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Nesta edição

Empreenda-se, dezembro 2015

Um conjunto de mudanças sociais, econômicas e tecnológicas transformou o mercado de trabalho nas últimas décadas. Hoje ele vive em constante mutação, e o jovem que ingressa nessa realidade assume novas posturas e atitudes. Ativo diante de sua carreira, ele procura formas de reinventar processos de trabalho e de produção, abrindo espaço para uma participação relevante na sociedade.

Mais do que isso, a geração atual deseja encontrar mais sentido no que faz, encurtando a distância entre realização pessoal e profissional. Espera que seu trabalho cause mudanças na sociedade, quer fazer a diferença.

O Caderno segue a trilha de outros projetos da Globo, reunidos sob a plataforma batizada de Menos30, que busca ampliar o diálogo, a troca de conhecimento e compreensão das principais questões e preocupações da juventude atual e aborda essas novas formas de participação e atuação na sociedade – as diferentes maneiras de estar no mundo de hoje.

O panorama constituído pela cultura digital, pela era da informação e pela economia imaterial oferece, por um lado, um universo pleno de possibilidades – o mundo das startups, das redes colaborativas e de compartilhamento, com toda aplicação fascinante das novas tecnologias –, porém, por outro, comporta também inúmeros desafios, já que o acesso a ele se mostra desigual, e o jovem, ao mesmo tempo que é protagonista, é um dos mais penalizados por esse processo. As habilidades e os conhecimentos exigidos do profissional pelo mercado não são necessariamente aqueles para os quais os estudantes foram preparados.

Para contribuir nesse debate, chamamos para esta edição uma série de professores, especialistas em inovação, jovens donos de startups, outros à frente de negócios de impacto social, sociólogos, cientistas, consultores e engenheiros. Eles analisam os mais diversos aspectos dessa nova realidade a partir do relato de experiências próprias, comentários sobre pesquisas e levantamentos, análises e reflexões. Artigos e entrevistas com especialistas são mesclados com depoimentos e testemunhos de jovens que responderam ao chamado e estão “se empreendendo”. São pessoas que participaram de encontros presenciais promovidos pela Globo – pelo projeto Papus – e contam, no Caderno, as suas histórias da vida real.

Complementando o material produzido especialmente para o Caderno, apresentamos uma seleção de reportagens, ações, campanhas e outros projetos da Globo voltados para o tema – de programas jornalísticos a novelas, na TV aberta, por assinatura ou pela internet.

E, já que o espírito é o de criatividade, a edição inteira foi especialmente ilustrada por dois artistas, com os desenhos de Andrea Ebert e as caligrafias de Fabio Maca.

Esta edição celebra a chegada do novo conselho consultivo da publicação. A partir deste número, o Caderno conta com as sugestões, orientações e direcionamentos de um grupo multidisciplinar, de várias idades e cantos do país.

Boa leitura!

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Caderno

CONSELHO EDITORIAL

Alice Sant’Anna, Instituto Moreira Salles

Anna Penido, Inspirare

Antonio Prata, Folha de S.Paulo / Globo

Beatriz Azeredo, UFRJ / Globo

Caio Dib, Caindo no Brasil

Clotilde Perez, USP

Edna Palatnik, Globo

Jailson Souza, Observatório de Favelas

Marcelo Canellas, Globo

Silvio Meira, FGV-Rio/Porto Digital

Coordenação editorial

Viridiana Bertolini

Editora-chefe

Graziella Beting

Editor

Paulo Jebaili

Produção

Gisele Gomes

Entrevistas

Gisele Gomes

Paulo Jebaili

Renato Muller

Reportagens

Jornalismo Globo

Revisão

Ricardo Jensen de Oliveira

Tradução

Elenice Araujo

Projeto gráfico

Paula Astiz

Desenvolvimento do app

Laura Lotufo | Paula Astiz Design

Ilustração

Andrea Ebert

Caligrafia

Fabio Maca

Fotografia

Edward Reeves

Paulo Uras

Renato Velasco

Tratamento de imagens

Paulo César Salgado

Produção gráfica

Lilia Góes

Toninho Amorim

Caderno n. 8

São Paulo, dezembro 2015

Tema: Empreenda-se

Globo

Comunicação

Sérgio Valente, diretor

Responsabilidade Social

Beatriz Azeredo, diretora

GLOBO UNIVERSIDADE

Viridiana Bertolini, gerente

Viviane Tanner, supervisora

Equipe

Beatriz Abellan

Fatima Gonçalves

Gisele Gomes

Helena Klang

Juan Crisafulli

Leticia Castro

Paula Nakahara

Relacionamento

Andrea Doti, diretora

Tatiana Gentil, gerente

Editor: Globo Comunicação e Participações S.A.

Globo Universidade

Endereço: Rua Evandro Carlos de Andrade, 160

São Paulo – SP – CEP 04583-115

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O conceito de inovação está intrinsecamente ligado ao desenvolvimento de produtos e serviços, que não só movimentam a economia como por vezes fazem a sociedade dar um salto de patamar. Inovar consiste em “pensar fora da caixa”, em ir além do lugar-comum. E esse princípio serve também para pensar a própria carreira e se reinventar.

Para compreender as transformações de uma época, da economia e do mundo do trabalho, a identificação das características, atitudes ou escolhas das novas gerações ajuda a projetar possíveis conformações da própria sociedade no futuro. No artigo a seguir, socióloga analisa como esse olhar sobre as juventudes foi se formulando ao longo dos anos

Geração de história

Helena Wendel Abramo | Secretaria Nacional de Juventude

Identificar as características, atitudes ou escolhas das novas gerações ajuda a projetar possíveis conformações da própria sociedade no futuro. Socióloga analisa como esse olhar sobre as juventudes foi se formulando ao longo dos anos

A juventude tem sido uma categoria muito acionada para simbolizar os dilemas da contemporaneidade e para perscrutar os rumos da sociedade.

Nas sociedades modernas, a juventude corresponde à etapa da vida em que se completam a socialização e a formação e na qual se iniciam as trajetórias da vida produtiva, reprodutiva, política, de participação na definição dos destinos da sociedade. Apesar da condição de “passagem” entre duas etapas mais definidas (a infância e a idade adulta) e, assim, cheia de ambiguidades, constitui uma etapa crucial para a definição do modo como as pessoas viverão a vida adulta e configurarão a sociedade.

A preocupação com os jovens, tanto aquela de âmbito familiar como a mais geral, que poderíamos chamar de “opinião pública”, expressa nos meios de comunicação, está centrada na avaliação das possibilidades e capacidades que os jovens apresentam de, nessas trajetórias, se integrar ou desviar do padrão considerado normal. O interesse da sociologia pela juventude, do mesmo modo, está fundamentalmente voltado para compreender o papel dos jovens nos processos de continuidade ou mudança social: é nessa fase da vida que a integração do indivíduo se efetiva ou não, trazendo consequências para ele próprio e para a manutenção da coesão social.

Como a nova geração que substituirá a atual, a juventude condensa as esperanças e os temores da sociedade com a própria continuidade, com sua preservação e/ou renovação. Busca-se ler, nas posturas e características comportamentais dos jovens, a projeção do que acontecerá com a sociedade. Como apontam os historiadores Giovanni Levi e Jean-Claude Schimitt, as representações sobre a juventude, em cada período histórico, funcionam como um grande campo de batalha do simbólico, uma disputa que diz respeito às próprias representações sobre a sociedade e seu futuro.1

Esse tipo de projeção alimenta a formulação de tipos ideais e de tipos estigmatizantes de jovens, que condensam esses medos e essas esperanças. Os jovens podem, então, aparecer como os “guardiões” – aqueles que podem assegurar a continuidade da sociedade ou, ainda, livrá-la dos problemas criados pelos adultos; como “bárbaros” dissipadores ou destruidores – aqueles que não preservam a herança deixada a eles, por mau uso, ou que produzem rupturas, negando os valores e instituições – ou como “anjos anunciadores” – os que trazem inovações que corrigem os rumos ou revitalizam as características da sociedade atual.

Participar de uma mesma experiência geracional, partilhando questões ou problemas comuns não significa, porém, que as respostas dadas pelos jovens serão uniformes

O problema com essas emblematizações é que, muitas vezes, deixamos de ver os jovens como eles próprios se constituem e se apresentam; em vez de enxergar as questões que eles apresentam à sociedade, enxergamos apenas as projeções de nossas próprias expectativas e temores.

Mas do que estamos mesmo falando, quando abordamos as gerações juvenis? Segundo o sociólogo húngaro Karl Mannheim, a geração diz respeito à similaridade de situação dada pela vivência de determinada etapa da vida que um mesmo grupo etário tem no tempo histórico. Essa localização histórica comum expõe as pessoas a uma gama específica (potencial) de experiências, predispondo-as a certos modos característicos de sentir, pensar e agir.

A formação desse “estilo geracional” se faz justamente na etapa da vida referente à juventude, quando se tornam possíveis a reflexão e a problematização das informações recebidas. É por isso que são principalmente os jovens, como geração, que podem assimilar ou negar a herança cultural transmitida, ou, ainda, adicionar elementos originais a esse acervo. Por isso, também, os jovens são aqueles com maior capacidade de incorporação de inovações, tanto tecnológicas como comportamentais, e de adaptação e reação criativa às mudanças.

Mas aqui é preciso fazer um alerta: participar de uma mesma experiência geracional, partilhando questões ou problemas comuns, não significa, porém, que as respostas dadas pelos jovens serão uniformes. Seus modos de vida, suas escolhas, seu pensamento e comportamento vão variar segundo outras localizações (de classe social, territorial, inserção cultural, religião etc.), que definem contingências e possibilidades diferentes de viver tais questões. Assim, grupos, ou segmentos, ou mesmo indivíduos, de jovens de uma mesma geração podem dar respostas distintas, e mesmo divergentes, a questões e experiências comuns configuradas pelo tempo histórico.

Portanto, quando pensamos nos “personagens” juvenis característicos de cada geração, precisamos nos lembrar de que eles dizem respeito a apenas certos grupos que ganham visibilidade em função de uma atuação relevante na conjuntura, problematizando ou apresentando inovações relevantes para a sociedade.

Gerações juvenis no Brasil

A partir de todas essas ressalvas, podemos fazer uma breve reconstituição de como os jovens foram vistos/retratados ao longo das últimas décadas no Brasil.

Tanto no pensamento acadêmico (principalmente o sociológico) como na opinião pública, a visibilidade dos jovens como uma categoria específica no Brasil emerge na segunda metade do século 20, como um fenômeno ligado aos processos de modernização desencadeados após a Segunda Guerra Mundial. Beneficiados pelo aumento da oferta educacional, socializados pela escola e pelos meios de comunicação, com maior disponibilidade para migrar do meio rural para o urbano, para participar das relações sociais e simbólicas do mundo moderno, os jovens representavam tudo o que o termo “mudança” poderia significar.

A partir da compreensão da juventude como uma etapa de formação, de desenvolvimento das habilidades para aplicação futura como adultos, a principal figura social a representar os jovens foi, durante quase toda a segunda metade do século 20, a do estudante, como aquele capaz de absorver todas as inovações do momento, tanto as técnicas e científicas como as comportamentais. Desse modo, o personagem estudante aparece como o promotor de mobilidade social no plano individual e familiar e de modernização no plano social, tanto no plano das ideias e proposições políticas como no plano do comportamento. Eram, nesse sentido, principalmente os jovens das classes médias, que podiam seguir nos estudos até o ensino médio e superior. Os outros, filhos das classes operárias e camponesas, no campo e na cidade, que cedo entravam no mundo do trabalho, nem sequer eram vistos como jovens.

Assim é que, nos anos 1950, emerge a figura dos jovens estudantes, próximos aos artistas e intelectuais, engajados nos projetos de desenvolvimento nacional ou na construção de um modo de vida urbano capaz de dar uma tradução nacional à modernidade internacional em termos de cultura e comportamento: uma das figuras mais recorrentes nas reconstruções históricas que se fazem desse período é a dos jovens ligados à bossa nova, a primeira das culturas de tradição universitária, no dizer da jornalista Ana Maria Bahiana.2

Nos anos 1960, a matriz de construção da figura juvenil é semelhante à anterior, mas com outro acento: são ainda os jovens estudantes, mas engajados em projetos de mudança mais radical, não só de modernização, mas de transformação da ordem social, no contexto de fechamento político após o golpe militar de 1964 e o AI-5 em 1968, que restringia a liberdade de expressão e manifestação. São os jovens contestadores, seja na vertente “revolucionária” (envolvidos na luta contra a ditadura e por reformas sociais no movimento estudantil, em partidos de esquerda, na luta armada), seja na vertente da “contracultura” (que rejeita a cultura e o modo de vida dominante, instaurando “comunidades alternativas” reais ou simbólicas).

Nos anos 1980, numa configuração oposta à dos anos 1960, caracterizada tanto pela crise econômica como por projetos utópicos, emergem duas figuras juvenis polares, que ajudam a entender como respostas distintas podem ser dadas por membros jovens de uma mesma geração a um conjunto de questões historicamente colocadas: yuppies e os punks, ambos aparecendo como tipos antagônicos aos jovens engajados em uma utopia de transformação social, embora também antagônicos entre si.

A maior parte dos países, inclusive o Brasil, estava vivendo o processo de reestruturação produtiva, com crescimento do desemprego, do trabalho precário e da informalidade; e de “redução das políticas sociais”, em função do processo de “enxugamento do Estado”. Nesse contexto, construir uma inserção social satisfatória era uma tarefa difícil mesmo para os jovens escolarizados.

O termo “yuppie”, derivação da sigla referente a “young urban professional”, começou a ser usado para designar os jovens profissionais entre os 20 e os 40 anos de idade que, diante de tal cenário de empregos escassos e aumento da desigualdade social, se empenhavam para ser bem-sucedidos no mercado de trabalho, de modo a usufruir de um bom padrão de consumo ainda na fase da juventude. Para isso, apostavam, desde o período de formação universitária, numa carreira muito orientada a conquistar bons empregos nos setores econômicos onde se faz dinheiro (setor financeiro, publicidade). Passam a ser identificados pelo estilo workaholic e selvagem no mundo do trabalho, pelo padrão elevado de consumo e valorização da moda. A frase característica é de um personagem de um filme da época: “Eu não quero mudar o mundo; só quero ganhar dinheiro”.

Já os punks, termo que significa algo entre “podre e inútil”, usado primeiro na Inglaterra e depois no resto do mundo para designar os jovens das classes trabalhadoras atingidos pelo desemprego, e que conformam grupos de cultura e comportamento em torno de um estilo musical (o punk rock), expressavam, simbolicamente, toda a face negativa desse cenário: sua resposta foi a denúncia de que não há futuro para os jovens nem para a sociedade, onde não há chance nem apoio para os que estão nos estratos inferiores, para quem só resta a fúria destrutiva ou a denúncia da podridão das instituições sociais. Como diria, aqui no Brasil, o compositor Renato Russo: “Vamos cuspir de volta o lixo em cima de vocês”, na música Geração Coca-Cola, no disco Legião Urbana, de 1985.

Vemos que, para esses dois personagens, a questão do trabalho se coloca como tema central, mas gerando respostas opostas. Na verdade, esses fenômenos também indicam a mudança na condição juvenil, iniciada desde os anos 1970 aqui no Brasil, que deixa de estar relacionada apenas ao período da formação escolar para ingresso futuro na vida adulta, mas também a uma vivência singular numa série de outras esferas, inclusive a do trabalho e a do consumo. Desse modo, desde então, a juventude se estende socialmente, sendo constituída por uma diversidade de grupos sociais. Não por acaso, é a partir desse momento que se torna visível, para a opinião pública, a existência de uma série de tribos de jovens, e a sociologia começa a falar em juventudes, no plural, para dar conta dessa diversidade. Vai ficando mais difícil, assim, eleger um grupo ou um “personagem” como típico da juventude.

Jovens e mercado

Mais um alerta se faz necessário: temos de nos lembrar de que essas representações têm também origem na identificação de perfis de consumidores para orientar a produção de bens materiais e simbólicos e a publicidade que estimula o consumo. Desde o pós-guerra, na Europa, e após os anos 1960, no Brasil, os jovens constituem um segmento especial de consumidores e tornam-se também personagens principais na publicidade, condensando o protótipo ideal do que todos gostariam de ser: auge da saúde, da beleza, mais livres de compromissos para poder gozar a vida e consumir produtos em função do prazer. Como lembra a psicanalista Maria Rita Kehl, “ser jovem virou slogan, virou clichê publicitário, virou imperativo categórico – condição para se pertencer a uma certa elite atualizada e vitoriosa”.3

Nesse contexto, a definição de tipos ideais, ou de perfis de jovens divulgados em peças publicitárias ou artigos de opinião em seções de comportamento de revistas, jornais e programas de televisão, tem estado bastante ligada à dinâmica da indústria cultural e das sondagens de pesquisas de mercado, construindo identificações de grupos sociais a quem dirigir tipos de mercadoria. Mas essas caracterizações têm servido também para reestruturar serviços, até os educacionais, entre eles os de formação profissional, assim como para informar as técnicas gerenciais e de recursos humanos, interessadas em compreender o perfil dos novos trabalhadores que chegam às suas empresas.

Vemos, assim, nas últimas décadas, uma proliferação de tipificações de “gerações”, a cada dez ou mesmo cinco anos, baseadas em diferentes tipos de critérios, numa escala difícil de acompanhar: geração baby boom, geração Woodstock, geração millenium, geração digital; geração X, geração Y, geração Z; juventude libertária, juventude competitiva, juventude global; no Brasil, geração revolucionária, geração AI-5, geração paz e amor, geração Coca-Cola, geração “nem nem”.

Como apontamos mais acima, esses “personagens” que emergem dessas caracterizações podem ganhar relevância também por simbolizar os medos e as esperanças correntes, e nesse sentido é frequente que imagens polares de jovens disputem a representação da geração juvenil presente em cada uma das conjunturas, revelando, desse modo, as disputas sobre os rumos da sociedade que se operam em torno do papel que se quer atribuir aos jovens.

De comum a essas tipificações, o entendimento de que a relação com as novas tecnologias de informação e comunicação constitui de fato uma experiência geracional diferenciada, para os jovens do século 21, com reflexos não só sobre o comportamento, mas também sobre a própria estruturação psíquica e cognitiva, alterando modos de relacionamentos pessoais, de experimentar o mundo e atuar sobre ele. O uso dos dispositivos eletrônicos, a configuração de redes e de comunidades virtuais seriam experiências estruturantes de novos modos de sentir, pensar e agir, no mundo inteiro.

Contudo, mesmo sobre esse pano de fundo comum, as experiências se diferenciam e se estratificam segundo outras clivagens, como já dissemos acima.

No Brasil, nos anos 2000, podemos dizer que essa geração de jovens se destaca por ter experimentado possibilidades mais amplas de inclusão e de melhoria na qualidade de vida, dadas principalmente pelo avanço da escolaridade, pela elevação relativa da renda de suas famílias, pelo maior acesso aos meios de comunicação e informação e uma diminuição dos problemas relativos ao mundo do trabalho, com diminuição das taxas de desemprego e da informalidade, ao contrário do observado em vários países do mundo, inclusive da Europa e da América do Norte. Mas, ao mesmo tempo, ainda permanecem grandes desigualdades entre diferentes segmentos de jovens e graves problemas sociais, sendo o mais dramático deles a exposição à violência.

No que diz respeito ao tema do trabalho, emerge, no mundo todo, a preocupação com a situação de dupla, ou tripla, inatividade dada pela situação de não estudar e não trabalhar (e não estar em treinamento, ou estágio): os “nem nem”, aqueles que não estudam nem trabalham, como tem sido usado no Brasil (ou NEET, da sigla em inglês: neither in employment nor in education or training, como usada por organismos internacionais como a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, OCDE). Tem sido identificado como um fenômeno em constante crescimento, chegando a se caracterizar como marca de uma geração.

De fato, no contexto internacional, a grande preocupação está centrada no desemprego, que, na conjuntura de crise econômica prolongada vivida pelos países no centro da economia mundial, se mantém em altas taxas, atingindo mais intensamente os jovens a ponto de, em alguns países, chegar à faixa de 50% (ou seja, metade dos jovens do país se encontra desempregada), casos de Espanha e Grécia. E colocando o grande paradoxo do momento atual: nunca os jovens foram tão escolarizados e nunca tão atingidos pelo desemprego.

A questão dos “nem nem”, por isso, revela uma preocupação importante com os jovens em situação de grave exclusão, que precisa engendrar respostas adequadas de superação no plano das políticas públicas, mas também revela a produção de um estigma, pois a tipificação de uma geração, ou de um segmento dos jovens, como “nem nem” passa a conotar não só uma situação de desvantagem, mas uma postura, um comportamento, bastante estigmatizante. A inatividade, em uma etapa da vida caracterizada pelo auge da energia, da disposição, do protagonismo, aparece como produzida pelo desinteresse, pela desfiliação social, como falta de engajamento: como dizem os hispanohablantes: “los ni ni y ni ahí” (ou os “nem nem” são também os que “não estão nem aí”). Ou seja, os “nem nem”, além de excluídos, aparecem como aqueles que não aproveitam as oportunidades históricas, “não agarram sua chance”.

Por outro lado, tem sido cada vez mais frequente a referência a uma outra figura juvenil situada no plano oposto ao do “nem nem”, o jovem empreendedor, como aquele que “produz sua própria história”, inclusive no sentido do engajamento produtivo. Assentado sobre os traços de sua geração (nesse sentido, próximo às caracterizações feitas sobre as gerações Y e Z, ou seja, com maior nível educacional e ao mesmo tempo maior conectividade com os recursos tecnológicos e capacidade de buscar por si só os insumos de informação, e com resistência a se adaptar à disciplina e ao constrangimento do emprego formal), aspira a um trabalho mais livre, criativo, com sentido para si e sua comunidade. O jovem empreendedor encarna, assim, aquele que aproveita todas as chances e a própria energia criativa para achar uma solução para si e, além disso, contribuir para sua sociedade, seu entorno.

Devemos nos perguntar em que medida os próprios jovens se identificam, de fato, com essas caracterizações e com essas aspirações. Se perguntarmos, em qualquer pesquisa, para jovens localizados na situação de “nem estuda nem trabalha” se eles não “fazem nada”, ouviremos respostas indignadas, pois muitos deles estão ou no intervalo entre situações de atividades intensas ou envolvidos com tarefas centrais para a estratégia de sobrevivência das famílias (como as jovens que cuidam dos filhos e/ou dos parentes, no que chamamos esfera da reprodução, ou tarefas domésticas), muitas vezes impedidos de conciliar tal atividade com a escola ou o trabalho.

No Brasil de hoje, a maioria dos jovens, considerados aqueles entre 15 e 29 anos, trabalha ou procura emprego. A maioria trabalha como assalariado, e apenas 12% poderiam ser classificados como “empreendedores”; entre esses últimos, uma pequena minoria é empregador (1,3%) e a maioria é aquilo que hoje se chama de microempreendedor individual, identificado nas estatísticas como “conta-própria”, situação que se caracteriza, muitas vezes, por uma condição bastante precária de trabalho. As pesquisas de opinião mostram que os jovens apostam muito no estudo e no trabalho como via de inserção e melhoria de vida e a maioria aspira a um trabalho decente, considerado aquele com direitos e garantias, como carteira assinada, férias remuneradas e salário corrigido segundo as disposições da legislação. Evidentemente, todos aspiram também a um trabalho que se adeque à formação alcançada e por meio do qual possam encontrar sentido e se sentir realizados, como ilustram as respostas dadas à pesquisa Agenda Juventude Brasil, de 2013.

Desse modo, em que pese a importância de compreender e propor respostas para essas situações tomadas como relevantes da condição juvenil atual, é preciso ponderar se a concentração da atenção nessas duas figuras não alimenta a reedição de velhas polarizações entre integrados e marginalizados, entre heróis civilizadores e apáticos irresponsáveis, e se não estamos jogando nas costas dos jovens a conta dos problemas, que são de toda a sociedade, relativos às possibilidades e condições de trabalho e inclusão social.

HELENA WENDEL ABRAMO é socióloga formada pela Universidade de São Paulo e coordenadora-geral de Políticas Setoriais da Secretaria Nacional de Juventude.

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JUVENTUDES NA LINHA DE FRENTE

1947
Lançamento da revista norte-americana Teen, a primeira voltada para o público adolescente.
1951
O livro O apanhador no campo de centeio, do norte-americano J. D. Salinger, tem como protagonista o jovem Holden Caulfield, que vira símbolo de uma geração ao expressar conflitos com o mundo adulto.
1953
Filmes como O selvagem guindam atores como Marlon Brando à condição de ícones do cinema. Logo depois, surgiria James Dean (Juventude transviada, 1955). Os jeans e a camiseta se popularizam como moda jovem.
1954
O rock já dava as caras desde o final dos anos 1940, mas atinge as massas com Elvis Presley, com That’s all right.
1957
No final da década, um movimento musical que une características do samba e do jazz ganha forma, especialmente no meio universitário. Batizado bossa nova, o gênero tem em Tom Jobim, João Gilberto e Vinicius de Moraes alguns de seus expoentes.
1958
Apesar de o termo geração beat ser de 1948, o movimento beat ganha força no final dos anos 1950, como expressão de contracultura e de antimaterialismo. Tem na literatura figuras proeminentes como Jack Kerouac, autor de On the road.
1964
Fundada em 1938, a União Nacional dos Estudantes (UNE) tem na luta contra a ditadura militar um dos capítulos mais marcantes de sua história.
1965
Com a Guerra do Vietnã em curso, os jovens marcam posição contra o status quo e os valores tradicionais da sociedade. Com o lema “paz e amor”, pregam a não violência, a vida em comunidades e a liberdade.
1968
Ano marcado por uma onda de protestos. O movimento mais emblemático se dá em maio, na França, quando conflitos entre estudantes e dirigentes de uma universidade desencadeiam manifestações, com a adesão de sindicatos. Com discurso libertário, os protestos marcam também mudanças em hábitos e comportamentos conservadores.
1969
Cerca de 400 mil jovens se reúnem na cidade de Bethel (EUA), num final de semana, para o Festival de Woodstock, um marco na cultura hippie. Com a música fortemente marcada pela psicodelia, o evento conta com a presença de artistas como Jimi Hendrix e Joe Cocker.
1974
O movimento punk, em que a banda norte-americana Ramones é uma referência, começa a ser difundido notadamente pela música. Por volta de 1977, na Inglaterra, marcado pelo visual agressivo de uma juventude desencantada, o movimento ganha força e se espalha pelo mundo. Bandas como Sex Pistols e The Clash protagonizam a cena musical.
1982
O termo yuppie se populariza como designação de jovens profissionais urbanos, aficionados por trabalho e especialmente pelo acesso aos bens de consumo que o dinheiro pode proporcionar.
1982
Com estética e linguagem inovadoras, a banda Blitz cai no gosto do público jovem e abre caminho para uma série de grupos, como Paralamas do Sucesso, Titãs e Barão Vermelho. Na esteira do rock brasileiro, o RPM arrebata multidões e torna-se fenômeno de vendas da indústria fonográfica em 1986.
1984
Ainda sob o governo militar, os jovens são parte significativa da população brasileira que vai às ruas nos comícios e passeatas reivindicar o direito de escolher o presidente do país, movimento que fica conhecido como Diretas Já!
1985
Cerca de 1,5 milhão de pessoas vão ao Rock in Rio, festival de música com dez dias de duração que reúne bandas internacionais como Queen e Yes e artistas brasileiros como Lulu Santos e Gilberto Gil.
1992
Os jovens vão em massa às ruas protestar contra o governo do então presidente Fernando Collor, acusado de corrupção. O símbolo da mobilização são os jovens conhecidos como caras-pintadas.
1995
Apesar da origem no final dos anos 1960, durante a Guerra Fria, é na metade da década de 1990 que a internet começa a se popularizar. Com os avanços, surgem grupos como os nerds e os geeks, muito afeitos a novidades tecnológicas.
2004
Depois dos embriões criados no final da década anterior, é a partir de meados dos anos 2000 que as redes sociais se espalham por computadores e celulares. O mundo fica exponencialmente conectado.
2010
A partir da Tunísia, uma onda de protestos se espalha pelo Oriente Médio e norte da África, movimento que fica conhecido como Primavera Árabe, viabilizado em boa parte pelo uso de mídias sociais. A pressão popular culmina com a queda de governantes em países como Egito e Tunísia.
2011
Na esteira da crise econômica mundial, o centro financeiro de Nova York é o cenário de protestos contra as desigualdades econômicas e sociais e concentração de renda. O movimento ganha o nome de Occupy Wall Street e se espalha por cidades como Chicago e Boston.
2013
Manifestantes vão às ruas protestar contra o aumento de tarifa no transporte. A repressão policial motiva novas mobilizações. As “jornadas de junho” ganham a adesão de milhões de pessoas em várias cidades. Os protestos passam a abranger também questões como corrupção na política e baixa qualidade dos serviços públicos.

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Um morador num vilarejo africano paga via celular a conta da energia gerada por painéis solares. O exemplo, trazido pela pesquisadora venezuelana radicada na Inglaterra Carlota Perez, mostra como o uso das tecnologias de informação e comunicação (TICs) pode afetar a vida da sociedade e os rumos da economia, além de liberar a energia criativa do trabalhador

Recursos à mão

POR PAULO JEBAILI E GISELE GOMES

Pelo celular, um morador num vilarejo africano paga a conta de energia gerada por painéis solares. O exemplo é da pesquisadora Carlota Perez para explicar como o uso das tecnologias de informação e comunicação (TICs) pode afetar a economia e a vida da sociedade

Inovar é essencial para o desenvolvimento econômico. A presença de recursos tecnológicos, no entanto, revela menos sobre os avanços socioeconômicos do que o uso que se faz das ferramentas disponíveis. Mais do que ter apetrechos, as decisões sobre como usá-los dizem mais respeito ao futuro das populações. Essa ideia aparece de maneiras variadas na fala da professora Carlota Perez, da London School of Economics, especialista em estudos sobre como as mudanças provocadas pelas tecnologias impactam a economia global e o cotidiano da sociedade. Autora do livro Technological revolutions and financial capital1 (Revoluções tecnológicas e capital financeiro, sem versão em português), ela concedeu a seguinte entrevista, por e-mail, para o Caderno, em que explica como a tecnologia pode contribuir para diminuir desigualdades e impulsionar a economia verde.

Qual a importância da inovação para o desenvolvimento da economia global?

Ela é mais do que importante, é vital. Como defendia [o economista austríaco Joseph] Schumpeter, o crescimento depende da inovação, seja ela local, regional, nacional ou global. A introdução de novos produtos e novas tecnologias é o motor que impulsiona a economia. Existem inovações radicais de porte, como a linha de montagem junto com o automóvel, que desencadeiam inúmeras transformações tecnológicas e socioeconômicas, que, por sua vez, são consideradas revolucionárias. Mas são exceções. As mais típicas – e a maioria – constituem os produtos novos, novas tecnologias e as inovações incrementais continuamente introduzidos para aumentar a produtividade, melhorar os produtos, reduzir os custos, permitir o uso de novos materiais, e assim por diante. Esse processo de inovação constante é o lubrificante que mantém as engrenagens da economia em funcionamento.

As tecnologias da informação e da comunicação (TICs) contribuem de fato para um mundo melhor, mais próspero e igualitário? Em caso afirmativo, como isso se dá?

A revolução tecnológica anterior, aquela da produção de massa, estava mais inclinada a criar uma sociedade igualitária do que a TIC. A lógica da produção de massa era homogeneizar o consumo, já a da TIC é diferenciar-se e adaptar-se à variedade. O princípio básico da produção de massa foi aprimorado por Henry Ford quando ele afirmou que iria produzir automóveis a preços acessíveis para seus operários. De fato, no mundo desenvolvido, os trabalhadores conquistaram salários que lhes permitiam comprar uma casa em uma zona suburbana, repleta de eletrodomésticos e com um carro na porta. É claro que atingir essa meta exigiu inovações institucionais como os programas de estímulo, como o Welfare State [estado de bem-estar social], para garantir a hipoteca, viabilizando os empréstimos bancários; seguro-desemprego, para que os empregados não interrompessem os pagamentos; além das pensões, para que eles não temessem gastar todo o salário do mês. Podemos afirmar que os outros dois sistemas que usavam a produção em massa – o fascismo e o socialismo – também visavam homogeneizar suas respectivas populações por meio de um padrão de vida similar e um idioma único. Essa não era apenas uma questão política (como impor o espanhol como idioma único e oficial aos catalães, aos bascos etc.; ou o russo a todas as repúblicas soviéticas); havia também uma justificativa mais simples, a de que produtos e embalagens idênticos reduziam o preço unitário e ampliavam o mercado. Quando Henry Ford disse que seria possível escolher qualquer cor contanto que fosse preto, e quando Mao Tsé-tung vestiu a população inteira, homens e mulheres, velhos e jovens, com o mesmo terno azul, ambos estavam aplicando o princípio central da produção em massa.

A TIC não é um paradigma homogeneizador. A lógica da TIC se aplica mais à flexibilidade e à adaptabilidade. No mínimo, ela se aplica mais à diferenciação do que ao igualitarismo. Ainda assim, como se trata de uma força globalizante, ela está mais inclinada a estimular o avanço do desenvolvimento e dos países emergentes. Enquanto a produção em massa demandava um consumo crescente de energia e de materiais geralmente fornecidos a baixo custo pelo Terceiro Mundo, as tecnologias da informação têm uma correlação maior com os bens intangíveis e estão aptas a produzir os insumos necessários à boa qualidade de vida, substituindo produtos por serviços e colocando a educação e a criatividade ao alcance de toda a população mundial. Uma dessas diferenças essenciais entre os métodos padronizados da produção em massa e aqueles flexíveis da TIC é que, em vez de separar os funcionários da produção dos funcionários administrativos, discriminando o trabalho braçal do trabalho cognitivo, ela reúne e reintegra cada ser humano no processo de produção de massa, estimulando a participação e a colaboração, a criatividade e o aprimoramento. Em suas formas mais avançadas, as organizações modernas atribuem poder a todos os trabalhadores dos diferentes níveis, liberando sua força criativa e recompensando-os. Isso significa criar as condições para estimular a multiplicação das fontes de inovação.

Em sua essência, a principal diferença entre a produção em massa e a TIC com relação à vida produtiva está entre conquistar a satisfação por meio do consumo fora do trabalho e o potencial de satisfazer-se em ambas as atividades, de produção e de consumo, tanto dentro como fora do trabalho. Obviamente, existem diversas empresas e organizações que são adeptas do modelo antigo e insistem em resistir às mudanças em prejuízo próprio, já que acabarão por perder a corrida para a concorrência.

Eu ainda não respondi sobre a igualdade. Para mim, o igualitarismo da produção em massa no Ocidente difundiu o estilo norte-americano de vida entre todos os trabalhadores do mundo avançado e para todas as classes médias do mundo em desenvolvimento. A produção e a segmentação de mercado flexíveis da TIC podem seguir por dois direcionamentos distintos. O primeiro, que está sendo aplicado no momento, é permitir a grande separação entre as rendas mais altas e as mais baixas para a perpetuação e a diferenciação do consumo entre o luxo das camadas superiores e a frugalidade das camadas inferiores, com o encolhimento do alcance da renda média. E isso tende a gerar distúrbios sociais, o extremismo de esquerda e de direita, líderes messiânicos e instabilidade. O segundo seria servir a uma variedade de estilos de vida, proporcionando uma satisfação equivalente para os diferentes grupos, dentro de cada país e no mundo inteiro, criando oportunidades múltiplas para a inovação adaptável e personalizada, que geram sociedades estáveis nas esferas doméstica e global.

Nem os políticos nem a comunidade empresarial assimilaram a importância dessa escolha, na busca pela harmonia social e na prosperidade econômica. O chanceler alemão Otto von Bismarck já compreendia isso muito bem em meados do século 19, assim como o economista John Keynes, o presidente norte-americano Franklin Roosevelt e os desenvolvedores do conceito do bem-estar social, ou Welfare State, após a Segunda Guerra Mundial.

Qual o papel dos governos na criação de um ambiente favorável à atividade empreendedora?

Durante as primeiras décadas de cada revolução tecnológica (como no período entre 1970 e 1990 com as TICs), os governos permitiram que os mercados operassem com a máxima liberdade e experimentassem as novas tecnologias e os novos produtos, a fim de determinar quais seriam os melhores e quais se tornariam os novos líderes da indústria. No entanto, essa liberdade inevitavelmente criou uma bolha e levou ao colapso total. Já assistimos a isso por cinco vezes ao longo da história, uma vez a cada uma das cinco revoluções tecnológicas. Mas, após o colapso da bolha (que nesse caso foi duplo, em 2000 e em 2008), o Estado precisa voltar ativamente a oferecer um direcionamento convergente para a inovação. Da última vez, no pós-guerra, houve dois direcionamentos principais: a suburbanização e a Guerra Fria. A inovação e o empreendedorismo confidencialmente introduziram novidades em produtos e plásticos para a casa totalmente eletrificada, para a sala e cozinha, a geladeira e o congelador, a embalagem, o setor da construção e para atender às demandas da Guerra Fria, de armas à corrida espacial. Tudo isso criou uma sinergia poderosa entre os fornecedores e os serviços e o comportamento do consumidor, beneficiando assim a todos os inovadores em diversos direcionamentos.

Algo semelhante precisa acontecer agora, mas em um direcionamento que beneficie o potencial para a inovação já introduzida pela revolução da informação. Na minha opinião, é necessário um conjunto de políticas favoráveis à questão do meio ambiente. A TIC, essencialmente, é uma tecnologia voltada para os bens intangíveis e os serviços. É verdade que ela usa produtos físicos como computadores e telefones móveis, mas eles vêm se tornando cada vez menores e mais multifuncionais. A TIC ajuda a desenvolver novos materiais; a reduzir o tamanho de todos os produtos; a converter muitos dos produtos em serviços, como vem acontecendo com a indústria da música e do cinema; a abrir canais de participação para a criatividade e comunicação; a passar gradualmente da propriedade ao acesso ou aluguel; a induzir a durabilidade e a expandir massivamente o segmento de manutenção; a criar redes inteligentes de sistemas interativos de energia de fontes variadas; a permitir uma nova abordagem da saúde e do bem-estar, entre tantos outros, até que a sustentabilidade se torne uma fonte de sinergias múltiplas entre os inovadores de todos os setores.

Entretanto, as maiores sinergias surgem ao se alcançar um direcionamento consensual entre empresas, governo e sociedade, e a consolidação dos elos entre negócios, finanças e as múltiplas fontes de conhecimento produtivo que levam à inovação: universidades, laboratórios, empresas de consultoria, serviços técnicos etc. Sem um sistema de inovação forte, a indústria se enfraquece e deixa de ser competitiva em face da economia global; sem um direcionamento claro rumo à inovação, as finanças não avançam por temor do risco. O papel mais efetivo do governo é promover o fortalecimento desses elos, permitindo inovar em um direcionamento comum. E as políticas para conseguir isso incluem desde uma ampla gama de investimentos diretos em ciência e tecnologia até a adequação do sistema tributário que favoreça um direcionamento consensual.

Como os países em desenvolvimento devem conduzir a questão da evasão de capital humano?

Criando projetos instigantes e explorando de forma produtiva o conhecimento desses indivíduos dentro do país. As pessoas não se dispõem a deixar a família e os amigos quando há oferta de empregos que propiciam a realização plena, permitam usar seus conhecimentos e apoiem suas ideias empreendedoras.

Muitas empresas conduzem seus negócios usando recursos de outros países. No entanto, em muitos casos, elas adotam essa prática para lucrar com recursos mais baratos, impostos menores ou mesmo a isenção fiscal. Quais são as consequências desse modelo de negócios?

É justamente porque muitas empresas terceirizaram boa parte de suas atividades para reduzir custos que os países em desenvolvimento tiveram a oportunidade de aprender e absorver gradativamente as novas tecnologias para conseguirem escalar as cadeias de valor e acabarem inovando eles mesmos. Isso é exatamente o que os chamados Tigres Asiáticos (Coreia do Sul, Taiwan, Cingapura e Hong Kong) fizeram nas décadas de 1980 e 1990 e a China vem fazendo desde então. A América Latina não se beneficiou o bastante da aprendizagem tecnológica por não ter entendido que a terceirização é uma oportunidade de acesso às tecnologias. O modelo de substituição de importação com elevadas barreiras tarifárias e sem incentivos ao aumento da produtividade ou ao aprendizado tecnológico criou um modelo de negócios passivo que colocou o continente bem atrás do sucesso asiático. Não é o que as empresas estrangeiras fazem que é prejudicial, e sim a total falta de esforço doméstico para superar as limitações desse modelo e para tirar o máximo proveito dele.

Como as TICs contribuem para a criação de modelos de negócio mais sustentáveis? Como a senhora vê o conceito da economia verde?

O direcionamento verde sustentável é o que pode livrar o mundo desenvolvido da recessão, da estagnação e do aumento do desemprego. E pode ainda ajudar os países em desenvolvimento a adotar um novo direcionamento para o progresso, em lugar de copiar o modelo de produção de massa obsoleto. Quando o Quênia abandona o velho sistema de telefonia fixa a cabo e adota uma rede nacional de telefonia móvel, ele está avançando para o paradigma atual e economizando bastante. Quando essa operadora móvel se transforma num banco e as pessoas que nunca haviam sido correntistas, seja nas cidades grandes e pequenas e nos vilarejos, passam a usar o telefone para fazer pagamentos e transferências, elas também estão fazendo a mesma coisa; assim como quando são instalados painéis de energia solar em vilarejos distantes, permitindo que os usuários paguem pelo consumo da eletricidade gerada usando o celular. A TIC tem um potencial imenso para estimular a imaginação a superar muitas das limitações do velho padrão de desenvolvimento. Além disso, o acesso à informação e a eventual disponibilidade da impressão 3D e de outros recursos tecnológicos podem fomentar o uso da TIC para a inovação com um direcionamento verde, sustentável, aproveitando-se melhor as peculiaridades e os recursos locais.

Carlota Perez, da London Business School of Economics: “Ser um inovador hoje em dia requer uma ousadia extrema”

Um dos princípios que sustentam a indústria tecnológica se baseia na obsolescência de produtos. Esse conceito está por trás de um desejo crescente pelo consumo. A indústria terá de mudar esse paradigma? Já existem esforços nessa direção?

Essa foi a estratégia adotada pelas antigas empresas de produção em massa quando seus mercados se tornaram saturados. Lamentavelmente, o segmento da TIC imitou essa estratégia com o uso intensivo de materiais, em vez de elaborar belos produtos com materiais especiais e mudar apenas os softwares ou os eletrônicos. Conforme a economia se torna mais verde e os consumidores valorizam mais a durabilidade e a possibilidade de fazer atualizações, o desperdício tende a se tornar obsoleto. Mesmo se os produtos se tornarem antigos (o que acabará acontecendo), o crescimento das classes médias no mundo todo vai gerar bilhões de novos consumidores, e a saturação dos mercados deve levar décadas. Assim, em termos de economia global, será possível adotar a estratégia de abandonar a obsolescência planejada sem comprometer a lucratividade.

Em 2000, assistimos ao colapso da Nasdaq. Em 2008, uma grave crise se alastrou mundo afora após a falência de algumas instituições financeiras. Além disso, vemos também alguns países atravessarem suas próprias crises econômicas. Qual a melhor forma para o empreendedor enfrentar as drásticas mudanças de cenário na economia?

O capitalismo impõe percalços por natureza. Historicamente, houve curtos períodos de calmaria, aos quais eu chamo de eras de ouro, como o boom vitoriano, a Belle Époque e o que os franceses chamam de “les trente glorieuses”, os 30 anos que se seguiram à Segunda Grande Guerra. Em geral, eles intercalam períodos de instabilidade, quebras e recessões. Nós agora temos a chance de fomentar uma era dourada global sustentável usando o poder transformador das TICs e criando um consenso global para a convergência de políticas ecológicas. Podemos estabelecer lances de somas positivas entre negócios e sociedade, entre o mundo desenvolvido e o mundo emergente e em desenvolvimento, e entre a humanidade e o planeta. Contudo, possibilidade é uma coisa e probabilidade é outra. Uma era de ouro global é possível, mas não muito provável. Na verdade, eu diria que estamos fadados a outro solavanco financeiro que não vai demorar. A economia não foi conduzida como se deveria; as políticas não tornaram mais lucrativo investir na economia real e na inovação do que na espécie de cassino que o universo financeiro criou para si. Entre os derivativos e os instrumentos sintéticos gerados a partir de dívidas, o papel do investimento acabou distorcido. Os empreendedores que têm a sorte de conseguir capital de financiamento são pressionados a gerar lucros rapidamente. O que é um absurdo, pois as inovações mais importantes exigem um longo período de amadurecimento. Precisamos de políticas que mudem radicalmente o cenário do jogo e tornem os investimentos de longo prazo mais lucrativos que as apostas de curto prazo. Ou seja, ser um inovador hoje em dia requer uma ousadia extrema. O que não é benéfico nem para o crescimento, nem para o emprego, nem para a sociedade. Um dia, os políticos irão acordar para o fato de que ser financiado pelo poder econômico – e ser induzido a satisfazê-lo na elaboração de suas políticas – é uma receita para o próprio fracasso e perecimento.

Em seu livro, a senhora cita cinco revoluções tecnológicas a partir do final do século 18. É possível prever a próxima?

Até agora, a história mostra que cada revolução surgiu quando o potencial da anterior atingiu sua maturidade, a saturação de mercado e a falência dos aumentos de produtividade. A TIC está longe de alcançar essa posição e ainda guarda um enorme potencial transformador em todos os setores da economia. Eu não espero outra revolução senão em 20 ou 30 anos. Mas isso não significa que não possam prosperar novas tecnologias radicais em segmentos como a biotecnologia e a nanotecnologia, entre outros, pois irão. E vão gerar explosões de crescimento importantes em suas áreas de influência. Na verdade, é bem provável que a próxima revolução seja uma combinação dessas tecnologias com alguma descoberta radical que barateie bastante a sua utilização. Contudo, não é fácil prever revoluções tecnológicas. Elas são justamente uma espécie de explosão inesperada baseada na combinação de avanços prévios. Elas não surgem do nada, mas também não são meramente previsíveis.

Mas, na minha opinião, no momento atual não cabe preocupar-se com a próxima revolução, e sim com tirar o melhor proveito da que está em curso, e que ainda admite diversas transformações. Oferecer políticas que levem a um consenso sobre o direcionamento sinergético para a inovação sustentável usando o poder da TIC é o que vai produzir os melhores resultados em termos de crescimento, desenvolvimento, empregos e bem-estar, além de proteger o único planeta de que dispomos.

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© Copyright 2015 Globo Comunicação e Participações S.A.

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A internet viabilizou negócios lucrativos e projetos colaborativos de naturezas variadas, deu vez à economia do imaterial, que marca a passagem da era industrial para a informacional. Tal transformação é pautada pela liberdade e pela lógica colaborativa. Nesse espaço comum, quanto mais gente trabalhando em uma ideia, melhores podem ser os resultados

A riqueza das redes

Sérgio Amadeu da Silveira | Universidade Federal do ABC

A internet viabilizou negócios lucrativos e projetos colaborativos de naturezas variadas, deu vez à economia do imaterial. Segundo pesquisador de cultura digital, quanto mais gente trabalhando em torno de uma ideia, melhores podem ser os resultados

Alan Kay, um dos mais importantes cientistas da computação, escreveu que o computador é um metameio, um dispositivo capaz de simular os detalhes de qualquer outro dispositivo.1 É uma verdadeira máquina de criação. Já a internet pode ser definida como uma rede das redes de computadores e de máquinas de processar informações. Assim, a internet é uma gigantesca rede criativa. O professor de direito de informática Jonathan Zittrain afirmou que a internet é uma plataforma generativa (generative em inglês), ou seja, ela é um espaço tecnológico com capacidade para alavancar e se adaptar a uma infinidade de tarefas, uma verdadeira base para a criatividade.2

A internet é uma rede aberta, sem dono e desenvolvida colaborativamente. Aberta porque ela não se fechou para novas possibilidades e inventos que podem revolucioná-la a qualquer momento. Sem dono porque não há um criador ou uma empresa que tenha a propriedade da rede. A rede das redes é uma criação coletiva e um espaço comum no sentido que os ingleses atribuem à palavra commons. A internet é desenvolvida até hoje de modo colaborativo por grupos de usuários, engenheiros, hackers e empresas.

Não paramos de nos surpreender com a internet. Ela é um espaço criativo impressionante, vivo e interativo. Qual é a fonte da extrema criatividade da internet? A lógica da liberdade que guia a sua evolução. O jurista Lawrence Lessig advoga que na internet a lógica da liberdade prevalece sobre a da permissão.3 Isso quer dizer que todos estão previamente autorizados a inventar na internet. Quando Shawn Fanning, John Fanning e Sean Parker criaram o primeiro serviço P2P, peer to peer, o Napster, não tiveram que pedir permissão para ninguém. Nem Chad Hurley, Steve Chen e Jawed Karim solicitaram autorização do governo ou de uma grande corporação para criar o YouTube. O brasileiro Mike Krieger e o norte-americano Kevin Systrom lançaram o Instagram e milhões de pessoas passaram a usá-lo. Se alguém cria algo na rede que funciona e possui utilidade para muitas pessoas, essa criação poderá existir independentemente de autorização de quem quer que seja.

O sucesso da liberdade criativa empolgou o planeta. Milhares de sites foram desenvolvidos a partir do surgimento da web, uma das aplicações da internet. Ainda no final do século passado surgiram os blogs, que permitiram a outros milhões de pessoas que não sabiam utilizar a linguagem html a subir seus conteúdos online. A internet tornou viável uma mobilização criativa que abriu espaço para novas iniciativas de compartilhamento, colaboração e também novos negócios e empreendimentos de mercado.

A economia está se transformando. A era industrial está sendo ultrapassada pela era informacional. Isso significa que a economia não será principalmente baseada em produtos industriais, em ferro e em petróleo. Bens e mercadorias de maior valor econômico são cada vez mais imateriais, ou seja, não têm existência física, são simbólicos. Assim como a Revolução Industrial não acabou com a agricultura, a revolução informacional não acabará com a indústria, mas a tornará secundária. A indústria petrolífera norte-americana continua rendendo bilhões de dólares, mas empresas bilionárias como o Facebook e Apple trabalham com serviços e tecnologias do imaterial.

Uma economia imaterial dissemina produtos que não possuem escassez, o que gera novas oportunidades e desafios com os quais o mercado e as instituições erguidas no mundo industrial não estão preparados para lidar. A internet, como plataforma de relacionamento e de serviços que independem do espaço imediato, que ocorrem em alta velocidade e agregando milhares de informações simultâneas, gera possibilidades incríveis e ao mesmo tempo fortes reações contrárias.

Observe as reações ao serviço de transporte particular Uber. Ele permite que uma pessoa chame pelo smartphone um veículo que poderá transportá-la a um preço baixo. A Câmara de Vereadores de São Paulo aprovou uma lei, em 2014, proibindo o uso do Uber na capital paulista por competir com o serviço de táxi. Sem dúvida, o Uber abre espaço para aumentar a oferta de transporte nas cidades sem o pagamento de licenciamento, extremamente caro, que beneficia principalmente as empresas de “frota”. Muitos taxistas saíram dessas empresas e aderiram ao Uber.

A popularização das interfaces de programação abertas pelo Google Maps gerou inúmeras aplicações. No início, muitos integrantes de serviços de radiotáxi reclamaram, mas logo perceberam que as possibilidades eram bem maiores que os prejuízos. Podemos perceber que existem tecnologias disruptivas, mas nem todas as criações da internet promovem a “destruição criativa”, ou seja, tornam obsoletas determinadas atividades criando outras que as substituem, gerando mais oportunidades do que as que foram desativadas. O termo foi empregado pelo economista austríaco Joseph Schumpeter ainda no século 20.

Vale observar a quantidade de projetos coletivos desenvolvidos em redes colaborativas pela própria internet. Existem inúmeros repositórios ou sites que hospedam projetos compartilhados. Um deles é o GitHub. Ele é um repositório de códigos-fonte de softwares abertos com um sistema de gerenciamento de versões que permitem uma eficiente colaboração em rede. O código-fonte é o texto em que o software é escrito pelos programadores. Em 2015, o GitHub atingiu mais de 9 milhões de usuários, reunindo mais de 21 milhões de projetos de software com código-fonte aberto. Um desses projetos é o Linux, um sistema operacional feito colaborativamente por milhares de desenvolvedores.

Uma economia imaterial dissemina produtos que não possuem escassez, o que gera novas oportunidades e desafios com os quais o mercado e as instituições erguidas no mundo industrial não estão preparados para lidar

O professor Yochai Benkler escreveu um livro essencial para compreendermos a sociedade informacional, The wealth of networks, ainda não traduzido para o português.4 Benkler afirma que o ecossistema da internet incentivou três processos que o mundo dominado pelas mídias de massa não promovia: 1) as pessoas puderam fazer mais por elas mesmas; 2) ficou muito mais fácil compartilhar e realizar projetos; 3) ampliaram-se as possibilidades de realização de projetos colaborativos que não visem ao mercado ou o lucro.

Veja o exemplo do movimento do software livre. Milhares de programadores abrem seus códigos-fonte para que o conhecimento seja aprimorado e seus projetos sejam melhorados. Empresas como o Google se reposicionaram no mercado de celulares utilizando o código-fonte do Linux e adequando-o para o mundo dos aparelhos móveis. Assim surgiu o Android, que logo passou a ser o sistema operacional mais utilizado em telefones celulares. Três softwares livres estiveram na base de empreendimentos como Yahoo, YouTube, Google. São eles o sistema operacional Linux, o banco de dados MySQL e o software livre de hospedagem de sites web chamado Apache.

A ideia principal que inspira os defensores do software livre é que o conhecimento deve circular sem impedimentos e que não tem sentido resolver algo que já foi resolvido por alguém. A lógica do software livre é a mesma da ciência. O que fez a ciência avançar de modo exponencial não foi a propriedade das formulações científicas, mas a liberdade de seu compartilhamento. Na maioria das vezes, uma ideia trabalhada por centenas de pessoas gera mais resultado do que a mesma ideia trabalhada por um diminuto grupo. A cultura hacker, surgida nos anos 1960, nos Estados Unidos, muito influenciada pela contracultura americana, está na origem não somente do software livre, mas também da internet. Para os hackers do movimento do software livre, superar desafios lógicos e compartilhar os resultados de suas aventuras algorítmicas é uma atividade prazerosa e solidária.

As redes digitais reunidas pelos protocolos TCP/IP constituem a internet e são uma expressão da inteligência coletiva disponível no planeta. Inspirado na mobilização colaborativa das comunidades de software livre, surgiu um dos exemplos mais bem-sucedidos do compartilhamento de conhecimento e esforços em redes distribuídas, a enciclopédia Wikipedia. Envolvendo mais de 50 mil colaboradores ativos no mundo, a Wikipedia se tornou a maior obra de referência do mundo. Ela é escrita por voluntários e sustentada financeiramente por doações, não possui publicidade. Trata-se de um modelo bem-sucedido que apostou integralmente na colaboração.

Há diversos modelos de colaboração. A apropriação dos esforços colaborativos é um dos elementos vitais para compreender a economia informacional. O modelo Wikipedia compartilha quase integralmente com o gerador de conteúdos o sucesso do empreendimento colaborativo. O modelo Facebook é de outra ordem. Quem fornece os conteúdos da plataforma são seus usuários, mas quem se beneficia mais dos resultados da colaboração é a empresa dona da plataforma. Obviamente, as pessoas que têm perfis no Facebook ganham a possibilidade de encontrar suas amizades, publicar imagens e textos, marcar encontros, saber de eventos etc, mas, os ganhos financeiros são todos concentrados e apropriados pelo Facebook. Alguns chamam esse processo de extração de mais-valia 2.0, inspirado na teoria marxista. O YouTube também têm seus conteúdos produzidos pelos usuários, mas seu modelo permite a distribuição de alguns ganhos baseados no número de acessos que o vídeo obteve.

A internet tem possibilitado o surgimento de empreendimentos colaborativos não mercantis (Wikipedia, blogs, Diáspora), voltados para o mercado (YouTube, Facebook, Google) e híbridos (milhares de softwares livres, podendo ou não ser utilizados comercialmente). Ela tem permitido o surgimento de aplicações que se tornam mundiais e são utilizadas por milhões de pessoas em um curto espaço de tempo. Em 2015, a criação de uma startup chamada WhatsApp, adquirida pelo Facebook, já ultrapassou 800 milhões de usuários. Simultaneamente ao sucesso de vídeos por streaming desenvolvido pelo Netflix, surgiu na Argentina e se disseminou pelo mundo, até ser proibido, o Popcorn Time, uma rede P2P de compartilhamento de vídeos online. Ele é o sucedâneo do Pirate Bay, também fechado por pressão da indústria cinematográfica de Hollywood, que já havia sido o sucessor do Kazaa, surgido após o fechamento do Napster.

A internet é um ambiente comum. Não somente mercantil. As pessoas criam conteúdos principalmente por motivos não comerciais. O homo economicus, que só pensa em maximizar ganhos e minimizar perdas, não é o único habitante da internet. A pesquisa TIC domicílios, do Comitê Gestor da Internet, com dados de 2014, mostrou que 40% dos brasileiros conectados sobem na rede conteúdos que eles mesmos criaram. Também deixa claro que 57% dos usuários no Brasil ouvem música online e 51% baixam músicas da rede.5 Isso mostra como o compartilhamento de conteúdos está na própria natureza da rede. Como afirma o ativista Tiago Pimentel, o que falta é política para isso – e não polícia.

Liberdade e neutralidade

A internet deveria continuar funcionando como ela funciona hoje. A rede das redes precisa continuar livre. Essa liberdade assegura milhares de negócios lucrativos e projetos colaborativos solidários e necessários para todos que habitam nosso planeta. A internet livre está abrindo espaço para a formação de uma comunidade imaginada transnacional, nos dizeres do antropólogo Gustavo Lins Ribeiro, que pode gerar uma esfera pública mundial que seja útil para criarmos plataformas de governança globais ou um movimento de opinião planetária que garantam a paz, a sustentabilidade ambiental e a justiça equitativa.

Para mantermos a internet livre e criativa, precisamos assegurar também a neutralidade da rede, ou seja, quem domina os cabos não pode controlar os conteúdos que por eles passam. Uma startup que criar algo novo e revolucionário na internet terá seu invento bloqueado caso os donos das fibras ópticas possam filtrar o tráfego de dados. A inventividade depende da neutralidade da rede. A quebra da neutralidade implicará a substituição da lógica da liberdade pela lógica da permissão.

Por fim, para mantermos a criatividade da rede e do próprio mercado, temos que colocar limites à compra e venda de dados pessoais, ou seja, a economia da intrusão e interceptação de dados que sustentam empresas gigantescas. Não podemos ter democracia nem liberdade criativa sem espaços de privacidade assegurados. É preciso fazer avançar a conscientização dos usuários da internet sobre a importância da proteção de dados pessoais e da necessidade de impor limites à venda dos rastros da nossa navegação. Não é aceitável que corporações busquem dados para modular o comportamento das pessoas que desconhecem as técnicas de agregação de perfis para a indução de práticas culturais de consumo. Letras miúdas de longos textos, tais como as antigas bulas de remédios, contendo as regras de privacidade dos negócios não devem ser aceitas. Precisamos criar uma mobilização pela clareza dos negócios do mercado de dados pessoais. Julian Assange, do WikiLeaks, tem uma frase que deveríamos transformar em mote da sociedade informacional: “Privacidade para os fracos, transparência para os poderosos”.

SÉRGIO AMADEU DA SILVEIRA é professor da Universidade Federal do ABC, pesquisador de cultura digital.

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Pesquisas demonstram que estar à frente de um negócio é, no mínimo, uma hipótese considerada pelas pessoas que compõem a população economicamente ativa. Mas o que pode ser um promissor ponto de partida nem sempre se realiza. Muitos potenciais donos de negócio ficam apenas na intenção e outros iniciam uma atividade sem estar devidamente preparados

Aprender e empreender

POR PAULO JEBAILI

O tema do empreendedorismo vem despertando interesse entre os jovens. Mas o que pode ser um promissor ponto de partida nem sempre se realiza. Potenciais donos de negócio ficam apenas na intenção e outros iniciam uma atividade sem estar devidamente preparados

O empreendedorismo é uma força econômica de alto impacto para a sociedade. Além disso, é uma opção de carreira para quem entra ou busca modificar a relação com o mercado de trabalho. No Brasil, entretanto, ainda há uma percepção de que basta ter certo tino para gerir um negócio próprio. “O brasileiro ainda acredita muito no dom natural de empreender e não necessariamente no esforço, na necessidade de que o empreendedor tem de se preparar”, diz Juliano Seabra, diretor-geral da Endeavor, entidade que se dedica a apoiar o empreendedorismo. Mestre em Administração Pública e Governo pela Fundação Getulio Vargas (FGV-Eaesp), especialista em Gestão de Negócios e Operações pelo Insper e graduado em Relações Internacionais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), Seabra lida com o assunto empreendedorismo desde 2002, tendo participado até de fóruns internacionais da Organização das Nações Unidas (ONU). Na conversa a seguir, ele analisa aspectos da gestão empreendedora no país.

Juliano Seabra, na sede da Endeavor, em São Paulo: “Hoje pode ser dito que o empreendedorismo é uma opção de carreira mesmo”

Que importância tem o empreendedorismo no desenvolvimento econômico de um país?

A gente sabe hoje que pelo menos as empresas que estão crescendo muito no Brasil – que é um número bem reduzido, menos de 1%, índice bem parecido no mundo inteiro – representam de 50% a 60% da geração líquida de novos empregos. Ou seja, quem está fazendo isso é uma pessoa, que é empreendedora, que descobriu uma oportunidade de negócio e a está executando de tal maneira que consegue empregar gente, ser mais inovadora, resolver um problema da sociedade. Então, quando se fala de impacto econômico e social do empreendedorismo, você tem aquele cara que montou um negócio e está tendo sucesso, que está conseguindo crescer, se desenvolver. Mas também tem uma massa de pessoas que está empreendendo com negócios muito pequenos e que, especialmente nos momentos de desaceleração econômica, serve como um grande colchão de proteção da economia. Hoje, quase 60% das vagas de emprego estão em micro e pequenas empresas no Brasil. Se imaginarmos que essa é a última empresa que sente o efeito de uma crise – as maiores sentem muito mais rapidamente, por exemplo –, temos a dimensão mais precisa do impacto do empreendedorismo. Impacto no desenvolvimento propriamente dito, mas também na manutenção das condições que eles têm na economia.

Existe algum país que seja referência em empreendedorismo?

A referência que a gente olha é sempre a norte-americana. A proporção de empresas de alto crescimento na economia americana é de três a quatro vezes maior do que na economia brasileira, por exemplo. Mas não há tanta diferença assim quando você enxerga a quantidade de pessoas que estão empreendendo. O Brasil é o segundo ou terceiro país com o maior número de empreendedores, em números absolutos. Mas isso não significa necessariamente performance dessas empresas. Então, há ainda o desafio, aqui no país, que é menos necessariamente de quantidade, mas muito de qualidade desse empreendedor.

Em termos de dificuldades e de oportunidades, o que o Brasil oferece ao empreendedor?

O Brasil é hoje o país que tem muita disposição para empreender. De acordo com pesquisa nossa, feita com o Ibope, três quartos da população declaram interesse em ter o próprio negócio, o que é bastante em relação aos outros países. Acho que a gente perde só para a Turquia em disposição para empreender. Mas o grande problema do empreendedorismo no Brasil está na migração do que é interesse para o que é execução real. Menos de 25% das pessoas que declaram ter interesse em empreender vão de fato montar um negócio um dia. E, mais do que a execução, existe o problema da qualidade da execução. O empreendedor brasileiro inova pouco, tem pouca orientação para crescimento, emprega pouca gente. Quando ele executa o movimento de criar a sua empresa, ele ainda o faz mirando muito pequeno. Isso faz com que ele não consiga construir uma empresa nem média, quanto mais grande.

Esse interesse pelo empreendedorismo vem crescendo até entre os mais jovens, haja vista uma pesquisa da Endeavor feita em universidades em 2014.1 O índice vem aumentando em comparação aos anos 2000. Como analisa esse quadro?

Hoje a gente vive um boom do empreendedorismo no Brasil. As pessoas têm mais disposição para isso do que há 15, 20 anos. Hoje pode ser dito que o empreendedorismo é uma opção de carreira mesmo. A dificuldade que a gente enxerga é que, embora seja uma opção de carreira, as pessoas ainda acreditam que empreendedorismo é uma coisa meio natural, que a pessoa não tem de se preparar, não tem de fazer um curso, não tem de estudar nem pesquisar. O brasileiro ainda acredita muito no dom natural de empreender, e não necessariamente no esforço, na necessidade que o empreendedor tem de se preparar. Nessa pesquisa nas universidades que a Endeavor lançou, quase dois terços dos universitários declaram interesse em empreender. Na hora em que você vai perguntar ao universitário se ele está efetivamente se preparando, esse número cai para 25%, 30%. Quando você tem esse dilema é que começa a perceber que, no fundo, não basta ter uma geração de pessoas dispostas. Isso é uma enorme conquista da sociedade brasileira nos últimos 15 anos, mas, se isso não vier junto com um processo de entender que o empreendedorismo, como qualquer carreira, demanda preparação, você vai ter uma legião de pessoas que vão desistir, que não vão entender o processo ou, o que é ainda pior, uma geração de incompetentes motivados. Ter muita vontade de empreender sem nenhum conhecimento, o resultado vai aparecer lá na frente: empresa quebrando, gente falindo, problemas financeiros para quem for empreender. O universo do empreendedor não é tão simples nem tão idealizado. Essa parte a gente ainda precisa aprender.

Seabra: “Há uma quantidade importante de belos casos de empreendedorismo que surgiram em momentos de crise”

Existe um perfil do empreendedor?

Perfil, perfil, não tem. Mas tem um conjunto de características que são bem parecidas. Por exemplo: proatividade, que é basicamente a capacidade do empreendedor de tirar as coisas do papel. Otimismo, criatividade são coisas que vão aparecendo no dia a dia do empreendedor como característica. Isso não significa que exista um perfil A ou B mais propenso para quem quer montar um negócio. Tem gente mais extrovertida, mais tímida, tem engenheiro, médico, gente que não é formada. O que a gente percebe, do ponto de vista da performance do empreendedor, é que existe, à medida que a empresa se desenvolve, uma correlação muito forte entre performance no longo prazo na empresa e formação do empreendedor. Empreendedor que tem curso superior, que terminou a faculdade ou está fazendo pós-graduação etc., tem muito mais chance de ter uma empresa que vai crescer do que alguém que não conseguiu se formar, não conseguiu concluir os estudos. Isso vale para a carreira de empreendedor, mas também para a carreira em qualquer nível.

Você mencionou que o empreendedor brasileiro inova pouco. Há alguma causa identificada para isso?

Há uma desculpa tradicional de que o Brasil é um país com um mercado muito grande, sempre muito fechado. Com uma economia muito fechada, os empreendedores sempre foram muito endógenos, sempre olharam muito para dentro, e aí a necessidade de inovar se torna menor. O célebre ditado “em terra de cego, quem tem um olho é rei” vale perfeitamente para o empreendedor brasileiro. Não precisa ser espetacular, pode ser um pouquinho melhor do que o outro para você conseguir ter uma boa performance. Agora, quando você olha esse empreendedor sob uma ótica de geração, com o tempo você percebe que existem mais empreendedores criando negócios e dando certo porque estão se preparando mais para a ideia de empreender. De dez, 15 anos para cá, multiplicou muito o número de pessoas que empreendem porque identificam uma oportunidade concreta no mercado. A gente imagina que, com o tempo – demora –, haverá uma geração maior de empresas, de empreendedores que vão inovar mais, que vão estar mais prontos para se olhar como um ator global e não só local. Essa visão de que o Brasil é um mercado muito grande e que, portanto, basta ser um ator local limita muito a necessidade e a pressão por inovação no empreendedorismo. Quando dá o problema? Quando você passa por um momento de crise, como a que estamos passando em 2015, em que você começa a ter empresas indo muito mal de performance porque têm uma concorrência estrangeira forte ou porque estão perdendo competitividade. Aí a pressão de fora obriga o empreendedor a se mexer. Mas esse é o pior jeito de fazer com que o empreendedor inove.

“Quando acontece de o empreendedor falir, na maioria das vezes é efeito de uma fraqueza dele próprio como empresário, que não supriu a lacuna dele de formação, de experiência ou de qualquer coisa do gênero”

Aliás, no mundo dos negócios, há quem faça correlação entre empreendimentos bem-sucedidos em ambientes adversos ou mesmo inóspitos. Isso procede ou faz parte da mitologia corporativa?

Há uma quantidade importante de belos casos de empreendedorismo que surgiram em momentos de crise. É que, num momento de crise, você consegue diferenciar aquela pessoa que efetivamente identificou a oportunidade e que, portanto, está oferecendo um produto ou serviço para a sociedade melhor do que a média do que aquele que só está surfando numa onda boa. Os momentos de bonança, de alguma maneira, ajudam a encobrir as eventuais incompetências, as ineficiências que existem no setor privado. Quando há muita restrição, obviamente diminui a quantidade de empreendedores, mas você começa a ver que os que estão ali emergem muito mais fortes. Por isso se fala que, quando aparece uma crise, a oportunidade para o empreendedor fica mais latente, porque alguém vai ter de resolver os problemas da sociedade, e normalmente esse cara é o empreendedor.

Juliano Seabra comenta a relação entre erro e empreendedorismo

Como está o índice de mortalidade de empresas no Brasil?

O índice de mortalidade de empresas no Brasil diminuiu muito, especialmente quando a gente tinha uma conjuntura boa. Isso facilitou muito o trabalho. Esse número chegou a cair a 50%, 60% em quatro ou cinco anos, o que é um resultado bastante expressivo se você pensar que dez anos atrás esse número era quase 90%. E é especialmente expressivo se você considerar que, mesmo em economias maduras, como a norte-americana, o índice de mortalidade é um pouco acima de 40%. O erro está tão intrincado com o processo de empreender que metade das empresas morre em cinco anos na economia americana e 60% morrem aqui. Sob esse aspecto, a gente tem de ter a compreensão de que empresas que nascem vão quebrar. Muitas. E que isso é normal. Dito isso, o que a gente faz para entender as razões pelas quais as empresas quebram? A maioria dos erros dos empreendedores está relacionada com o processo dele próprio de capacitação: planejamento mal-feito, falta de capacidade de gestão, não conseguir controlar os recursos financeiros da empresa. É muito comum ouvir empreendedor dizendo “eu não tenho acesso a capital”, “o dinheiro está curto”, “o banco não me dá empréstimo” etc. Mas quantas vezes me deparei com esse comentário e perguntei para o empreendedor: “Mas você sabia de quanto precisava?”, “Para que você iria usar o recurso?”. E, na imensa maioria das vezes, a pessoa não se preparou para responder a essas perguntas. Quando a gente olha para o universo do empreendedor, quando acontece de ele morrer, de falir, na maioria das vezes é efeito de uma fraqueza dele próprio como empresário, que não supriu a lacuna dele de formação, de experiência ou de qualquer coisa do gênero e, por isso, ele se viu numa situação de mortalidade.

Até que ponto o empreendedorismo está entrando na grade do ensino formal?

Há muitos exemplos de universidades que estão levando a disciplina ou o curso ou um tipo de formação em empreendedorismo para seus alunos. Isso, que era uma coisa muito rara 15 anos atrás, começou a ganhar corpo. É um movimento muito puxado pelo próprio corpo de alunos ou por um ou outro professor dentro da universidade que vira o dono desse tema, o abraça e consegue fazer com que as pessoas se interessem. Mas os desafios, do ponto de vista do ensino do empreendedorismo, na educação formal, e especialmente no ensino superior, dizem muito respeito à total concentração em cursos de Administração, por exemplo. Em Administração de Empresas, quase 90% dos cursos têm um trabalho mais evidente de formação de empreendedores, mas você não vê isso acontecendo em cursos mais técnicos, como Engenharia, ou nas carreiras mais biológicas, como Medicina, Biologia, Veterinária, ou na indústria criativa – Design, Jornalismo –, ou nas ciências humanas. É impressionante, parece que só tem direito a ser empreendedor, para a universidade, aquele sujeito que cursar Administração, o que é absolutamente despropositado. Um jornalista que queira montar uma empresa de conteúdo precisaria tanto ou mais dessa formação do que um cara que está sendo preparado para ser executivo. O desafio que a gente tem hoje no ensino do empreendedorismo é muito mais fazer com que ele seja transversal de verdade e menos concentrado na Tecnologia da Informação (TI), na Administração de Empresas, porque, no final das contas, o empreendedor pode vir de qualquer formação, a qualquer tempo. Não faz sentido preparar uma legião de pessoas para serem excelentes médicos ou excelentes advogados e não considerar que esses caras podem ter um negócio um dia, como a maioria deles tem. O desafio no Brasil está justamente nessa necessidade de democratizar o acesso à formação empreendedora em diferentes cursos, em diferentes níveis, especialmente nos que estão mais próximos da entrada do estudante no mercado de trabalho: ensino superior, médio, técnico. Deveria ser inevitável, mas ainda há um longo caminho a ser percorrido nesse aspecto aqui no Brasil.

Muitos empreendedores têm como momento crítico a hora em que a empresa entra em rota de crescimento. Alguns preferem repassar o negócio e começar outro do zero. Por que esse momento é tão desafiador para o empreendedor?

A maioria dos empreendedores tem dificuldade de perceber que a empresa vai mudando de necessidade à medida que ela evolui, e o próprio dono de negócio também precisa evoluir. Quando se fala de um empreendedor à frente de uma empresa, está se falando de demandas que são necessariamente da estrutura do negócio, ou seja, no começo você – ou você e seu sócio – está girando pratinhos sozinho: atende telefone, vende, produz, entrega. À medida que a empresa cresce, criam-se necessidades diferentes na estrutura. Seja na estrutura organizacional – você tem mais gente trabalhando para poder dar conta –, seja na sua própria capacidade, como líder, como empreendedor, de entregar aquela expectativa para o mercado. A analogia que a gente faz é muito parecida com a de um ser humano. Quando nasce, pequeninho, não anda sozinho, é preciso fazer tudo por ele e, num determinado momento, é preciso fazê-lo andar sozinho e, dali a pouco, fazer outras atividades. O desafio do empreendedor é evoluir junto com o negócio. Tem gente que não consegue, tem gente que vira gargalo para o crescimento da empresa, tem gente que prefere vender a empresa para não ter de se deparar com a necessidade de se transformar individualmente para tocar o negócio. O grande desafio, quando a gente fala de crescimento, tem muito a ver com a capacidade de o empreendedor aprender que ele precisa ser diferente a cada momento – num momento ele vai ser muito controlador, no outro vai ser mais líder, formador de cultura e muito menos mão na massa. Então, esse processo tem de ser observado desde o começo e com o cuidado de não queimar etapa. De o empreendedor achar que uma empresa que ainda não atingiu a maturidade está pronta para um líder ou um empreendedor que não coloca a mão na massa. Porque tem esse outro lado da moeda: ele projeta uma empresa, multinacional, com 5 mil funcionários, mas ele tem 20 pessoas no time, que precisam muito da presença dele, da experiência, do conhecimento, e a empresa pode não se desenvolver. Esse equilíbrio entre o momento da empresa e o momento do empreendedor, saber que eles vão estar em cada momento em pontos diferentes da trajetória, é fundamental. O cara que fica parado não consegue se desenvolver, a empresa vira gargalo, ele vira gargalo para a empresa ou, no limite, faz com que a empresa morra.

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Identidade traçada

Ana Paula Xongani, 27 anos

Designer cria marca em que os laços com a África não estão apenas no tecido

Designer cria marca em que os laços com a África não estão apenas no tecido

Minha trajetória na Xongani começa na infância, na tentativa da minha mãe valorizar minha autoestima. Ela criava ferramentas para que eu conseguisse me inserir na sociedade, como uma faixinha do balé que não cabia no meu cabelo black. Sempre estive envolvida com a cultura afro-brasileira. Quando fui escolher um curso na graduação, procurei a faculdade de belas artes e enveredei pelo design de interiores. Mas eu não via minhas influências tão bem construídas nesse processo da faculdade. Comecei, então, a ir pesquisando, buscar o viés afro-brasileiro, e, no final da faculdade, já completamente mergulhada nessa pesquisa, resolvi ir para Moçambique. Lá, o que me deixou impressionada foram os tecidos africanos, chamados de capulana. Toda mulher moçambicana tem um na mão ou na bolsa. Foi então que eu deixei minhas roupas lá e trouxe os tecidos. Chegando aqui, quando começamos a analisar o mercado, percebemos que ele estava carente dessa moda para a mulher brasileira negra. Percebi também que a gente passa a vida se adaptando ao que o mercado oferece, com uma moda eurocentrada, que nunca valoriza o que a gente tem e não é pensada pra gente. Eu trabalhava num escritório de arquitetura quando decidi: “Vou me dedicar a isso total e exclusivamente”. Pedi demissão, comecei a pensar num nome e constituir a Xongani como empresa.

Primeiro abrimos a loja virtual para atender quem estivesse longe, fizemos vídeos com tutoriais para as pessoas entenderem a novidade e agora abrimos o ateliê, na Zona Leste de São Paulo. Fizemos até vestido de noiva. Sempre digo que a gente vende autoestima. E o que me motiva é a oportunidade de fazer uma coisa nossa: pra mim e pra nossa comunidade.

O principal desafio nisso tudo é o do acesso ao crédito, a dificuldade de gerir financeiramente esse começo. Porque você tem que fazer isso, muitas vezes, com recursos próprios. E quem não tem essa oportunidade? Além disso, a busca pela profissionalização é importante. Como meu trabalho é artesanal, a gente tem que virar a chave, tem que passar para o profissional. Isso significa profissionalizar os processos e seu trabalho. Significa que, se você fizer um site, faça um site perfeito; se fizer uma embalagem, procure fazer uma embalagem bem-feita. Não espere uma coisa acontecer pra depois você começar a pensar em como colocar isso de forma profissional. Tente começar como se já fosse uma superempresa.

Tenho milhões de ideias, e meu sonho é que a Xongani vire uma grande marca. Aliás, esse nome veio de Moçambique. Xongani significa “se arrumem”, “se enfeitem”, “fiquem bonitas”. Quando a gente estava buscando essas capulanas em Moçambique, um moçambicano chegou e falou: “Isso é xongani”. Assim, também aderi para o meu sobrenome, por uma questão histórica e política. Fiz isso porque nós, negros e escravizados aqui no Brasil, perdemos nosso sobrenome de origem, foi uma estratégia pra que a gente não se localizasse. A gente sabe a nossa história até a escravidão, mas não sabe o que aconteceu antes disso. Pelo sobrenome, eu poderia descobrir se sou descendente de Angola, Moçambique, África do Sul, mas não tenho essa possibilidade. Então, quando começou a Xongani, eu quis resgatar também o sobrenome que perdi, já que só tenho no registro os nomes de ascendência portuguesa, e não meu sobrenome de origem. Quis fazer parte de Moçambique, o primeiro país que me acolheu.

Hoje eu, com 27 anos, sinto que estou na geração de transformação em várias questões e vejo muita diferença com relação à geração da minha mãe. Na época, o curso que ela fez se chamava Técnico de Economia Doméstica. Ou seja, é um nome dado para um curso para quem é dona de casa. E o que ela aprendia? Aprendia arte, a bordar, a costurar, a pintar. E ela conseguiu transformar isso em uma profissão. Na época dela, a inserção no mercado de trabalho de uma mulher negra – minha mãe tem 60 anos – era completamente diferente. E hoje eu digo pra ela: “Esse curso que você fez é um supernegócio.” E isso só se consegue com formação, oportunidade e autoestima.

ANA PAULA XONGANI é designer e empresária da Xongani. No curso de Design de Interiores, pesquisou a influência da arte africana no design brasileiro. Integrou equipes de criação em escritórios de arquitetura de interiores.

Apresentação feita no Papus em 29 de outubro de 2015
Para ver mais depoimentos de jovens empreendedores, clique aqui

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As relações dos jovens com o trabalho são mais marcadas por diferenças que por semelhanças, ainda que haja convergência no modo de encarar a atividade profissional como caminho para um futuro melhor. A seguir, pesquisadora aborda a complexidade desse universo

Marcas da desigualdade

Maria Carla Corrochano | UFSCAR

As relações dos jovens com o trabalho são mais marcadas por diferenças que por semelhanças, ainda que haja convergência no modo de encarar a atividade profissional como caminho para um futuro melhor. A seguir, pesquisadora aborda a complexidade desse universo

A juventude brasileira é trabalhadora. Considerando a realidade de um país fortemente marcado por múltiplas desigualdades – de classe social, gênero e orientação sexual, cor/raça e região de moradia –, o encontro com o trabalho pode começar muito cedo e antes mesmo da idade legal para trabalhar para uns, ou pode acontecer mais tarde, em combinação com os estudos, ou depois de finalizada a escolaridade básica ou o ensino superior. Pode significar o acesso a um amplo conjunto de direitos ou realizar-se em condições extremamente precárias, comprometendo de maneira muito significativa as trajetórias de escolarização e profissionalização. Para todos, no entanto, a preocupação e as dificuldades em realizar projetos para a vida profissional parecem estar na ordem do dia, diante de um mundo do trabalho em profunda mutação.

Antes de iniciar uma reflexão sobre a condição juvenil no mundo do trabalho em nosso país, é fundamental explicitar que o debate aqui irá se concentrar na situação de jovens em idade legal para trabalhar, aqueles com mais de 16 anos, e na perspectiva do direito a um trabalho decente nos termos da Organização Internacional do Trabalho (OIT).1

No Brasil, a promoção do trabalho decente passou a ser um compromisso assumido entre o governo brasileiro e a OIT a partir de 2003, tendo continuidade com a elaboração da Agenda Nacional de Trabalho Decente e do Plano Nacional de Emprego e Trabalho Decente, ambos realizados em consulta às organizações de empregadores e trabalhadores.2

Em 2010, foi construída uma Agenda Nacional de Trabalho Decente para a Juventude,3 mas a implementação das ações e prioridades ali contidas ainda não se constituiu em realidade predominante. O Plano Nacional de Trabalho Decente para a Juventude, em construção, poderá produzir alguma alteração nessa cena, mas de fato ainda são poucas as respostas e é pequeno o debate público sobre o trabalho e a qualidade do trabalho da juventude brasileira. Por essa razão, este artigo pretende concentrar-se nesses aspectos, contribuindo para desvelar as múltiplas desigualdades a que estão sujeitas as gerações mais jovens quando o tema é o trabalho. Nesse sentido, não pretende argumentar a favor do estímulo ao empreendedorismo para as jovens gerações ou de alguma outra mágica solução, mas sim apresentar elementos que contribuam para perceber que os dilemas juvenis no mundo do trabalho vão além dos problemas da inserção.

Um ponto de partida importante é tornar evidentes as múltiplas desigualdades enfrentadas pela população juvenil no mercado de trabalho. As análises da relação entre jovens em idade legal para trabalhar e o mundo do trabalho revelam que, em nosso país, são os mais pobres, as mulheres, os negros/as e moradores do campo e das periferias aqueles que têm muito mais dificuldade em conseguir acesso a um trabalho, principalmente de qualidade. O desemprego não se apresenta de modo homogêneo para todos os jovens, assim como as condições de trabalho, salários e jornadas.

Quanto ao desemprego, cabe observar que, embora a institucionalização do fenômeno e o modo como os indivíduos se percebem e se identificam variem conforme diferentes realidades, o que produz influências nas próprias taxas, é fato que os jovens têm sido atingidos por taxas mais elevadas de desemprego em diferentes países e momentos históricos, em conjunturas de crescimento ou de retração dos empregos.4 No Brasil, conjunturas como a atual, em que, depois de pelo menos dez anos de crescimento, a criação de empregos formais começa a se reduzir, os jovens são mais atingidos pelo desemprego quando comparados aos adultos. Mas, mesmo em momentos de crescimento econômico, o desemprego juvenil é sempre mais elevado. Assim, embora fundamental para melhoria das condições de inserção dos jovens nesse mercado, o crescimento econômico mostra-se insuficiente, dado o comportamento assimétrico das taxas de desemprego entre a população jovem: em períodos de contração ou de recessão, as taxas de desemprego juvenis elevam-se mais rapidamente em relação à dos adultos; e, em momentos de expansão, diminuem mais lentamente. Esse comportamento sugere a existência de causas específicas do desemprego dos jovens, para além daquelas que atingem a população em geral.

Ao mesmo tempo, tal como em outras situações do jovem no mundo do trabalho, o desemprego apresenta-se de maneira heterogênea segundo as idades no tempo da juventude, a classe social, o sexo, a cor/raça, os níveis de escolaridade e locais de moradia. Nessa direção, pode-se afirmar que o desemprego juvenil é plural. As taxas são mais elevadas para jovens de mais baixa renda, para as jovens mulheres e para os jovens negros, por exemplo. Do ponto de vista subjetivo, pode levar a um maior sofrimento e constituir-se em um forte motivo de preocupação entre aqueles que pertencem a famílias com menos recursos materiais.5

Mas indagar sobre o lugar do trabalho na vida dos jovens é também perguntar sobre a qualidade do trabalho, sua jornada e intensidade, os salários e também os sentidos e os projetos para essa dimensão da vida. Pois nesse novo contexto de reestruturação do capitalismo, diante das políticas neoliberais dos Estados e dos empregadores, a ideologia da interiorização do fracasso ganha força. É cada vez mais presente o discurso de que os indivíduos é que são responsáveis por seus fracassos e sucessos, especialmente quando pensamos no mundo do trabalho, obscurecendo-se os constrangimentos estruturais impostos pelo tipo de sociedade em que vivemos.

O fenômeno da individualização das incertezas, dos medos e dos fracassos como descrito pelo filósofo Zygmunt Bauman6 está por toda parte, tornando-se fundamental a construção de mecanismos para deixar menos solitária a experiência presente ou a construção de projetos para o mundo do trabalho e/ou para a continuidade dos estudos em uma sociedade como a brasileira, na qual, embora mecanismos de proteção social comecem a se ampliar, ainda são bastante frágeis. Conhecer um pouco mais a realidade e as percepções dos próprios jovens no mundo do trabalho pode contribuir nesse processo.

Experiências e sentidos

Para uma reflexão sobre o trabalho entre jovens, é fundamental considerar que as experiências (ou a ausência de experiências) de trabalho e os significados que essa dimensão assume nesse momento da vida estão longe de ser as mesmas para o conjunto da juventude. Para uns, em geral pertencentes às camadas mais elevadas, o tempo da juventude pode ser apenas um tempo de formação, sem maiores preocupações com a inserção no trabalho. Para outros, pode ser um tempo de malabarismos para conciliar a vida de estudante e de trabalhador ou com a busca por algum tipo de experiência profissional.

Mesmo considerando a realidade de jovens com origem social semelhante, é possível encontrar muita diversidade, especialmente levando em conta as recentes transformações no mercado de trabalho brasileiro e a chegada de novos públicos ao ensino médio. Assim, no interior das camadas populares é possível encontrar jovens que começam a trabalhar muito cedo, antes da idade legal, que estudam e trabalham, e também aqueles que, em números cada vez maiores nos anos recentes, iniciam a busca por trabalho depois de finalizada a escolaridade básica. A inserção precoce, a combinação entre trabalho e ensino médio ou a postergação do ingresso no mercado de trabalho são resultado da interação de um conjunto de fatores que vão além da renda familiar e da conotação moral do trabalho, também muito presente entre essas famílias. A maior pressão para trabalhar também pode relacionar-se à própria conjuntura do mercado de trabalho, ao sexo (as chances de ser pressionado a trabalhar é maior entre rapazes), à escolaridade dos pais, à ordem de nascimento, à quantidade de irmãos, ao tipo de configuração familiar, à região de moradia, à experiência e ao tempo de migração.7

De modo geral, quando começam a trabalhar precocemente, os jovens das camadas populares trabalham em local próximo a suas residências e por intermédio de algum vizinho, amigo ou parente. Diferentes diagnósticos assinalam que o trabalho realizado é sempre muito próximo em termos de posição na ocupação, conteúdo e condições de trabalho. Na faixa dos 15 aos 17 anos, há um predomínio do trabalho ilegal, e poucos estão inseridos em situações de aprendizagem e/ou estágio protegidas pela lei. Assim, sobre esse grupo recaem as situações mais precárias de trabalho, com predomínio do trabalho sem carteira e não remunerado.

A partir dos 18 anos, a proporção de jovens que trabalham com a proteção do registro em carteira supera a dos que trabalham sem carteira. Há um movimento de transição para situações menos precárias, conforme avançam as idades, mas essa situação também é marcada por múltiplas desigualdades. O tempo de espera por um trabalho mais seguro ou de mais qualidade é bem maior para jovens pobres e negros.8

Para além das experiências concretas, considerar os sentidos atribuídos pelos jovens ao trabalho também é uma maneira de aproximação de suas realidades. Entre os jovens mais pobres, por exemplo, a necessidade de apoiar a família é um dos principais sentidos do trabalho, mas não o único. A “independência” como um dos sentidos do trabalho pode ser considerada o mínimo múltiplo comum para as jovens gerações em diferentes grupos sociais. Essa independência permite aos jovens a chance de atribuir-se e de ter atribuída a identidade “jovem”, e não se conquista apenas pelo dinheiro e pelas maiores chances de consumo, mas pela possibilidade de circular pelos espaços, de não ficar apenas em casa, de ganhar o mundo da rua, o que tem conotação ainda mais forte entre as mulheres. O trabalho pode significar também realização pessoal, mas para muitos a possibilidade de conseguir isso é posta no futuro. De fato, dada a baixa qualidade do trabalho a que tem acesso, o trabalho pode ser considerado uma “escravidão”.

Em dois estudos realizados com jovens que trabalhavam ou estavam em busca de trabalho, notam-se os diferentes sentidos, mas também o olhar crítico diante da ocupação que conseguiam acessar.9 Ainda que as primeiras ocupações sejam vistas como forma de conseguir independência, isso não significa que os jovens não percebam um claro componente de exploração de sua força de trabalho, possivelmente por causa da idade. O trabalho é alvo de muitas críticas. De fato, diferentes diagnósticos mostram que o trabalho a que os jovens têm acesso ainda está muito longe do que se pode considerar um trabalho decente.

Comecemos pela formalização dos vínculos. Muito embora o registro em carteira ou o “trampo firmeza”, como dizem muitos jovens, nem sempre signifique um trabalho de qualidade, pois a precarização pode ser encontrada também nas condições efetivas de trabalho, nas tensas, intensas e extensas jornadas e na diversificação das formas de remuneração,10 no Brasil ele ainda é um indicador relevante e garantidor de direitos.

Assim, não é por acaso que o “registro em carteira” é considerado um elemento importante do trabalho.11 É importante assinalar esse dado, uma vez que tem se tornado recorrente a afirmação de que os jovens estariam mais abertos a vínculos mais “flexíveis” e a atividades empreendedoras de cunho individual. Os destaques ao registro e ao trabalho estável como aspectos positivos contribuem para problematizar essas percepções.

De fato, os dados revelam que, nos últimos anos, o percentual de jovens ocupados como empregadores e/ou que trabalham por conta própria tem sofrido uma queda, movimento que pode estar relacionado ao aumento de postos de emprego para jovens disponibilizados pelo mercado de trabalho no período.12

Muitas vezes, é a dificuldade em encontrar um bom lugar no mercado de trabalho que leva muitos jovens pobres em busca do trabalho autônomo ou dos famosos bicos, o que em geral pode gerar frustrações e desencantos. Pois há tempos várias pesquisas têm revelado o quanto a via do empreendedorismo é extremamente difícil de se realizar com resultados positivos mesmo entre adultos experientes e com algum capital econômico e social. No conjunto da população juvenil, ela não apenas é aquela via de inserção no mercado de trabalho menos presente, como também a que tem muitas chances de não se concretizar e de gerar condições de trabalho bastante precárias.

Diferentes diagnósticos mostram que o trabalho a que os jovens têm acesso ainda está muito longe do que se pode considerar um trabalho decente

Entre os anos 2006 e 2013, a formalização dos vínculos e os rendimentos, importantes indicadores da qualidade do trabalho, melhoraram para o conjunto da população juvenil, mas foram muito menos expressivos entre os jovens de famílias de mais baixa renda, as mulheres e os jovens negros de ambos os sexos. No caso da informalidade, por exemplo, a situação dos jovens mais pobres piorou no período: enquanto a informalidade caiu 21% para jovens pertencentes a famílias de renda mais elevada, entre os mais pobres ela elevou-se para 3%, alcançando a taxa de 86,2%.13

Os dados da pesquisa Agenda Juventude Brasil também revelam, na perspectiva dos jovens, outros elementos negativos do trabalho. A questão do tempo de trabalho se configura relevante: 35% dos jovens consideram como aspectos mais negativos do trabalho realizado o período integral/jornada excessiva (17%), a falta de horário certo para sair (11%), a hora certa para entrar e sair (5%), o trabalho em meio período (2%). Além disso, menos de 1% fez menção ao fato de sair muito cedo de casa e de ter pouco tempo para almoço. As mulheres, mais que os homens, enfrentam o problema da falta de horário para sair (13%). Os mais jovens (15-17 anos), os que estudam e os com escolaridade até o ensino médio são os que mais reclamam do período integral/jornada excessiva (22%, 21% e 19%). A falta de horário para sair é um problema para os mais jovens (14%) e para os que se encontram no ensino básico (14% no ensino fundamental e 12% no médio).14

Mesmo que os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios sinalizem uma redução da jornada média dos estudantes em todas as faixas etárias entre 2006 e 2013, a jornada média semanal dos jovens estudantes entre 15 e 29 anos ainda é igual ou superior a 30 horas semanais e, para os jovens que não estudam, fica em torno de 40 horas ou mais. Considerando o tempo de deslocamento, no mesmo período, cresce, em todas as faixas etárias, o percentual de jovens que gastam mais de uma hora no percurso casa-trabalho.15

Em segundo lugar, o salário é considerado insatisfatório por 19% dos jovens, sobretudo pelos mais velhos (25-29 anos: 20%; rurais: 25%; de mais baixa renda: 22%). Os entraves para a realização pessoal e profissional são problemas enfrentados pela mesma proporção de jovens: 19%, mas de forma mais enfática são os jovens de 18 a 24 anos (21% contra 18% dos de 25-29 e 11% dos de 15-17 anos) e os dos estratos médios (20%) e altos (21%) que mais mencionam a falta de oportunidade para crescer, o trabalho repetitivo/desqualificado/que não traz experiência, a falta de realização pessoal, a falta de gosto ou vocação pelo tipo de atividade/função, a inadequação à área de formação (em curso ou planejada).

Apenas 57% dos jovens que trabalham ou já trabalharam mostram-se satisfeitos com o trabalho realizado, considerando-o adequado ao seu grau de conhecimento e experiência; 38% consideram que ele está abaixo e 5%, que está acima. Os menos satisfeitos são os mais jovens, os da área rural, os de mais baixa renda, os que estudam e os de mais baixa escolaridade.

Quando buscam trabalho, os aspectos que os jovens mais levam em conta são o salário (citado por 63%), o registro em carteira (33%), a localização/facilidade de acesso (17%), a chance de crescimento na carreira (17%) e o horário flexível (16%). A importância do salário é maior entre os jovens mais velhos, os brancos e os dos estratos altos de renda. A carteira assinada é mais buscada pelas jovens mulheres, pelos que têm 18 anos ou mais, os urbanos e os dos estratos altos. Quando se considera a escolaridade, chama atenção o fato de que os jovens com até o ensino médio apresentam as mais altas taxas de citação tanto ao salário como ao registro em carteira e à localização/facilidade de acesso.

A chance de crescimento na carreira é mais valorizada na área urbana entre os brancos, os de mais alta renda, os que estudam e os com até o ensino superior. O horário flexível, por sua vez, é mais procurado pelas mulheres, pelos negros, na área urbana, nos estratos altos de renda, e pelos jovens com até o ensino médio ou superior. Dentre os demais aspectos valorizados, merece destaque a menção à estabilidade no trabalho, tendo sido mencionada por 10% dos entrevistados, especialmente entre os jovens moradores das áreas urbanas e dos estratos altos de renda.

Esse olhar mais geral sobre as experiências concretas dos jovens com o trabalho revela questões que vão além da preocupação com o desemprego. Aspectos relacionados à possibilidade de realização e de crescimento pessoal, de adequação entre o trabalho realizado e a formação adquirida, salário, formalização dos vínculos e, especialmente, aspectos relativos ao tempo de trabalho ganham destaque, sinalizando a importância de ações que consigam apoiá-los na construção de seus percursos entre a escola, o trabalho e outras dimensões da vida.

Qual trabalho? Quais demandas?

Ainda considerando os dados da Agenda Juventude Brasil, as expectativas de melhoria da vida pessoal no futuro vêm fortemente associadas ao universo do trabalho. Dos 94% de jovens que acreditam que, nos próximos cinco anos, sua vida vai melhorar, mais da metade deles (52%) deposita suas expectativas no trabalho. Questões relativas à educação/formação aparecem em segundo lugar, com 42% das menções. Vale ressaltar que a dimensão do trabalho aparece com a mesma força aqui, independentemente da renda familiar, cor/raça, sexo, região de moradia ou nível de escolaridade.

Estudar e trabalhar não são apenas expectativas de futuro, são também atividades realizadas no presente que podem possibilitar o alcance do “sonho”: indagados sobre o que faziam no tempo presente para realizar seus sonhos, 40% responderam que estavam estudando e 37%, que desenvolviam algum tipo de trabalho.

Embora o momento da juventude ainda esteja fortemente relacionado à educação e à qualificação profissional, especialmente considerando as expectativas do mundo adulto, os jovens apontam para a centralidade do trabalho nesse momento da vida, seja em termos de realidade no tempo presente, seja em termos de projetos para o futuro. É certo que a presença, os sentidos e as expectativas depositadas no trabalho variam segundo as idades no tempo da juventude, a renda familiar, o sexo, a cor/raça, o local de moradia e os níveis de escolaridade, revelando a permanência de muitas desigualdades, a despeito das transformações ocorridas na educação e no mercado de trabalho brasileiros na última década.

Ao mesmo tempo, a dificuldade em encontrar um “trabalho decente” e em orientar-se nesse mundo faz com que muitos jovens atribuam a si mesmos a responsabilidade pelos fracassos. Ao que parece, se isso acontece em relação ao mundo dos empregos, é ainda mais intenso em relação a iniciativas de empreendedorismo, em que as chances de insucesso são bem mais elevadas, especialmente para os mais jovens.

Apesar da centralidade do trabalho no presente e nos projetos de futuro, ele não é percebido como um assunto a ser discutido pela sociedade em geral, ficando mais restrito ao âmbito privado. Ao serem indagados sobre os assuntos que gostariam de discutir com a família, “educação e futuro profissional” aparecem em primeiro lugar, mas assumem o quinto lugar como assunto para discussão com a sociedade em geral. Quando indagados sobre os problemas que mais incomodam ao se pensar no Brasil, a “falta de perspectiva profissional” para os jovens aparece em último lugar, com apenas 3% das menções.

A despeito de alguns avanços na última década, os suportes para a efetivação dos trânsitos e combinações entre escola, trabalho e vida familiar, cada vez mais tensos, intensos e desiguais no atual contexto social, ainda são muito restritos. E, se há fortes expectativas depositadas no trabalho e em melhores trabalhos, especialmente considerando os projetos de futuro, é preciso construir ações que, efetivamente, deem apoio a essas jovens gerações.

MARIA CARLA CORROCHANO é professora do Departamento de Ciências Humanas e Educação da Universidade Federal de São Carlos/Centro de Ciências Humanas e Biológicas. Graduada em Ciências Sociais, mestre em Educação e doutora em Educação pela USP. Foi assessora do Programa Juventude da Ação Educativa – Assessoria, Pesquisa e Informação e consultora da OIT para a elaboração da Agenda Nacional do Trabalho Decente para a Juventude.

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Inteiro na quebrada

Thiago Vinicius de Paula da Silva, 26 anos

Banco comunitário dinamiza economia e gera projetos na periferia paulistana

Banco comunitário dinamiza economia e gera projetos na periferia paulistana

A minha história se confunde com a de milhões de jovens no Brasil: mãe lutadora, solteira, que criou quatro filhos. Procuro estar sempre atento e sensível às questões da nossa sociedade, sou mais um filho desse país que aprendeu a amar o caos, que aprendeu a amar a comunidade. E por isso faço um trabalho para melhorar a minha cidade: o Banco Comunitário. Via muitos jovens numa situação de polaridade: ou eles entravam no corporativismo das empresas, com várias relações e direitos trabalhistas, ou iam trabalhar no corporativismo do crime mesmo, por estar mais próximo. E o Banco Comunitário surge para mostrar que nós, da periferia, não somos pobres. Nós ficamos empobrecidos à medida que definimos as nossas escolhas de consumo. Além disso, o banco tem um papel fundamental nas nossas vidas e na da juventude local, porque ele não encara o jovem como atendido, mas como protagonista. Essa é uma sutil diferença de ação.

Começamos o coletivo em 2009 com R$ 2 mil de lastro, fizemos uma campanha para arrecadar recursos, conseguimos R$ 20 mil, começamos a emprestar e juntamos pessoas que estão tanto consumindo quanto produzindo. Hoje já estamos atingindo quase R$ 1 milhão só nas transações econômicas que fizemos. A pegada é bem intensa, a gente acorda falando disso, já vai trampando, vai pra casa e continua trampando e ainda sonha no meio da noite. Foi uma escolha de vida, nós somos executivos na nossa quebrada, movimentamos uma economia e uma massa de gente; então, sinto que estou imerso.

O que me levou a empreender foi a vontade de mudar a minha vida e mudar a vida dos meus iguais, dos meus companheiros. Eu senti na pele a morte do meu irmão, que roubou em uma saidinha de banco. Isso me balançou muito e percebi que várias famílias acabam destroçadas por conta dessa questão socioeconômica, de precisar de dinheiro. Hoje vemos em nós mesmos a transformação que causamos internamente, o fortalecimento pessoal que temos agora para estar à frente de uma coisa desse tamanho. Quero fazer com que as pontes não separem uma cidade rica de uma cidade vulnerável. Acho que as pontes estão aí para ligar as pessoas e, no momento em que o Brasil vive questões tão polarizadas, vejo que as ações que integram diversas classes sociais são bem positivas.

Desde os 15 anos estou nisso, então passei por alguns desafios. O primeiro é o preconceito institucional, das pessoas realmente acreditarem nesses meninos negros, de cabelo e barba grandes, de chinelo. A gente passa por isso todos os dias, mas as pessoas vão vendo cada vez mais que a gente tem capacidade de realizar as coisas. Aí tem a dimensão econômica também, que sempre nos poda. Nós temos um negócio que, ao mesmo tempo em que gera renda, causa um impacto social positivo. Dentro disso tudo, meu maior sonho é que a gente saia dessa marginalidade e entre para o centro da discussão, o centro da transformação, da política pública mesmo, do que tem que ser feito. E o que a gente vem fazendo é estar cada vez mais participando. Além disso, acho que a gente tinha que ter espaços de coworking na quebrada, para que a gente possa receber pessoas do Brasil e do mundo. Eu penso numa quebrada globalizada, onde pessoas do mundo todo se encontram.

Para o futuro, penso em me profissionalizar ainda mais e quero poder compartilhar com outras pessoas ao redor do mundo o que a gente está fazendo: diminuindo a violência através da palavra, não através das armas, fazendo esse processo de transformação. E quero continuar usando inteligência em prol de um coletivo. Porque, se eu morrer, vai ficar um bagulho para a galera; não tem nada comigo, está tudo na mente e no coração de cada um. Essa é uma das diferenças da minha geração para a dos meus pais. A outra é a seguinte: o que foi despertado na gente foi o sentimento de pertencimento. As pessoas chegam na periferia querendo sair da periferia. A gente não. Já nascemos nela e queremos melhorar cada vez mais o local. Apesar de tudo, acho que os nossos pais são supermestres que guiam nosso trabalho até hoje.

THIAGO VINICIUS DA SILVA é articulador social e cultural de São Paulo. É um dos idealizadores do Banco Comunitário União Sampaio, que deu origem à Agência Solano Trindade, uma plataforma de troca de serviços para fomentar a cultura popular e viabilizar a produção artística da periferia.

Apresentação feita no Papus em 29 de outubro de 2015
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A tecnologia e o desenvolvimento de plataformas em rede provocam o surgimento de postos de trabalho, exigindo novas competências e habilidades. Segundo pesquisador, essas transformações envolvem o processo de aprendizado e aquisição de conhecimento, no qual empresa e escola se fundem nesse novo contexto da economia globalizada

Mudanças de cenário

POR GISELE GOMES

A tecnologia e o desenvolvimento de plataformas em rede provocam o surgimento de postos de trabalho, exigindo novas competências e habilidades. Segundo pesquisador, esse ambiente faz com que empresa e escola se fundam num novo contexto da economia globalizada

Engenheiro eletrônico, mestre e doutor em Ciência da Computação, Silvio Meira foi diretor, cientista-chefe e fundador do Centro de Estudos e Sistemas Avançados do Recife (Cesar), do polo tecnológico Porto Digital, um dos centros de referência em todo o Brasil no desenvolvimento de novos talentos e startups inovadoras. Para ele, à medida que a sociedade do conhecimento evolui, uma dinâmica de aprendizado contínuo se desenvolve. Consequentemente, desperta também, sobretudo nos mais jovens, o desejo de empreender a própria carreira – dentro de uma empresa ou por meio do próprio negócio. Ele credita essas transformações à atual revolução da informação, que provoca mudanças no mercado de trabalho, assim como a Revolução Industrial fez com os sistemas de produção do século XIX. “A Revolução Industrial tornou dispensável a força física como elemento essencial para ser contratado a trabalhar. A revolução da informação começa a afetar agora alguns trabalhos que considerávamos privativos de seres humanos.” Em entrevista, Meira, atualmente professor da Fundação Getulio Vargas (FGV-Rio), analisa o cenário brasileiro diante desse contexto e explica como novas habilidades relacionadas à educação podem ser aliadas nesse processo.

Meira: “Tem muito mais gente trabalhando hoje, em muito mais tipos de trabalho, do que em qualquer outro ponto no tempo da história do mundo”

A inserção de novas plataformas em rede pode mudar o cenário do mercado de trabalho? Como você vê essa relação?

Nós estamos na quinta década de um conjunto de ciclos de inovação digital. Que ciclos são esses? Primeiro, na década de 1970, com a chegada do hardware na sociedade. Na década de 1980, com o software. Na década de 1990, com as redes. Na década de 2000, com a mobilidade. Na década de 2010, com as coisas: a internet das coisas. E o que está em ação é uma mudança de comportamento de fornecedores e consumidores de serviços e produtos e a própria transformação de alguns produtos em serviços, habilitada por essas evoluções: hardware, software, rede, móvel e coisas. Se a gente pensar só no ambiente de táxis, vemos que se tornou desnecessário um lugar para onde a gente ligava para pedir um táxi. Não tem mais um atendente lá. Esse trabalho vai para onde? Vai para o trabalho de programar o carro sem motorista, para o trabalho de programar o app para chamar o táxi, para o trabalho de fazer o sistema de informação por trás do sistema de transações financeiras. Historicamente, até aqui, trabalho não tem desaparecido de uma vez por todas na sociedade. Tem muito mais gente trabalhando hoje, em muito mais tipos de trabalho, do que em qualquer outro ponto no tempo da história do mundo.

E isso em qualquer lugar do mundo. Mas ele muda de caráter, de sofisticação, de habilidades. Muda do ponto de vista da educação necessária para obter as habilidades demandadas em novos contextos que dependem de outras plataformas.

Que aspectos do cenário brasileiro podem influenciar essa situação?

No Brasil, a gente espera para fazer tudo depois que todo mundo já fez. O que significa, basicamente, que nós teremos menos oportunidades do que quem começou a fazer antes. O Brasil é regulado demais, é lento demais, o governo brasileiro é intrusivo demais, o sistema legal, regulatório e trabalhista brasileiro tutela o trabalho. Os graus de liberdade que existem para que a gente inove no Brasil, do ponto de vista da economia, do trabalho, das finanças, e assim por diante, são muito pequenos. São muito menores do que o da maioria dos países de onde a gente compra coisas. E é exatamente essa a razão principal pela qual compramos coisas desses países. Precisaríamos fazer uma inovação que chamamos de sistêmica no país para mudar o contexto dentro do qual o Brasil inova. Isso significa mudar o conjunto de regras mais amplas, a legislação brasileira do ponto de vista da promoção da inovação, da criatividade, do empreendedorismo, e de aumentar os graus de liberdade do trabalho – sem que isso signifique perder os direitos do trabalhador – para que possamos avançar, pelo menos na velocidade dos nossos competidores internacionais, que não são os países da América Latina, mas sim nações como a Tailândia, as Filipinas, a China, os Estados Unidos e países da Europa. Nós não competimos localmente. A questão é que nós competimos mal globalmente.

Vemos muitas pessoas saindo do Brasil para estudar ou trabalhar em empresas fora do país. A chamada “fuga de cérebros”. Como você vê essa questão?

Até nisso o Brasil não é competitivo. Quando você olha para a porcentagem de brasileiros que estão em clusters de alta performance criativa, inovadora e econômica, como no Vale do Silício e em Boston, tem muito pouco brasileiro fora do país fazendo coisas inovadoras e criativas na área tecnológica. Era bom que tivesse muitos mais. Por quê? Porque, quanto mais gente vai, mais gente volta. A permanência por um tempo em outro ambiente socioeconômico, tecnológico, cultural e inovador é um processo educacional, muda a cabeça das pessoas. A porcentagem delas que volta, ou que voltaria, vai tender a lutar para mudar as bases de performance de competitividade do lugar para onde voltou, no caso, o Brasil. Mas qual é o problema? Proporcionalmente aos outros países que têm populações do tamanho do Brasil, ou que têm competências do tamanho do Brasil, a gente não fala inglês como deveria. E inglês é a língua internacional da inovação, dos mercados, da ciência e da tecnologia. Então, ao mesmo tempo que a gente tem um grande potencial humano de contribuir para o mundo, a gente não fala como o mundo fala. A gente deveria investir em ter efetivamente inglês como segunda língua no Brasil.

Essa mudança não está só na área de tecnologia.

Não. Veja, as tecnologias associadas à Revolução Industrial desmontaram toda a arquitetura de trabalho e, em boa parte, a arquitetura de poder que existia antes. Ela tornou dispensável, em sua vasta maioria, a força física como elemento essencial para alguém ser contratado para trabalhar. Nós estamos vivendo uma revolução da informação agora. E ela é, talvez, um pouco mais “pesada” para muitos ofícios. Isso porque, junto com a revolução do conhecimento, começam a ser afetados – e serão muito mais a longo prazo – alguns trabalhos que considerávamos privativos dos seres humanos. Há um conjunto de mudanças que atingem não somente a força física, como na Revolução Industrial. O que começa a se tornar irrelevante dentro de muitos contextos agora são determinadas classes de habilidades que deixam de depender de seres humanos.

Silvio Meira fala sobre a relação entre habilidades demandadas pelo trabalho e o processo de aprendizado, enfatizando a postura dos jovens em empreender a própria carreira

A área de engenharia eletrônica – que vem mudando muito de nome, conforme as atualizações tecnológicas – demanda sempre muita pesquisa. Tanto de quem vai empreender sozinho na área como daquele profissional que é funcionário ou prestador de serviços para uma empresa. Onde ocorre essa pesquisa hoje? Nos núcleos de pesquisa das universidades, nos laboratórios de inovação das grandes empresas ou no computador de um jovem que inventa seu negócio sentado num café?

Em todos os lugares. Mas uma mudança fundamental ocorreu nos últimos 20 anos: uma captura cada vez maior pela indústria de venture capital, a indústria de investimento de risco, e um aumento da capacidade de inovar, da pesquisa combinada com criatividade e inovação direto no mercado. Esse apoio financeiro a startups e empresas de tecnologia passou a ser feito em um estágio que não se tinha visto antes na economia e na sociedade. Não existia, há cem anos, fora da universidade, a ideia de desenvolver, nas empresas, a quantidade e qualidade de tecnologia que se desenvolve hoje. Mas, de uns 20 anos para cá, a quantidade de conhecimento novo gerado nos negócios – principalmente nos casos de startups e laboratórios de empresas financiadas por recursos muitas e muitas vezes superiores aos existentes nas universidades – representa uma mudança radical, e eu diria fundamental, do modo de geração de conhecimento da nossa era.

Na abertura da Campus Party de 2013, no Recife, você disse que “empreender é perder o medo de surpreender”. A palavra “medo” sugere a existência de barreiras psicológicas para empreender. É isso mesmo?

A maioria das pessoas não muda o seu comportamento por uma combinação de comodidade – por pior que seja o ambiente ao seu redor – com o temor de que, ao mudar o seu comportamento, as coisas fiquem piores do que já estão. O medo é exatamente esse. Mas há outros aspectos ainda mais primários. Há também o medo de surpreender, do ridículo, de errar. Na hora em que se perde esse receio, coisas absolutamente fantásticas acontecem. Quanta gente não está presa em um trabalho ou emprego de que não gosta? E não sai de lá por causa do medo de não conseguir dar certo fazendo outra coisa?

No contexto dos jovens, empreendedorismo também pode significar empreender uma carreira. Aquele que não se vê empreendendo um negócio chamado “você mesmo”, ainda que trabalhe para outros, muito provavelmente será mandado embora e não encontrará outro lugar para ir. Digo sistematicamente aos meus alunos: “Você deve olhar o tempo todo para o seu trabalho do ponto de vista do universo de uma semana. Se, em duas sextas-feiras seguidas, chegar à conclusão de que não aprendeu nada ali, peça demissão por justa causa, aquele lugar não é apropriado para você”.

Meira aconselha: “Se em duas sextas-feiras seguidas concluir que não aprendeu nada naquele emprego, peça demissão”

Qual é a relação entre empreendedorismo e erro? No mercado, há quase um culto ao erro como parte do processo de inovação. Mas, na vida real, quem tem condições de despender tempo, dinheiro e energia em algo que pode não dar resultado, especialmente num mercado que tem pressa?

A primeira coisa que eu diria é o seguinte: não há um culto ao erro. Há um culto ao aprendizado. O aprendizado é resultado de um processo contínuo de tentar, errar, tirar conclusões do erro e tirar conclusões que modifiquem a própria capacidade de tentar. Mas o que tem acontecido? Apesar de todos saberem que todo mundo está errando, quem confessa o erro é penalizado por isso em vez de ser premiado pelo aprendizado. É claro que se você está em uma empresa de qualquer tamanho e você erra, erra, erra, sem aprender nada, está só destruindo valor. Mas quando o erro gera aprendizado e muda performance, ele captura valor, muito mais do que se perdeu no erro. Erros, geridos como parte essencial do processo de aprendizado, são uma fonte inesgotável de valor. Não tem nada de errado em errar. O que tem de errado é não aprender com o erro. E o que tem de errado do ponto de vista social, no caso do Brasil, é termos colocado na cabeça que só vale a pena o acerto, e escondemos todos os erros quando eles obviamente estão aí. Só que não se acerta o tempo todo.

Quais são as perguntas básicas que um empreendedor deve fazer a si mesmo antes de se lançar num projeto? Quais seriam as competências essenciais de um empreendedor?

O tipo de pergunta que é preciso fazer, na minha opinião – e tem múltiplas opiniões sobre isso –, é a seguinte: qual é e de quem é o problema que vou resolver? Não se abre um negócio novo porque se tem uma ideia de um negócio. É preciso descobrir: quem tem um problema para ser resolvido por aquela ideia; e se essa pessoa mudaria seu comportamento atual, corrente, para resolver esse problema – que ela tem, mas nem sempre sabe disso – com a sua ideia transformada em solução. Transformada em solução quer dizer um produto, serviço, ou uma combinação de produto com serviço. Associadas a isso tem outras perguntas: quanto essa pessoa está disposta a pagar? Qual vai ser meu custo para fazer aquilo? Qual é a margem de lucro? Vale a pena fazer isso com essa margem ou é melhor continuar empregado?

Então, empreender, do ponto de vista de criar um negócio, um CNPJ, abrir uma loja na praça, não é um ato trivial. O segundo problema são as pessoas: com quem devo me juntar para resolver o problema de outras pessoas? Quem são as pessoas a quem devo me aliar para resolver aquele problema? Quer dizer: quem detém o conhecimento para resolver aquele problema, ou pode vir a detê-lo em um processo de aprendizado rápido? Porque, mais do que qualquer outra, uma empresa nascente precisa aprender rápido – em tese, você não sabe fazer nada porque não estava na prática, na rua, emitindo notas fiscais em função de problemas que estava resolvendo – e terá de montar toda uma plataforma de competências para executar um produto ou serviço ou atendimento que você nunca fez antes.

Se você descobrir quem tem um determinado problema, quem são essas pessoas e onde elas estão, e como atendê-las, depois montar um grupo coeso, com um conjunto firme de propósitos, determinação, foco e capacidade de trabalho e aprendizado, é quase certo que você vai dar certo – mesmo que não seja com o problema identificado originalmente. Muitas vezes se começa um negócio dirigido a uma coisa e acaba-se fazendo outra completamente diferente. Isso significa que o time era muito bom. O problema estava errado, a gente aprendeu o que estava errado, descobriu outro problema e o resolveu, criando um novo negócio com o mesmo time. Isso é muito mais fácil de fazer, por mais incrível que pareça, do que trocar o time todinho para resolver o problema original. Tudo o que estamos falando trata-se de pessoas e pessoas. Pessoas fora do seu negócio e pessoas dentro do seu negócio. E você no meio: entendendo as pessoas do lado de fora e entendendo e liderando as pessoas do lado de dentro.

O que estamos falando aqui se assemelha àquela questão de o robô substituir o homem. Na verdade essa é a questão das habilidades, que o homem precisa se reinventar, adquirir e buscar conhecimento o tempo todo?

A gente sempre fez isso. Toda vez que você mudou o nível de performance que era exigido dos humanos, os humanos subiram aos próximos patamares de demanda. Conseguiram galgar essas escadas. É possível que haja patamares de demanda da inteligência humana que os humanos não consigam atingir? É possível. Existem várias teses, ainda não comprovadas, de que seria possível construir uma super inteligência que os humanos não conseguiriam nem competir com ela. Quer dizer, você construir uma espécie de uma super inteligência artificial que, de repente, começa a saber muito mais e eventualmente criar de uma forma muito mais sofisticada e instigante do que eu e você e quem está vendo a gente conseguir criar. Mas esse não é exatamente o problema. O problema é: nós conseguiremos chegar nesse novo patamar? E se conseguirmos chegar, como conseguiremos chegar? Nós não estamos vivendo a última revolução tecnológica, nem de conhecimento, nem de costumes que vai haver na face da Terra. Claramente, o mundo não vai se acabar amanhã. O mundo não vai se acabar nos próximos mil anos. Se foi possível, em 150 anos, da revolução industrial até aqui, a gente fazer o que a gente fez, é certamente possível nos próximos mil anos a gente fazer coisas dez vezes mais sofisticadas.

Silvio Meira fala sobre a relação entre habilidades demandadas pelo trabalho e o processo de aprendizado, enfatizando a postura dos jovens em empreender a própria carreira

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Múltipla escolha

André Teixeira Tanesi, 30 anos

Publicitário lista três atributos do empreendedor: ser cara de pau, fazer e ouvir

Publicitário lista três atributos do empreendedor: ser cara de pau, fazer e ouvir

Sou publicitário de formação e estava trabalhando no mercado quando me vi em uma empresa cheia de processos e em que nada andava. Saí e montei uma agência de marketing online em 2011. Em 2013, num encontro entre amigos, naquelas resoluções de fim de ano, um deles falou: “Pô, eu queria fazer um curso novo”. E isso mexeu com todo mundo, mas ninguém queria entrar em outra pós-graduação ou fazer um curso de extensão, algo que fosse muito longo e cansativo. Voltamos para São Paulo procurando alternativas, mas não encontramos nada com essa pegada. Decidimos, então, nós mesmos criar os nossos cursos.

A gente levantou alguns temas que queria aprender e realizamos vários encontros. Quando isso começou a crescer e pessoas de outros estados começaram a ligar e perguntar quando seria o próximo curso, pensamos: “Existe realmente uma demanda por aprender de um jeito mais prático ou mais rápido, mais leve, mais mão na massa”. Num segundo insight, pensamos em ser mais acessíveis nesse tipo de conteúdo. E então criamos a Descola, uma experiência de ensino online, usando a internet e as suas possibilidades para que o ensino seja muito legal.

O que me motivou a ir em frente foi poder fazer, criar coisas novas, poder testar e não ter medo de errar, um pouco dessa cultura maker. Ter uma coisa que te satisfaz e poder corrigir a rota quando for preciso. Uma outra coisa em que eu acredito muito é baseada no user innovation. As principais inovações do mundo vão ser feitas não pelas grandes empresas, mas por pessoas que de alguma forma, precisam resolver problemas ou querem fazer de um jeito diferente. A gente foi educado muito naquela onda de que errar é terrível e aí, se errou uma vez, não vai conseguir nunca mais fazer nada que seja bom. Eu não acredito nisso, acho que você aprende muito com os seus erros. Outro desafio é a própria cultura de empreender: é superdifícil ser pequeno e começar do nada. Como ser relevante logo no começo? Empreender é um grande desafio, mas é muito legal quando a sua ideia começa a fluir, a se tornar realidade e crescer. Você olha para trás e vê quantas barreiras ultrapassou.

Por isso, eu diria para quem quer começar agora: seja cara de pau. Você não pode ter vergonha de contar a sua ideia, ir atrás de parceiros, mesmo sendo pequeno. Mande um e-mail para quem você tem que mandar. A outra coisa que eu diria é: vai lá e faz. É outro jargão já bastante comum para quem empreende, mas ninguém vai fazer por você. Às vezes, a gente fica acostumado com empresas que têm um processo, você tem que pedir pra alguém, mandar para alguém, esperar aprovação. Aqui é assim: se você não for lá e não fizer, nada vai acontecer. O terceiro conselho seria: escute seus clientes. Eu fico imaginando uma série de serviços que nos deixam descontentes no Brasil e que seriam muito diferentes se as empresas abrissem as portas para ouvir as pessoas insatisfeitas.

No início, foi difícil contar para os meus pais o que eu estava fazendo, eles demoraram a entender. É outra geração, meus pais não são nem formados em universidade, começaram a trabalhar muito cedo porque não tinham condições financeiras e precisavam sustentar a família. Eu tive muita sorte porque eles me deram uma vida confortável, puderam pagar minha faculdade. Na época deles não tinha muita escolha, enquanto eu cresci num mundo cheio de oportunidades. Quando precisei sair do mercado pra empreender, tive total apoio deles: “Você quer empreender, eu não sei exatamente o que você vai fazer, mas, se precisar da gente, vai fundo e a gente está aí”. Antes montar um negócio queria dizer alugar um terreno, construir, abrir, ter um fornecedor e vender alguma coisa. Isso era empreender há 30 anos. Hoje é muito mais fácil. Se a gente bater um papo, tiver uma ideia de negócio e quiser criar um site, conseguimos rapidamente botar no ar e ver quantas pessoas vão entrar. Podemos montar alguma coisa em alguns minutos. A tecnologia vem permitindo que a gente crie muito mais e tenha muito mais liberdade de escolha.

ANDRÉ TANESI é formado em Comunicação Social pela Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM-SP), com mestrado em Gestão Comercial e Marketing pela ESIC Business & Marketing School – Madri. Trabalhou na área de marketing de grandes empresas do varejo. Em 2011, montou sua empresa de marketing online e, em 2013, a startup de educação online Descola.

Apresentação feita no Papus em 29 de outubro de 2015
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Na sociedade pós-industrial, boa parte da atividade humana resulta de processos que exigem habilidades intelectuais. Tudo o que era feito com a força dos músculos está sendo substituído pelo cérebro e demanda inteligência, criatividade e preparação cultural. Para diretor de instituto de empreendedorismo, essa é uma passagem-chave no mundo do trabalho

O que eu vou ser

José Alberto Sampaio Aranha | PUC-RIO

Na sociedade pós-industrial, boa parte da atividade humana resulta de processos que exigem habilidades intelectuais, priorizando inteligência e criatividade. Para diretor de instituto de empreendedorismo, essa é uma passagem-chave no mundo do trabalho

O que vamos ser ninguém sabe, mas sabemos que cada pegada mostra nossa identidade e que nosso caminho mostra a nossa história, portanto, a cada momento, em cada ação, estamos construindo o nosso futuro. E é sobre esse futuro, “o que eu vou ser” na relação com o trabalho, que quero refletir. Todos nós somos capazes de sugerir qual será o próximo evento dentro de determinado cenário. Essa antevisão nada mais é do que o nosso fluxo normal de pensamentos ao observar o que está à nossa volta.

Karl Marx, em O Capital, afirma: “O que distingue o pior arquiteto da melhor abelha é que ele figura na mente sua construção antes de transformá-la em realidade”. Ou seja, tem a capacidade de definir meios diversos que possibilitam o alcance de seu objetivo.

Isto é o que torna o trabalho do homem propriamente humano: o projeto e a visão antecipada do produto; ou seja, o homem, ao participar de um processo produtivo, já sabe qual deve ser o seu produto final, pois todo processo de produção, cuja finalidade está voltada para o consumo e demandas de determinado grupo social, é projetado e planejado.

No entanto, apesar de essa ser uma particularidade do ser humano, não a utilizamos frequentemente na vida profissional. Muitos estudantes, bem como seus pais, examinam as melhores oportunidades profissionais olhando a situação atual do mercado de trabalho, isto é, eles não se dão conta de que vão precisar de três, quatro ou até dez anos para ingressar nele e utilizar o conhecimento adquirido. Naquele momento, a situação de trabalho poderá estar tão diferente que a escolha feita pode ter sido um erro estratégico. Com as mudanças econômicas, sociais e ambientais constantes, quando os futuros profissionais estiverem preparados para entrar no mercado, a situação poderá estar completamente diferente e as melhores oportunidades podem necessitar de outro tipo de profissional.

Como então podemos identificar, dentro das nossas habilidades, competências e motivação, quais poderão ser as melhores oportunidades? Como encontrar espaços de trabalho ou de criação de empreendimentos com maior chance de sucesso? Acompanhando os sinais apresentados pela sociedade como as tecnologias e as manifestações sociais e artísticas. E como estarão as cinco forças fundamentais: a tecnologia, a globalização, a demografia e a longevidade, a sociedade e os recursos energéticos.

Definição de trabalho

O que a palavra “trabalho” tem a ver com empreendedorismo? O empreendedorismo não é um modismo, ele tem 800 anos e vem da palavra “entre­pren­dre”, que significa “fazer algo”. Empreender, segundo o dicionário Houaiss, quer dizer “decidir realizar (tarefa difícil e trabalhosa); tentar” ou “por em execução; realizar”. Fazer.

O conceito de trabalho está ligado também a um conjunto de atividades realizadas. É o esforço feito por indivíduos com o objetivo de atingir uma meta. Fazer uma atividade exaustiva. Trabalho, em física, é uma medida da energia transferida pela aplicação de uma força ao longo de um deslocamento.

Empreender, realizar e trabalhar segue a primeira lei de Newton, ou princípio da inércia, em que “todo corpo permanece em seu estado natural, repouso, ou movimento retilíneo e uniforme, a menos que seja obrigado a mudar seu estado por forças impressas nele”. Isto é, empreender é uma ação antinatural; o natural seria o corpo se manter parado em repouso, a não ser que uma força ou energia seja adicionada a ele.

Para empreender na vida profissional, a energia necessária para se mover chama-se motivação. Dessa forma, temos que descobrir internamente o que nos move; o que faz com que se gaste energia para conseguir realizar ou modificar alguma coisa.

Na pré-história, o homem se movia pela necessidade de satisfazer a fome e assegurar sua defesa pessoal. Ele conseguiu vencer as barreiras impostas pela natureza e foi desenvolvendo, aos poucos, soluções práticas para os problemas da vida: o domínio do fogo e da agricultura e a domesticação dos animais. Com a energia da motivação e a inovação, o ser humano aprendeu a planejar o seu futuro.

Enquanto os animais satisfazem suas necessidades aqui e agora, o ser humano planeja o seu futuro, como analisa o sociólogo italiano Domenico De Masi.1 O neurobiólogo chileno Humberto Maturana não separa os fenômenos da cognição do próprio processo de viver.2 Viver e gerar conhecimento faz parte do ser humano. Nós geramos conhecimento para viver.

Nessa sequência de descobertas e invenções, o homem avançou com as tecnologias e inovações que o ajudaram a trabalhar e a substituir seu trabalho pelas máquinas. A troca do tipo de trabalho vai resultar em mais tempo de vida, menos resíduo, mais tempo para o conhecimento, mais tempo para se relacionar.

O começo de uma revolução

Ao analisar as ondas de tecnologia nas últimas cinco décadas e o surgimento de micro e pequenos negócios no processo de produção, há claras evidências de que podemos estar no começo de uma revolução da robótica. Se for verdade, isso quer dizer que a indústria que sobreviverá será cada vez mais automatizada, porque os objetos por ela produzidos, quer ela queira ou não, são commodities hoje, como afirma o professor Silvio Meira.3

Supondo que é provável ou mesmo possível que a tecnologia progrida a ponto de que os postos de trabalho ocupados agora por pessoas possam ser substituídos por máquinas ou computadores, pergunto: quais serão as implicações para a nossa vida e nosso trabalho? As máquinas vão tomar conta do trabalho?

Claramente, o mercado de trabalho seria uma das primeiras áreas a sentir essa influência. Coloque-se na posição de um empresário e pense em todos os problemas que estão associados com os empregados humanos. Se uma máquina pode fazer quase qualquer trabalho de rotina que um trabalhador humano, então a empresa vai certamente trocar o trabalhador, como sugere Martin Ford, escritor e engenheiro do Vale do Silício.4

Dessa forma, a grande pergunta é: as máquinas vão tomar conta do trabalho? Um novo estudo feito pelos economistas Ian Stewart, Debapratim De e Alex Cole diz que não.5 Essa pesquisa lança uma nova luz sobre a relação entre o emprego e o avanço da tecnologia ao longo de 140 anos, com dados de resultados do censo da Inglaterra e País de Gales desde 1871. A tecnologia criou nesse período mais empregos do que destruiu. Os autores mostram que a ascensão das máquinas tem sido um criador de emprego em vez de fazer os seres humanos que trabalham se tornarem obsoletos.

O que houve então com os novos postos de trabalho? A Revolução Industrial não foi “só” uma mudança econômica, mas uma transformação social radical que levou dezenas de anos para se estabelecer. Em 1871, os trabalhadores braçais eram 23,7% da força de trabalho. Em 2011, eram 8,3%, queda de quase dois terços, ao mesmo tempo que professores, profissionais de saúde e de assistência pessoal saíram de 1,1% para 12,2%, um aumento de 11 vezes no período. O que houve foi uma troca do tipo de trabalho. Menos trabalhadores de quem se exigia a força por mais trabalhadores de quem se exige o cérebro.6

Em poucos anos, a partir da Segunda Guerra Mundial, passou-se da sociedade industrial – centrada na produção em série de bens materiais – à sociedade pós-industrial – centrada na produção de bens não materiais (informações, símbolos, estética, valores). Paralelamente, o poder passou dos proprietários dos meios de produção aos proprietários dos meios de criação.7

Essa transformação ocorre também na relação de poder, pois o produto do trabalho executado pela força pertence ao patrão do trabalhador. Já na obra criativa, mesmo quando vendida pelo patrão, pertence ao criador ou autor. Se o trabalhador executivo marca a peça para que possa vir a ser responsabilizado por eventuais defeitos, o trabalhador criativo assina a obra para que os méritos lhe possam ser atribuídos para sempre.8

Na sociedade industrial, bastava o saber acumulado na formação para suprir o conhecimento de toda a vida de trabalho. Na sociedade pós-industrial, com as mudanças contínuas, as pessoas necessitam de uma formação ininterrupta. A capacitação passa a ser contínua e por toda a vida.

Antes, o trabalho era repetitivo e a produção, mais padronizada; agora, o trabalho é mais variado, com mais chances de ser interessante. Nesse novo mundo de trabalho, multifuncional, competitivo e exigente de qualidade, o profissional deve certamente atender a um leque mais amplo de atributos pessoais.

A sociedade pós-industrial em que estamos vivendo inaugurou uma condição mais intelectualizada de vida, deslocando a exploração dos braços para o cérebro, cujas características valoriza e da qual está pronta a reproduzir alguns mecanismos por meio da inteligência artificial.

Segundo o professor de Psicologia Social e do Trabalho Sigmar Malvezzi, em um mundo caracterizado pela diversidade, ambiguidade, incerteza e complexidade, o fluxo de transformação dos produtos ou serviços é criado como algo “aqui e agora” pela comunidade de ação.9 O profissional que trabalha nesse jogo é o agente econômico reflexivo, ou seja, aquele que busca agregar valor ao seu trabalho por meio da reflexão. Como essa forma de trabalho é cada vez mais frequente, pode-se dizer que ela passa a ser a referência.

A professora Lynda Gratton, da London Business School, cita slogans conhecidos: “Temos de nos preparar para grandes mudanças que já começaram”.10 A insegurança e a precariedade do trabalho exigem criatividade e flexibilidade para aceitar e encontrar minijobs em várias áreas. Estimula-se a autoformação constante em diferentes campos além do específico próprio: ser multidisciplinar e especialista ao mesmo tempo é quase indispensável.

É uma forma de pensar o futuro profissional. A professora Sandra Korman desenvolveu em sua tese uma metodologia de planejamento de vida profissional que questiona: “O que se quer?”, “Aonde se quer ir e como se pode ir?” e “O que fazer durante o caminho para diminuir as incertezas e os riscos?”. Ela destaca a necessidade de descobrir a resposta à pergunta “Para que empreender?”, muitas vezes mais importante do que se perguntar como, o que e para quem empreender.11

Resumindo, vamos ter mais automação, mais trabalho para o cérebro, e necessitamos de mais motivação/energia para enfrentar os desafios. Precisamos refletir mais (olhar para dentro de nós e ouvir os outros), antever os acontecimentos e vencer os desafios do dia a dia.

Em que vou trabalhar?

Um ponto importante nesta reflexão é separar profissão, que é o trabalho que a pessoa está preparada para fazer ou porque estudou ou porque aprendeu no próprio trabalho (como ser médico, advogado, engenheiro etc.), de ocupação, função ou cargo, que é a atividade que de fato a pessoa exerce. Exemplo: um médico pode trabalhar como clínico, professor ou diretor de um hospital.

Essa forma de olhar nossa preparação para o trabalho abre um horizonte para vermos quais são as oportunidades de aplicação no mercado do que aprendemos na nossa formação. Como, por exemplo, utilizar o conhecimento de um historiador para desenvolver produtos turísticos ou escrever o roteiro de um filme, de um designer para fazer games, de um nutricionista que fez educação física etc.

Nós aumentamos nossas chances de trabalho quando temos menos concorrentes, portanto temos mais chance de encontrar oportunidades em nichos de atividades profissionais ou de negócios. Temos que nos diferenciar em conhecimento ou produtos e serviços e, para tanto, precisamos juntar ou cruzar conhecimentos.

Juntar nossas habilidades e o que gostamos de fazer com os conhecimentos adquiridos na nossa formação. Encontrar o que nos move (motivação) e, com esses ingredientes, encontrar nosso espaço. Um advogado que gosta de fazer roteiros, poesia ou música certamente saberá defender melhor seus direitos autorais, que são a base desses negócios.

O importante é estabelecer um rumo, ter uma direção, e para isso precisamos de uma bússola, não de um mapa. Precisamos saber desenhar o mapa, mas o caminho vai ser feito ao caminhar, resolvendo os desafios de cada encruzilhada.

O empreendedor é um ser ativo na sociedade e não espera que alguém lhe diga o que fazer. Ele se antecipa antes de o problema acontecer. Ele age como sendo o responsável pela solução do problema. Todos nascem com potencial empreendedor, e os pais podem transformá-lo em talento real. Ou, conforme o professor de empreendedorismo Fernando Dolabela, inibi-lo.12

Descobrir quem somos e quais são nossas prioridades é uma das missões da vida – provavelmente a mais importante de todas. Portanto, é preciso lutar pela própria identidade e escrever sua história.13

Descobrir quais são nossas habilidades e inteligências e, com as análises de tendências, encontrar os nichos.14

O trabalho do presente e do futuro requer dos trabalhadores qualificações prévias, mas a sua efetivação também propicia novas qualificações e exigências de aprendizagem só determináveis no contexto do trabalho.

A mudança da ótica “emprego” para a ótica “carreira” é a chave. Fazer a gestão de carreira é bem mais complexo e exige uma atenção permanente de forma a antecipar os eventuais riscos de desemprego

O trabalho requer ensino, informação, comunicação, cultura; exige disponibilizar tempo e participação; reclama saúde física e equilíbrio emocional; contrapartidas materiais, e outras, justas; põe em evidência a necessidade de outras atividades, realizações e lazer; potencializa o uso mais equilibrado do nosso tempo de não trabalho.15

Para aliviar a forte pressão sobre os sistemas de emprego e evitar o colapso, são necessárias reformas no sentido de implementar soluções inovadoras para cada cidadão, ou seja, para cada carreira.

É nesse contexto que surgiram as reformas cujo denominador comum é a “carreira”, a qual inclui o percurso dos empregos ao longo da vida ativa, assim como o percurso de educação e formação. A mudança da ótica “emprego” para a ótica “carreira” é a chave. Fazer a gestão de carreira é bem mais complexo e exige uma atenção permanente de forma a antecipar os eventuais riscos de desemprego. De uma política corretiva do desemprego, estamos evoluindo para uma política preventiva do desemprego. O objetivo é agir preventivamente no sentido de assegurar a mobilidade para outro emprego, ou para um percurso alternativo de educação-formação no caso da transição para outras funções ou profissão.

Visão do futuro do trabalho

Na sociedade industrial, procurava-se fazer frente – por meio de descobertas, da exploração da natureza e da produção de manufaturas – aos problemas e às necessidades que se acumulavam ao longo do tempo. Os problemas precediam as soluções. Hoje, a ciência tem possibilidade de fornecer inúmeras respostas: nós é que não sabemos fazer as perguntas. A passagem da descoberta à invenção, da busca de soluções à busca de questões. Pela primeira vez na história, o futuro é um problema social, não um problema natural.16

Quais são os valores emergentes na sociedade pós-industrial? Parece-me que seja uma progressiva intelectualização de toda atividade humana. Toda coisa, no trabalho ou no lazer, já se fez um dia com as mãos e exigiu energia muscular. Hoje, todas as coisas se fazem com o cérebro e requer inteligência, criatividade, preparação cultural. As relações humanas tendem a ficar mais sólidas.17

Os jovens millennials, por exemplo, preferem contato cara a cara quando precisam aprender novas tarefas de trabalho. Além disso, demonstram mais propensão a delimitar linhas firmes entre suas redes sociais pessoais e profissionais quando comparados a membros da geração X ou baby-boomers.18

Ao contrário de seus colegas mais velhos, não podem tomar uma decisão sem antes convidar todo o time para pensar a respeito. Apesar de uma reputação forjada em conceitos como crowdsourcing, a geração Y não é mais ou menos propensa a buscar aconselhamento sobre decisões de trabalho do que as gerações anteriores.19

Outro valor emergente é a subjetividade, contraposta ao anonimato coletivo, à massificação industrial. Durante anos, estivemos preocupados em parecer com os outros, em nos vestir como os outros, falar como os outros, agir como os outros, unidos em coletividades (o partido, o sindicato, o clube) capazes de exaltar as afinidades e reduzir as diferenças. Hoje, sentimos a necessidade de afirmar a nossa subjetividade, as particularidades que nos distinguem dos outros, o direito de ser respeitados na nossa dignidade individual e prescindir do fato de pertencer a determinado grupo em determinada coletividade.

A essa lista de valores emergentes somam-se a virtualidade, pela qual as relações com as pessoas e com os objetos se dissociam cada vez mais da presença física; a globalização, pela qual se observa uma crescente familiaridade com o mundo inteiro, assumido-o como nossa vizinhança; e a desestruturação do trabalho e do lazer, pela qual muitos dos atuais limites de espaço e tempo resultam como pretextos e respondem apenas a velhos rituais sem sentido, até contraproducentes, em relação às novas exigências de autonomia, flexibilidade e criatividade. Enfim, emerge o valor da qualidade de vida.

Se pudesse propor um novo tipo de aprendizado para o futuro, eu estimularia os alunos a conversar e refletir muito, a fazer uma análise crítica do que vão ler e receber de conteúdo, a exercitar e tentar sempre antever o que vão encontrar no futuro e a tomar decisão, tomar decisão e tomar decisão.

De acordo com o físico britânico Stephen Hawking, as ameaças envolvidas no desenvolvimento de superinteligências “não são de malícia, mas de competência”. Durante uma entrevista aberta ao público pela internet, o físico diz não ter medo de um cientista maluco criar um exército de robôs maus, como em alguns filmes de ficção. Seu receio é que, no futuro, as máquinas se tornem tão competentes em alcançar seus objetivos que acabem prejudicando a humanidade.

O cientista explica que, atualmente, as máquinas são criadas para realizar determinadas tarefas e cumprir metas. O problema é que, no futuro, máquinas extremamente inteligentes podem desenvolver formas de adquirir outros recursos para alcançar suas metas mais facilmente, e isso pode se tornar um problema para o homem.

“Todos podem desfrutar de uma vida de luxo e lazer se a riqueza produzida pelas máquinas for compartilhada. Ou a maioria das pessoas pode acabar miseravelmente pobre se os proprietários das máquinas conseguirem fazer lobby contra a distribuição da riqueza. Até agora, a tendência parece acompanhar a segunda opção, com a tecnologia aumentando cada vez mais a desigualdade”, disse Hawking.20

JOSÉ ALBERTO SAMPAIO ARANHA é graduado em Engenharia Química pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, com pós-graduação em Administração de Empresas pelo Instituto de Administração e Gerência da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Atualmente é diretor do Instituto Gênesis, da PUC-Rio.

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Empreender é um verbo cada vez mais carregado de significados. E um deles é justamente buscar significado naquilo que se faz. Vai muito além de estabelecer uma troca de remuneração por tempo e energia despendidos. Requer razão e paixão não só para superar as dificuldades como para fazer do erro uma oportunidade de aprendizado.

Eric Ries é o criador de um dos conceitos mais em voga no mundo do empreendedorismo e da inovação – lean startup, ou “startup enxuta”. Em passagem pelo Brasil, ele sugere abordagem científica e paixão para levar um negócio adiante

Modelo enxuto

POR RENATO MULLER

Eric Ries é o criador de um dos conceitos mais em voga no mundo do empreendedorismo e da inovação – lean startup, ou “startup enxuta”. Em passagem pelo Brasil, ele sugere abordagem científica e paixão para levar um negócio adiante

Aos 37 anos, ele já deixou sua marca no pensamento empresarial. Empreendedor desde os tempos de faculdade, investidor de venture capital, blogueiro, escritor, consultor e empreendedor-residente na Harvard Business School, Eric Ries criou o conceito de lean startup, ou startup enxuta, que acelera o desenvolvimento de produtos e serviços e torna o consumidor parte do processo de inovação.

A primeira startup de Ries surgiu durante sua graduação em Ciência da Computação na Universidade Yale. Um capítulo que, se ele pudesse, teria mudado. “Larguei a faculdade quando achei que minha empresa estava para decolar. Foi um grande erro”, afirma. “Se eu pudesse voltar e dar um conselho para o Eric daquela época, seria: termine a faculdade primeiro”, diz. “Pelo menos pude voltar e me formar depois que o negócio fracassou, mas hoje eu usaria o tempo na faculdade para desenvolver projetos paralelos.”

Em suas palavras, “seja mais como o Mark Zuckerberg, que só saiu de Harvard depois que o Facebook já era um sucesso, e menos como eu, que larguei tudo antes da hora”. O problema é um jovem prestar atenção nesse tipo de conselho. “Quando eu tinha 20 anos, pensaria: ‘O que esse velho de quase 40 anos sabe da minha vida?’. Então OK, não leve a ferro e fogo a opinião dos mais velhos, mas também não leve a sua opinião tão a sério”, pondera.

E como fazer para saber se um empreendimento está no caminho do sucesso? “Teste, teste, teste. Não confie no que as pessoas lhe dizem, mas sim no que os resultados das pesquisas trazem”, explica. Esse é, por sinal, um dos princípios do lean startup: criar protótipos que funcionem minimamente e testá-los na prática com consumidores. “Com frequência você se surpreende ao ver que pouca gente usa seu produto da maneira como você havia imaginado. Isso lhe dá insights valiosos para criar produtos e serviços relevantes”, observa.

Em novembro de 2015, Eric Ries se apresentou em um workshop em São Paulo. A seguir, algumas das ideias do consultor, extraídas de uma conversa exclusiva com o Caderno e de sua apresentação para empreendedores.

Eric Ries: metodologia da lean startup propõe criar o mínimo produto viável, fazer testes e ouvir o cliente

O fundamental para começar

“Duas coisas são muito importantes quando se começa um negócio. Dinheiro não é uma delas, para ser sincero. As duas coisas mais importantes são paixão e experiência. É raro encontrar quem reúna essas duas qualidades. O normal é vermos alguém que tem muito de uma e pouco da outra. Quanto mais jovem, normalmente temos mais paixão e menos experiência.

Um ponto importante é que experiência não é somente a experiência corporativa, aquela experiência ‘séria’. Quando o Mark Zuckerberg criou o Facebook, ele tinha muita paixão, mas também tinha programado computadores desde criança. Ele, na realidade, tinha muita experiência, embora nenhuma experiência formal. E às vezes isso é bom! Alguém que está imerso na tecnologia de hoje pode ter mais valor do que alguém que tenha passado a carreira inteira envolvido com as tecnologias de ontem.”

Perfil do empreendedor

“Encontrei literalmente milhares de empreendedores nos últimos anos, e algumas centenas tiveram sucesso. O que eles têm em comum não é a personalidade. Conheci alguns visionários e cheios de energia, enquanto outros eram quase patologicamente calados. Bill Gates, por exemplo, é uma pessoa muito reservada, completamente o oposto do que se considera o padrão de empreendedor. Há muitos caminhos para o sucesso do empreendedor, mas todos eles têm em comum o fato de que atendem a uma necessidade dos clientes e resolvem um problema que eles têm. Os empreendedores têm que ter uma determinação implacável de alcançar o sucesso e uma enorme flexibilidade em relação à forma de alcançar esse sucesso. Dificilmente o caminho será como imaginado no início. O normal é encontrar barreiras inesperadas, tomar atalhos, dar voltas, se perder e depois se reencontrar novamente. Para ter sucesso é preciso não se abalar pelos obstáculos e nunca perder de vista o que o cliente deseja.”

Empreender não é fácil

“Tem gente que começa um negócio sem paixão, achando que essa é uma boa maneira de ganhar dinheiro ou algo bom para a carreira. Meu conselho: não faça isso. Começar um negócio é tão difícil, a experiência de empreender é tão dolorosa e desagradável que só vale a pena se você tiver paixão pelo que faz, se você vê um problema e se importa com ele a ponto de querer vê-lo resolvido. Se você não tem certeza se empreender é para você, aproveite, que em vários lugares do mundo – inclusive no Brasil – existe um ambiente empolgante para novos negócios, com startups surgindo, e se inscreva em programas como o TechStars, nos Estados Unidos, em que você pode trabalhar para uma startup e sentir como é o clima, ou fazer reuniões com outros empreendedores para ganhar uma experiência que será importante quando você tomar a decisão de ter o seu próprio negócio.”

Ries: “A maior parte dos planos de negócios tem duas dimensões: a ficção e a não ficção”

Adote uma abordagem científica

“É importante testar sempre, desde o início. Um erro comum dos empreendedores é querer desenvolver um produto completo e somente então colocá-lo no mercado. A metodologia do lean startup propõe etapas curtas de desenvolvimento e teste: crie o produto mínimo viável [MVP, na sigla em inglês], ou o produto mais simples possível, para que você o teste com consumidores reais e possa ter insights para melhorias ou novas funcionalidades. Dessa forma, seu produto vai sendo desenvolvido com base no feedback do público, e qualquer alteração pode ser feita rapidamente.

O lean startup é fruto do mundo em que vivemos. A revolução digital está deixando tudo mais incerto. Você imaginaria, há dez anos, que as empresas de táxi teriam um competidor digital? Ou que o Airbnb ou o Netflix teriam o impacto que têm no mundo dos negócios? O Google está produzindo carros. As empresas de software têm a capacidade de desenvolver coisas malucas, e hoje ninguém está a salvo. Com esse aumento da incerteza, cresce o valor do aprendizado e da descoberta e fica cada vez mais difícil fazer planos e projeções.

Esse cenário premia o pensamento empresarial e, por isso, essa abordagem científica de projetar/testar/medir funciona muito bem hoje. Se tivéssemos tentado isso há 50 anos, o lean startup não teria nem de longe o impacto que tem hoje, já que naquela época o ambiente de negócios e o mundo eram muito diferentes.”

Business plan: sim ou não?

“Muitas vezes já me perguntaram se é útil ter um plano de negócios, uma vez que o cenário muda tão rapidamente e dificilmente seu negócio consegue ser planejado desde o início. Particularmente, sou totalmente a favor de planos de negócios. A questão é que a maior parte dos planos de negócios tem duas dimensões: a ficção e a não ficção. A ficção é a visão, as esperanças, tudo aquilo que você coloca em um texto e que, na realidade, está no seu coração. A outra parte é a planilha, que mostra como o empreendedor acha que o negócio irá se desenvolver. É importante construir o plano para ter uma noção da viabilidade do seu negócio. O problema surge quando você acredita que o modelo é a realidade, quando na verdade ele é só um mapa que precisa de ajustes ao longo do caminho.

O ideal é que você volte periodicamente ao modelo para ajustá-lo. Negócios estabelecidos permitem que seu modelo fique próximo do real, mas em novos negócios o normal é que o plano fique distante da realidade e, por isso, ele demanda ajustes constantes. Por esse motivo é tão importante testar bastante para verificar se as premissas correspondem à realidade. O MVP permite reduzir esse ciclo sonho/realidade e, com isso, facilita o desenvolvimento dos negócios.”

Eterno aprendizado

Lean startup é um processo de aprendizado contínuo. Você pode achar que sabe quem são seus clientes, e normalmente você acha que todo mundo é seu cliente, mas poucos negócios realmente atendem todo mundo: normalmente, um produto ou serviço é aceito e usado por um grupo de pessoas apenas. Por isso, é normal errarmos o alvo no início de nosso negócio. Achamos que iremos falar com um público e acabamos falando com outro.

Então, se você acha que sabe com quem seu produto ou serviço fala, vá a campo e entreviste consumidores que têm esse perfil. Se não conseguir falar com eles, fale com quem você acha que é um não cliente. De uma forma ou outra, você recebe insights sobre o que pode ser melhorado no seu produto ou serviço.”

Desista logo!

“Uma vantagem do processo de testar continuamente é que você consegue rapidamente identificar se uma ideia vai funcionar ou não. E a grande sacada é não esperar até o último minuto para jogar fora uma ideia ou um negócio que você já sabe que não vai dar certo. Avalie seu produto ou serviço e foque no que você precisa fazer hoje, amanhã, no dia seguinte, para saber se a estratégia está funcionando. Quanto mais tempo você passa com os clientes, mais conhece sobre eles. E, quanto antes você falar com os clientes, mais rapidamente terá evidências científicas suficientes para tomar uma decisão.”

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Acesso à cidade

Renata Minerbo Strengerowski, 27 anos

Diante da questão “O que você faria até de graça?”, arquiteta decide ganhar as ruas

Diante da questão “O que você faria até de graça?”, arquiteta decide ganhar as ruas

Eu estava na faculdade de arquitetura e urbanismo quando comecei a me interessar por fazer um trabalho social e a ter um olhar mais comunitário. Decidi buscar mais informações sobre essas maneiras inclusivas da arquitetura. O Acupuntura Urbana nasceu de uma pesquisa que eu fiz analisando metodologias e movimentos sociais, com essa intenção de trazer conhecimento técnico da arquitetura para a execução. Hoje somos três arquitetas e temos três frentes de atuação: fazemos mapeamentos afetivos, produzimos oficinas e vivências para ativar espaços públicos e realizamos transformações urbanas. Primeiro a gente fez e depois entendeu o que estava fazendo. Hoje a ideia é trabalhar os pontos estratégicos da cidade, os pontos tensionados, de forma que eles se conectem e consigam reverberar uma transformação maior.

Desde o momento em que a gente vai conhecer a comunidade até o momento em que executa um projeto, as pessoas – que moram e que se relacionam com o local – fazem parte disso. Eu entrei na faculdade achando que ia fazer decoração de interiores, não tinha ideia do potencial de impacto social que a arquitetura tem. O grande clique para empreender veio depois que eu tive uma conversa com uma pessoa que me inspira muito. Eu estava na dúvida se me demitia ou não e ele me perguntou: “O que você faria até de graça?”. E então, na hora, eu pensei no desenvolvimento comunitário, e foi a isso que eu quis me dedicar a fazer acontecer. Outro clique foi quando fui apresentar, na empresa em que trabalhava, uns amigos que fazem os ciclos de coleta seletiva. Estava na reunião, olhei e pensei: “Era para eu estar lá, vendendo esse tipo de serviço, não aqui, contratando”. Foi aí que decidi que precisava mesmo me libertar porque senão nunca iria acontecer o que eu estava sonhando.

No começo dá aquele friozinho na barriga, mas escolhi o lugar certo pra ir, fui trabalhar num escritório de coworking. Acho importante ocupar esses espaços que trabalham em rede, nesses formatos mais horizontais, ao começar a empreender. Mas, para iniciar, você tem que se preparar financeiramente. Eu tinha um dinheiro economizado para poder ter uma folga e não ganhar dinheiro por um tempo. Esse começo é realmente mais difícil e, quando você tira o monstro de que não pode errar, tudo fica mais leve. O desafio deixa de ser um problema. Você não para de errar, mas já consegue seguir para os próximos passos. Outra coisa que eu diria para quem está começando agora é: vá ao máximo de rodas de conversas e ambientes que estão falando sobre esse tema. Eu diria para começar dando o primeiro passo, porque o bom é inimigo do ótimo, o feito é inimigo do perfeito. Então, se quiser de primeira fazer o perfeito e o melhor projeto da sua vida, provavelmente não vai sair do papel. Meu conselho é este: prototipa pequeno e, quanto antes errar, mais vai aprender. E mais cedo vai acertar.

Meu sonho é conhecer o Brasil e o mundo e conseguir acessar mais escolas e universidades para plantar essa sementinha nos jovens. Acho que, ainda mais agora, tanto com a crise quanto com a ressignificação das carreiras, muitos nem sabem que essa possibilidade existe. A gente gosta de inspirar essas pessoas. Essa coisa de conhecer as pessoas, conseguir realizações juntos e fazer com que aqueles que são descrentes passem a crer mais na humanidade me alimenta muito. Cada cantinho que a gente transforma e grupos de pessoas que são impactados com isso me motivam a continuar. A cidade está em pauta e a gente busca estimular parcerias com a comunidade, o segundo e o terceiro setor. É o “tamo junto” no mesmo barco.

Uma coisa muito boa é que eu tenho autonomia do meu próprio tempo, na medida do possível, e me relaciono no trabalho de maneira muito mais colaborativa do que meus pais, por exemplo. Diferentemente da geração deles, que tem muito essa característica do concorrente, a nossa geração pensa muito mais nos parceiros. Além de tudo, vejo em nós uma grande preocupação em deixar um legado e uma contrapartida para a cidade.

RENATA STRENGEROWSKI é arquiteta paulistana idealizadora do Acupuntura Urbana. O projeto busca promover a transformação social pela melhoria dos espaços públicos e da mobilização comunitária.

Apresentação feita no Papus em 29 de outubro de 2015
Para ver mais depoimentos de jovens empreendedores, clique aqui

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Trabalhar e ganhar dinheiro não basta. As novas gerações associam realização profissional ao desejo de mudar o mundo. Por uma vida com mais sentido, buscam criar empresas e negócios de impacto social. A boa notícia é que instituições de ensino começaram a oferecer cursos e disciplinas para incentivar potenciais empreendedores a ingressar nessa área

Movidos pela causa

Anna Penido e Ana Flávia Castro | Instituto Inspirare

Novas gerações associam realização profissional ao desejo de mudar o mundo e buscam criar empresas e negócios de impacto social. Instituições de ensino oferecem cursos e disciplinas para incentivar potenciais empreendedores a ingressar nessa área

O nível de potência de uma sociedade está diretamente relacionado à sua capacidade de estimular as novas gerações a sonhar e de prepará-las para realizar esses sonhos. Jovens despreparados, apáticos e frustrados comprometem o presente e o futuro de uma nação.

Felizmente, muitos jovens brasileiros ainda sonham. Aspiram a boas oportunidades de trabalho e independência financeira. Também desejam mudar o mundo, ainda que as suas agendas sociais sejam mais plurais e pragmáticas do que as das gerações que os antecederam. Curiosamente, um número cada vez maior deles acha que o melhor caminho para a realização desses sonhos é o empreendedorismo.

A pesquisa Juventude conectada, realizada pela Fundação Telefônica Vivo em 2014, mostrou que 71% dos entrevistados gostariam de empreender. Apenas 16% deles se viam como possíveis empregados, 27% mostravam-se indecisos e 57% imaginavam-se como possíveis empregadores. Cerca de quatro em cada dez apontavam a probabilidade de se tornarem empreendedores em um prazo de cinco anos.

De fato, quando interagimos com esses jovens, percebemos que alguns deles desejam empreender criando as próprias empresas, enquanto outros almejam ser empreendedores para promover transformações sociais. Há ainda os que buscam uma terceira via e alimentam o sonho de criar uma empresa para resolver problemas sociais. Entre os que compõem esse terceiro grupo, alguns têm forte vocação empresarial, mas buscam uma vida com mais sentido. Outros são movidos pela causa, mas desejam realizar seus projetos sociais com mais autonomia financeira.

Seja lá qual for a motivação inicial, esses jovens têm engrossado o setor emergente dos negócios de impacto social, compreendidos como empreendimentos éticos, inovadores, economicamente sustentáveis e com alto potencial de transformação em escala, voltados especialmente para a população com menos acesso a serviços públicos de qualidade. Ou seja, negócios que têm o propósito explícito de gerar impacto social a partir do próprio portfólio de serviços e produtos, e não por meio de atividades paralelas ou de efeitos colaterais.

Nesse caso, a rentabilidade financeira assegura que a iniciativa não dependa apenas de doações ou subsídios. Mas isso não significa que os empreendedores não visem ao lucro, ainda que alguns reinvistam toda a sua receita no próprio empreendimento, enquanto outros distribuem os dividendos entre seus acionistas. Nesse último caso, o que diferencia essas empresas das convencionais é o fato de terem o objetivo explícito e primordial de promover o bem comum.

O conceito ainda é novo, mas faz brilhar os olhos de um número crescente de jovens que não se sentem plenamente realizados trabalhando em empresas focadas apenas no lucro nem se motivam a criar organizações sem fins lucrativos de modelo tradicional.

Espaço nas universidades

Esse entusiasmo tem provocado instituições de ensino superior a criar seminários, disciplinas, especializações e centros de pesquisa sobre o assunto, além de incubadoras para estimular potenciais empreendedores a dar seus primeiros passos nessa área. Na grande maioria dos casos, os cursos ofertados ainda têm caráter optativo e certa dificuldade em fazer com que os alunos entendam realmente o que é esse novo setor. Os estudos e a literatura nessa área ainda são limitados, e alguns conceitos não estão totalmente consolidados. Mas já existem organizações que podem colaborar, especialmente com docentes que desejam aprofundar sua compreensão e suas atividades nesse campo.

Uma delas é a Yunus Negócios Sociais Brasil, braço local da instituição criada por Muhammad Yunus, Prêmio Nobel da Paz (2006) e um dos precursores dos negócios de impacto social no mundo. A organização apoia universidades brasileiras, oferecendo consultoria para a formatação de cursos e criação de incubadoras, bem como ferramentas de simulação e oportunidades para que os alunos se engajem em negócios sociais reais. É importante destacar que, para o próprio Yunus, empresas de impacto são apenas aquelas que não distribuem lucro, concepção que difere de boa parte dos atores que transitam pelo setor.

Muitas instituições de ensino superior já abrigam ou apoiam eventos de estímulo ao empreendedorismo, como o Startup Weekend, que reúne centenas de jovens em intensos processos de cocriação, com o intuito de ajudá-los a estruturar os próprios negócios, muitos deles voltados para melhorar a vida das pessoas.

Incubadoras universitárias como o Yunus Social Business Center, da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), e a startup Nave, da Estácio, têm dado visibilidade ao tema e apresentado o empreendedorismo de impacto social como mais uma oportunidade profissional para jovens inquietos e com desejo de promover transformação social. Na FGV Direito, o Laboratório de Empresas Nascentes (Lent) capacita alunos em práticas jurídicas voltadas para apoiar empreendedores a viabilizar suas startups.

O sonho de ser um empreendedor com causa parece se encaixar tão bem no perfil dos jovens contemporâneos que até mesmo as escolas de ensino médio começam a realizar atividades educativas dessa natureza

O Movimento Choice, criado pela Artemisia, já sensibilizou mais de 72 mil universitários brasileiros a considerar uma carreira no setor. A mobilização começa com o recrutamento de Embaixadores Choice em dezenas de instituições de ensino superior espalhadas por todo o país. São jovens com muita paixão e espírito de liderança, que passam por uma formação interativa de quatro meses, que os prepara para facilitar atividades de disseminação do conceito de negócios sociais entre os seus colegas. Atualmente, já são mais de 660 embaixadores formados em 21 estados.

A Artemisia realiza ainda o Choice UP, pré-aceleração de duas semanas para startups iniciantes que querem avaliar seu modelo de negócio, superar suas principais dificuldades e se preparar para os passos seguintes. O Choice articula também uma rede de jovens empreendedores que se fortalece com o apoio de conferências presenciais e de um aplicativo desenvolvido para facilitar a conexão e a troca entre todos.

O sonho de ser um empreendedor com causa parece se encaixar tão bem no perfil dos jovens contemporâneos que até mesmo as escolas de ensino médio começam a realizar atividades educativas dessa natureza, geralmente com o intuito de se aproximar mais dos interesses e das aspirações dos estudantes. Oficinas de empreendedorismo mescladas a metodologias de educação baseadas em projetos têm conseguido despertar vocações e desenvolver competências importantes para a vida no século 21, como pensamento crítico, criatividade, determinação, sociabilidade e responsabilidade. Contribuem também para que os adolescentes formulem seus projetos de vida e se sintam mais seguros para tomar decisões sobre o seu futuro. Quando essas atividades se voltam mais diretamente para a solução de problemas comunitários, os alunos compreendem desde cedo que podem se realizar profissionalmente fazendo diferença no mundo.

As dores e delícias de empreender

Mais do que ampliarem as opções de carreira para a juventude, os negócios de impacto social têm criado oportunidade para que profissionais de diferentes áreas do conhecimento contribuam com a busca de soluções para problemas sociais que antes eram preocupação exclusiva de um grupo mais restrito de especialistas. Na área da educação, por exemplo, startups brasileiras e internacionais reúnem educadores e experts em ciência da computação, neurociência, games, design, arte, administração, entre muitos outros setores, para que juntos desenvolvam metodologias, materiais pedagógicos e ferramentas de gestão capazes de responder melhor aos desafios educacionais e às demandas dos alunos do século 21.

Essa articulação entre diferentes visões e saberes requer mais disposição para o diálogo e mais flexibilidade entre todos os envolvidos, mas enriquece significativamente o negócio, favorecendo a inovação. Além disso, amplia a capacidade de resolução de questões sociais cada vez mais complexas, muitas das quais também associadas a múltiplos fatores. Por exemplo, a dificuldade de aprendizagem dos alunos tem implicações pedagógicas, mas também pode estar relacionada a aspectos neurológicos, psicológicos, físicos, familiares ou socioeconômicos, entre outros. Ou seja, uma equipe multidisciplinar pode propor soluções que respondam melhor a esse conjunto de variáveis.

As vantagens são muitas, mas os dilemas de um empreendedor de negócios de impacto social também não são poucos. Ainda que a dicotomia entre ganhar dinheiro e promover o bem comum esteja teoricamente resolvida, é no dia a dia do empreendimento que esse equilíbrio vai sendo testado. Afinal, criar uma empresa e torná-la sustentável não é tarefa fácil, e muitas serão as situações em que o empreendedor vai ter que decidir se gera mais rentabilidade ou promove mais impacto.

Pesquisa realizada pelo Inspirare com o Instituto Alas e a Mariposa Comunicação em 2015 mostra que o sonho de empreender pode ser bastante desafiador. O estudo, que recebeu o sugestivo nome de Empreendedores de impacto: as dores e as delícias de inovar em educação, ouviu 50 empreendedores de sete capitais que buscam solução para os principais problemas educacionais do país. A maioria deles começou a sua trajetória sem conhecer bem o setor nem a jornada que teria pela frente.

A pesquisa mostra que a caminhada pode ser menos árdua quando os empreendedores fazem um bom diagnóstico da realidade que querem transformar, conhecem os atores que podem apoiá-los, inclusive aceleradoras e investidores, dominam tanto a área educacional quanto a de negócios e criam um produto ou serviço claro, relevante e factível. Sem essas balizas, os empreendedores sentem como se estivessem dirigindo um carro desbalanceado, em dia de chuva, com o GPS desligado. Com pouca visibilidade, sem rumo definido e sem equilíbrio entre as áreas de negócio e de impacto, há grande risco de essa viagem ser interrompida antes do tempo, inclusive por falta de combustível.

Mas existem faróis que ajudam a iluminar essa trajetória. Aceleradoras como Artemisia, Quintessa, Aceleratech e Wayra ajudam os empreendedores a refinar suas soluções e seus modelos de negócio. Algumas plataformas digitais também disponibilizam orientações e ferramentas que ajudam a encurtar caminhos. A Apreender,1 lançada recentemente, oferece uma série de referências, informações, depoimentos e instrumentos que auxiliam a estruturação de negócios em educação, inclusive um mapa abrangente, com todas as etapas da jornada. Já a Endeavor, uma das mais completas referências na área, apresenta artigos, vídeos, cursos e e-books com dicas, aprendizados práticos e casos de empreendedores de sucesso, que servem de inspiração e bússola para quem se lança nessa aventura.2

Atualmente, o grande desafio de quem apoia o setor de negócios de impacto no Brasil tem sido justamente assegurar que os empreendimentos promissores ganhem relevância e autonomia e possam oferecer uma contribuição cada vez mais sustentável e diferenciada para o país. A demanda já existe. O estudo Oportunidades em educação para negócios voltados para a população de baixa renda no Brasil, realizado pelo Inspirare e Potencia Ventures com apoio da Prospectiva, identificou que há espaço para contribuição dessas empresas, especialmente em áreas que requerem mais inovação. O mesmo pode ser percebido em setores como saúde, inclusão financeira, energia renovável, soluções urbanas e habitação, apenas para citar alguns.

Cresce também o número de investidores interessados nesse tipo de negócios. Pesquisa conduzida por LGT Venture Philanthropy, Quintessa Partners, University of St. Gallen e The Aspen Network of Development Entrepreneurs (ANDE) mostrou que, em 2014, cinco fundos de investimento de impacto atuando no Brasil estimavam captar um total de US$ 150 milhões para aplicar em startups com causa. Essa captação praticamente dobraria o mercado de investimento social brasileiro, que até então era de US$ 177 milhões. Embora o montante seja pequeno se comparado aos US$ 46 bilhões geridos por administradores financeiros em todo o mundo, percebe-se uma forte tendência de expansão do setor.

Ainda que as oportunidades estejam se ampliando, o cotidiano dos jovens empreendedores ainda é cheio de altos e baixos, permeado por momentos alternados ou simultâneos de satisfação, desespero, desânimo e entusiasmo. O alto risco de turbulência, no entanto, não tem sido capaz de desencorajar os mais idealistas, os mais arrojados, muito menos os mais desavisados.

A explicação para toda essa persistência pode estar em dados levantados pela pesquisa Empresa dos sonhos dos jovens, realizada pela Cia de Talentos e NextViewPeople, que analisou questionários enviados por quase 68 mil brasileiros com idade entre 17 e 26 anos. Para eles, a empresa ideal promove desenvolvimento profissional e oferece desafios constantes, ao mesmo tempo que permite que façam o que gostam e tenham possibilidade de inovar. Os empreendimentos de impacto social não apenas criam condições para que os jovens vivenciem esses quatro aspectos intensamente, mas também dão a eles a oportunidade de transformar pessoas e comunidades e de se sentir orgulhosos de suas realizações.

ANNA PENIDO é diretora executiva do Instituto Inspirare. Jornalista formada pela Universidade Federal da Bahia (Ufba), com especialização em Direitos Humanos pela Universidade Columbia e em Gestão Social para o Desenvolvimento pela Ufba. Em 2011, participou do programa Advanced Leadership Initiative, da Universidade Harvard.

ANA FLÁVIA CASTRO é gestora de iniciativas empreendedoras do Instituto Inspirare. Graduada em Comunicação Social pela Fundação Cásper Líbero (SP), com MBA em Marketing pela ESPM/SP e especialização em Responsabilidade Social e Terceiro Setor pela FIA/USP.

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Em busca de sentido

Daniella de Souza Dolme, 26 anos

Para jornalista, empreender é um reflexo da vontade de transformar

Para jornalista, empreender é um reflexo da vontade de transformar

Fiz faculdade de jornalismo porque escrever sempre foi uma grande paixão. Durante a faculdade, acabei me envolvendo com uma ONG chamada Teto, que trabalha com empoderamento de comunidades e construção de casas de emergência. Foi por meio dessa ONG que pisei numa favela pela primeira vez. Tive uma experiência impactante, que me deixou muito indignada. Vi uma realidade diferente da minha, quebrei muitos paradigmas e me confrontei com um monte de preconceitos. A partir disso, virei voluntária, porque percebi o quanto poderia usar as ferramentas e todo o conhecimento que eu tinha em comunicação para potencializar o trabalho da ONG. Depois de trabalhar como repórter de um site de notícias jurídicas, fui selecionada para atuar como diretora de comunicação do TETO. E foi nesse momento que percebi o quanto era isso que eu queria pra minha vida: direcionar minha carreira para ter um propósito, uma causa. Era muito além do jornalismo em si, aprendi na raça mesmo. Fiquei dois anos e depois trabalhei em outra ONG, Gastromotiva, que capacita jovens da periferia para atuar com cozinha. Aí o pessoal da Artemisia falou de uma vaga aberta para trabalhar com jovens universitários, que é o Movimento Choice.

Era um desafio entender muito mais do empreendedorismo e trabalhar com jovens. E descobri o quanto os negócios de impacto social também podem fazer a diferença. Eu sinto que a nossa geração dos 20 e poucos anos está vivendo muito esse momento de reflexão, de que precisa fazer alguma coisa com propósito. Tem um movimento muito forte acontecendo do “peraí, eu não quero trabalhar na empresa do meu pai só para dar seguimento aos negócios da família”.

É muito legal ver essa galera empreendendo. Acho que existe muito essa vontade de se lançar, experimentar, criar o próprio negócio e de tirar a própria ideia do papel. Eu não digo que é utopia porque a gente está vivendo um processo, que eu não sei quanto tempo vai demorar, mas o mundo já está mudando. E acho que todo esse ímpeto de empreender é para, talvez, acelerar essa mudança.

Não é porque você está fazendo aquilo em que acredita que vai ser sempre legal, que vai ser sempre feliz, que as coisas vão ser incríveis. Você tem a parte burocrática, tem relatórios para entregar, tem métrica para olhar, meta para bater. Tem outro grande desafio: ser muito profissional. Eu acho que existe um estigma, principalmente no Brasil, onde tem muita ONG, de que, quando você trabalha com organizações sociais, normalmente não tem profissionalismo. E, pra mim, sempre foi uma premissa: eu vou ser a melhor profissional possível porque é disso que as organizações precisam.

Quando a gente fala de intraempreender, de estar dentro de uma empresa criando coisas, também tem o desafio de falar: “Olha, tem aqui um projeto novo, uma ideia diferente, vamos testar, vamos fazer?”. É propor ideias, implementar novos projetos, para sua área continuar crescendo, independentemente de onde você estiver. Isso faz parte de quando você está empreendendo a sua própria carreira. Assim você cresce, tem impacto, tem resultado e traz a transformação social para dentro de onde estiver.

Esse é um processo de amadurecimento pessoal também. Muitas vezes você vai ter que enfrentar a família e sempre reforçar o quanto você acredita na escolha que fez. Em casa, ouvi muito a preocupação "como assim, você vai trocar a segurança financeira que você tem numa redação para trabalhar numa ONG?". Sinto que a grande maioria dos pais da nossa geração lida com o trabalho de uma forma diferente e tem outra visão sobre o terceiro setor. Muitos chegam em casa, deixam a pasta no sofá e não pensam mais naquilo. Eu me apaixonei pelo que estava fazendo, então tinha dedicação dobrada. Era aquela coisa de trabalhar das 9h às 21h, feliz, e no final de semana trabalhar também, principalmente na comunidade. Meus amigos estavam todos ali, todos trabalhavam juntos. É comum a nossa geração misturar também o pessoal e o profissional, e isso era difícil para os meus pais entenderem. Depois, foi ficando mais tranquilo, eles acabam aceitando que não se trata apenas de um trabalho, mas de uma escolha de vida.

DANIELLA DOLME é uma das responsáveis pelo Movimento Choice, da Artemisia, rede de fomento e capacitação de negócios de impacto social. Começou a ser voluntária em 2004. Depois de ter atuado como repórter em um site de notícias jurídicas, se engajou no trabalho de organizações não governamentais.

Apresentação feita no Papus em 29 de outubro de 2015
Para ver mais depoimentos de jovens empreendedores, clique aqui

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Empreender é mais que montar uma empresa. Inovação e originalidade estão na base das realizações, sobretudo as artísticas e culturais, quando o consumo tem mais a ver com fruição e a produção, com criação. Especialistas em economia criativa refletem sobre esse setor no Brasil

A inovação com arte

André Martinez e Claudia Taddei

Inovação e originalidade estão na base das realizações, sobretudo as artísticas e culturais, quando o consumo tem mais a ver com fruição e a produção, com criação. Especialistas em economia criativa refletem sobre esse setor no Brasil

O conceito de “economia criativa” começou a ser debatido em 1997, no Reino Unido. Naquele ano, foi montada uma força-tarefa formada por empresários e políticos interessados nas chamadas indústrias criativas. O termo, portanto, surgiu como uma visão setorial-industrial, apontando para um recorte específico da economia, os setores produtores de intangíveis, aqueles dependentes principalmente de capacidades e talentos criativos.

O conceito foi “tropicalizado” no Brasil, com o lançamento, em 2012, do Plano Brasil Criativo, pela extinta Secretaria de Economia Criativa do Ministério da Cultura. Aqui, foram incorporados princípios que apontam para a valorização, proteção e promoção da diversidade cultural, para a construção de um desenvolvimento com sustentabilidade, para a geração de inovação pela via da arte e para a inclusão produtiva da população.

No mesmo período, multiplicam-se visões que, a partir da economia criativa, apontam para uma mudança de paradigmas na forma de distinguir o campo econômico em si e o que observamos como comportamento e empreendimento econômicos. É o caso da ideia de uma economia 4DxT, da pioneira Lala Deheinzelin, do Movimento Crie Futuros,1 e de abordagens como a da sociocriatividade, nossa pesquisa-ação no Laboratório de Inteligência Sociocriativa,2 que propõe uma gestão menos obcecada por resultados e mais atenta à capacidade de observação e escuta, aos princípios de organização e aos processos vivos cocriativos.

Nesses quase 20 anos de agenda pública da economia criativa no mundo, em termos de Brasil, o que vemos é um paradoxo no qual uma economia da atividade criativa, ainda pouco conhecida e subdesenvolvida em relação aos seus efetivos potenciais, coexiste com uma riquíssima diversidade cultural e uma criatividade econômica notoriamente capazes de gerar uma outra realidade social, mais sustentável e não violenta.

Essa situação coloca os empreendedores perante uma mudança de paradigma: é preciso repensar o que entendemos por gestão e inovação, não mais orientadas à competição, e mais sustentadas em relações colaborativas e sociocriativas.

O empreender criativo

Buscamos neste artigo refletir sobre empreendedorismo criativo como desafio, observando tanto a ação de empreender quanto o ser criativo como fenômenos do humano e da vida. Refletimos também sobre os motivos que levam a perspectiva de o empreendedorismo e o profissional criativo por si sós estarem tão em voga hoje e quais os desafios específicos que o empreendedor criativo encontra ao atuar no mundo.

“Empreender” vem do latim in + prehendere, “prender por dentro”. De onde vem a força realizadora que move o ser humano a materializar intenções? E o que ela gera? Essas questões podem nos remeter a navegadores que cruzaram oceanos para obter riqueza, permitindo que Estados europeus dizimassem populações ameríndias, mas também propiciando enormes avanços para o desenvolvimento da ciência. Podem nos fazer pensar também naquelas grandes obras arquitetônicas que até hoje possuem engenhosidade profunda, complexa e atual. Compreendemos que empreender está na base das grandes civilizações e de todo o repertório artístico e tecnológico existente até hoje.

Ao mesmo tempo, refletir sobre o profissional da área criativa nos remete à habilidade criadora (ou criativa) como um aspecto indissociável do que nos faz seres humanos. Ao criar geramos mutações no meio onde criamos. A obra de arte muda a forma como as pessoas percebem o mundo. O design transforma a referência do que é funcional e belo. A tecnologia afeta os modos como pensamos, comunicamos, vivemos. O projeto urbanístico muda a lógica da cidade. A concepção filosófica muda as leis.

Ao criar, criamos a nós mesmos. Mas de onde vem nossa capacidade de criar?

Sistemas vivos são aqueles que produzem de modo contínuo a si próprios. Cada célula opera com um metabolismo, uma dinâmica própria, autorregulada, que permite que ela viva, se transforme e se divida para gerar outra célula. Uma árvore produz os próprios tecidos. Também o ser humano produz os próprios tecidos, assim como produz sua mentalidade. Uma sociedade produz seus comportamentos. Uma cultura, seus valores. Essa autonomia autogeradora, autorregeneradora, entretanto, não torna esses sistemas independentes. No sentido oposto, ela só é possível porque cada sistema opera em total interdependência de todos os outros, influenciando o meio e sendo influenciado pelo meio simultaneamente.

Podemos compreender o ato de criar como um processo econômico, um ato político, uma expressão estética, e podemos também observá-lo como um fenômeno biológico. Enquanto sistemas vivos e criativos, temos essa incrível capacidade de nos inventar, de nos regenerar, de transmutar sentimentos, de transformar a nós mesmos e de interferir no mundo. É nesse ponto que a ideia de uma economia criativa se intersecciona à de uma ecologia criativa, na qual “criar”, “cocriar”, “criar a si próprio”, “criar o meio”, “ser cria do meio” são expressões de uma mesma dinâmica. É o que nos faz acreditar que todo processo criativo é sociocriativo, pois, ao criar, ressignificamos a nós mesmos e ao mundo a todo momento.

Essa reflexão traz grandes desafios e ao mesmo tempo múltiplas possibilidades ao empreendedor criativo.

Vivemos num contexto histórico de alta complexidade, que o sociólogo polonês Zygmunt Bauman define como “modernidade líquida”, uma época de grande entropia, incertezas e insegurança. E, dentro desse ambiente, trabalhamos com relações e processos altamente complexos, operando com variáveis não previstas nos modelos de gestão e visões mercadológicas originados na era industrial, focados em produção-consumo e notoriamente insuficientes para criação-fruição. Se por um lado nos deparamos com o desafio de distinguir o que é específico do campo da economia criativa, por outro encontramos um espectro de atuação bastante amplo e flexível, que pode permear diversos outros campos.

Assim, perguntamos: o que é preciso para conciliar a força realizadora do empreender com a habilidade fluida do criar (ou criativo, do sociocriativo)?

Refletindo sobre nossa própria história particular, vemos como a ideia de empreender e atuar na área criativa nos anima e comove. E ainda o que vimos observando, em décadas de atuação, sobre esse campo na relação com outros empreendedores criativos.

Olhando para trás, buscando padrões em comum em nossas derivas de vida, encontramos jovens com uma vontade infinita de realizar e de se expressar. Encontramos experiências que foram gerando o desejo de trabalhar com arte e cultura. Trajetórias que foram colocando cada um de nós num lugar onde a realização cultural ganha a dimensão de gerar algo para além do acesso de determinado público a um produto simbólico e intangível – mais do que isso, passa a mover uma ação na interface entre a realização individual e a produção do coletivo.

Empreender é aprender. Exige, ao mesmo tempo, tomar contato com uma força impulsionadora interna que nos move para fora, nos anima para a ação, e também uma grande capacidade de aceitação em relação às possibilidades reais que o mundo nos traz, ou ainda que novas habilidades o mundo exige de nós.

Por um lado, é um movimento bastante individual, pois o desejo que faz cada um empreender é muito próprio, assim como a forma como cada um aprende. Cada ser vivo reage em relação ao meio a partir de suas próprias estruturas. A perspectiva interior de empreender remete às transformações que acontecem nessas estruturas.

Por outro lado, como tudo que diz respeito à vida, empreender é inexoravelmente uma relação com o(s) outro(s), do cocriar, do fazer junto. É a partir da conexão gerada com o outro que podemos qualificar e amplificar nossa ação no mundo.

CLAUDIA TADDEI é formada em Relações Internacionais com especialização em Gestão para Terceiro Setor e empreendedora criativa há 16 anos.

ANDRÉ MARTINEZ é pesquisador e consultor em cultura e inovação. Ambos são fundadores do Laboratório de Inteligência Sociocriativa.

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Tanto fatores externos, como questões macroeconômicas, quanto internos, como deficiências na gestão, podem determinar o rumo de uma atividade empresarial. Segundo especialista, estar à frente de uma empreitada bem-sucedida pode ser considerado uma exceção à regra, tantas são as variáveis que podem conduzir à derrocada. O ponto crucial não é o erro em si, mas como lidar com ele

A importância do fracasso

Marcos Hashimoto | Faculdade Campo Limpo Paulista

Estar à frente de uma empreitada bem-sucedida pode ser uma exceção à regra, tantas são as variáveis que podem levar à derrocada. Segundo especialista, o ponto crucial não é o erro em si, mas como lidar com ele

Vários estudos já foram publicados sobre os motivos pelos quais as empresas não conseguem dar continuidade às suas operações e acabam por fechar as portas. O tema costuma despertar o interesse de pesquisadores em qualquer lugar do mundo, dadas as altas taxas de mortalidade de pequenas e médias empresas.1 A maioria desses estudos não só é inconclusiva como também não consegue chegar a um denominador comum, até porque uma empresa pode fechar as portas por tantos motivos diferentes que podemos dizer que dar certo pode ser considerado a exceção e quebrar, a regra. Mas isso não representa necessariamente um fracasso. Um negócio pode ser descontinuado porque foi vendido para outra empresa maior. Ou o empreendedor pode encerrar um negócio por motivos pessoais, para se dedicar a outra atividade, por exemplo.

O conceito de fracasso, aqui no nosso caso, é quando o empreendedor não tem mais opções de soluções para manter sua empresa viva e não vê outra saída a não ser se desfazer do negócio.

Se perguntarmos a um ex-empreendedor os motivos que o levaram a fechar o seu negócio, as respostas vão girar em torno da falta de dinheiro, ou capital de giro. Só que isso é uma consequência de outra causa, que poucos realmente sabem qual é. Podemos continuar perguntando para descobrir: por que faltou dinheiro? Porque não conseguiu vender. E por que não conseguiu vender? Os clientes não vieram. Por que os clientes não vieram? Por que o produto é ruim? Por que o atendimento é fraco? Por que o produto não chegou no prazo? E assim por diante, quanto mais perguntarmos, maior a chance de descobrir a real causa do problema.

Fatores externos, como a entrada de um concorrente maior, ou macroeconômicos, como mudanças nas taxas de juros, variações cambiais, mudanças na legislação, alterações no comportamento do consumidor etc., são outros motivos citados. Mas, se assim fosse, outras empresas do mesmo setor também teriam quebrado. Embora isso possa acontecer de vez em quando, como fenômeno econômico típico e até necessário para que um setor se estabilize e se consolide, não justifica o fracasso de uma empresa. Por orgulho ou imaturidade, muitos empreendedores caem na armadilha de jogar a culpa em elementos fora do seu controle. Se o empreendedor caiu onde outros, sob as mesmas ameaças, sobreviveram, existia mais alguma coisa errada na empresa dele.

Apesar disso, algumas desgraças podem de fato acontecer sem nenhuma culpa do empreendedor. Uma inundação, um incêndio ou qualquer desastre natural entram nessa categoria, assim como uma greve externa à sua companhia. Fatos inesperados de grandes proporções podem quebrar qualquer negócio, por mais detalhado que tenha sido o planejamento. Empreendedores que conseguem superar essas dificuldades crescem com o processo de recuperação, ficam mais calejados e adquirem mais estrutura emocional.

Existem também os fatores internos. Se os clientes desaparecem, pode ser por causa de mau atendimento, produtos de má qualidade, localização ruim, marketing ineficiente, distribuição falha, inexistência de pós-venda. Da mesma forma que os motivos externos, também dá para culpar funcionários, sócios, parceiros, mas poucos são os que admitem a razão que verdadeiramente está por trás de quase todos os fracassos: a falta de competência do empreendedor em superar essas e outras dificuldades que surgem ao longo da vida do negócio.

Essa é uma dura realidade, sobretudo porque o empreendedor depende da autoconfiança para acreditar que seu negócio vai dar certo. Mas ela também pode impedi-lo de ver o óbvio: ele pode não ter sido o responsável por todas as vicissitudes e provações pelas quais o negócio passa, mas é dele a responsabilidade de encontrar soluções. Cabe ao empreendedor ter a coragem de trocar pessoas que não estão indo bem, arrumar alguém para comprar a parte de um sócio com quem vive em conflito, buscar um novo lugar para sua loja, trocar a agência de marketing responsável por uma campanha pífia, gerar reservas de caixa para superar fases de crise no setor, explorar novos caminhos para compensar a entrada de um concorrente no mercado, contratar um fornecedor mais confiável.

Por mais que o empreendedor se prepare, estude, planeje, vai acabar cometendo erros. Eles são até esperados e representam uma importante fase do aprendizado. Na maior parte das vezes, os erros não são, ou não deveriam ser, tão grandes a ponto de afundar uma empresa. Da mesma forma, em muitos casos, o erro pode ser o único jeito de aprender algo sobre o setor ou sobre seu negócio. Quando o grau de incerteza é muito alto, é preciso experimentar uma ação. Quando as tentativas são realizadas sob riscos calculados, ao darem errado, elas mostram ao empreendedor como não fazer as coisas.

Há, por fim, as falhas recorrentes, que muitas vezes são chamadas de perseverança, como se fosse uma qualidade e não um defeito – o que é pior.

A seguir, as cinco incapacidades de um empreendedor que podem levá-lo a cometer erros.

Incapacidade de perceber

O empreendedor fica tão focado naquilo em que acredita ou em executar o plano que traçou, que se torna cego e surdo ao que acontece à sua volta. Se isso levasse apenas à perda de oportunidades, o problema seria menor, mas o empreendedor deixa de ver ameaças que vão comprometer a qualidade de suas decisões.

Incapacidade de admitir seus erros

Por ser visto como líder, o empreendedor tem muita dificuldade em admitir quando tomou uma decisão errada. E não é por excesso de orgulho que ele tem essa dificuldade de reconhecer; é pelo excesso de insegurança. Aceitar que pode ter tomado um caminho errado é um sinal de maturidade e um passo importante no processo de autoconhecimento.

Incapacidade de ler as pessoas

Não importa se são clientes, parceiros, fornecedores ou funcionários. Lidar com pessoas está no dia a dia da empresa. Se o produto é fantástico, o mercado potencial é enorme e o modelo de negócio está bem estruturado, o ponto fraco geralmente é a incapacidade de o empreendedor compreender como as pessoas reagem a ele. Muitos empreendedores se julgam superiores às demais pessoas e agem de forma intolerante, irresponsável e inconsequente com aqueles que os ajudam a conduzir o seu negócio. As consequências são devastadoras, pois eles erram na contratação, na recompensa, nas parcerias e sociedades. Qualquer falha dessas, em tempos de carência de mão de obra qualificada, pode ser fatal para o negócio.

Incapacidade de aprender

Desde que começa a desenvolver o seu negócio, o empreendedor aprende muito. Sua motivação e entusiasmo o levam a dedicar horas e horas lendo, estudando, fazendo cursos, falando com pessoas. Com o negócio rodando, ele se envolve tanto nas operações que acaba não tendo tempo para continuar aprendendo. A maior parte do aprendizado vem depois que o negócio começa. Falta de tempo é apenas uma desculpa. O excesso de autoconfiança é a causa principal desse problema.

Incapacidade de gerir

O empreendedor também pode fracassar por falta de capacidade de gestão. Isso não quer dizer que basta dominar as técnicas e ferramentas de administração, mas saber como aplicá-las a cada tipo específico de negócio e como explorá-las diante das circunstâncias.

O fracasso, assim, se não serve como aprendizado, deve ser entendido como autoconhecimento. Identificar idiossincrasias e peculiaridades de comportamento ajuda a detectar suas forças e fraquezas. E, para os pontos que não podem ser melhorados, e nem todos podem, o empreendedor deve chamar pessoas que dominam essas competências e complementam suas limitações. Ninguém constrói sozinho um negócio de sucesso. Assim, quem tem dificuldade de lidar com pessoas pode ter um sócio que assuma o papel de líder e comunicador. Quem não gosta da parte administrativa pode contratar um executivo para gerenciar a empresa. Quem não é bom com vendas pode trazer para a equipe um vendedor experiente.

Os motivos por trás dos negócios que quebram vão cair sempre na figura do empreendedor. O empreendedor pode pôr a culpa em um gerente, em uma máquina falha, na qualidade de um fornecedor, em um calote que levou do cliente, em um incêndio. Tudo isso são formas de mascarar suas incapacidades. Por isso, se o empreendedor não souber tirar lições do fracasso e dos erros que comete, vai impor ao seu negócio restrições ao crescimento e à sobrevivência decorrentes de sua incapacidade de evoluir e se desenvolver no mesmo ritmo que o negócio exige.

MARCOS HASHIMOTO é doutor em Empreendedorismo Corporativo pela Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas (Eaesp/FGV), professor pesquisador no mestrado em Administração da Faculdade Campo Limpo Paulista e sócio-fundador da Polifonia, Escola de Protagonismo Criativo.

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Um propósito, várias atitudes para um futuro melhor

“A constatação de que, em big data, os limites são muitos mais amplos e, por isso, não precisamos engessar nossa criatividade. Podemos colocar no mercado um negócio de sucesso e lucratividade que, ao mesmo tempo, contenha uma essência disruptiva e inovadora.”

Fernanda Lambertucci, 26 anos

Idealizou uma startup que pesquisa, desenvolve e comercializa soluções escaláveis em big data analytics (Proativa Big Data)

“Minhas ideias ou meus campos de interesses profissionais – trabalho com audiovisual, cinema – são o que me leva a empreender. É sentir que dentro da minha produtora ou do meu núcleo de trabalho com outros parceiros eu posso desenvolver melhor essas ideias sem ter qualquer tipo de preocupação inicial, como um chefe, um contratante ou um financiador desse projeto.”

Joyce Prado, 28 anos

Idealizou uma websérie que aborda histórias de mulheres negras contadas em primeira pessoa (Empoderadas)

“O desejo de mudar e de deixar uma marca positiva no mundo é o meu combustível diário para empreender. A vontade de fazer parte de alguma mudança significativa na vida de pessoas ajuda na batalha diária de superar todas as barreiras e dificuldades que encontramos pelo caminho. O que me leva a empreender, sem dúvida nenhuma, é o desejo de transformação.”

João Leal, 31 anos

Elaborou uma plataforma de biblioteca digital personalizada (Árvore de Livros)

“A vontade de transformar o mundo num lugar melhor para todas as pessoas viverem. Eu faço isso plantando comida na cidade, coloco em prática indo pra rua, juntando e trazendo as pessoas para um ambiente divertido, bacana, de troca e de muito aprendizado, de forma bastante horizontal entre elas.”

André Biazoti, 27 anos

Fundou uma rede colaborativa de compartilhamento de recursos, conhecimentos e trabalho entre interessados em cultivar hortas comunitárias e caseiras (Cidades Comestíveis)

“Sorrisos, a sensação de felicidade e a liberdade que estávamos conseguindo criar com os protótipos [dos óculos]. Sabermos que estamos fazendo a diferença na vida de alguém. Foi a partir daí que decidi levar esse projeto à frente e transformá-lo em realidade para os milhões de outros cegos no Brasil e mundo.”

Marcos Penha, 27 anos

Desenvolveu óculos com sensor de aproximação para deficientes visuais (Annuit Walk)

“Todo empreendedor é um grande observador do mundo e, em última análise, um questionador. Nós, jovens, já não aceitamos mais o modelo arcaico imposto pelo mercado de trabalho, com pouco espaço para a criatividade e inovação, e não nos conformamos tão facilmente com a realidade que nos diziam ser incontornável. Empreender é transformar.”

Iuri Barreto, 26 anos

Responsável pelo blog que dá dicas para sair sem gastar muito em Salvador (Guia de Sobrevivência do Soteropobretano)

“A possibilidade de impactar a vida de milhares de pessoas diariamente por meio da prestação de serviço que minha empresa oferece e que facilita o dia a dia dessas pessoas, melhorando o ecossistema como um todo e, assim, gerando um empreendedorismo de alto impacto.”

Jhonata Emerick, 34 anos

Idealizou empresa facilitadora no serviço de entregas urbanas sob demanda (99 Motos)

“Conseguir fazer, de fato, a diferença na vida das pessoas. Hoje eu consigo fazer isso levando o pai que está longe do filho, que não sabe o que está acontecendo em sua vida escolar, pra perto dele. Consigo fazer com que o professor valorize o aluno diariamente. Assim, levamos os dois principais educadores, tanto o pai quanto o professor, pra vida do aluno.”

Rafael Ribeiro, 30 anos

Fundou um aplicativo que facilita a comunicação entre escola, pais e alunos e incentiva as tarefas de forma divertida (Monsterjoy)

“Há quem empreenda por necessidade; outros, por oportunidade; eu, por amor. Os resultados do meu empreendimento social são a prova viva de amor ao próximo. E não fui eu que disse essa frase, e sim uma pessoa que foi impactada pelo projeto. Somar seu sonho com o sonho de outro e tornar isso uma causa é a melhor sensação que existe. Mostra que o verdadeiro significado de empreender é inspirar e incentivar realizações em qualquer área da vida.”

Monique Evelle, 20 anos

Criou projeto para fomentar espaços de debates sobre os direitos humanos (Desabafo Social)

“É ver quantas pessoas estão fazendo coisas e a gente tem como conectar, dar voz, dar vez e fazer com que muito mais do que a minha ideia saia do papel, uma série de outras pessoas possam realizar coisas a partir da ação de cada um. Quando eu me vejo como empreendedora, é porque eu me vejo parte desse algo maior, desse movimento de pessoas. Empreender é movimentar, e tem muita gente se movimentando por aí para construir uma sociedade mais próxima do que a gente quer.”

Vivian Costa, 23 anos

É conectora de inovações em uma plataforma de crowdfunding (Catarse)

“Eu tenho como propósito criar conexões, ambientes e lugares em que as pessoas possam manifestar o seu propósito, sua essência e sua verdade. Então, acho que o que me move é esse prazer de saber que as pessoas estão vivendo a verdade delas.”

Dimas Reis Gonçalves, 28 anos

Trabalha como cogestor e facilitador do projeto que estimula de jovens de 16 a 25 moradores de Brasilândia (São Paulo) a preservar sua identidade e cultura por meio da formação como agentes de cultura local (Guardiões Griô)

“A possibilidade de escolher a contribuição que quero dar para o mundo, alinhando meus interesses às oportunidades e desafios que observo ao meu redor.”

George Brindeiro, 27 anos

Desenvolveu um método de ensino online especializado em tecnologias criativas (Overdrive)

“Acreditar que todo mundo tem um talento, mas a gente só precisa de espaço e de pessoas disponíveis para poder disseminar esse talento. Não importa o que você faça, o que me leva a empreender é acreditar nisso.”

Camila Andrade Vaz, 24 anos

Atua como educadora de fotografia e vídeo em uma iniciativa social cujo propósito é impulsionar transformações por meio das tecnologias da informação e comunicação (Escola de Notícias)

“O inconformismo com o status quo. Não bastava eu achar que algo estava errado, precisava mostrar que existia uma alternativa. A forma que encontrei de fazer isso foi criando algo novo, muito diferente do que existia antes.”

David Schlesinger, 35 anos

Fundou um laboratório que se dedica a identificar a causa de doenças raras (Mendelics Análise Genômica)

“Provar que ser sustentável também pode ser lucrativo. É saber que você pode mudar o mundo para melhor. É fazer a diferença, conectando o mundo de forma inteligente.”

Mayura Okura, 29 anos

Criou uma plataforma digital de comercialização de resíduos sólidos (B2Blue)

“O que me levou a empreender como jornalista foi a possibilidade de dar voz, visibilidade, pra histórias que hoje não são contadas na nossa mídia, que não têm espaço e que precisam ter, do jeito que a gente conta e do jeito que a gente quer que ela seja contada e vista por outras pessoas. O que me leva a empreender hoje é a ausência de falas de determinado grupo na sociedade.”

Semayat Oliveira, 27 anos

Elaborou um coletivo que procura dar voz às questões raciais e de gênero (Nós, Mulheres da Periferia)

“Aos 19 anos, a necessidade de ter uma vida cidadã mais ativa em minha cidade me tornou um empreendedor cívico: tornei-me porta-voz de um coletivo de conscientização política, organizamos passeatas contra a corrupção com mais de 30 mil pessoas, suscitamos debates, grupos para pensar políticas públicas e influenciamos nas eleições locais. Hoje, aos 22 anos, acredito que empreender no setor público é tão importante quanto no setor privado. Ajudar a criar um ambiente político-social no Brasil favorável ao empreendedorismo em todas as suas vertentes que possibilite que vivamos numa sociedade mais justa, sustentável e democrática é o que me move e me faz ser o empreendedor de minha própria jornada.”

Gabriel Santos de Souza, 22 anos

Fundou uma página nas redes sociais em que todos podem propor melhorias e mudanças para o estado do Acre (Plataforma de Ideias)

“São as crianças, um mundo melhor, uma mobilidade melhor. São coisas que estão dentro de mim, que me anseiam, e a maior de todas é a esperança. A esperança em um mundo melhor. Isso é o que me leva a empreender e conhecer esse caminho.”

Michel Onguer, 32 anos

Empreendeu iniciativa que revitaliza áreas comunitárias por meio do grafite (Ciclo Social Arte)

Confira mais depoimentos sobre o tema

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GRAUS

É possível inventar e reinventar os modos de lidar com o trabalho e com a carreira. Essa realidade atual é retratada na grade da Globo e da GloboNews. No jornalismo ou na dramaturgia, uma história sempre pode inspirar outra. Nesse mundo que avança fronteiras, a mudança do lado da tela em que você está pode ser só uma questão de tempo ou de um clique.

    STARTUPS EM SÉRIE

    Jornal da Globo

    Começa com uma ideia, vira um plano, surgem os problemas, a necessidade de investimento, mas também os nichos e as oportunidades. Série de cinco reportagens abordou todas as fases da vida de uma startup, revelando casos de sucesso.

Assista a reportagens do Jornal da Globo

Startups têm longo caminho até que uma ideia se transforme em empresa
Exibido em 17 de novembro de 2014

Empreendedores têm que aprender a criar em meios aos gargalos do Brasil
Exibido em 19 de novembro de 2014

Startups de sucesso são fontes de incentivo dos novos empreendedores
Exibido em 21 de novembro de 2014

Startups enfrentam obstáculos em empreender no Brasil, o país da inovação zero
Exibido em 18 de novembro de 2014

Startups encontram muitas barreiras antes de ter um investidor no Brasil
Exibido em 20 de novembro de 2014

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    PIONEIRO NO ASSUNTO

    pequenas empresas & grandes negócios

    Há 27 anos no ar, o programa traz reportagens sobre os novos empreendedores no Brasil, suas áreas de atuação, casos de iniciantes que receberam a ajuda de incubadoras, ou as dicas para conquistar um investidor-anjo.

Assista a reportagens do Pequenas Empresas & Grandes Negócios

Empresário fatura R$ 2 milhões por ano vendendo brownies no RJ
Exibido em 17 de maio de 2015

Empreendedores negros são maioria no Brasil
Exibido em 27 de setembro de 2015

Conheça as dicas para conquistar um excelente investidor-anjo
Exibido em 6 de setembro de 2015

Nova geração de empreendedores faz bairros carentes fervilharem com negócio
Exibido em 15 de novembro de 2015

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    A ARTE IMITA A VIDA

    GERAÇÃO BR4S1L

    Na novela exibida em 2014, Davi (Humberto Carrão) monta uma startup que desenvolve um computador acessível. Foi o mote para lançar uma campanha de discussão sobre empreendedorismo em parceira com a Endeavor.

Assista à campanha veiculada na novela Geração Brasil

Geração Brasil mostra a importância do empreendedorismo entre os jovens
Exibido em 13 de novembro de 2014

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    IDEIAS INSPIRADORAS

    COMO SERÁ?

    O programa semanal apresenta uma série de boas práticas empreendedoras – de um aplicativo que traduz o português escrito para libras a um site que ajuda o usuário do SUS a encontrar o posto de saúde ou hospital mais próximo. Há também uma ONG que transforma tapumes em carteiras escolares ou a história de um aplicativo de incentivo à leitura de crianças e adolescentes.

Assista a reportagens do Como Será?

Draft conecta e divulga ideias de novos empreendedores
Exibido em 22 de novembro de 2014

Aplicativo Chance promove colaborações mútuas entre vizinhos
Exibido em 2 de maio de 2015

Negócios de Impacto Social ganham força no Brasil
Exibido em 6 de junho de 2015

Novas tecnologias impulsionam a produção de objetos personalizados
Exibido em 28 de março de 2015

Adote um Briefing ajuda ONGs a divulgar seu trabalho
Exibido em 30 de maio de 2015

Aplicativo traduz o português para libras (Hand Talk)
Exibido em 25 de julho de 2015

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    MERCADOS POTENCIAIS

    MUNDO S/A

    Maria Prata visitou a periferia de São Paulo para mostrar empreendedores que faturam com estilo funk ostentação. Em uma segunda reportagem, apresentou exemplos de startups brasileiras lucrativas e sustentáveis.

Assista a reportagens da GloboNews

Empreendedores da periferia de SP faturam com funk e estilo ostentação
Exibido em 22 de julho de 2015

As novas frentes de inovação na economia e no mercado
Exibido em 26 de outubro de 2015

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    TENDÊNCIAS NA ERA DIGITAL

    NAVEGADOR

    Frentes de inovação que geram benefícios sociais e ambientais, desintermediação, economia colaborativa e empreendedorismo foram destaques no bate-papo de José Marcelo Zacchi, Alê Youssef, Ronaldo Lemos e Hermano Vianna.

Assista a reportagem da GloboNews

O negócio das startups no Brasil
Exibido em 28 de setembro de 2015

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    LABORATÓRIO DE CRIAÇÃO

    GLOBO LAB

    A Globo abriu uma chamada criativa para jovens talentos interessados em elaborar roteiros para uma websérie. Os selecionados participam de laboratórios imersivos de roteiro, pitchings e consultoria.

Assista a vídeos do Globo Lab

George Moura dá dicas para participar do Globo Lab
Exibido em 7 de novembro de 2015

Tiago Leifert ensina a participar do Globo Lab
Exibido em 9 de novembro de 2015

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