraçada. Geralmente o lado grotesco está nos leões. Os cavalinhos, que são de barcos menores, sempre ficaram realistas – tem pouquíssimo cavalo rangendo os dentes, isso é muito raro.

Então existe também uma relação entre o animal e o tipo de embarcação?

Sim. O cavalo, em geral, para barcos menores. E aí tem uma metáfora clara. Os tropeiros chegavam com os cavalos, descarregavam no barco, que continuava o transporte como se fosse o cavalo do rio. Mas eram barcos menores. Aqueles enormes, com 30 metros, 15 remadores, geralmente tinham animais mais poderosos, leões, mas tinham cachorros ou animais que parecem serpentes ou o minhocão, que é um bicho fantástico do rio.

As primeiras carrancas eram adornos e depois ganharam a condição de amuletos, de proteção aos navegantes. Surgiu toda uma mitologia do rio, com figuras como o caboclo-dágua, por exemplo. Como se deu esse fenômeno?

Tem isso. Nos testemunhos dos remeiros, recolhidos nas décadas de 1970, 1980, quando o Guarany ainda estava vivo, tem esse segundo aspecto. Um é o reconhecimento do barco, que é identificado pela carranca, principalmente o barco comercial. E a outra é que espantaria os bichos do rio, seria um espantalho. Tem o minhocão, o caboclo-d’água, o cachorrinho-d’água, que são bichos que poderiam atacar ou comer os remeiros. E essa cabeça refletida na água os espantaria. Os traços mais grotescos, mais ferozes, seriam para espantar os seres fantásticos.

INICIALMENTE AS PEÇAS ERAM REPRODUÇÕES MAIS FIÉIS DOS ANIMAIS E DEPOIS GANHARAM MAIS EXPRESSIVIDADE

Essa arte ficou típica do São Francisco ou ela se reproduziu em alguma outra parte do país?

Só no São Francisco, no período dos barcos. Depois, quando virou uma coisa comercial, de colecionadores, todo mundo fez. Mas, no período dos barcos, só no São Francisco, talvez em alguns afluentes. Alguns dizem que tinha algumas no Tocantins. Mas é só no médio São Francisco, porque tem Juazeiro, depois tem as cachoeiras, Paulo Afonso, enfim, são os mil quilômetros do médio São Francisco. Que é muita coisa, obviamente, mas ficou lá porque só essa região era navegável para os barcos grandes. Eles desciam com as mercadorias para levar para o porto e voltavam com as coisas de que precisavam: sal, especiarias, tecidos, o que precisava para manter os fazendeiros, a população da região.

Nesse trecho, chega a haver variação estética entre as peças?

entre as peças? Na verdade, não. Porque os lugares onde eram feitos os barcos eram poucos, geralmente onde tinha muito cedro, que é uma árvore de madeira leve usada tanto para a fabricação tanto do barco quanto da carranca. Como esses barcos grandes, com carrancas, eram poucos, e a carranca durava 30, 40 anos, segundo os cálculos dos especialistas, foram feitas nesse período no máximo 120 carrancas. São poucas, devem ter sobrado 60, 70. E os autores são apenas três ou quatro. Em Santa Maria da Vitória, que era o lugar onde o Guarany estava, e em Barreiras, onde estava o Afrânio – eram poucos os lugares onde havia a fabricação.

O MESTRE GUARANY, JÁ EM SUA ÉPOCA, ERA RECONHECIDAMENTE O GRANDE, AQUELE QUE INVENTA O ESTILO, COM ELEMENTOS GROTESCOS

Qual a importância do mestre Guarany? Por que ele teve destaque nessa arte?

O mestre Guarany, já em sua época, era reconhecidamente o grande, aquele que inventa o estilo, com elementos grotescos. Eu suponho que ele tenha inventado o bigode – os leões têm bigode, são uma mistura entre ser humano e bicho. Ele inventou a forma da boca, inventou um estilo que se firmou, que os outros começaram a copiar. Era um escultor – como Afrânio também o era, pelo que sobrou – de grandíssima inventividade e de técnica refinada, porque ele era um santeiro, ele antes fazia crucifixos, santos para a igreja. Tinha influência barroca, que ainda vinha do Aleijadinho e continuava no interior. E passou a fazer as carrancas e deu a esse gênero, digamos, um apuro de estilo, uma sofisticação que faz dele um dos grandes escultores brasileiros modernos. Porque ele é moderno, reflete sobre uma tradição, faz uma mistura das coisas e cria uma linguagem. E uma coisa interessante é que ele parou de fazer as carrancas quando parou a navegação, em 1945, 1946. Retomou em 1954, quando começou a moda das carrancas e ele passou a produzir para colecionadores. Mas aí ele mudou completamente o estilo. Porque ele diz que a carranca navegada era boa quando estava no barco e você a via refletida na água, enquanto a carranca de colecionador tinha de ser vista de perto, tinha outras características, ficava apoiada no chão. Ele passou a acentuar as características singulares, cada carranca passou a ter uma cara diferente, muito marcada, passou a ter um nome –, ele fazia pesquisas, tinha fascículos de obras sobre dinossauros, nas quais se inspirava para inventar nomes e formas, e acentua coisas que antes não fazia, por exemplo, a parte anterior da boca, os dentes. A pintura, que era uma coisa secundária – porque a pintura nos barcos esvanecia e depois pintavam de novo da mesma cor do barco, branco e vermelho e pronto –, passa a ser mais caprichada. Essa mudança de estilo mostra que ele pensa, não está apenas repetindo, ele pensa a forma das carrancas em relação ao lugar onde será colocada, à função das carrancas, às pessoas que a recebem. Ele inventa dois estilos: é o grande pai das carrancas navegadas, e depois também o pai da versão das peças para colecionadores, que são mais grotescas, mais carregadas.

O senhor mencionou o arrefecimento da produção de carrancas por causa das condições de navegação na década de 1940. O que motivou a retomada na década seguinte?

Começaram a surgir umas pesquisas sobre as carrancas, ligadas ao fato de haver uma volta do interesse pela arte popular em vários níveis na década de 1950. Por exemplo, as exposições da Lina Bo Bardi sobre arte popular, no MAM, na Bahia, A mão do povo brasileiro; as pesquisas do Mário Pedrosa sobre arte popular, que seria uma arte ainda comunitária, que poderia representar uma espontaneidade da arte em relação às tradições já criadas. Houve, digamos, uma volta do interesse. Havia tido um interesse sobre arte popular de caráter nacionalista, de estabelecer quais são as raízes da arte brasileira, com Mário de Andrade e outros. Na década de 1950 teve um retorno, mas já pensando a arte popular como uma espécie de alternativa ou da arte capitalista, no caso do Mário Pedrosa, ou do design industrial, caso da Lina Bo Bardi, aprender com o povo outras formas de design, de expressão. Então, tem um interesse em todas as formas, e a carranca é a forma mais original, mais estranha, não tem em lugar nenhum, não deriva de nada preestabelecido da tradição folclórica de um país ou de outro. A Lina, por exemplo, põe muitas carrancas, recolhe as carrancas, uma estava na entrada do Museu de Arte de São Paulo (Masp), na rua 7 de Abril. A essa altura, começa a ter um interesse dos colecionadores e os barcos estão abandonados, semiafundados, com as carrancas lá ainda. Os antiquários e os colecionadores começam a fazer expedições para recolher essas carrancas. Alguns das coleções maiores foram feitas nesse momento, com 20, 30 carrancas. Aí começam a pedir para os mestres para refazer as carrancas.

A CARRANCA É A FORMA MAIS ORIGINAL, MAIS ESTRANHA, NÃO DERIVA DE NADA PREESTABELECIDO DA TRADIÇÃO FOLCLÓRICA DE UM PAÍS OU DE OUTRO

Em algum momento esteve ameaçada a produção de carrancas?

Parou completamente. Quando parou a navegação no São Francisco, não se fazem mais carrancas por dez anos. Volta a partir dessa moda das carrancas na década de 1950. Na de 1960, tem um produção muito rica do Guarany. Depois vem aquela fase de toda pousada ter carranca, carranca-cinzeiro, mas aí é utilização, digamos, a qualidade cai muito. A própria Companhia de Navegação do São Francisco recoloca as carrancas nos navios. Então rebocadores têm carrancas, mas é tudo produção nova, não tem nada a ver com a tradição dos grandes barcos das décadas de 1920, 1930, 1940. Agora, tem um fato histórico que é uma viagem do fotógrafo francês Marcel Gautherot [1910-1996], que fotografou as carrancas na década de 1940, quando ainda estavam todas nos barcos, para a revista O Cruzeiro. Ele foi a uma romaria em Bom Jesus da Lapa (BA) e estavam todos os barcos, porque era lá que toda a população da região se reunia. Ele fotografou umas 40 carrancas. Fotografias lindas. Isso saiu em livro, na revista O Cruzeiro, em 1947, o que começou a despertar o interesse. Logo depois saiu em outra revista, Sombra, em 1951, e curiosamente num número dedicado à 1ª Bienal de São Paulo, e aí é quase uma dica para colecionadores, mostrando uma arte popular quase desconhecida. Na entrevista, o Gautherot já diz que é um pouco responsável porque desde que saiu em O Cruzeiro começaram a tirar as carrancas dos barcos e levar para a casa dos colecionadores; ele já reconhece que está começando essa caça às carrancas. Na verdade, não é responsável porque os barcos estavam acabando. Não tinha mais fundo de rio, eram caros demais, lentos, estavam sendo substituídos por barcos motorizados.

Geralmente essas expressões artísticas locais se perpetuam porque passam de geração a geração. Isso aconteceu com as carrancas?

Sim. O filho do Guarany, Ubaldino, foi um produtor de carrancas importante. Das carrancas não navegadas, da segunda fase. Depois tem muito caso de descendentes, mas como o período e relativamente curto, 70, 80 anos, e a demanda era pequena. Aconteceu mais na segunda fase, quando passou a ser uma produção para colecionadores, turistas. Aí, de fato, famílias inteiras começaram a produzir carrancas.

Como o senhor vê a importância das carrancas da perspectiva da história da arte no Brasil?

da perspectiva da história da arte no Brasil? Essa é uma questão ampla, porque tem a ver com a relação entre arte culta e arte popular no Brasil, que é muito mais complexa que em outros países. Em outros países, tem a relação entre a arte culta, que tem uma tradição forte, folclore, que geralmente é muito antigo, e às vezes os chamados outsiders, que são artistas marginais, que são artistas naïfs, mas por alguma razão cruzam com a arte erudita, como foi o [pintor francês] alfandegário Henri Rousseau, no começo do século XX. No Brasil, como houve uma modernização muito estratificada, muito diferente, acho que há processos de modernização que são mais de interior, mais populares, diferentes em cada região. No caso das carrancas, esses barcos resultavam do processo de modernização do comércio no rio São Francisco, no momento em que o rio não era mais a rota do ouro, mas a rota do gado. Como em outras ocasiões, há uma busca de identidade da arte brasileira, não na arte antiga, porque não tem uma tradição antiga, mas na arte popular. Portanto, há cruzamentos grandes entre artistas muito sofisticados, com interesse em arte popular, se formos pensar em [Alfredo] Volpi, em [Alberto da Veiga] Guignard. É arte popular, eles vão beber lá. Mesmo em artistas posteriores existe muito essa troca. Ao mesmo tempo, os artistas populares são autores, não são representantes de um folclore anônimo. Tem o Heitor dos Prazeres, a Djanira [da Motta e Silva], que participam das Bienais de Arte. Então, é um território muito fluido, muito mais que em outros países. Um diálogo muito intenso; há mais originalidade, talvez, nos autores populares que em outros países. Nesse caso do São Francisco, é de fato uma cultura que se cria. Um pouco do que acontece com a música popular. A música popular brasileira tem um trânsito em várias áreas, inclusive cultas, que é diferente de outros países. Não tem essa separação entre arte popular e arte culta tão nítida como em países europeus, por exemplo. Aqui as divisões são muito mais fluidas. O Guarany nunca participou de uma Bienal [Internacional de Arte de São Paulo], mas um artista popular que se considerava um discípulo dele, o Agnaldo dos Santos, sim.

As carrancas foram tema de poema de Carlos Drummond de Andrade. Há citações ou referências em outros tipos de arte, como música ou literatura de cordel, por exemplo?

Literatura de cordel eu não lembro, mas deve ter. No caso do Drummond, ele escreveu até mais de um poema, escreveu crônica sobre a exposição de que o Guarany participou em Paris. A mais bonita acho que é aquela sobre o rio São Francisco, a imagem das carrancas encalhadas, dos barcos encalhados, que é um pouco a ideia da morte do rio [“Águas e mágoas do rio São Francisco”, publicada no livro Discurso de primavera e outras sombras, de 1977]. É um tema recorrente em Drummond. Ele trata dessa melancolia da imagem das carrancas já como uma coisa do passado. Mas ele gostava muito, ele tinha algumas, inclusive.

ASSISTA À ENTREVISTA COM LORENZO MAMMI

Crítico comenta futuro das carrancas e perspectivas da arte popular brasileira

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PROTAGONISTA, CENÁRIO, INSPIRAÇÃO... O VELHO CHICO APARECE EM PROSA E VERSO NA ARTE BRASILEIRA

É o maior rio do mundo. Não se sabe onde começa, nem onde acaba, mas, na opinião dos entendidos, tem umas cem léguas de comprimento. Quer dizer que, se em vez de correr por cima da terra, ele corresse para os ares, apagava o sol, não é verdade, mestre Gaudêncio?

Alexandre, personagem do conto CANOA FURADA, de Graciliano Ramos, no livro Alexandre e outros heróis (Record, 2003)

É gente que vai murchando em frente à lavoura morta e ao esqueleto do gado, por entre portos de lenha e comercinhos decrépitos; a dura gente sofrida que carregas (carregavas), no teu lombo de água turva, mas afinal água santa, meu rio, amigo roteiro de Pirapora a Juazeiro. Responde, Chico, responde!

ÁGUAS E MÁGOAS DO RIO SÃO FRANCISCO, Carlos Drummond de Andrade, Discurso de primavera e algumas sombras (Companhia das Letras, 2014)

"Riacho do Navio corre pro Pajeú / O rio Pajeú vai despejar no São Francisco / O rio São Francisco vai bater no meio do mar / O rio São Francisco vai bater no meio do mar"

RIACHO DO NAVIO, música de Luiz Gonzaga e Zé Dantas (1955)

"O meu caminho eu escolho / Tirando o cisco do olho / Enxergo longe, me arrisco / Sou como o rio São Francisco / Faço no tempo viagens / No espaço da noite e do dia, / Indo, fluindo às margens / De Pernambuco e Bahia / Andando por todos os lados / Sincretizando os estados / Arrematando as costuras / Na integração das culturas / Assim como o rio, promovo / O abraço que a gente precisa / Em busca do que é mais / novo Sim, ultrapasso a divisa"

SÃO FRANCISCO, música de Moraes Moreira (1996)

Velho Chico, vens de Minas / De onde o oculto do mistério se escondeu / Sei que o levas todo em ti, não me ensinas / E eu sou só eu, só eu só, eu / Juazeiro, nem te lembras dessa tarde / Petrolina, nem chegaste a perceber / Mas na voz que canta tudo ainda arde / Tudo é perda, tudo quer buscar, cadê

O CIÚME, Caetano Veloso (1987)

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MORADORES DE REGIÕES BANHADAS PELO RIO SÃO RETRATADOS EM MATÉRIAS DO JORNALISMO DA GLOBO

Descobertas pré-históricas

A agricultora Maria dos Prazeres dos Santos nasceu e se criou em terras áridas, como gosta de dizer. Ao cavar um reservatório para guardar água da chuva, ela encontrou um tesouro pré-histórico: a ossada de uma preguiça-gigante, que circulava na região há 20 mil anos, conforme atestaram pesquisadores. Parte dos ossos da preguiça-gigante, que tinha cerca de 4 metros de altura, ainda está entre as camadas da terra e está sendo analisada por especialistas.

Vizinho de Maria dos Prazeres, Adalberto Inácio sempre se encantou com os desenhos que encontrava nas pedras da redondeza. Um dia, na escola, viu no livro uma imagem de uma pintura rupestre. Disse à professora que conhecia aquelas inscrições. Ela disse que não era possível, as imagens eram de uma caverna na França. Ele então fotografou as gravuras para mostrar para ela. Só então vieram os pesquisadores para comprovar a autenticidade dos desenhos. Desde então, Adalberto, hoje guia de turismo, encontrou mais de 300 sítios arqueológicos na região.

No abrigo dos vapores

A artista Lourdes Barroso passou sete anos embarcada no São Francisco. Isso aconteceu em 1965, quando o Brasil vivia sob a ditadura militar, e o rio foi o abrigo encontrado por ela para fugir da repressão naqueles anos de chumbo. Cantora da rádio Excelsior de Salvador, na Bahia, ela havia sido convidada para se apresentar em um showmício promovido pela esquerda, o que a tornou alvo de perseguição. Ela partiu para o São Francisco e passou a morar dentro dos vapores, os barcos movidos a lenha que trafegavam pelo rio na época, onde cantava para os passageiros. Em um desses vapores, ela conheceu o capitão, Francisco Barroso, por quem se apaixonou e que a ajudou a se defender dos militares. “Tudo é Francisco na minha vida”, diz ela, que tem dois filhos e dois netos com o nome do rio.

Talento esculpido

Quando era menino, Expedito Viana Rodrigues aprendeu a criar os próprios brinquedos: barquinhos de madeira para brincar no rio São Francisco. Ele diz que descobriu seu talento na beira do rio. Adulto, virou um mestre e hoje é especialista na arte de esculpir santos na madeira, em Pirapora, Minas Gerais. São Francisco, como é de se imaginar, é uma de suas principais inspirações. “O São Francisco foi patrono da ecologia e ele é a imagem que eu mais fiz e mais faço, atendendo a encomendas. E quando eu faço, faço com amor, com carinho, e procuro aperfeiçoar para surgir cada vez mais encomendas”, diz.

Do garimpo à conservação

Por mais de cem anos, na região de Cabeceira, altíssimo São Francisco, o rio sofreu com a atividade de garimpo de diamantes em suas margens. O garimpo só terminou por volta do ano 2000. Restaram as crateras causadas pela destruição dos barrancos e os montes de cascalho lavado. Wayne de Castro é filho e neto de garimpeiros. Hoje, consciente do dano ecológico causado pela atividade que garantiu o sustento de sua família por gerações, ele virou conservacionista. Na fazenda que antes era toda esburacada para o garimpo, hoje ele mantém uma pousada ecológica e vem tentando recuperar a área, deixar tudo verde outra vez. “O que esse rio foi agredido, o que ele sofreu... derrubavam-se árvores, empurrava-se a terra pra dentro do leito...”, lamenta ele.

Cuidado de família

Os índios kiriris vivem em uma aldeia em Muquém de São Francisco, na Bahia, e dependem do rio para tudo. Por isso, o tratam como um pai que precisa de cuidados."A natureza é nossa mãe. O rio é tudo para nós", diz Maria Kiriri, cacique da aldeia kiriri.

Pés gigantes

Em Santana do São Francisco, Sergipe, 70% da população se dedica ao artesanato. Uma marca registrada dessa produção é um detalhe em figuras humanas: o pé grande. Essa característica surgiu das mãos de José Roberto Freitas, o Beto Pezão. Ele inventou de colocar pés grandes nas peças para equilibrar as peças e não precisar colá-las na base. Foi um sucesso. Beto se tornou um artista reconhecido, e sua invenção é imitada por todos da cidade. Ele não se importa com isso, critica é a situação do rio. Diz que a qualidade da argila piorou. Perdeu metais e ficou mais orgânica. Cria fungos. As peças em barro natural acabam manchadas. “O fungo que vem de dentro para fora mancha a peça toda. Fica muito feia”, conta.

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DA CRIAÇÃO ARTÍSTICA COLETIVA A UMA INTENSA OPERAÇÃO LOGÍSTICA, VÁRIAS HISTÓRIAS ACONTECEM PARA SE CONTAR UMA HISTÓRIA

A novela Velho Chico estreou em março deste ano. Mas os trabalhos começaram em outubro de 2015, quando o diretor Luiz Fernando Carvalho reuniu elenco e equipe em um galpão nos Estúdios Globo, no Rio de Janeiro. O espaço, sem divisões por paredes ou departamentos, servia como um laboratório de criação coletiva, em que a preparação para a realização da obra não se restringia aos atores, envolvia também cenógrafos, figurinistas, fotógrafos, costureiras e contrarregras. “Aprendemos muito todos os dias. Não há ninguém ali que não tenha algo a oferecer ao outro, e, consequentemente, meu olhar se alimenta deste fluxo de encontros”, observa o diretor.

Além da troca de conhecimento, o treinamento lançou mão de técnicas variadas, reflexo do processo coletivo. “Sou um criador que necessita de seu espaço de criação exercido de forma colaborativa. Esta é a real motivação que condicionou minha atividade de diretor ao galpão, onde meu cotidiano de criador busca novos processos e modelos não apenas artísticos, mas, inclusive, de produção, identificando novos talentos em todas as áreas”, explica Carvalho.

Os integrantes da equipe assistiram a palestras de especialistas sobre temas que permeiam a obra: o modo de vida na Bahia durante os anos 1960, o contexto histórico, os movimentos artísticos e culturais, como a Tropicália, e o rio São Francisco, mais do que mero elemento cênico da trama.

A preparação do elenco contou com aulas de corpo, voz, dinâmicas com máscaras. Vários recursos foram utilizados para aguçar a percepção dos atores em suas respectivas composições. O percursionista Tadeu Campany, pesquisador de ritmos, foi chamado para elaborar uma espécie de trilha sonora que facilitasse essa aproximação emocional. “Ele fez um trabalho de colaboração da percussão com os ritmos, timbres, deslocando os atores para as referências do Nordeste. Tadeu contribui com seus instrumentos e sua música para contextualizar e ampliar o universo sensorial sertanejo dentro da sala de ensaio”, conta o diretor.

Assim começou a jornada que se estenderia por estados do Nordeste. A equipe caiu na estrada para gravar as primeiras cenas. Foram três frentes simultâneas de trabalho, numa ampla operação logística. Dez caminhões partiram do Rio de Janeiro rumo a Alagoas, Rio Grande do Norte e Bahia. Só o figurino – com itens que totalizaram três toneladas – foi transportado em três caminhões e ainda uma parte seguiu por avião.

Nessa primeira chegada ao Nordeste, um contingente de 120 pessoas gravou cerca de 500 cenas, em cidades do interior. A cada parada, a novela movimentava a economia local. No município baiano de São Francisco do Conde, por exemplo, foram contratados pela produção da novela serralheiros, pescadores e barqueiros. Isso sem contar os profissionais que ajudaram na parte técnica e aqueles que ficaram na frente das câmeras. Mais de 400 testes foram feitos e 70 atores escalados para participar das cenas.

Ao enveredar por esses caminhos, a equipe da novela concretizava uma ideia que teve origem quatro décadas atrás, quando Benedito Ruy Barbosa, na condição de jornalista, esteve na região e navegou pelo Velho Chico. “Na época fui conhecer o rio São Francisco. Fui para lá e levei apenas uma câmera. Fui sozinho. Fiz essa viagem numa gaiola – um barco grande, característico do local. Lá, fiz amizade com o comandante e dormia numa rede, dentro do barco, todos os dias. Era lindo demais! Naveguei por tudo aquilo. Fiquei apaixonado pelo rio. Conversei com esse senhor, que conhecia muitas histórias. Daí nasceu. E é assim que começa a ficção”, explica o autor da novela, escrita em parceria com Edmara Barbosa e Bruno Luperi.

LUZ, CÂMERA, PAIXÃO

Luiz Fernando Carvalho fala sobre aspectos da confecção de Velho Chico

Com formação em Letras e Arquitetura, o diretor Luiz Fernando Carvalho desenvolve uma linguagem própria na dramaturgia. No cinema, dirigiu Lavoura arcaica (2001), baseado no romance de Raduan Nassar. Na televisão, tem 26 trabalhos, em formatos que vão de microsséries a novelas.

A esse acervo de realizações soma-se Velho Chico, que entrou no ar em março deste ano. Às vésperas da estreia, o diretor comentou questões relativas à concepção e realização da obra.

DIREÇÃO

"A função maior de um diretor é produzir um acontecimento diante da câmera. É dar uma resposta ao texto. É um ato emocional, estético."

PROCESSO CRIATIVO

"Meu trabalho é fruto de necessidades. A necessidade de criar é a substância capaz de fundar uma nova linguagem. Sou alguém que acredita no processo criativo, independentemente do número de capítulos, gênero etc. E dentro desta necessidade está a busca por não me repetir, de seguir me perguntando coisas."

RUMO AO INTERIOR

"Não há família brasileira que não traga consigo a memória emotiva de uma horta, lençóis estendidos em varais, passarinhos em gaiolas e outros pequenos animais. No fundo, somos todos do interior, por isso nossas novelas de sucesso refletem esta espécie de herança espiritual, retratando tão bem este universo infinito do sentimento nacional."

NORDESTE E ELENCO

"Sei a importância que tem a cultura regional e o que esses artistas trazem consigo de bagagem emocional, cultural e de linguagem. Em meus trabalhos estes artistas são colaboradores fundamentais na concepção artística. Eles sempre me ensinaram muito"

SÍNTESE DA NOVELA

"Se fosse resumir em uma única palavra a novela, diria: amor. O amor entre os enamorados da trama, o amor pela terra, pelo rio, pelo sonho de um país melhor, mais belo e mais justo para todos. Na trama teremos várias formas de amor. O amor está presente em tudo."

MUITO MAIS QUE ENTRETENIMENTO

Velho Chico populariza conceitos de sustentabilidade

A Globo fechou uma parceria inédita com a Conservação Internacional (CI -Brasil) em uma colaboração técnica de conteúdo. O objetivo é ampliar o alcance de temas relacionados à sustentabilidade para o grande público, mirando na busca do equilíbrio homem, natureza e novas formas de produção.

Numa cooperação permanente entre autores e especialistas, serão abordados grandes temas como a escassez de água, a devastação ambiental, o assoreamento de rios e mananciais e as novas formas de organizações rurais.

Para além do entretenimento, pretende-se sensibilizar o público para um modelo de agricultura sustentável, fundamental para garantir os atuais níveis de produção, de geração de empregos e de bem-estar social.


Conheça a opinião de especialistas sobre a parceria:

BRUNO LUPERI,
um dos autores da novela

"A parceria com a CI chega em um momento muito importante, em que podemos não só sugerir um futuro melhor, mas discutir qual seria esse caminho. Acredito que a CI vem para ajudar a encontrar um meio de preservar esse legado. Quando falamos em Velho Chico, falamos da conservação do meio ambiente, de cultura, de valores, de danças, de tradições, de mitos. Os técnicos apontam questões urgentes a serem discutidas, que devem ser trazidas à tona, e isso vai surgindo na fala dos personagens ao decorrer da trama."

RODRIGO MEDEIROS,
vice-presidente da ci-brasil

"Certamente, essa realidade do rio São Francisco não é a que a maioria dos brasileiros conhece. Hoje, para um país com uma população basicamente urbanizada, é um frescor permitir que as pessoas possam ver esse local. E, mais do que isso, chamar atenção para o processo histórico de degradação daquela região, mostrando que ele é reversível e de responsabilidade de todos."

ANDRÉ TRIGUEIRO,
jornalista

"Estamos na torcida para que seja a fecundação de novas atitudes na direção de uma bacia que traz o nome de Francisco de Assis, do cântico das criaturas, do padroeiro da ecologia. Não dá pra esperar outra coisa dessa novela."

SÔNIA BRIDI,
jornalista e autora do livro diário do clima

"Essa parceria sela o melhor de dois mundos: o alcance absurdo que uma novela da Globo tem com a consistência da informação que a Conservação Internacional é capaz de prover. Então, quando se junta esse alcance com a informação esmiuçada, acessível, que a Conservação Internacional já tem tanta experiência em divulgar, vemos uma transformação incrível nesse processo de conscientização com relação à sustentabilidade no Brasil. É um divisor de águas nessas questões de sustentabilidade e na informação para o público brasileiro."

RICARDO ABRAMOVAY,
professor sênior do Instituto de Energia e Ambiente da USP

"Discutir temas socioambientais a partir de uma história toca na afetividade das pessoas, toca na memória das pessoas, toca nas utopias das pessoas, toca na imaginação das pessoas, e um dos problemas que hoje os movimentos socioambientalistas têm é que para falar de temas ambientais a gente tem que evocar problemas e desgraças muito sérias. Na novela, esses problemas e essas desgraças são evocados, só que no âmbito de uma narrativa muito mais eficiente do que abordar esses temas simplesmente a partir de denúncias e de dados."

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CENÁRIO OU PERSONAGEM, O RIO SÃO FRANCISCO ESTÁ NO FOCO DE FICÇÕES E DOCUMENTÁRIOS DA CINEMATOGRAFIA BRASILEIRA

CINCO VEZES CHICO – O VELHO E SUA GENTE
(Brasil, 2015, 90 min)

Cinco estados, cinco diretores. Assim o documentário constrói uma narrativa multifacetada sobre o rio São Francisco, ao atravessar Minas Gerais, Bahia, Pernambuco, Sergipe e Alagoas. Os diferentes olhares reúnem aspectos culturais, religiosos, históricos, econômicos e ambientais, além de expor tradições e mitos que marcam a vida das comunidades ribeirinhas. Os diretores são Gustavo Spolidoro, Ana Rieper, Camilo Cavalcante, Eduardo Goldenstein e Eduardo Nunes, e o projeto conta com a consultoria editorial de Renée Castelo Branco.

A TERCEIRA MARGEM DO RIO
(Brasil-França, 1994, 98 min)

Caudaloso afluente do São Francisco, o rio Paracatu, em Minas Gerais, foi cenário para o filme de Nelson Pereira dos Santos, baseado no conto homônimo de João Guimarães Rosa, misturado a outros quatro, presentes no livro Primeiras estórias. O enredo começa quando um homem decide abandonar tudo e viver num barco. Ninguém mais o vê. O filho Liojorge, interpretado por Ilya São Paulo, não desiste de manter contato com o pai desaparecido, a ponto de deixar comida para ele todos os dias à beira do rio.

ESPELHO D’ÁGUA – UMA VIAGEM NO RIO SÃO FRANCISCO
(Brasil, 2004, 105 min)

O filme dirigido por Marcus Vinícius Cesar é uma sucessão de narrativas ao longo do rio. Fábio Assunção vive um fotógrafo que decide viajar pelo São Francisco em busca de imagens para finalizar um livro. A namorada, personagem de Carla Regina, chega do Rio de Janeiro e não o encontra. Parte à procura do protagonista pelo rio. O desencontro vai, ao mesmo tempo, revelando histórias com personagens que têm suas vidas profundamente ligadas ao São Francisco, que é mais do que um cenário no filme.

DEUS É BRASILEIRO
(Brasil, 2003, 110 min)

Parte da locação desse filme se deu em Piaçabuçu, cidade alagoana a 13 km da foz do São Francisco. Deus, interpretado por Antônio Fagundes, vem em busca de um santo brasileiro para substituí-lo durante um planejado período de férias. Ele é guiado por Taoca, vivido por Wagner Moura, que quer aproveitar a proximidade com “o forasteiro” para resolver problemas pessoais. Dirigido por Cacá Diegues, o filme é baseado no conto O santo que não acreditava em Deus, do escritor João Ubaldo Ribeiro.

REMEIROS DO SÃO FRANCISCO
(Brasil, 2015, 50 min)

O documentarista Dêniston Diamantino resgata as navegações no São Francisco no tempo das barcas de varas, conhecidas também como barcas de figuras, em alusão às carrancas que ostentavam na proa, do século XIX até meados do século passado. A obra resulta de um trabalho de 25 anos de pesquisa do diretor, em que remeiros contam o trabalho árduo para movimentar as embarcações e transportar mercadorias. O documentário contempla ainda o aspecto da mitologia que acompanhava a navegação da época.

DEUS E O DIABO NA TERRA DO SOL
(Brasil, 1964, 125 min)

Considerado marco inovador da estética do cinema brasileiro na época, Deus e o diabo na terra do sol é um dos mais representativos da filmografia do diretor baiano Glauber Rocha (1939-1981). Apesar de não especificar a localização, o filme apresenta diversos elementos que compõem a mitologia da região do São Francisco: líderes religiosos, cangaceiros, latifundiários, coronéis, vaqueiros, entre outras figuras do sertão. No elenco, estão Geraldo del Rey, Yoná Magalhães e Othon Bastos.

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GLOBO REPÓRTER

Especial São Francisco
Exibido em 11/03/2016

Velho Chico inspira arte de esculpir santos na madeira

ARQUEOLOGIA E RELIGIOSIDADE

Em março, o Globo Repórter dedicou uma edição especial ao São Francisco. A equipe de reportagem visitou a nascente histórica do rio, que é um local de dupla devoção, ao santo e ao rio. Das crianças de todo o Brasil que são levadas para serem batizadas em suas águas aos diversos oratórios espalhados por suas margens, a matéria mostra uma relação do rio com os ribeirinhos permeada de religiosidade, mitos e lendas. O programa especial mostra também as paisagens exuberantes criadas ao longo do rio, como os paredões formados pelo cânion do São Francisco, e outras surpresas que aparecem por seus caminhos, como sítios arqueológicos com ossadas pré-históricas e pinturas rupestres, ou um museu voltado para a educação ambiental.

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FANTÁSTICO

Exibido em 25/out/2015

Exibido em 1/nov/2015

VISÃO PRIVILEGIADA

Cruzar quase 3.000 km seguindo o curso do rio São Francisco já seria uma viagem e tanto. Mas o piloto Lu Marini decidiu cumprir esse trajeto com um paramotor, um parapente com um motor. Com esse equipamento, ele captou imagens aéreas que demonstram as diferentes realidades ao longo do Velho Chico, da natureza exuberante a lixões a céu aberto. Em matérias exibidas no Fantástico, Marini colheu relatos de pessoas que têm suas vidas intimamente ligadas ao São Francisco.

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GLOBO RURAL

Exibido em 13/03/2016

Exibido em 20/03/2016

Exibido em 27/03/2016

Exibido em 03/04/2016

NATUREZA

Ao longo de quatro domingos, o Globo Rural exibiu uma série de matérias em que quatro repórteres percorreram o trajeto do rio, da nascente à foz, mostrando os principais impactos ambientais sofridos pelo Velho Chico. Municípios que despejam seu esgoto e dejetos no leito, áreas que sofreram décadas de degradação por causa do garimpo de diamantes, do desmatamento das matas ciliares, o drama das erosões, o sumiço dos peixes e a queda na capacidade de geração de energia nas barragens. O programa visitou também os pomares das áreas de irrigação que se transformaram num dos mais importantes celeiros da fruticultura brasileira. No último episódio da série, uma matéria sobre a transposição do rio mostra o atual estágio das obras e o impacto delas na vida das famílias que foram removidas e reassentadas em novas áreas, as agrovilas; a esperança daqueles que sonham com a água que chegará a suas torneiras e o temor daqueles que veem os níveis do rio baixando.

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COMO SERÁ

Matéria sobre o assentamento Mandacaru
Exibido em 23/05/2015

ÁGUAS INFILTRADAS

O programa Como Será?, exibido aos sábados de manhã, iniciou em abril a série Expedição Água, na qual o repórter Renato Cunha percorre o país mostrando os caminhos da água, dos rios voadores da Amazônia aos caminhos alagados do Pantanal, incluindo os aquíferos da chapada Gaúcha, na divisa de Minas Gerais com a Bahia, no Parque Nacional Grande Sertão Veredas. A reportagem visitou o maior deles, o Urucuia, para mostrar como é esse processo de infiltração da água da chuva, pelo solo arenoso, até esses reservatórios subterrâneos. O Urucuia é um dos maiores do território brasileiro e um dos principais responsáveis pela alimentação dos rios da bacia do São Francisco.

Ainda no Vale do São Francisco, o programa fez uma reportagem, para o quadro Sobre as Asas, no Assentamento Mandacaru, mostrando como é o trabalho das mulheres da associação que está transformando a vida da comunidade, em Petrolina, com a agroecologia.

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ESPORTE ESPETACULAR

Exibido em 20/03/2016

CENÁRIO RADICAL

O Esporte Espetacular visitou a região de Paulo Afonso, na Bahia, às margens do São Francisco, para mostrar que o rio, além de todas as vocações mais conhecidas, é também um imenso parque natural para práticas esportivas. Rapel, tirolesa, canoagem e mergulho pelas ruínas de uma cidade submersa são algumas das atividades que podem ser realizadas pelas curvas, falésias e lagoas do Velho Chico.

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GLOBONEWS DOCUMENTO

Exibido em 09/03/2016

REGISTRO DOS BASTIDORES

A jornalista Cristina Aragão e o repórter cinematográfico Sandiego Fernandes viajaram a convite do diretor da novela Velho Chico, Luiz Fernando Carvalho, para acompanhar as gravações e tiveram acesso exclusivo à filmagem de cenas no sertão alagoano. Eles percorreram mais de mais de 1.500 km nos estados de Alagoas e Pernambuco para gravar uma edição do Globonews Documento dedicada ao rio São Francisco. Revelaram os cenários, os cuidados com a recuperação das casas e a reconstrução de figurinos. A jornalista conversou com produtores, cenógrafos e figurinistas que ficam por trás das câmeras, além de moradores das diversas localidades percorridas, como os vizinhos das locações, curiosos com a novidade em pleno sertão.

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MINIDOCUMENTÁRIO

PARCERIA COM UNIVERSIDADE FEDERAL DO VALE DO SÃO FRANCISCO GERA MINIDOCS REGISTRANDO AS REALIDADES DE QUEM VIVE NA REGIÃO

A oportunidade de mostrar outro olhar, não estereotipado, sobre o sertão e os sertanejos. Essa foi a motivação de alunos de Artes Visuais e estagiários de Jornalismo da Univasf de Petrolina para produzir cinco minidocumentários que retratam diferentes perfis de moradores do Vale do São Francisco: do rapper à menina sambadeira, a empreendedores e ativistas sociais. A oficina foi promovida pelo Globo Universidade, com a participação do coordenador de Jornalismo e Mídias Digitais do Canal Futura, José Brito, e em coprodução com o canal universitário TV Caatinga, sob a supervisão da jornalista Fabíola Moura. Os documentários, disponíveis no app do Caderno Globo, serão exibidos também nos canais online da Globo, nas afiliadas da rede na região e no site da TV Caatinga.

RITMO, POESIA E CIDADANIA

Rapper, dançarino, poeta, grafiteiro, Euri Mania nasceu e mora em Juazeiro, Bahia. Ele faz parte do grupo P1 Rappers, formado há três anos e com três CDs de músicas autorais. Foi um dos contemplados com o prêmio Cultura Hip Hop 2014, concedido pela Fundação Nacional de Artes (Funarte), pelo trabalho social feito a partir do rap, da dança e do grafite em escolas, presídios, praças e igrejas. O grupo levou também os prêmios de melhor música no Festival Nacional Edésio Santos da Canção em 2015, pelo júri popular, com o rap “Soul nordestino” e o de Destaque do Carnaval 2015 de Juazeiro. Além das apresentações com a banda e do grafite, Euri cuida das filhas durante o dia, enquanto a esposa trabalha fora. É reconhecido como um defensor dos direitos das mulheres, da valorização da cultura local e da preservação do rio São Francisco.

Alunos participantes:
Adeilton Júnior,
José Lucas Amorim Sobreira,
Mirielle Katarine do Nascimento Cajuhy e
Samara Allana Andrade Campos

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MINIDOCUMENTÁRIO

SAMBA PARA TODAS AS IDADES

Maria Clara tem 9 anos e, desde os 4, é “sambadeira”. Ela participa do Samba de Véio da ilha do Massangano, em Petrolina. Foi levada pelo avô, seu Manuel, que toca tamborete, o principal instrumento do grupo, que consiste em uma espécie de banco de madeira com o assento feito em couro de bode que, para ser tocado, precisa ser afinado com a temperatura de fogueiras. O Samba de Véio é uma manifestação popular com características lúdicas e religiosas, praticada pelos moradores dessa ilha do rio São Francisco. A origem do folguedo remonta a aproximadamente 120 anos e vai passando de geração em geração pela tradição oral. O grupo já lançou um CD e tem feito apresentações pelo estado, em eventos como o Festival de Inverno de Garanhuns e o Pernambuco Nação Cultural.

Alunos participantes:
Brena Rayane da Silva Souza,
Candice Machado,
Fabiana Maria da Conceição da Silva e
João Pedro Rodrigues de Souza Teixeira

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MINIDOCUMENTÁRIO

COM AÇÚCAR E COM AFETO

Geórgia Bezerra Romero Soares, 45 anos, nasceu em Paulo Afonso, na Bahia, e cresceu e viveu no Recife. Formada em Letras, foi professora e revisora de texto por dez anos. Após um ano e meio desempregada, mudou-se para Petrolina, atraída por uma proposta de emprego que não se concretizou. Geórgia decidiu fazer o que mais gostava: cozinhar. Começou preparando poucas refeições e, conforme a demanda foi aumentando, ela sentiu necessidade de se especializar. Fez um curso técnico de gastronomia e tornou-se especialista em panificação e confeitaria. Em dezembro de 2013 abriu uma cafeteria, com pratos que valorizam a cultura local, junto com a esposa, Solange, com quem se casara dois meses antes. As parceiras e sócias protagonizaram o primeiro casamento homoafetivo de Petrolina.

Alunos participantes:
Fernando Pereira de Araújo,
Juciane de Jesus Aleixo e
Lauana Sento Sé Vieira Santos

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MINIDOCUMENTÁRIO

TERRA DE USO COLETIVO

Nazareth da Rocha Silva, 52 anos, é professora de uma escola da comunidade de Melancia, no município de Casa Nova, Bahia. Mãe de dois filhos, trabalha no período da manhã e se dedica também aos afazeres comuns aos moradores: cuidar dos animais, da horta e dos serviços domésticos. Na casa de Nazareth são realizadas reuniões da associação que luta pelos direitos de quem vive nos fundos de pasto, nome dado à área utilizada por todos da comunidade, que abriga quase 400 famílias. Esses moradores vivem da agricultura familiar e da criação de caprinos e ovinos e, mais recentemente, da apicultura. O modo de vida é baseado na coletividade, nas relações de solidariedade e compadrio e na preservação de costumes antigos. Esses territórios sofrem constantes ameaças, principalmente da grilagem de terras.

Alunos participantes:
Dário Peixoto Wanderley Júnior e
Juliana Maria Magalhães Lopes Silva

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MINIDOCUMENTÁRIO

DAS ÁGUAS PARA O VINHO

Juazeirense de nascimento, Rogério Pereira, 46 anos, desde cedo começou a acompanhar o pai, dono de embarcações que faziam a travessia entre Petrolina e Juazeiro, em sua rotina. Mais velho, tomou gosto por esse trabalho e assumiu o ofício paterno. Percebeu que aquela atividade poderia ser uma oportunidade de empreendimento que, além de render lucros, seria uma ótima alternativa para fomentar o turismo do Vale do São Francisco. Assim, em 2011 surgiu o Vapor do Vinho, roteiro que leva visitantes, ao longo do Velho Chico, às vinícolas localizadas no semiárido. Os passeios incluem a visita à barragem do Sobradinho, onde os turistas passam por uma eclusa, em que a embarcação é transferida a um nível mais elevado das águas de modo a seguir a navegação.

Alunos participantes:
Karen Alves de Lima,
Krishnamurti Silva de Lima e
Talitta Vitorino da Silva Santos

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