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O número de jovens atingiu, na última década, um recorde no Brasil. São mais de 50 milhões de pessoas entre 15 e 29 anos, mais de um quarto da população do país. Isso é fruto de um fenômeno chamado pelos demógrafos de “onda jovem”, iniciado em 2003 e que deve perdurar até meados da próxima década. Quem é esse jovem de hoje? Quais são seus interesses, suas preocupações, seus desejos e seus medos?

Nesta edição

MENOS30, OUTUBRO 2014

O número de jovens atingiu, na última década, um recorde no Brasil. São mais de 50 milhões de pessoas entre 15 e 29 anos, mais de um quarto da população do país. Isso é fruto de um fenômeno chamado pelos demógrafos de “onda jovem”, iniciado em 2003 e que deve perdurar até meados da próxima década. Quem é esse jovem de hoje? Quais são seus interesses, suas preocupações, seus desejos e seus medos?

Nascidos entre meados dos anos 1980 e o final dos 1990, os jovens do fim do milênio viveram, com maior ou menor intensidade, a revolução digital durante a infância. Aprenderam a se comunicar, se relacionar e se informar de uma forma totalmente diferente da geração dos seus pais. Além disso, cresceram durante uma época de intensas transformações sociais, econômicas e tecnológicas no Brasil e no mundo.

Esse jovem funciona em redes. Seja a rede mundial de computadores ou as diversas teias nas quais se envolve para estabelecer relações de amizade e configurar grupos de atuação política e engajamento dos mais diversos. De acordo com pesquisas que serão apresentadas ao longo desta publicação, são especialmente otimistas e estão certos de que, com muita luta, suas vidas vão melhorar. Outra característica marcante desta juventude é o aumento de escolaridade. Boa parte dos jovens já tem mais anos de estudo que seus pais. Enfrentam hoje novos e diferentes desafios para estudar, se formar e começar a trabalhar.

Entender seus anseios, conhecer o comportamento e as características dessa importante parcela da população é hoje fundamental para compreender os caminhos e as demandas que o país terá pela frente.

Em seu quinto número, o Caderno Globo tem como tema essa juventude de menos de 30 anos. O objetivo desta edição é compartilhar reflexões, estudos, pesquisas e propostas que analisam o que é ser jovem no Brasil no século XXI, abordando a diversidade que se insere nesse conceito e buscando quebrar mitos, estigmas e preconceitos associados à ideia de juventude. Antropólogos, sociólogos, educadores, especialistas em tecnologia, empreendedores e ativistas apresentam debates e análises e trazem para a discussão os principais pontos da agenda jovem dos dias de hoje.

O Caderno faz parte de um projeto maior, o Menos30, uma grande ferramenta de escuta que inclui, além das pesquisas citadas, a produção de um minidocumentário e uma série de encontros, entrevistas e debates com representantes de setores diversos da sociedade. Tudo isso compõe um mapeamento do universo jovem hoje. Esse processo contou não apenas com a contribuição de especialistas, como também com a participação direta de jovens de vários pontos do país, para que sua voz fosse ouvida e eles não se tornassem apenas um objeto de estudo distante.

A publicação apresenta uma série de infográficos criados a partir da compilação dos dados mais recentes coletados por institutos brasileiros e internacionais de pesquisa sobre a situação das juventudes em todo o mundo. Em relação aos jovens do Brasil, contamos com os resultados de pesquisas realizadas pela Secretaria Nacional de Juventude (SNJ), sobretudo a Agenda Juventude Brasil - Pesquisa Nacional sobre Perfil e Opinião dos Jovens Brasileiros de dezembro de 2013, e o Mapa da Violência 2014, editado pela Flacso. Somam-se a eles levantamentos da Organização das Nações Unidas, Unesco e organizações não governamentais de vários países.

Entre as imagens que ilustram esta edição, apresentamos uma seleção de obras que são fruto de um projeto colaborativo promovido pela Globo em parceria com a itsNOON, uma plataforma que funciona por meio de crowdsourcing*. A partir de chamadas propostas na rede, participantes de todo o Brasil foram incitados a criar um desenho, uma imagem, uma frase ou um vídeo que atendesse aos seguintes temas: despertar, ação, conhecimento e relações humanas. Uma experiência que explora um dos modelos criativos desta geração.

Boa leitura.

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Caderno

CONSELHO EDITORIAL

Beatriz Azeredo, UFRJ | Globo

Galeno Amorim, Observatório do Livro e da Leitura

Helena Nader, SBPC

Heloisa Buarque de Hollanda, UFRJ

Lucia Araújo, Fundação Roberto Marinho

Luiz Eduardo Soares, Uerj

Maria Adelaide Amaral, Globo

Maria Immacolata Vassallo de Lopes, USP | Obitel

Marialva Barbosa, UFRJ | Intercom

Sérgio Besserman, PUC-Rio

Coordenação editorial

Viridiana Bertolini

Editora-chefe

Graziella Beting

Editor

Paulo Jebaili

Produção

Gisele Gomes

Reportagem

Gisele Gomes

Paulo Jebaili

Revisão

Ricardo Jensen de Oliveira

Projeto gráfico

Paula Astiz

Desenvolvimento do app

Laura Lotufo | Paula Astiz Design

Imagens

itsNOON

Shutterstock

Imagens capa e abres

Lenny Lima (Capa)

Duardo Costa (Artigos)

Ezequiel Moura (Entrevistas)

Leandro Dexter (Retratos)

Fotografia

Americo Vermelho

Mohamad Hanjoura

Renato Velasco

Studio 3X

Tratamento de imagens

Paulo César Salgado

Produção gráfica

Lilia Góes

Caderno n. 5

São Paulo, outubro 2014

Tema: Menos30

Globo

Comunicação

Sérgio Valente, diretor

Responsabilidade Social

Beatriz Azeredo, diretora

Globo Universidade

Viridiana Bertolini, gerente

Viviane Tanner, supervisora

Equipe

Beatriz Abellan

Fatima Gonçalves

Gisele Gomes

Juan Crisafulli

Leticia Castro

Paula Nakahara

Imprensa e Produção Editorial

Andrea Doti, diretora

Tatiana Gentil, gerente

Ariadne Guimarães, supervisora

Inovação em comunicação

Leslie Foresta, diretora

Washington Theotonio, diretor

Editor: Globo Comunicação e Participações S.A.

Globo Universidade

Endereço: Rua Evandro Carlos de Andrade, 160

São Paulo – SP – CEP 04583-115

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AR

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Não é por serem da mesma faixa etária que eles necessariamente se aproximam. Não é por pertencerem a camadas sociais diferentes que eles tendem a se afastar. Não é a escolaridade que distingue os saberes. Falar de juventudes é muito mais complexo do que qualquer tentativa de categorização, como se pode observar nos textos a seguir.

Para quem nasceu depois da década de 1980, são outras as formas de socialização, as maneiras de se comunicar e de estar no mundo. No artigo a seguir, a antropóloga Regina Novaes aborda as transformações culturais e tecnológicas, as novas formas de mobilização e vivências que atingem a atual geração e expressam potencialidades, vulnerabilidades e processos em curso

Iguais e diferentes

Regina Novaes | UNIRIO

Os nascidos após os anos 1980 têm outras formas de socialização, maneiras de se comunicar e de estar no mundo. No artigo a seguir, antropóloga aborda as transformações culturais e tecnológicas, as formas de mobilização e vivências que atingem a atual geração

Falar de juventude é entrar em uma seara cheia de surpresas e armadilhas. Surpresas porque toda experiência geracional é inédita e – assim sendo – as vivências juvenis de hoje expressam processos sociais em curso, inconclusos. Armadilhas porque, ao falar de juventude, a sociedade projeta suas expectativas e temores. E, assim, nesse tema é comum tomar a parte pelo todo, isto é, generalizar a partir das experiências de um segmento juvenil. Ou, por outro lado, por meio de estatísticas (das médias e das maiorias), deixando-se de lado a riqueza de trajetórias juvenis inovadoras.

Porém, apesar das dificuldades inerentes ao tema, é extremamente importante pesquisar e refletir sobre o assunto. Isso porque as vivências juvenis hoje – mesmo que plurais e até contraditórias – revelam vulnerabilidades e potencialidades da contemporaneidade. Com esse objetivo, cabe comentar aqui as transformações culturais e as novas formas de mobilização que atingem a atual geração.

Desenho de Catharine Gomes, de São Paulo/SP, enviado para ilustrar chamada sobre relações humanas

As grandes mudanças no mundo hoje estão ligadas às novas tecnologias. As inovações tecnológicas fazem parte da vida desta geração nascida depois dos anos 1980. Para esses seres digitais, são outras as formas de socialização, as maneiras de se comunicar e de estar no mundo.

Os processos de socialização dos jovens de hoje se fazem em novas conexões entre tempo e espaço. A realidade e a telerrealidade; o virtual e o presencial; o público e o privado articulam-se e seus conteúdos se redefinem. São outras formas de viver, de conviver e de novas “regras” que vão sendo (re)construídas.

Nada foi experimentado antes. Quando olhamos de fora, pode parecer que os usos são indiferenciados e que o virtual dispensa o presencial na construção de amizades, por exemplo. Mas pesquisas mostram que, entre jovens, o uso do celular é diferente do uso do blog, e o uso do blog é diferente de outros usos das redes sociais. De fato, é na conjugação dessas dimensões que se constrói uma nova sociabilidade juvenil.

Por outro lado, o uso das novas tecnologias reflete também nas relações entre gerações. Um jovem hoje pode ter o mesmo nível de escolaridade que seus pais, ou até menor, e – mesmo assim – pode “ensinar” para eles como usar o celular ou como agir nas redes sociais. Isso significa que – particularmente nessa “área de conhecimento” – pode haver uma inversão de papéis: jovens ensinando os mais velhos independentemente do grau de escolaridade atingido. Isso porque aprendizados também se fazem em outros espaços de socialização e convivência.

Vale a pena citar aqui mais um exemplo de novos espaços de aprendizado. Outro dia – em Natal, Rio Grande do Norte – em uma oficina, promovida pela Agência de Redes para a Juventude [veja mais sobre esse projeto em "De baixo pra cima"], assisti a um jovem dando uma aula de percussão musical. Esse “especialista” encontrou na internet um vídeo para complementar sua explicação. Realizado na França, falado em francês e em uma língua africana, o vídeo escolhido mostrava o surgimento histórico e a transformação dos ritmos. Por meio de imagens e sons, aquilo foi compreendido por todos. Certamente, com esse material didático a aula ganhou dinâmica e horizontes se ampliaram.

Além disso, com essas mudanças, os jovens se tornam também coprodutores das tecnologias. Às vezes eles dão soluções técnicas cujo caminho nem sabem reproduzir. Ou seja, eles são coprodutores das mudanças tecnológicas, pois essas alterações ocorrem de forma tão rápida que nem seus criadores responsáveis sabem como serão encontradas as soluções. Essa “coprodução” de saídas é um fenômeno típico dos jovens desta geração: em vez de lerem os manuais de orientação, eles vão experimentando caminhos.

No entanto, é preciso sublinhar: essas possibilidades não são as mesmas para todos os jovens. Nem todos têm o mesmo acesso às tecnologias de informação e comunicação. A pesquisa Agenda Juventude Brasil – Pesquisa Nacional sobre Perfil e Opinião dos Jovens Brasileiros 20131, realizada pe­la Secretaria Nacional da Juventude, mostra, por exemplo, que 83% dos jovens se informam pela televisão aberta; 56%, pela internet; 23%, por jornais impressos; 21%, por rádios comerciais; 17%, pela televisão paga. O que dizem esses resultados? Por um lado, a televisão aberta é o meio mais acessado pelos jovens do campo e, nas cidades, pelos jovens de menor renda e escolaridade. Entre os mais ricos e mais escolarizados, a internet figura em primeiro lugar. Ou seja, renda e escolaridade se refletem diretamente nos meios de que os jovens dispõem para se informar.

Quanto ao uso do computador e da internet, os resultados da mesma pesquisa são os seguintes: oito em cada dez entrevistados (80%) usam computador e/ou internet, sendo a grande maioria (75%) usuária de ambos. Porém, olhando internamente esses dados, podemos ver que os jovens negros têm 10% menos acessos do que os brancos. E os rurais têm um acesso mais restrito (55%) que os urbanos (83,1%).

Ou seja, a taxa média de conexão, muitas vezes, mascara as desigualdades. As hierarquias sociais estão presentes no uso da internet. Além disso, quando se fala em acesso, temos de considerar também a qualidade. A famosa “banda larga” não chega da mesma forma, com a mesma velocidade de transmissão de dados, a todos os lugares do país, da cidade e do campo.

Victor Azevedo, Salvador/BA, em desenho criado a partir do tema conhecimento

E se chegasse? Se chegasse, teríamos ainda de dar conta de outra dimensão das desigualdades sociais: as hierarquias cognitivas. Ou seja, o conhecimento acumulado, desigual, também pesa no momento de interpretar informações disponíveis. Isso porque os meios tecnológicos de comunicação não são neutros e as informações presentes na rede precisam ser questionadas, compreendidas, costuradas.

Entretanto, a despeito das desigualdades e diversidades, essa realidade tecnológica tem sido (re)apropriada por jovens de diferentes classes sociais. O processo de convergência de mídias tem permitido que conteúdos antes tratados separadamente (em vídeos, textos e imagens) passem a ser reunidos em uma só mídia (internet), e isso permite um novo tipo de aprendizado e acúmulo de informações. Além disso, a internet é dialógica: todos podem ser emissores e receptores ao mesmo tempo.

E, se todos podem interferir, a internet escancara as disputas de valores presentes na sociedade. Não por acaso, nos meios virtuais, existem redes homofóbicas, expressões nazistas, preconceitos raciais e de bullying. Tudo o que acontece na internet está na sociedade. Mas, ao mesmo tempo, a rede mundial traz possibilidades inéditas de articulação social e de identificação, favorecendo atividades em conjunto com quem está geograficamente separado.

Muitas vezes pensamos que a internet apaga todas as outras formas de sociabilidade. Mas a internet convive com outros espaços de sociabilidade. A família, a escola, as igrejas continuam sendo importantes fontes de referência. Ao mesmo tempo, os jovens se deparam com outras fontes que dão sentido à vida e criam pertencimentos como, por exemplo, participar de um projeto social ou fazer parte de um grupo de teatro, de música, de esporte.

Ou seja, do encontro entre velhas e novas formas de sociabilidade surgem as múltiplas combinações de uso da internet. Nesse sentido, parece não haver o perigo de pensar a internet apenas como um agente de homogeneização da juventude. A rede sozinha não tem o poder de tirar o “s” da juventude.

Vídeo Me encontre na rua, por Elza Cohen, expressa sua paixão por fotografia. Foi criado para ilustrar o tema despertar

Unidos pela rede

Certamente, mais do que nunca, evidenciam-se marcos geracionais comuns. Isso porque a circulação veloz de símbolos e de práticas faz com que algumas questões apareçam da mesma forma para jovens que estão muito separados, socialmente falando. Ou seja, existe hoje uma possibilidade de jovens que nunca se encontrariam (geográfica e socialmente) poderem compartilhar informações via internet. No entanto, ainda é importante falar em juventudes. E esse “s” não deve ser dispensado nem quando tratamos de mostrar a força das novas conexões.

Isso fica claro quando observamos o papel ativo de jovens das favelas e periferias que se tornaram novos mediadores sociais, sobretudo por meio da produção cultural e do midiativismo. Na biografia desses jovens estão registrados sentimentos pessoais de exclusão, processos de identificação com grupos e construção de novos coletivos.

Para eles, a internet tem sido um meio de convocação, de registro, de construção de memória e, também, uma possibilidade de espalhar suas demandas pela sociedade. Tudo isso, mesmo num terreno bastante diferenciado, reflete e produz novas características nas manifestações políticas, nas formas de fazer política entre jovens.

Tahis Dalla Zanna, São Paulo/SP, em ilustração criada para expressar o tema relações humanas

Para ser breve, vale destacar aqui quatro tensões/características que se evidenciam nas relações entre juventude, política e conexões via internet. A primeira questão refere-se ao binômio individual-coletivo. O sofrimento – causado pela exclusão – leva do individual ao coletivo. Pesquisas qualitativas têm mostrado que, muitas vezes, os jovens começam a participar de ações no espaço público pela comoção, pela emoção, pelo que lhes toca particularmente.

Isso explica, por exemplo, a participação de uma parte de jovens “estreantes” nas manifestações de junho de 2013. Convocados pela internet, jovens das favelas e periferias também foram às ruas após suas jornadas de trabalho. Bem como jovens midialivristas tornaram-se colaboradores na divulgação de informações. Participar via internet sem sair de casa; sentir-se convocado pelas redes sociais e ir às ruas sem pertencer a coletivos; formar novos coletivos virtuais que não desaguam em movimentos de tipo clássico (partidos, movimento estudantil, associações e pastorais) são novas possibilidades que se inscrevem na construção do espaço público. Ou seja, evidenciam-se novas formas de articular o individual ao coletivo. Em vez da oposição individual/coletivo, surge a possibilidade de pensar essas dimensões da vida social como complementares.

O segundo ponto é a articulação entre global e local. A internet mudou o tamanho do mundo, e isso tem reflexo na pauta pública de cada país. Um exemplo disso é a Marcha das Vadias, que surgiu no Canadá a partir de uma atitude homofóbica de um policial, e hoje é realizada no mundo inteiro. Mas, podemos dizer que essa semente caiu em terrenos locais diferenciados. No Rio de Janeiro, a Marcha das Vadias ganhou, por exemplo, um tom especial quando o papa Francisco estava na cidade.2

Ou seja, um evento local faz uma releitura de um fenômeno global. Há novas dinâmicas de cooperação/oposição entre o global e o local. O movimento hip hop já vem demonstrando isso de maneira bastante forte. Mais recentemente, durante as manifestações de junho de 2013, as táticas black blocs também demonstraram a necessidade de refletir sobre as relações local/global. Como se sabe, essas ações contra os “símbolos do capitalismo” têm ocorrido em diferentes lugares do mundo e já possuem inúmeras versões locais. Não se sabe ainda quantas serão as diferentes versões e histórias de adesão no Brasil. Mas, para compreender “os” black blocs, é preciso considerar a internet que as divulga, o que acontece no mundo e, ao mesmo tempo, as conjunturas nas quais tais táticas têm se manifestado no Brasil.

A terceira característica que eu gostaria de destacar diz respeito às relações entre virtual e presencial. O que também nos remete ao contexto das manifestações de 2013, pois envolve a relação entre rede e rua. As transmissões ao vivo permitiram interações com o público enquanto os atos estavam acontecendo, possibilitando críticas e indicações para quem estava filmando.

No proceso das manifestações, o transporte funcionou como um disparador de outras demandas e, em um movimento espiral, foi puxando a corrupção, a educação, a saúde, a segurança. Para tanto, muito contribuíram as redes de comunicação independentes. Transmissões por fluxo de mídia (streaming) – feitas a partir de dispositivos móveis para redes sociais – criaram uma nova relação entre a presença nas ruas e no ciberespaço. Interferências mútuas fizeram surgir diferentes níveis e formas de participação.

Por último, é fundamental perceber como o midiativismo pode alimentar a grande mídia, e vice-versa. As novas mídias têm gerado registros que – no dia seguinte – pautam a grande mídia. Assim, em vez de opor esses dois pólos, é possível tensioná-los. Durante as manifestações de 2013, foram as disputas de interpretação e as interferências mútuas – entre as chamadas novas e velhas mídias – que fizeram a população perceber a violência policial. O que levou alguns governantes a buscar a mudança de rumo dessa atuação e o que permitiu, na sociedade, um debate um pouco mais amplo sobre as práticas costumeiras das polícias brasileiras.

Essa complementaridade entre midiativismo e grande mídia – sempre uma fonte de tensão – representa hoje mais uma possibilidade para que se espalhem pela sociedade as demandas de uma grande parcela da juventude brasileira, cujos direitos conquistados ainda devem ser efetivados.

Enfim, iguais em termos geracionais, desiguais em termos sociais e diferentes em suas trajetórias de vida, os jovens conectados de hoje têm muito a contribuir para (re)pensar a sociedade brasileira e suas novas possibilidades de transformação.

REGINA CÉLIA REYES NOVAES é doutora em Antropologia Social pela Universidade de São Paulo (USP), foi professora do Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IFCS/UFRJ) e hoje é professora visitante do Programa Educação e Políticas Públicas da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio). É pesquisadora do CNPq e tem atuado como consultora sênior do Pnud/Nações Unidas e Unesco para projetos junto à Secretaria Nacional de Juventude.

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JUVENTUDES PELO MUNDO

JOVEM = 15 a 29 anos

Fonte: Estatuto da Juventude

Brasil

51,3

MILHÕES DE JOVENS

26,1%

DA POPULAÇÃO

49,6%

HOMENS

50,4%

MULHERES

66%

SOLTEIROS

61%

VIVEM COM OS PAIS

84,8%

NA CIDADE

15,2%

NO CAMPO

28%

DOS HOMENS SÃO PAIS

54%

DAS MULHERES SÃO MÃES

Fonte: Agenda Juventude Brasil/Censo IBGE (2010)

Outros países

EUA

63,9 mi

(15-29 ANOS)

20,8%

DA POPULAÇÃO

Fonte: US Census Bureau (2012)

México

31,4 mi

(15-29 ANOS)

26,3%

DA POPULAÇÃO

Fonte: Instituto Nacional de Estadística y Geografía (2014)

Peru

8,2 mi

(15-29 ANOS)

27%

DA POPULAÇÃO

Fonte: INEI. Proyecciones y Estimaciones de Población (2013)

Chile

4 mi

(15-29 ANOS)

24,6%

DA POPULAÇÃO

Fonte: Instituto Nacional de Estadísticas (2007)

Portugal

1,8 mi

(15-29 ANOS)

17,1%

DA POPULAÇÃO

Fonte: Instituto Nacional de Estatísticas (2011)

Espanha

8,4 mi

(15-29 ANOS)

18%

DA POPULAÇÃO

Fonte: Observatorio de la Juventud (2010)

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Bárbara Scarambone, São Paulo/SP, em criação artística a partir do tema despertar

Alvo de críticas e estereótipos, o jovem com frequência tem a imagem construída e associada a problemas que muitas vezes nem foram gerados por ele. No artigo a seguir, professor adverte que é preciso ter uma visão mais ampla sobre a questão da juventude, sem reduzi-la às dificuldades inerentes a essa fase

A ponta do iceberg

Juarez Dayrell | UFMG

Criticado e estereotipado, o jovem com frequência tem a imagem associada a problemas nem sempre gerados por ele. A seguir, professor adverte que é preciso ter uma visão mais ampla sobre a juventude, sem reduzi-la às dificuldades inerentes a essa fase

Bárbara Scarambone, São Paulo/SP, em criação artística a partir do tema despertar

O tema da juventude tem sido uma constante em diferentes situações cotidianas, seja nas relações familiares, seja na escola, entre outros espaços sociais, e quase sempre aparece de forma negativa. Criticam-se os jovens pela falta de limite, inconstância ou apego excessivo às novas tecnologias, em especial os celulares e smartphones que impediriam uma relação (social? interpessoal?) “saudável”. Na escola, então, o foco principal parece ser a indisciplina que se manifestaria na “falta de respeito” com os professores, nas relações agressivas entre os próprios jovens, na agressão verbal e física, na “irresponsabilidade” diante dos compromissos escolares. A forma de se vestir tende a ser outro incômodo para o mundo adulto, quase sempre vista como forma de rebeldia: são calças e blusas larguíssimas, piercings, tatuagens e boné. Ah, o boné! Na escola, esse é quase sempre o pivô do conflito quando a instituição define um padrão rígido de vestimenta.

Aliada a essa realidade, muitas vezes alimentando-a, assistimos a uma contínua produção e reprodução de imagens socialmente construídas em relação aos jovens, quase sempre marcada também pelo signo da negatividade, construindo estereótipos que tendem a aparecer como verdades. É muito comum, por exemplo, a imagem da juventude como uma transição, uma passagem; o jovem como um “vir a ser” adulto. A tendência, sob essa perspectiva, é enxergar a juventude pelo lado negativo. O jovem é o “que ainda não chegou a ser”. Nega-se assim o presente vivido. Dessa forma, é preciso dizer que o jovem não é um pré-adulto. Pensar assim é destituí-lo de sua identidade no presente em função da imagem que projetamos para ele no futuro.

Essa imagem convive com outras, como a visão romântica da juventude associada a um tempo de liberdade, de prazer, de expressão de comportamentos exóticos, como se não vivenciasse as dificuldades e as dores também envolvidas nas descobertas, no confronto com os limites dados pela história individual, pelo contexto familiar e social. Porém a mais difundida é a imagem da juventude vista como problema. Os índices alarmantes de violência, principalmente os homicídios, o tráfico, o consumo de álcool e de outras drogas, a ameaça da aids e a gravidez na adolescência são fenômenos que contribuem para cristalizar a imagem de que a juventude é um tempo de vida problemático.

Enxergar o jovem pela ótica dos problemas é reduzir a complexidade desse momento da vida. É preciso não transformar a juventude em idade problemática, confundindo-a com as dificuldades que possam afligi-la

Não que esses aspectos da realidade não sejam importantes e não estejam demandando ações urgentes para serem equacionados. Mas enxergar o jovem pela ótica dos problemas é reduzir a complexidade desse momento da vida. É preciso cuidar para não transformar a juventude em idade problemática, confundindo-a com as dificuldades que possam afligi-la. É preciso dizer que muitos dos problemas que consideramos próprios dessa fase não foram produzidos por jovens. Aqueles já existiam antes mesmo de o indivíduo chegar à idade da juventude. Pensemos, por exemplo, na violência policial que faz de suas vítimas prioritárias os jovens negros das periferias de nossas cidades. É preciso cuidar para que o sujeito jovem não se transforme num problema para a sociedade. Isso pode fazer dele uma “nova classe perigosa” a ser combatida.

Essas e outras imagens correntes sobre os jovens evidenciam a existência de uma tensão nas relações intergeracionais neste início de século. Podemos arriscar a hipótese de que tais tensões expressam, de alguma forma, as profundas transformações sociais e tecnológicas que vivenciamos nas últimas décadas. Tais mutações afetariam as relações entre o tempo e o espaço, interferindo diretamente nas instituições e nos processos de socialização das novas gerações.1 As instituições classicamente responsáveis pela socialização, como a família, a escola e o trabalho, vêm mudando de perfil, estrutura e também de funções. Por conseguinte, os jovens da atual geração vêm se formando, se construindo como atores sociais de forma muito diferente das gerações anteriores, numa mudança de tempos e espaços de socialização que interfere diretamente nas formas como eles vivenciam a sua juventude. As diferenças geracionais são muito profundas, trazendo novos desafios para essa relação, na qual os adultos não podem mais contar tanto com a sua experiência anterior como referência para lidar com os jovens atuais. Como nos lembra o sociólogo italiano Alberto Melucci,2 os jovens são como uma ponta de um iceberg que torna visíveis as principais questões e desafios postos em cada período histórico.

Se é assim, podemos mudar a nossa chave de leitura dessa realidade e buscar compreender os jovens reais com os quais lidamos, enxergando neles e nas suas diversas expressões os sinais de uma sociedade em mutação. Para isso, um primeiro desafio que se coloca é a necessidade de superar as representações sociais dominantes em relação aos jovens, reconhecendo-os como sujeitos de direitos. Com esse novo olhar, os problemas que os atingem podem ser vistos como expressão de necessidades e demandas não atendidas. Isso pode resultar no reconhecimento de um campo de direitos que desencadeie novas formas e conteúdos de políticas públicas e, principalmente, práticas que reconheçam a juventude nas suas potencialidades e possibilidades, e não apenas a partir de seus problemas.

Ser jovem é uma questão complexa, que vai além da faixa etária e envolve elementos culturais, sociais e econômicos

Mas também é fundamental problematizar a própria compreensão do que é ser jovem, superando uma tendência em naturalizá-lo, como se a juventude fosse igual em qualquer tempo e espaço, ou mesmo reduzi-la a uma faixa etária. Temos de levar em conta que a idade é um marcador, uma das referências para a juventude, principalmente no plano das políticas públicas, mas não expressa a realidade complexa que envolve elementos culturais e os condicionantes econômicos e sociais que estruturam as sociedades.3 Como definir o jovem desta geração?

Um novo olhar sobre o jovem

Inicialmente é preciso considerar que a juventude é, ao mesmo tempo, uma condição social e um tipo de representação.4 De um lado, há um caráter universal, dado pelas transformações do indivíduo numa determinada faixa etária. De outro, há diferentes construções históricas e sociais relacionadas a esse tempo/ciclo da vida. A entrada na juventude se faz pela fase da adolescência e é marcada por transformações biológicas, psicológicas e de inserção social. É nessa fase que fisicamente se adquire o poder de gerar filhos, que a pessoa dá sinais de ter necessidade de menos proteção da família e começa a assumir responsabilidades, a buscar a independência e a dar provas de autossuficiência, entre outros sinais corporais, psicológicos e de autonomização cultural.

O mesmo não pode ser dito em relação à culminância do processo que se dá com a passagem para a vida adulta. Isso porque esta se encontra cada vez mais fluida e indeterminada, fazendo com que os próprios marcadores de passagem para a “adultez” (terminar os estudos, trabalhar, casar, ter a própria casa e ter filhos) ocorram sem uma sequência lógica previsível ou mesmo não ocorram com o avançar da idade, caso dos indivíduos que vivem em uma “eterna juventude”.

Consideramos que a juventude constitui um momento determinado, mas que não se reduz a uma passagem. Ela assume uma importância em si mesma como um momento de exercício de inserção social. Neste, o indivíduo vai se descobrindo e descortinando as possibilidades em todas as instâncias de sua vida, desde a dimensão afetiva até a profissional. Essa realidade ganha contornos próprios em contextos históricos, sociais e culturais distintos. As diferentes condições sociais (origem de classe e cor da pele, por exemplo), a diversidade cultural (as identidades culturais e religiosas, os diferentes valores familiares etc.), a diversidade de gênero (hetero, homo e transexualidade, por exemplo) e até mesmo as diferenças territoriais se articulam para a constituição dos diferentes modos de vivenciar a juventude.

Fotografia enviada por Lucas Nunes, de Nova Olinda/CE, expressando o tema despertar

Além das marcas da diversidade cultural e das desiguais condições de acesso aos bens econômicos, educacionais e culturais, a juventude é uma categoria dinâmica. Ela é transformada no contexto das mutações sociais que vêm ocorrendo ao longo da história. Na realidade, não há tanto uma juventude, e sim jovens como sujeitos que a experimentam e a sentem segundo determinado contexto sociocultural onde se inserem e, assim, elaboram determinados modos de ser jovem. É nesse sentido que cabe recorrer à noção de juventudes, no plural, para enfatizar a diversidade de modos de ser jovem existente.5

A construção de si próprio

Toda essa reflexão nos mostra que ser jovem não é tanto um destino, mas a escolha de transformar e dirigir sua existência. Atualmente os jovens possuem um campo maior de autonomia ante as instituições para construir modos próprios de ser jovem, de construir a si próprios como indivíduos.6 Há um caminho de mão dupla entre aquilo que os jovens herdam e a capacidade de cada um construir seus próprios repertórios culturais, levando em conta os limites estruturais onde cada um se insere. Nesse enfoque, surge a questão das identidades que iremos problematizar aqui, a partir das contribuições de Melucci.7

Para o sociólogo italiano, a identidade não se refere a um eu interior natural, como se este fosse uma capa colocada pela sociedade sobre o núcleo interno inerente. Ao contrário, evidencia que se trata de uma elaboração que cada um vai fazendo por meio das relações que estabelece com o mundo e com os outros, a partir do grupo social a que pertence, do contexto familiar, das experiências individuais e de acordo com os valores, ideias e normas que organizam sua visão de mundo. A identidade, para o autor, é, sobretudo, uma relação social e, sendo uma interação, carrega consigo uma tensão irresolúvel entre o autorreconhecimento e o heterorreconhecimento, que aponta para a importância do pertencimento grupal e das suas relações solidárias para o reforço e a garantia da identidade individual. Não nos sentimos ligados aos outros apenas pelo fato de existirem interesses comuns, mas, sobretudo, porque essa é a condição para reconhecermos o sentido do que fazemos e para nos afirmarmos como sujeitos das nossas ações.

Melucci alerta para o fato de que a construção das identidades tem sido cada vez mais afetada pelas transformações globais profundas que modificam as realidades mais próximas e também a intimidade do eu. Entre as características da sociedade contemporânea, o autor indica que vivemos numa sociedade planetarizada na qual as transformações sociais são cada vez mais frequentes e intensas, numa outra relação com o tempo e o espaço. Uma sociedade na qual o eixo fundamental é a produção e a circulação de informações e, especialmente, um tipo particular de informação, que é a imagem. Por meio da intensificação da velocidade das informações, os jovens entram em contato (e, de alguma forma, interagem) com as dimensões locais e globais, que são determinadas mutuamente, mesclando singularidades e universalidades. Assim, obtêm acesso a diferentes modelos sociais e modos de ser e de viver que acabam por interferir nos processos identitários.

Nesse enfoque, podemos constatar que tais transformações afetam diretamente a experiência juvenil, cuja vivência tende a ser informada por uma lógica baseada na reversibilidade, expressa no constante vaivém presente em todas as dimensões da vida dos jovens. Vão e voltam em diferentes formas de lazer, com diferentes turmas de amigos, o mesmo acontecendo com os estilos musicais. Aderem a um grupo cultural hoje que amanhã poderá ser outro, sem grandes rupturas. Na área afetiva, predomina a ideia do “ficar”, e não necessariamente namorar, quando tendem a não criar compromissos com as relações amorosas duráveis. Também no trabalho podemos observar esse movimento com uma mudança constante dos empregos, reforçado pela própria precarização do mercado de trabalho, que pouco oferece além de “biscates” ou empregos temporários. É a presença dessa lógica que leva o cientista social português José Machado Pais a caracterizar esta geração como “ioiô”, numa rica metáfora que traduz bem a ideia da vida inconstante das gerações atuais.8

Essa reversibilidade é informada tanto por uma postura baseada na experimentação que busca superar a monotonia do cotidiano por meio da procura de aventuras e excitações quanto por uma forma de lidar com as precariedades e as exigências postas em seus percursos de vida. Nesse processo, os jovens tendem a testar suas potencialidades: improvisam, se defrontam com seus próprios limites e, muitas vezes, enveredam por caminhos de ruptura, de desvio, sendo uma forma possível de autoconhecimento. Para muitos deles, a vida constitui-se no movimento, em um trânsito constante entre os espaços e tempos institucionais como os da obrigação, da norma e da prescrição, e entre aqueles intersticiais, nos quais predominam a sociabilidade, os ritos e símbolos próprios, o prazer.

Jovens reelaboram práticas, valores, normas e visões de mundo a partir de uma representação de seus interesses e necessidades

Todo esse processo presente na sociedade contemporânea tende a fazer com que o jovem se exponha cada vez mais a universos sociais diferenciados, a laços fragmentados, a espaços de socialização múltiplos, heterogêneos e concorrentes. Enfim, o jovem atravessa instituições, grupos, campos de força e de lutas diferentes.9 Nesse sentido, é possível afirmar que a construção das identidades é um processo cada vez mais complexo, com o jovem vivendo experiências variadas e, às vezes, contraditórias. Ele acaba se constituindo como ator plural, com múltiplas identidades, produto de experiências de socialização em contextos sociais os mais diversos, entre os quais ganham centralidade aqueles que ocorrem nos espaços intersticiais dominados pelas relações de sociabilidade. Os valores e comportamentos apreendidos no âmbito da família, por exemplo, são confrontados com outros valores e com outros modos de vida percebidos no âmbito do grupo de pares, da escola, das mídias etc. Ficam mais claras assim as especificidades dos modos de ser jovem desta geração, muito diferente das gerações anteriores.

Mas a identidade não pode ser pensada apenas na sua dimensão de autoimagem individual ou grupal, como delineadora de indivíduos e grupos. Não é apenas à pergunta “quem sou eu?” que os jovens procuram responder enquanto experimentam expressões de identidade, mas também “para onde vou?”. A identidade individual e a coletiva, de alguma forma, interferem na invenção de caminhos e direções de vida e nos limites dados pela estrutura social, apontando para os desafios para definir projetos de vida e modelos na transição para a vida adulta. É nesse processo que vão construindo modos próprios de ser jovem, constituindo-se como sujeitos de experiências, saberes e desejos. Eles se apropriam do social e reelaboram práticas, valores, normas e visões de mundo a partir de uma representação dos seus interesses e de suas necessidades; interpretam e dão sentido ao seu mundo.

Nesse percurso, os jovens se deparam com uma sociedade já constituída e tendem a questioná-la. O sociólogo húngaro Karl Mannheim (1893-1947) nos diz que a juventude é a idade da vida mais aberta às mudanças, sendo a primeira a incorporar as inovações sociais no seu sistema de comportamento. E o fazem porque é nessa fase que os indivíduos tendem a questionar a herança cultural e as informações recebidas, criando maiores possibilidades de desenvolver contatos originais com a cultura. Para o autor, a realidade e seus problemas são localizados em um presente e são experimentados como tais, fazendo com que os jovens estejam, no dizer de Mannheim, dramaticamente atentos aos processos de desestabilização e dispostos a tomar partido neles. Para ele, a juventude não é apenas desviante, sua marginalidade inova e transforma.10 As jornadas juvenis que ocorreram no Brasil em 2013 são um bom exemplo desse potencial inovador dos jovens.

E aqui podemos retomar a metáfora inicial do iceberg, evidenciando a importância de ler os modos de ser jovem contemporâneo como expressão das mutações sociais mais amplas, vendo nelas os sinais das tendências sociais existentes, com seus avanços, contradições e limites. Mas também atentar para as demandas e necessidades que os jovens expressam no seu processo de socialização. Para isso é fundamental uma postura de escuta por parte dos adultos, considerando os jovens como interlocutores válidos.

José Luiz Pereira Nunes, São Caetano do Sul/SP, sobre relações humanas

A construção de uma sociedade democrática não pode desconsiderar os desafios e dilemas vividos pelos diferentes sujeitos sociais nos seus ciclos de vida, em especial os jovens. Nunca é demais reforçar que a fase da juventude é, por excelência, o momento do exercício de inserção social. Esse momento da vida é para que ele se desenvolva plenamente como adulto e como cidadão, sendo necessários tempos, espaços e relações de qualidade que possibilitem que cada um experimente e desenvolva suas potencialidades. Dessa forma, retomamos a importância e a urgência de políticas públicas que visem garantir os jovens como sujeitos de direitos.

JUAREZ DAYRELL é professor associado da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais, coordenador do grupo de pesquisa Observatório da Juventude da UFMG e pesquisador do CNPq.

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QUANTOS SOMOS

Pororoca jovem

“O tamanho da população jovem brasileira nunca foi e nunca será tão grande quanto o desta década, correspondendo a cerca de 50 milhões de pessoas na faixa entre 15 e 29 anos de idade, cerca de 26% de nossa população, proporção muito próxima à média mundial.

Esses 50 milhões de jovens brasileiros correspondem a um ‘platô populacional’ que começou em 2003 e, por força de mudanças demográficas diversas atuando em direções opostas, prolongará a onda até 2022, em formato de pororoca jovem. Depois de celebrarmos o bicentenário de nossa independência, o processo refluirá e a população jovem no Brasil cairá a uma velocidade mais alta que a dos demais países, com exceção da China.”

Marcelo Neri é economista e presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). NERI, M. Juventude que conta. In Juventude levada em conta – Demografia. Brasília: SAE, 2013.

Mais ativos

“A população jovem brasileira nunca foi tão grande e essa onda jovem se traduz em um fenômeno denominado bônus demográfico, no qual o peso da população economicamente ativa supera o da população dependente – crianças e idosos.”

SEVERINE MACEDO

Secretária nacional de Juventude

Fonte: www.juventude.gov.br

Quantos seremos

“Em 2010, foram 51 milhões de jovens de 15 a 29 anos, isso significava 27% da população. Em 2020, nós vamos ter 48, 49 milhões. Em 2030, vão ser 43 milhões. Em 2040, 39 milhões. Em 2050, 32 milhões.”

“O baby boom dos anos 1950 a 1970 deu origem à chamada onda jovem, que a partir de 2030 vai resultar na onda idosa, o elderly boomer.”

ANA AMÉLIA CAMARANO

Técnica de planejamento e pesquisa do Ipea

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A escola como espaço-tempo culturalmente significativo, em que valha a pena estar, e não um pedágio para a próxima etapa da formação. Promover essa mudança é um desafio dos educadores. A seguir, professor comenta que, apesar de a instituição escolar estar em xeque comparada com outras esferas produtoras de conhecimentos, há como criar uma nova dinâmica nas relações de ensino e aprendizado

Caminhos da escola

Paulo Carrano | UFF

Fazer com que a escola seja vista como espaço-tempo culturalmente significativo é um desafio dos educadores. A seguir, professor comenta que, apesar das dificuldades, é possível criar uma nova dinâmica nas relações de ensino e aprendizado

Os jovens são sujeitos que emitem sinais pouco compreensíveis e parecem habitar mundos culturais reconhecidos, por alguns professores, como social e culturalmente improdutivos para o desafio da escolarização. Pensando nos jovens das classes populares, poderíamos até mesmo dizer, nos termos da reflexão do sociólogo francês Pierre Bourdieu1, que, sendo oriundos de famílias com baixos “capitais culturais e econômicos”, eles enfrentam dificuldades adicionais para a realização do ofício de ser aluno2 e experimentaram acidentadas trajetórias que os afastaram do “tempo certo” da escolarização. De qualquer forma, não são apenas os jovens pobres que vivem difíceis relações com as escolas. A própria noção de instituição escolar, em seus tempos e espaços de socialização e aprendizagem, parece estar em xeque quando comparada com outras esferas produtoras de informações e socialização de conhecimentos. Não é incomum que os jovens comparem a velocidade, a fluidez das trocas de conhecimentos e a ludicidade presentes na internet com a escola, sendo esta quase sempre associada com o atraso de uma instituição centrada na hierarquia de saberes, nas disciplinas que pouco se comunicam e na seriedade em contraponto ao divertimento.

Como fazer com que o cotidiano escolar seja algo pleno de sentidos de presença, um tempo-espaço bom de viver, e não apenas uma passagem – quase um pedágio – para a conquista de patamares mais altos de escolarização ou de certificados que possam abrir portas profissionais? Quais estratégias poderiam despertar os sentidos para uma presença culturalmente significativa dos jovens no espaço da escola? Essas parecem ser perguntas-chave para a reorganização curricular e a articulação de processos educativos, social e culturalmente produtivos no cotidiano escolar. Deveríamos caminhar para a produção de espaços escolares culturalmente significativos para uma multiplicidade de sujeitos jovens – e não apenas alunos – histórica e territorialmente situados e impossíveis de conhecer a partir de definições gerais e abstratas. Nesse sentido, seria preciso abandonar toda a pretensão de elaboração de conteúdos únicos e arquiteturas curriculares rigidamente estabelecidas. A aposta – e, por extensão, também o risco – estaria na realização do inventário permanente das trajetórias de vida3 e escolarização e na atenção necessária aos reais interesses e necessidades de aprendizagem e interação desses sujeitos com os quais estamos comprometidos no tabuleiro escolar. Dessa forma, a articulação do processo educativo dos jovens deixaria de ser vista apenas como escolarização de alunos – dinâmica de ensino-aprendizagem – e assumiria toda a radicalidade da noção de diálogo com sujeitos múltiplos. Em outros termos, é preciso caminhar para uma ética da compreensão das juventudes que “habitam” a escola; para um estado de equilíbrio entre as intenções pedagógicas inscritas em nossos planos e diretrizes curriculares e a atenção e escuta dos sujeitos histórica, corpórea e culturalmente concretos com os quais interagimos em condições de escolarização.

Francine N. A. de Oliveira, São João del-Rei/MG, em ilustração para expressar conhecimento

Relação compreensiva

“Compreender” – esse é o título de um dos capítulos do livro A miséria do mundo, de Pierre Bourdieu.4 O mestre sociólogo francês alerta para a necessidade de um exercício de reflexividade diante da interação social entre pesquisador e pesquisado que o processo de entrevista provoca numa pesquisa. Essa busca do agir reflexivo teria, em última instância, a finalidade de elaboração de uma comunicação não violenta e que fosse capaz de reduzir os efeitos da “intrusão” que a situação de entrevista pode significar para o entrevistado. Nas palavras do próprio Bourdieu: “É efetivamente sob a condição de medir a amplitude e a natureza da distância entre a finalidade da pesquisa tal como é percebida e interpretada pelo pesquisado, e a finalidade que o pesquisador tem em mente, que este pode tentar reduzir as distorções que dela resultam, ou, pelo menos, de compreender o que pode ser dito e o que não pode, as censuras que o impedem de dizer certas coisas e as incitações que encorajam a acentuar outras.”5

É sob essa perspectiva do estabelecimento de uma relação compreensiva que penso a presença dos jovens na escola. Guardando-se as devidas proporções entre uma situação de pesquisa sob a direção de um pesquisador e um processo de ensino-aprendizagem conduzido por um educador, é possível dizer que estamos diante de um mesmo campo de interação simbólica. Campo esse capaz de produzir reconhecimentos e proximidades, mas também distâncias e estranhamentos entre sujeitos situados em distintos lugares sociais: pesquisadores e pesquisados, professores e alunos.

Danilo Gonçalves, São Paulo/SP, em expressão artística sobre conhecimento

O educador e amigo Moacyr de Góes6 contou uma história que exemplifica a importância de fazer do gesto educativo uma relação compreensiva. Conto de memória e mantenho o sentido da narrativa sem me preocupar com a precisão das palavras. Um padre-educador da cidade de Natal impressionava a todos com sua capacidade de ensinar latim a crianças muito pobres da periferia da cidade. Indagado sobre o método que utilizava para ensinar, disse: “Quer saber como faço para ensinar latim ao João? Para ensinar latim ao João eu primeiro conheci o João. Fui a sua casa, descobri do que ele gostava, descobri sua árvore preferida, fiquei seu amigo; primeiro conheci o João, o latim veio depois”.

Essa é uma história simples que nos convida a encontrar no sujeito do conhecimento a verdadeira centralidade dos processos de ensino-aprendizagem.

Aos professores e professoras se coloca a tarefa política, educativa e, por que não dizer, afetiva de descobrir, na recuperação das trajetórias de vida de seus jovens alunos e jovens alunas, no diálogo com seus desejos presentes e expectativas de futuro, as “portas de acesso” ao sujeito que pode conhecer, na medida em que é “re-conhecido” no jogo da aprendizagem escolar.

Parto do princípio de que muitos dos problemas que os educadores enfrentam nas muitas salas de aula e espaços escolares deste país com os jovens alunos têm origem em incompreensões sobre os contextos não escolares, os cotidianos e os históricos mais amplos, em que esses estão imersos. Dito de outra forma, é cada vez mais improvável que consigamos compreender os processos sociais educativos escolares se não nos apropriarmos dos processos mais amplos de socialização.

Muitos dos problemas que os educadores enfrentam nas salas de aula com os alunos têm origem em incompreensões sobre os contextos não escolares, os cotidianos e os históricos em que eles estão imersos

Concordo com a professora e pesquisadora em educação Marilia Sposito, que defende a adoção do ponto de vista de uma sociologia não escolar do estudo da escola. É preciso buscar compreender os tempos e espaços não escolares dos sujeitos jovens que estão na escola, mas que não são, em última instância, da escola. Esse jovem aluno, essa jovem aluna carregam para a instituição referências de sociabilidade e interações que se distanciam das referências institucionais que se encontram em crise de legitimação.

No vídeo Diário, Cleber Santos busca mostrar como a escola influencia os jovens. Foi criado para ilustrar o tema despertar

O novo público que frequenta a escola, sobretudo adolescente e jovem, passa a constituir no seu interior um universo autônomo de interações, distanciado das referências institucionais. Os jovens estudantes nos desafiam a assumir essa perspectiva não escolar no estudo da escola. A autonomização de uma subcultura adolescente engendra, para os alunos da massificação do ensino, uma reticência ou uma oposição à ação do universo normativo escolar, ele mesmo em crise. A escola cessa lentamente de ser modelada somente pelos critérios da sociabilidade adulta e vê penetrar os critérios da sociabilidade adolescente, exigindo um modo peculiar de compreensão e estudo.7

Culturalmente significativos

É necessário aprender a trabalhar com as experiências prévias dos jovens para que estes sejam entendidos como sujeitos culturais e portadores de biografias originais, e não apenas como alunos de uma dada instituição. O mito da intencionalidade pedagógica como a viga mestra da educação não permite a emergência dos acasos significativos, das surpresas reveladoras, da escuta do outro nem permite que alunos e professores corram o risco da experimentação. Os jovens, mesmo aqueles das periferias onde cidade não rima com cidadania, são mais plurais do que aquilo que a instituição escolar deseja receber. A escola espera alunos, e o que chega são sujeitos com múltiplas trajetórias e experiências de vivência do mundo. São jovens que, em sua maioria, estão aprisionados no espaço e no tempo de bairros e territórios populares de onde é difícil se mobilizar fisicamente pela cidade e o mundo e também elaborar projetos de futuro de maior alcance. Sujeitos que, por diferentes razões, têm pouca experiência de circulação pela cidade e se beneficiam pouco ou quase nada das poucas atividades e redes culturais públicas ofertadas em espaços centrais e mercantilizados das cidades. Jovens que vivem em bairros violentados, onde a violência policial e de grupos criminosos é a chave organizadora da experiência pública e da resolução de conflitos. Mas também sujeitos culturais que, a despeito das adversidades, dançam, brincam, trabalham, “navegam” em múltiplas redes sociais dentro ou fora da internet, produzem conhecimentos, experiências e expectativas que somente em raras ocasiões conseguem penetrar na arena da escolarização.

Danilo Gonçalves, São Paulo/SP, em criação para expressar conhecimento

Talvez seja possível pensar as possíveis reorganizações curriculares não apenas como estratégias funcionais de favorecer o ensino-aprendizagem, mas também como políticas educativas e culturais que permitam reorganizar espaços e tempos de compartilhamento de saberes. A escola pode ser uma sede irradiadora da ampliação da experiência social pública e o direito de todos às riquezas materiais e simbólicas das cidades. Por que não pensar o currículo como tabuleiro de xadrez em que algumas peças se movem com alguma previsibilidade e linearidade e outras peças, como cavalos, reis e rainhas, fazem movimentos surpreendentes? Essa é uma metáfora de crítica aos currículos rígidos e uniformizadores que tentam comunicar e fazer sentido para sujeitos de múltiplas necessidades e potencialidades. É assim que enxergo o desafio cotidiano de organização de currículos flexíveis, capazes de comunicar aos sujeitos concretos da escola sem que, com isso, se abdique da busca de inventariar permanentemente a unidade mínima de saberes em comum, que as escolas devem socializar.

Não se trata de negar o planejamento pedagógico (a intenção do plano), mas de praticar a escuta e a atenção que pode nos lançar para o plano dos afetos, das trocas culturais e do compromisso político entre sujeitos de diferentes experiências e idades. Por que não? Não é isso que as pesquisas e a nossa própria experiência têm narrado, ou seja, que são aqueles espaços, tempos e sujeitos escolares nos quais os alunos e alunas encontram atenção e cuidado que lhes fortalece o sentido de presença na instituição escolar?

PAULO CÉSAR RODRIGUES CARRANO é professor da Faculdade de Educação e do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal Fluminense (UFF). Coordenador do Grupo de Pesquisa Observatório Jovem do Rio de Janeiro (www.uff.br/observatoriojovem) e do Portal Ensino Médio EMdiálogo (www.emdialogo.uff.br), é pesquisador do CNPq – nível 2. Dirigiu documentários sobre juventude e Ensino Médio e é autor dos livros Os jovens e a cidade (Relume Dumará, 2002) e Juventudes e cidades educadoras (Vozes, 2003).

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EDUCAÇÃO

3 DE CADA 4 JOVENS ESTÃO NO MERCADO DE TRABALHO

GRAU DE ESCOLARIDADE

2003

41%

dos jovens de 15 a 24 anos só tinham feito o Ensino Fundamental

6%

dos jovens de 15 a 24 anos tinham Ensino Superior completo

+50%

dos jovens de hoje chegaram ao Ensino Médio

25%

da geração de seus pais fizeram Ensino Médio

2013

29%

dos jovens de 15 a 24 anos só têm Ensino Fundamental

10%

dos jovens de 15 a 24 anos têm Ensino Superior completo

19%

dos jovens de 25 a 29 anos têm Ensino Superior completo

CONEXÕES

80%

DOS JOVENS USAM COMPUTADOR E/OU INTERNET

89%

DOS JOVENS TÊM CELULAR

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Jane Cardoso, São Caetano do Sul/SP, em expressão artística sobre conhecimento

Ao mesmo tempo que a sociedade idealiza a juventude como objeto de desejo, em contraponto ao envelhecimento, estigmatiza, teme e desconfia dos jovens, sobretudo os mais pobres. Discursos adultocêntricos esperam que eles apenas repitam valores e práticas da geração anterior, ignorando suas buscas plurais e seus desejos de avançar em campos que vão além do trabalho e do estudo tradicionais

Trajetórias reinventadas

Jailson de Souza e Silva | Observatório de Favelas

Fazer com que a escola seja vista como espaço-tempo culturalmente significativo é um desafio dos educadores. A seguir, professor comenta que, apesar das dificuldades, é possível criar uma nova dinâmica nas relações de ensino e aprendizado

Jane Cardoso, São Caetano do Sul/SP, em expressão artística sobre conhecimento

O ponto inicial deste artigo é o estabelecimento da devida distinção, prática e no campo das representações, entre “juventude” e os “jovens”. O primeiro termo se tornou um fetiche e objeto de desejo profundo de indivíduos contemporâneos, que aspiram a congelar sua experiência de vida nessa fase específica da sua trajetória. Para isso, eles são alimentados por uma perspectiva social hegemônica centrada na absolutização do consumo de bens distintivos, em particular do corpo. De fato, as indústrias do corpo, do entretenimento, da tecnologia e afins consideram que a juventude é o período por excelência da existência do indivíduo, devendo ser mantida de todas as formas possíveis. Nesse sentido, tornou-se politicamente incorreto designar alguém como “velho” ou “idoso”. E, em função do fetiche pela juventude, temos de conviver com expressões patéticas como “melhor idade”, “terceira idade” etc. Envelhecer, nesse quadro, tornou-se ameaça de descartabilidade, insegurança, fragilidade, inação e, de forma lata, impotência.

Os jovens, por seu turno, em sua concretude, são objeto de sentimentos de desconfiança, insegurança e/ou temor. Especialmente os mais pobres. A melhor demonstração desse fato materializa-se na relação inversamente proporcional entre a evolução das taxas de mortalidade infantil no país e de mortalidade juvenil por causas violentas nos últimos anos.

Com efeito, a taxa de mortalidade infantil brasileira declinou de 47,1 óbitos a cada mil bebês (menores de 1 ano) nascidos vivos em 1990 para 15,3 por mil em 2011.1 Esse resultado alvissareiro decorreu do maior compromisso do Estado com o problema – e contribuíram para isso o fato de esse indicador fazer parte do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH); a mobilização da sociedade civil, em particular a Igreja Católica, por meio da Pastoral da Criança; o sentimento de indignação que essas mortes provocavam no conjunto da população etc.

No caso dos jovens, a taxa de homicídios, que era de 44,8 por 100 mil jovens (de 15 a 29 anos) em 1996, foi para 57,6 por 100 mil em 2012, segundo o Mapa da Violência 2014.2

Como é sabido, se esse jovem for morador de favela ou periferia, negro e pouco escolarizado, sua chance de ser morto crescerá de forma exponencial. De 2002 a 2012, as taxas de homicídio de jovens brancos caíram 28,6%, enquanto a dos jovens negros aumentou 6,5%. Hoje, para cada jovem branco assassinado, morrem 2,7 jovens negros.3

Outro índice relacionado à violência mostra o aumento do número de prisões: “Entre 1995 e junho de 2011, a taxa de encarceramento (número de presos para cada 100 mil habitantes) brasileira quase triplicou. É a terceira maior entre os dez países mais populosos e põe em questão custos e benefícios de ter tantos presidiários. Se em 1995 havia uma pessoa entre 627 adultos presa, em 2011 essa proporção praticamente triplicou: uma pessoa para cada grupo de 262 adultos. Em São Paulo, com um quinto da população brasileira e um terço dos presos, um em 171 adultos está na cadeia”, como informa reportagem de 2012 baseada em dados do Ministério da Justiça.4 Cabe considerar que parcela expressiva dessa população carcerária está presa por causa de uma legislação restritiva no campo das drogas, que continua na contramão do que se vem fazendo em vários países para lidar com esse fenômeno central no mundo contemporâneo.

Sintetizando: ser jovem, negro e morador da periferia ou da favela é portar um “kit estigma” que gera um risco cotidiano de perder dois direitos fundamentais do ser humano: viver e permanecer em liberdade. Fenômenos esses que são naturalizados e “invisibilizados” pela insensibilidade cotidiana. Encontrar caminhos para combater esses fenômenos banalizados no cotidiano social talvez seja a ação mais relevante para a construção de uma vida mais digna e humana nos grandes centros brasileiros atuais.

O primeiro passo na direção da superação das formas como os jovens brasileiros são tratados é buscar apreender as representações que são construídas em relação a eles e as consequências práticas que elas geram. Há tempos convenci-me de que nenhuma figura expressa melhor o desafio dos jovens – os da atual geração e de todas as outras – do que a mítica Esfinge, com seu eterno e dramático convite “decifra-me ou te devoro”. De fato, a razão de ser da juventude, como categoria social, é devorar a geração anterior, reconstruindo, sob novas referências, a caminhada de Sísifo, o rei condenado pelos deuses pela falta de temor aos seus poderes. A pena de Sísifo é viver o cotidiano como labuta e com poucas pausas para a reflexão – reduzidas ao momento de liberdade em que ele desce da montanha para retomar sua sina. Como os deuses, que temem e punem Sísifo, os discursos adultocêntricos buscam classificar de forma reducionista os jovens, querendo que apenas repitam os valores, práticas e representações da geração anterior. Para isso, eles são definidos segundo determinadas referências, sendo a principal delas uma pretensa incompletude.

Como afirmava Aristóteles, os jovens não estariam preparados para viver na pólis, nos espaços de poder. Seus espaços devem, então, ser limitados, subordinados e reduzidos; no caso dos jovens pobres da periferia e das favelas, são ainda mais restritos. De fato, a juventude pobre continua a ser representada apenas na condição de problema social e, portanto, de objeto da ação do Estado ou das instituições sociais. Esse processo é alimentado, em grande medida, pelos meios de comunicação.

LABUTA COTIDIANA

“Os deuses condenaram Sísifo a empurrar incessantemente uma rocha até o alto de uma montanha, de onde tornava a cair por seu próprio peso. Pensaram, com certa razão, que não há castigo mais terrível que o trabalho inútil e sem esperança. Se dermos crédito a Homero, Sísifo era o mais sábio e prudente dos mortais. Mas, segundo uma outra tradição, ele tendia para o ofício de bandido. Não vejo contradição nisso.”

Albert Camus

CAMUS, A. O mito de Sísifo. São Paulo: Record, 2004.

A maior dificuldade dos adultos, em geral, na construção de formas mais generosas de interpretação das práticas dos jovens, se dá na relação com os campos de trabalho e de estudo. Parcela considerável dos jovens brasileiros vem construindo uma relação com o mercado de trabalho e com o campo educacional que se baseia em pressupostos distintos dos afirmados pelas gerações anteriores. Um aspecto relevante diz respeito à relação de satisfação com o trabalho realizado. Com a clareza de que terão de trabalhar por muitos anos até se aposentar, muitos jovens entendem, de forma sábia, que ter prazer e sentimento de realização no trabalho é um aspecto central, visto que dedicará a ele uma parte considerável de seu tempo. Da mesma forma, buscam viver a experiência presente com mais intensidade, em variados planos. Com isso, colocam em questão a tradicional e enraizada visão do trabalho profissional apenas como uma prática instrumental, mediadora para conseguir atingir outros campos de satisfação, tais como o acesso ao consumo de bens distintivos; a estabilidade profissional e/ou a garantia de um futuro seguro.

Júlia Cristofi, São Caetano do Sul/SP, em criação para expressar relações humanas

Assim, muitos jovens estão buscando trabalhar em ofícios que, além de trazer o ganho financeiro, proporcionem significação e prazer. Todavia, para muitos adultos, pais especialmente, abrir mão dos empregos que geram mais renda, status ou estabilidade é considerado um gesto irresponsável e imaturo. Eles não percebem que a perspectiva centrada no consumo e na segurança do futuro que norteava seu projeto profissional e educacional não se coaduna com as aspirações muitos jovens no mundo contemporâneo.

Não casualmente, foi disseminado pelos grandes meios de comunicação o termo “Nem Nem” para designar uma significativa parcela da juventude brasileira, especialmente dos grupos sociais populares, que não está inserida, de modo formal, no mercado de trabalho ou na instituição escolar. Numa visão reducionista de trabalho centrada no mercado tradicional e de educação centrada na escola, discursos alarmantes são produzidos a respeito da falta de objetivos e de sentido para a vida por parte desses jovens. A designação centrada na ausência e precariedade da vida cotidiana desse grupo etário, não por acaso, é a mesma utilizada em relação às favelas e seus moradores no mundo urbano. Essa forma de tratar essa parcela da população faz com que os caminhos para o enfrentamento da questão sejam estabelecidos de acordo com juízos moralistas e produtivistas, centrados nas instituições tradicionais do mercado de trabalho e da escola, sendo os jovens afirmados na condição de objetos de proposições que seriam adequadas às suas reais necessidades.

Veríssimo Junior, professor de Artes Cênicas da Rede Municipal de Ensino do Rio de Janeiro e diretor do grupo Teatro da Laje – formado por jovens de favelas cariocas –, tem uma irônica fala a esse respeito. Quando questionado sobre se já teria perdido algum jovem para o tráfico, afirma: “Para o tráfico, não, mas perdi vários para grandes lojas de varejo e redes de lanchonetes”. A visão utilitária em relação aos jovens dos espaços populares ignora suas buscas plurais e seus desejos de avançar em campos que vão além do trabalho manual. Desse modo, se perde a oportunidade de entender, efetivamente, quais são as reais aspirações dessa parcela da população e como seria possível, a partir delas, ampliar suas possibilidades existenciais.

O ser particularizado

Em um texto publicado sobre a juventude no primeiro ano do século XXI,5 afirmei que a população das grandes metrópoles, em geral, vinha desenvolvendo uma progressiva particularização da existência. A particularização se caracteriza pela valorização da vivência em um território homogêneo, de “iguais”, sem parâmetros mais abrangentes de inserção na pólis. O lugar, físico e social, é o ponto de partida e de chegada para a vivência urbana. O ser humano particularizado seria representado, por excelência, pelo consumidor. Sem noção da cidade em sua inteireza, sem se sentir a ela pertencente e voltado para a aquisição de bens materiais distintivos, o ser particularizado tem como referência ética fundamental a sua satisfação pessoal e, no limite, a de seu grupo familiar. Com isso, torna-se cada vez mais raro o contato com a diferença, com o outro. Há uma progressiva perda, então, do sentido da vida coletiva, fato que gera o aumento da intolerância, da sensação de insegurança, além da dificuldade em incorporar uma ética de responsabilidade em relação ao espaço público.

O que temos assistido, nos últimos tempos, é o aprofundamento desse processo. A intolerância coloca em risco o futuro do país como espaço de vivência política no qual convivem, de forma fraterna, os diferentes. Para superar esse limite, muitos jovens cumprem um papel fundamental. Cabe a eles optar por construir suas caminhadas de forma distinta, ou não, das traçadas por seus antecessores. Nesse processo de escolha, há várias formas de um novo presente ser elaborado. Para isso, cabe romper com a visão clássica de futuro e com o entendimento que devemos a ele subordinar, de forma absoluta, nossas experiências de vida e práticas sociais. O desafio é reconhecermos a importância do presente e caminharmos na busca de estendê-lo, construindo soluções para uma vida com sentido pleno desde agora e não apenas no devir.

O primeiro passo para chegarmos a essa percepção é reconhecer que os jovens formam, em território múltiplos, variados mecanismos e redes para a expressão dos seus desejos, temores e crenças – suas subjetividades, enfim. Em geral, esses espaços são mais expressivos estética e geograficamente do que os mantidos pelos adultos. Manifestadas, muitas vezes, em “tribos”, “galeras” e/ou grupos restritivos, essas territorialidades podem ser referências preliminares para a inserção social mais abrangente. O que se manifesta, de forma velada, é a necessidade de pertencer, de enraizar-se, de criar vínculos.

Mundo das cidades, de Leticia Hayashi Farias, retrata centros urbanos. Foi criado para ilustrar o tema despertar

Mais do que materializarem produtos concretos, as redes dos jovens, vistos como cidadãos e, portanto, constituídos de poder, podem estimular diferentes grupos a se encontrar, partilhar suas experiências e ter possibilidade, de acordo com suas características e interesses, de articular iniciativas comuns. Logo, a palavra-chave continua sendo “encontro”. E, a esse respeito, os jovens têm muito a ensinar. Em uma cidade marcada pela segregação e insegurança como o Rio de Janeiro, eles são os que mais buscam novas experiências e a construção de novos vínculos e mais se abrem para lidar com as diferenças. No cotidiano na cidade, das mais variadas formas, diferentes encontros estão ocorrendo entre os jovens e/ou os seus grupos.

Os jovens têm muito a ensinar sobre encontro. Em realidades marcadas pela segregação e insegurança, eles são os que mais buscam novas experiências e a construção de novos vínculos

O que eles precisam, no plano do poder, é deixar de ser considerados como objetos de políticas públicas; de ouvir palavras, proferidas com ótimas intenções, de que eles devem ser retirados das drogas, da violência e de uma vida sem projetos. Isso porque, mesmo quando se fala em torná-los protagonistas, termo banal e sem consequência, a lógica é modelar, enformar, enquadrar. Claro que os jovens estão em período de formação em termos culturais, profissionais e existenciais. Isso não significa que se deve desconsiderar seus saberes, suas vivências, expectativas e formas de inserção na cidade. Sem levar tudo isso em conta, os projetos pedagógicos dirigidos aos jovens pecam pelo desconhecimento de suas demandas e possibilidades subjetivas e objetivas.

Por fim, os discursos adultocêntricos buscam, comumente, apenas exigir dos jovens das cidades – e dos campos – que levem suas rochas montanha acima e cumpram sua pena cotidiana, como novos e conformados Sísifos. Ao contrário dessa proposição, cabe reconhecer os novos discursos expressivos que vêm sendo produzidos em variados territórios. E garantir espaços e iniciativas que permitam a ação abrangente dos jovens nas políticas públicas da pólis, reconhecendo-os como parceiros na construção de uma nova cidade, mais solidária e justa. Nesse momento, a cidade estará, em seu cotidiano, sendo revolucionada. E Sísifo poderá, então, no mundo da utopia coletiva, ser libertado de sua pena e premiado por sua ousadia maior, a de ser humano, simplesmente humano.

JAILSON DE SOUZA SILVA é professor da Universidade Federal Fluminense (UFF), doutor em Educação e diretor-geral do Observatório de Favelas.

  • Addara Macedo (esq.) e Adriana Ornelas

  • Adriana Ornelas (esq.) e Samara Melo

  • Adriana Ornelas (esq.) e Samara Melo

  • Valnei Succo (esq.) e Jefferson Sanchez

  • Jefferson Sanchez (esq.) e Adriana Ornelas

  • Julia Cardoso de Oliveira

  • Da esquerda para a direita: Samara Melo, Jefferson Sanchez, Valnei Succo, Addara Macedo, Adriana Ornelas e Julia Cardoso de Oliveira

  • Da esquerda para a direita: Adriana Ornelas, Samara Melo, Valnei Succo

  • Jefferson Sanchez [detalhe]

  • Da esquerda para a direita: Samara Melo, Jefferson Sanchez, Valnei Succo, Addara Macedo, Adriana Ornelas, Julia Cardoso de Oliveira

  • Addara Macedo [detalhe]

  • Valnei Succo e Julia Cardoso de Oliveira

Crítica construtiva

Em bate-papo, jovens envolvidos com projeto social veem na busca de conhecimento e na troca de experiências possíveis caminhos para um futuro melhor

Reunidos pelo Caderno para uma conversa, seis jovens falam sobre suas trajetórias, motivações e perspectivas. Contam sobre a influência recebida pela família e o que pretendem deixar para as próximas gerações. Em comum, o envolvimento com o projeto Escola Popular de Comunicação Crítica (Espocc), do Observatório de Favelas, organização social de pesquisa, consultoria e ação pública dedicada à produção do conhecimento e de proposições políticas sobre as favelas e fenômenos urbanos sediada na Maré, no Rio de Janeiro, mas com atuação nacional. Entre os participantes entrevistados, há os que frequentam as aulas, os que trabalham na escola e aqueles que foram alunos e atualmente contribuem para o andamento do projeto.

Adriana Ornelas, 26 anos, moradora na Vila Kenedy, cursa o último ano de Jornalismo; Samara Melo, 23, moradora do Maracanã, formada em Jornalismo; Valnei Succo, 26, residente em Rocha Miranda, aluno de Artes Visuais; e Jefferson Sanchez, 26, morador do Irajá, formado em Comunicação Visual e estudante de Publicidade, trabalham no Observatório de Favelas. Já Julia Cardoso de Oliveira, 22 anos, residente em Campo Grande, e Addara Macedo, 26, moradora da Abolição, fazem o curso de Publicidade Afirmativa na escola da ONG.

A escola, criada em parceria com a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), oferece o curso de Publicidade Afirmativa, que tem por objetivo promover os valores de sociabilidade, a cultura e o empreendedorismo comunitário e socioambiental.

Na conversa a seguir, eles contam parte de suas histórias e revelam o que esperam do futuro.

Importância do projeto

Samara – Aqui todo mundo fala a minha língua. Todo mundo tem mais ou menos a mesma realidade, a gente trabalha junto, aprende junto, erra junto, conquista junto, e eu acho que isso é o mais encantador.

Valnei – Eu aprendi um pouco antes de chegar aqui, em 2011 mesmo, a me defender. Fiz um curso de Jornalismo Comunitário. E aqui eu ganho mais embasamento, para saber por onde seguir, qual é a minha linha de raciocínio. As aulas trazem essa crítica, de você se olhar no espelho e dizer: será que o que eu penso é o que eu penso mesmo? Ou será que é uma ideia que botaram na minha cabeça?

Julia – E o melhor é que é num ambiente perto da favela, e eu sou da favela, entendeu? Por exemplo, se você fosse ensinar num outro ambiente, teria uma pegada diferente. Aqui você se sente mais integrado. Eu também comecei a sentir orgulho maior de vir de onde eu vim. Você não precisa mudar tanto, você pode continuar como você é. Hoje eu estou fazendo curso de Administração do Senai [Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial] também.

A “responsa” dos jovens

Valnei – Eu acho que o jovem tem a responsabilidade de resolver os problemas do mundo. Em cada época, tem uma juventude que vai estar preocupada em resolver o mundo. E aí tem uma parcela da população que não resolve, fica frustrada, fica velha e tenta resolver, acha que é jovem ainda. Mas isso não é problemático, isso é bom. A galera vai pra frente pensando em resolver. Mas ser jovem é isso. A gente está hoje brigando muito contra o genocídio que acontece hoje no Brasil, do jovem. A gente mata mais do que guerra, se for botar na ponta do lápis. E é algo que eu acho que não vai parar agora, mas eu tenho de fazer o meu esforço agora para, sei lá, daqui a 80 anos isso funcionar. Tem de tentar desnaturalizar isso, não pode ser natural. E a intenção é mudar isso agora. Mas você não consegue fazer esse processo num estalar de dedos, infelizmente.

Samara – A gente tem uma “responsa” muito grande, porque a gente hoje vive uma consequência do que os jovens que brigaram contra a ditadura militar conquistaram... Hoje o país vive uma política que foi conquistada por jovens que meteram a cara, brigaram, estiveram lá. E a gente é meio cobrado por isso. Eu sinto que, quando a gente foi pras ruas no ano passado, todo mundo falou: “Ahhh, então vai começar”. Aí todo mundo começou a lembrar: “Quando eu era jovem, eu também fui”. Pais levando os filhos para as ruas, pra incentivar. A gente tem uma carga disso, de querer mudar o país, um peso nas nossas costas.

Julia – Eu acho que tem de quebrar essa coisa do “jovem”. Quando você bater lá nos 29 anos, quando dizem que você não é mais jovem, vira velho, vai casar, vai ser um conservador e tudo mais? Você continua o que é agora para sempre. Não acho que vai diminuir o que eu penso agora quando eu tiver 30, 35 anos. Tenho de continuar a minha responsabilidade social, a minha ação dentro da comunidade, a minha conexão com outras pessoas, sabe? Quando você fecha muito a coisa – “jovem”–, é como se as outras pessoas não existissem, fossem descartadas. “Você aí, de 30, 40 anos”... Não, tem de trazer essas pessoas para cá também. Você fecha muito, eu não gosto desse fechamento “jovem”. Ouço muito “os jovens são tão importantes”. Mas todo mundo é importante.

Maiores desafios

Samara – É estar ligado o tempo inteiro nas coisas que estão surgindo e se meter em tudo, sem ter tempo. O grande desafio é estar sempre antenado.

Adriana – Tentar ingressar no meio profissional. Você tem de ser multiuso: saber programa de design, saber inglês, fazer trabalho voluntário. O mercado quer que a pessoa tenha mil e uma utilidades, com salário merreca. Tem estágio pagando R$ 300 para uma pessoa que trabalha seis horas por dia, uma passagem só de ida e volta. Esse é o pior desafio.

Valnei – Conseguir colocar para as gerações que estão na nossa frente e para as gerações que estão vindo as preocupações que a gente tem hoje. O que a gente pode deixar de legado, no que a gente pode contribuir de verdade. E aí, será que um dia a gente consegue pôr isso em prática e mudar, atravessar as barreiras? Porque eu não quero que a minha filha sofra os preconceitos e as discriminações que eu sofri e sofro.

Jefferson – Tempo. Ou a falta dele. Para investir mais nos meus estudos. Eu trabalho em agência de publicidade, venho pra cá – e aqui é um lugar onde eu absorvo muito, aprendo muito, e, assim, às vezes me falta tempo mesmo. Não só porque eu trabalho nesses dois lugares. É porque falta tempo mesmo no dia.

O que motiva a estudar

Samara – A minha família me motivou muito a estudar. Meus pais não tiveram a oportunidade que eu tive. A minha mãe foi fazer faculdade com 30 e poucos anos. Ela se formou com 40 anos. Meu pai está fazendo só agora, próximo aos 50. Então, a minha mãe sempre cultivou isso em casa. Ela sempre cobrou isso de mim e da minha irmã. A consequência disso foi eu ter me formado aos 22 anos em Jornalismo. Eu nunca me vi sem estudar. Já estou procurando um mestrado, outra faculdade, especialização.

Addara – E hoje a gente pode, né? A gente não tem de ficar na mesma faculdade, a gente não tem de ficar a vida inteira na mesma empresa. Hoje em dia é até bem visto o profissional que procura novos conhecimentos, novas empresas. Aprendeu em uma, vai pra outra.

Julia – Dá uma satisfação incrível você saber alguma coisa. Abre sua mente, abre os lugares, a sua visão. Parece que você vai se construindo aos poucos, e isso é legal. Você vai mudando com as coisas que aprende, você vai mudando seu ambiente, vai crescendo. Eu gosto de ver que não estou estagnada em alguma coisa.

Adriana – Eu tenho a sede do conhecimento. O meu professor de Economia diz: “Quanto mais você aprender, melhor, porque só assim você vai ascender profissionalmente. Você nunca mais vai parar de estudar”. Porque o profissional sempre tem de estar atualizado. Se você não se aprimora, fica na geladeira.

Addara – Eu não fiz vestibular porque meus pais não incentivavam, achavam que eu não ia passar. E aí, por algum acaso do destino, eu fiz o Enem. E aí veio o programa ProUni e consegui a bolsa integral na faculdade, me formei e aí estou fazendo outros cursos. E quero fazer mais uma faculdade que não tem nada a ver. Eu me formei em Administração e quero fazer Nutrição. Estou fazendo audiovisual, fotografia, porque eu quero trabalhar com isso – que são trabalhos que dão muito prazer e não tomam todo o tempo, aí eu vou poder fazer a faculdade de Nutrição. E pretendo futuramente ainda fazer a faculdade de Biologia.

Relação com o trabalho

Samara – Essa é muito fácil pra mim. Eu fui aluna da Espocc, eu acredito muito no projeto. Acho que faz uma diferença danada. Conheço várias pessoas que passaram por aqui [e ficaram com] o desejo de continuar estudando, de continuar se aprimorando para estar fazendo a diferença, sabe? A gente está sabendo buscar as coisas. E é muito prazeroso.

Valnei – Pra eu enxergar o trabalho, ele não deve parecer um trabalho. E aí eu acho que aqui acontece isso. Eu não enxergo a Espocc como trabalho, mas como um estilo de vida. É outra pegada.

Jefferson – Eu já tenho definido que eu não quero trabalhar em empresa porque não quero bater cartão. Na agência eu já virei a noite terminando projeto, mas eu faço isso com mais prazer do que ter aquelas oito horas certinhas e ter que bater cartão.

Julia [não trabalha ainda] – Meus pais são um grande modelo do que não seguir. Os dois sempre tiveram trabalhos de que não gostavam, só pra sustentar os filhos e se sustentarem. E também nunca adquiriram nenhuma paixão por nada. Eles achavam que aquele trabalho já estava bom, era pra isso que servia. Eu acredito que eu dou mais valor a você se sentir bem. De que adianta você ir pra um lugar, passar oito horas, sair estressado, dormir estressado, só pra comprar um celular último modelo?

Por Gisele Gomes

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Fabiella Flores, Florianópolis/SC, em expressão artística sobre ação

Estimular jovens a criar, apresentar e defender suas ideias. Esse é o propósito da Agência de Redes para a Juventude, no Rio de Janeiro. Os melhores projetos recebem apoio para serem viabilizados. O coordenador da entidade comenta as narrativas acerca dos jovens e, na sequência, participantes dessa experiência falam sobre ser jovem, seus sonhos e realizações

De baixo pra cima

Marcus Faustini | Agência de Redes para a Juventude

Estimular jovens a criar e defender suas ideias é o propósito da Agência de Redes para a Juventude. O coordenador da entidade carioca comenta as narrativas acerca dos jovens e, na sequência, participantes dessa experiência falam sobre sonhos e realizações

Fabiella Flores, Florianópolis/SC, em expressão artística sobre ação

Existe um excesso de falas, pensamentos e formulações sobre a ideia do jovem de origem popular. Mas não exatamente um excesso que revela uma quantidade diversa e profunda de opiniões. A escassez de diversidade é uma marca desse excesso. O aspecto central é um olhar que alimenta um senso comum, taxativo, de cima pra baixo, que carimba a ideia sobre esse jovem com caracterizações carregadas nas tintas, que tiram e singularizam suas trajetórias e subjetividades. Uma visão que se limita a narrativas infladas e marcadas pela desqualificação: “Esse jovem é uma questão social brasileira”; “É alguém que não sabe o que é e o que quer!”; “Não quer nada na vida”; “Na minha época de jovem, eu não era assim como você”. O modo mais amenizado para se referir tem um olhar que não foge muito do ponto de vista desqualificador: “É uma fase de transição”; “Ele ainda está descobrindo o mundo”.

Seja pela escolha de narrativas que valorizam apenas aspectos que apontam carências ou pela desqualificação, todos esses pontos de vista, arrisco aqui, são uma tentativa de controle dessa juventude. Evidentemente, não me refiro a análises e estudos sociais que organizam importantes esforços para revelar aspectos gerais das desigualdades às quais essa juventude está submetida. Estudos têm funcionado como instrumentos poderosos de lutas para reverter essas desigualdades e garantir direitos por parte de movimentos e sujeitos organizados em torno dessa causa.

A proposta aqui, no entanto, é provocar uma breve reflexão sobre o assunto, mostrando que ações positivas de trabalhos com esses jovens – como aquelas a que venho me dedicando ao longo dos anos, que buscam visibilizar esses jovens em suas potências e qualidades criativas – possuem êxitos importantes, conseguem reverter desigualdades, mas acabam, muitas vezes, ainda marcadas pelo limite do “controle discursivo” sobre suas trajetórias, com narrativas de superação extraordinárias e exemplares, que reiteram, sutilmente, esse senso comum que desvaloriza a diversidade de singularidades.

Reverter essa pouca presença de narrativas desses próprios jovens sobre eles mesmos, longe de controles narrativos identitários ou mercadológicos, é um passo importante que pode contribuir para o aumento da diversidade de formulações sobre o assunto e aumentar o lastro de possibilidades para a garantia de direitos.

Isso deve ser feito em processos de baixo para cima – percebido aqui como um jogo de armar ambientes de convivência e criação, onde possam surgir descontroles que inventem novas expressões e novas institucionalidades. O momento é muito mais de mapear ações que revelem indícios desse possível jogo do que produzir mais uma vez um conceito novo sobre o assunto.

MARCUS VINÍCIUS FAUSTINI é escritor, diretor teatral e coordenador da Agência de Redes para Juventude.

Ana Paula Lisboa

26 anos, trabalha na coordenação metodológica da Agência. Mora na Maré, cursa Letras na Universidade Estácio de Sá

Objetivo de longo prazo

Longo prazo? Não consigo pensar nesse tipo de pergunta, nunca consegui responder [risos]. Daqui a cinco anos, eu vou estar com 31. Ai, meu Deus, já não vou ser mais jovem! Eu acho que tem uma coisa de pobre mesmo, que eu aprendi com a minha família, que é de estabilidade. Minha família sempre foi muito nômade. A gente tinha uma vida muito instável. A gente conseguiu uma estabilidade quando foi morar no Engenho Novo. Estou no segundo casamento. Enfim, é uma vida estável e instável ao mesmo tempo. Então, eu acho que o meu objetivo é a estabilidade. Emocional, financeira. Uma estabilidade do país, da cidade, de alguma forma.

Direito de experimentar

A juventude, especialmente de território popular, conseguiu ter o direito da experimentação, que a gente não tinha. A gente tinha que ter carteira assinada muito cedo. Tinha que ter uma família muito cedo. Então, a gente conseguiu poder entrar numa faculdade e falar: ‘Eu quero fazer isso’ ou ‘quero mudar, fazer outra coisa’. Então, a partir do momento em que a gente teve esse direito, acabou vindo muita vontade de experimentar e de viver outras coisas que não necessariamente você vai passar a vida inteira fazendo, mas que acrescentam para a sua formação, para a sua vida.

Marcos Vinicius da Silva Santos

17 anos, mora na Cidade de Deus, estudante do 2º ano do Ensino Médio. Fez estágio no Tribunal Regional do Trabalho. Trabalha em um bar da família das 10h às 17h

Mais que querer

Eu quero fazer faculdade de Direito. Quero não, eu vou fazer. Daqui a uns dez anos eu já vou ter feito a faculdade, vou estar me formando, podendo advogar, e vou tentar ser feliz. Tentar não, ser feliz. Eu até brinco com as meninas porque elas dizem que querem ser ricas, eu não quero ser rico. Porque eu acho que a pessoa que é rica não é feliz. Quero ter dinheiro suficiente para me sustentar e ser feliz. Porque a pessoa que tem muito dinheiro vai conquistar mais o quê? Não vai comprar as duas coisas que o dinheiro não compra: amor e felicidade.

Necessidade e potência

A favela é conhecida por ser um lugar precário, e é. Vou dar um exemplo. Eu sou um jovem favelado, ele é o jovem playboy. Ali tem uma cortina grande. Ele tem dinheiro para comprar aquela cortina e eu não. Então, eu tenho de dar um jeito de fazer aquela cortina. Daí surge a minha criatividade. Eu tenho a metade de um e a metade de outro, eu vou tentar costurar para ela virar uma cortina grande. A necessidade cria a potência. E muito jovem não sabe que é potente, e não só com relação a coisas materiais, mas na vida mesmo, passa por coisas que acha que não vai conseguir passar por pensar que não é potente. Ele é potente para tudo.

Elaine dos Santos Rosa

25 anos, mora no Engenho Novo, estudante de Produção Cultural no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia (IFRJ), trabalha como freelancer em projetos

Fazer a diferença

Eu tenho mania de escrever sobre o que eu quero, de acordo com cada ciclo da minha vida. E eu acho que o meu ciclo sempre foi trabalhar com alguma coisa que tivesse a ver com projeto social, ter uma ONG, trazer felicidade para as pessoas. Nisso também entra a questão da minha religião, em que um dos pilares é a felicidade do próximo. Sou de uma família humilde, mas eu não estou dentro de uma favela hoje. Já residi em lugares de mais difícil acesso e é muito importante educar e trabalhar em atividades que possam fazer a diferença na vida dessas pessoas.

Estamos aqui

Se a gente pode criar esses mecanismos a partir de projetos como os da Agência ou outros, que bom! É uma forma de começar. Tem a questão do empreendedorismo, de mostrar para o jovem como ele pode se manter, fazer isso por outras pessoas e não precisar ficar sempre dependendo de bolsa, tirar essa mentalidade. As bolsas e as cotas são uma medida imediatista e nós precisamos começar de alguma forma. Não precisamos continuar com isso para toda a eternidade, mas é uma forma de começar e falar: ‘Olha, estamos aqui’.

Marjan Sodré da Fonseca Rosa

25 anos, mora em Costa Barros, bairro do Complexo do Chapadão, trabalha como DJ, MC, cineasta. Trancou o curso de Educação Física por falta de tempo para estudar

Objetivo de vida

Eu me vejo realizado em questão de produção artística. Como artista e como produtor artístico. Alguns anos atrás surgiu o sonho de ser um Jay-Z do Brasil. Jay-Z é o cara que tem a maioria dos grandes músicos de black music na mão dele. Ele que promove, produz, dá visibilidade e ganha um dinheiro com isso também. No início da minha adolescência, eu pensava muito nisso. Hoje, nem tanto. Eu só quero conseguir ser uma ferramenta dessa promoção artística de jovens que moram nesse extremo da Zona Norte [Rio de Janeiro], não apenas na favela, mas na Zona Norte inteira, onde nós não vemos um incentivo. Temos muitos artistas com diversos talentos, mas que não conseguem desenvolver.

O que mudaria no mundo

Eu promoveria um programa de conscientização de pequenas ações altruístas, da pessoa se preocupar em ajudar o próximo. Porque o grande problema do mundo é a pessoa pensar só em si. ‘Eu penso só no meu umbigo.’ Quando você passa a se preocupar com a felicidade do seu próximo, isso se torna uma corrente, uma coisa viral. Coisas simples: você dá bom-dia, ajuda o seu vizinho. Isso muda a vida da pessoa, muda o seu humor naquele dia e muda toda a gama de atitudes que ela teria naquele dia. E quando chega em casa já trata a família diferentemente.

Isabela dos Santos Pinheiro

20 anos, estuda Geografia na Universidade Federal Fluminense e participa do projeto Boreart, que se propõe a aproximar as pessoas do Borel, comunidade onde mora, no Rio de Janeiro, das artes em geral

Projetos e sonhos

Meu sonho é ser professora de faculdade, pretendo fazer mestrado, doutorado. Acho que me encontrei na Geografia, especialmente urbana. Eu quero continuar com projeto social, porque dá resultados. Você não fica só na teoria, está fazendo alguma coisa que envolve pessoas. Eu queria, lá na frente, poder olhar para trás e dizer: ‘Me envolvi com tanta gente, aprendi tanta coisa e também pude ensinar’.

Ser jovem é...

Ter a possibilidade de fazer tudo, de ser tudo. Ter a capacidade de escolher e, se não for aquilo, poder escolher outra coisa. É ter toda uma vida à frente.

Visão sobre o jovem

O jovem normalmente é tachado de preguiçoso, que não quer nada com nada, não se rebela contra nada. Não é verdade. A sociedade acaba criando estereótipos onde não há, ela não consegue ver além. Ela não quer ter de se preocupar com aquilo, não quer ver que as injustiças dos outros são as injustiças dela.

Veruska Delfino

26 anos, mora no Engenho Novo, atriz, faz licenciatura em Teatro na Universidade Estácio de Sá. Trabalha como coordenadora de produção na Agência

Impactos diferentes

A Agência não trata o jovem como aluno, o trata como criador, como um cara que, se tiver acesso a coisas que estão ligadas à cidade, ao território, vai conseguir desenvolver alguma coisa. A gente não tem a pretensão de que todos vão virar agentes, criar ONGs, fazer a ideia virar projeto. Não, os impactos são diferentes. Tem um cara que vai pensar grande, que quer virar instituição e projeto. Tem um cara que vai pensar: ‘Opa, eu posso entrar na universidade, num curso técnico’. E a gente foi entendendo isso como um processo. No início, a gente achava: ‘O nosso bom resultado é se eles virarem projetos’. Hoje a gente entende que os resultados são diferentes dependendo da trajetória de cada jovem.

Ansiedade e visibilidade

Eu acho que ser jovem é uma ansiedade de chegar à vida adulta. Como vai ser a minha vida adulta? Tem essa ansiedade de autonomia, essa ansiedade de não depender mais da família, de sair de casa, de fazer coisas, de ter visibilidade. Eu acho que, hoje, o jovem selfie quer mostrar ter um espaço, ter um lugar de fala, um lugar de visibilidade. E a rede social é incrível nesse sentido de encorajamento de expressão. De coisas que quando eu estou sozinha, eu tenho coragem de escrever e publicar o que eu não falaria. Que eu não teria a oportunidade de falar pra uma quantidade de gente. Então, eu acho que é um desejo de autonomia e essa energia de fazer coisas, de estar inserido.

POR GISELE GOMES

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RECEIOS

O QUE MAIS PREOCUPA (DECLARAÇÃO ESPONTÂNEA)

43%

VIOLÊNCIA

34%

EMPREGO OU PROFISSÃO

26%

SAÚDE

23%

EDUCAÇÃO

17%

DROGAS, CRISE ECONÔMICA E FAMÍLIA

Fonte: Agenda Juventude Brasil, 2013/SNJ.

HISTÓRICO DE PERDAS

51%

DOS JOVENS JÁ PERDERAM PARENTE OU AMIGO DE FORMA VIOLENTA

22%

POR ACIDENTE DE CARRO

21%

POR HOMICÍDIO

3%

POR SUICÍDIO

Fonte: Agenda Juventude Brasil, 2013/SNJ.

DISCRIMINAÇÃO

26%

DOS ENTREVISTADOS DISSERAM QUE JÁ SOFRERAM ALGUM TIPO DE DISCRIMINAÇÃO

7%

DELES DISSERAM SER POR SUA APARÊNCIA

6%

DELES DISSERAM SER POR SUA CONDIÇÃO SOCIAL

5%

DELES DISSERAM SER POR SUA COR / RAÇA

Fonte: Agenda Juventude Brasil, 2013/SNJ.

TOTAL DE HOMICÍDIOS POR COR (TODAS AS IDADES)

73%

DE PRETOS E PARDOS

26,5%

DE BRANCOS

0,1%

DE AMARELOS

0,4%

DE INDÍGENAS

Fonte: Mapa da violência, 2014/Flacso

ANSEIOS

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Além de outros estigmas, o jovem que vive no campo ainda enfrenta questões relacionadas à migração para as cidades. Uma discussão que envolve preconceitos, afirmação de identidades, necessidades econômicas ou busca de opções de lazer, educação e inclusão digital. No artigo a seguir, antropóloga traça um panorama da juventude rural no Brasil

Fronteiras invisíveis

Fronteiras invisíveis | Elisa Guaraná

Além de outros estigmas, o jovem que vive no campo enfrenta questões relacionadas à migração para as cidades: preconceitos, necessidades econômicas, busca de lazer, educação e inclusão digital. A seguir, antropóloga traça panorama da juventude rural no Brasil

“Os jovens estão indo embora!” Essa expressão sintetiza uma representação social persistente sobre a juventude rural no Brasil. Essa juventude rural é constantemente associada ao problema da migração do campo para a cidade. Contudo, ficar ou sair do meio rural envolve distintas questões. Ser jovem e viver no meio rural brasileiro carrega múltiplos significados e desafios.1

Gutto, Porto Alegre/RS, em ilustração para expressar ação

Pesquisas e a voz ativa de jovens do campo – ouvida em espaços como o Conselho Nacional de Juventude2, no qual eles têm representação – demonstram que o tema é bem mais complexo que a ideia de opção voluntária de permanecer ou sair do meio rural. Muitas vezes, trata-se de circulação entre o campo e a cidade como estratégia familiar de reprodução do seu meio de vida. Marilda Menezes e Marcelo Saturnino mostram como a circulação de jovens trabalhadores rurais que se deslocam anualmente dos estados do Nordeste para o Sudeste e trazem questões importantes para o tema da vivência da juventude no campo no Brasil hoje. A maioria dos que ocupam postos de trabalho na colheita da cana-de-açúcar são jovens e homens. Os jovens homens passam, em média, nove meses fora, e as jovens permanecem cuidando de todas as atividades da casa e da “roça”. A vivência da migração temporária é dolorosa para todos.3

Mas a circulação pode ser por diversos interesses, por lazer, para dar continuidade aos estudos, visitar parentes. Maria de Nazareth Wanderley aprofundou-se nessa perspectiva estudando os jovens rurais de pequenos municípios de Pernambuco, em 2007, demonstrando que eles querem “o melhor dos dois mundos”, quando avaliam o presente e o futuro.4 Ou seja, desejam a qualidade de vida do campo, atuando em atividades agrícolas e não agrícolas, e fazer parte do viver a juventude que não tem fronteiras. A pesquisa Agenda Juventude Brasi5 mostrou que, além da migração campo-cidade, o contrário também ocorre, ainda que em menor proporção. E que os jovens no campo se informam por meios similares aos dos jovens que vivem em áreas urbanas: em primeiro lugar a televisão (92%), seguida pela internet (1,8%).

Diferenças e aproximações

Os jovens que vivem no campo, ou parte do tempo no campo e outra parte na cidade, acessam a internet, utilizam redes sociais, vestem-se e têm gostos musicais similares aos dos jovens de áreas urbanas. Ao mesmo tempo, organizam-se em grupos de culturas tradicionais e valorizam sua identidade como quilombolas, agricultores familiares, seringueiros, quebradeiras de coco de babaçu, camponeses, assentados, e muitas outras formas e culturas que se expressam no campo e nas florestas brasileiras. Ou seja, as várias populações que vivem no campo, cuja diversidade foi formalizada na Política Nacional da Agricultura Familiar e dos Empreendimentos Rurais.6

Após dez anos de negociações políticas e trâmite no Congresso, o Estatuto da Juventude (Lei nº 12.852) foi sancionado em 5 de agosto de 2013. A lei reconhece a diversidade da juventude brasileira: homens, mulheres, negros, brancos, indígenas, de diversos matizes religiosos, com importantes diferenças regionais e orientações sexuais. Portanto, há um reconhecimento de que a juventude brasileira é diversa, e por isso muitos pesquisadores preferem o termo “juventudes”.7

A juventude rural conquistou representação política em espaços de decisão sobre as políticas públicas de juventude, como o Conjuve, ou da agricultura familiar, como o Conselho Nacional de Desenvolvimento Rural Sustentável (Condraf), no qual a juventude tem um comitê permanente. Contudo esse reconhecimento ainda convive com uma realidade na qual o jovem rural enfrenta inúmeros preconceitos e vivencia processos de estigmatização.

Jovens valorizam sua identidade, que se expressa no campo e nas florestas

A jovem Jacqueline (nome fictício) é um caso emblemático para perceber as fronteiras invisíveis que separam as áreas consideradas urbanas e rurais. Ela nasceu em um município da região metropolitana do Rio de Janeiro e foi viver com sua família em um assentamento rural da reforma agrária. Sofreu preconceito na escola do pequeno município onde se localizava o assentamento, na Baixada Fluminense. Sua primeira reação ao chegar ao assentamento foi de forte estranhamento. Em seu relato, ela conta como tudo foi novidade, reforçando seu desconhecimento dessa realidade por ser “da cidade”: “Eu vim pra cá em 1994, [...] eu nunca tinha visto arroz, aquilo pra mim foi novidade. [...] Eu nasci em Belford Roxo, então, pra mim, sempre foi cidade. [...] A gente morava em São João de Meriti. [...] Eu nunca tinha visto essas coisas. Feijão, pra mim, era lá no mercado... [risos] até a época que a gente veio pra cá fazer colheita do arroz. [...] Aí, depois, eu comecei a me encantar por aquilo tudo.”8

O seu caso nos aproxima da realidade de muitos jovens que vivem diferentes trajetórias entre o campo e a cidade, mas que, via de regra, enfrentam o preconceito quando assumem suas identidades rurais. O processo de construção de pertencimento reordena as referências identitárias de Jaqueline, mesmo que essa identidade carregue o ônus de ser estigmatizada9 nos espaços urbanos por onde circula. Em sua narrativa, ela resgata a difícil experiência de ser “roceira” em duas escolas públicas localizadas no centro de Seropédica. A experiência foi vivida de forma dolorosa. Em momento algum de seu relato, ela aciona elementos da sua origem urbana como forma de defesa. Ao contrário, o processo penoso é enfrentado, reforçando a identidade rural e valorizando o conhecimento que esse universo lhe trouxe. Jaqueline foi estigmatizada desde que chegou à primeira escola. Esse tratamento, que ela descreve como “humilhante”, não foi minimizado por nenhuma intervenção do corpo docente ou da administração da primeira escola. “Dentro da sala de aula era assim: todo mundo me encarnava muito... por eu morar na roça. [Silêncio.] Todo mundo... só tinha eu. Todo mundo, sabe? E ninguém se apegava a mim. A única pessoa que eu tinha mais amizade era uma menina que morava em frente à escola e que, às vezes, me via chorando, às vezes, ela... chegava... Poxa! Tinha hora que eles me humilhavam. Assim: diziam que eu era ‘roceira’. É... que eu era bicho do mato... Então, aquilo, poxa! Eu era nova ali. Eu não conhecia nada, não conhecia ninguém. Então, às vezes, eu reclamava com o professor. Ficava até com vergonha de falar. Então, ficava por isso mesmo, sabe? [...] Eu ficava sem jeito de falar até em casa.10

Após um ano nessa escola, ela foi transferida para outra e continuou a vivenciar forte estigmatização, mas, nesse caso, a intervenção de um professor foi decisiva para a mudança de comportamento dos demais alunos com Jaqueline. Nesse relato, os valores rurais são tidos como positivos e associados a um conhecimento só adquirido por meio da experiência. A narrativa reforça o processo de construção identitária associada à ideia de “localidade rural” por meio da vivência nessa realidade: “Aí, [na escola X] foi a mesma coisa [...] eles me chamavam de ‘roceira’, só que, às vezes, até pior. Os meninos, mesmo, ficavam muito no meu pé. Às vezes, eu chegava na sala, aí tinha uma turminha rindo. [...]. Aí, um dia, o professor A...., ele tinha um sítio no Sá Freire [localidade próxima ao assentamento]. [...] E ele, um dia chegando em sala de aula, ele me pegou quase chorando. [...] Aí, perguntou: ‘O que foi? O que tá acontecendo?’. Aí, eu expliquei pra ele. Ele: ‘Ah, é? Peraí’. Depois que entrou todo mundo, ele: ‘Hoje nossa aula vai ser sobre comida.’ ‘Como isso, professor? Como é que você vai dar aula de comida em Geografia?’ Aí, ele começou a falar sobre o solo, falar sobre as plantações, e as perguntas dele ninguém sabia responder, eu era a única que respondia. Assim: ‘Como é uma vagem de arroz? Como é que se planta o feijão?’. [...] E eu expliquei. Então, ele mandou eu ir no quadro explicar e fazer desenhos, que eu sempre desenhei... Então, eu comecei a dar aula junto com ele, e aquilo me engrandeceu muito. Aí, ele falou sobre o aipim [...] falaram assim pra ele: ‘Professor, como é que a gente tira o aipim?’. Um virou e falou assim: ‘Ué! Cê vai lá e quebra ele na folha e pega’. Aí, eu falei assim: ‘Não é assim. O aipim é uma raiz. Você tem que arrancar o pé pra tirar a raiz’. Ele me ajudou muito. [...] A turma ficou toda boba comigo... Aí, ele começou a dizer que, se não fossem pessoas como eu, eles não teriam comida. Que eles não iriam comer. Que eles tinham de dar graças a mim, às pessoas da roça... Com isso, todo mundo pegou amizade comigo, todo mundo queria andar comigo. Tudo mudou, totalmente naquele dia, sabe? Eu gosto muito dele até hoje.”11

Esse relato nos apresenta uma vivência que demonstra ao mesmo tempo o estigma e a distância entre a valorização do campo e da cidade e como é possível enfrentar essa questão.

Migrar do campo para a cidade é uma decisão que aparece no horizonte de jovens há várias gerações

Desafios da juventude rural

Sabemos que ainda há distâncias importantes entre o meio rural e o urbano. A conexão digital, a mobilidade, acesso ao ensino médio e opções de esporte e lazer são sempre lembrados pelos jovens como distâncias importantes entre o campo e a cidade no Brasil. Mesmo com os importantes avanços alcançados no acesso a serviços e mudanças nas condições de renda. No ano 2000, tínhamos 4.806.016 jovens rurais no Brasil entre 15 e 29 anos com renda abaixo de R$ 140,00, de um total de 8.443.905 jovens vivendo com essa renda no Brasil. Em 2010, esse número decresceu para 3.269.248 jovens rurais nessa condição de renda, de um total de 7.681.269 no Brasil. Considerando o contingente de jovens que saiu do campo (762.636), podemos afirmar que 774.132 jovens saíram dessa condição de renda. Se no ano 2000 57% da juventude rural brasileira estava nessa faixa de renda, em 2010 eram 43%, o que sem dúvida é uma queda importante.12 Ainda assim, persistem desafios que distanciam a vida da juventude no campo e na cidade.

A migração ou ainda a circulação envolvem múltiplas questões. Os jovens que vivem nas regiões definidas como rurais enfrentam cotidianamente as distâncias que separam a valorização do que fazem e de como vivem.

A imagem de jovens desinteressados pelo campo e atraídos pela cidade não é nova, faz parte da literatura clássica sobre campesinato. Na Europa, a partir dos anos 1960,13 e no Brasil, a partir dos anos 1970,14 o tema é tratado como uma questão intrínseca ao processo de reprodução social do campesinato e como consequência da desvalorização do campo em face da cidade.

No final da década de 1990 e início do século XXI, o próprio termo “juventude rural” ganhou impulso em diversas pesquisas. Fortemente associado à migração, mas, nesse caso, menos como estratégia familiar e sim como um “problema” de desinteresse pela vida rural, gerando uma descontinuidade da vida no campo e da produção familiar. Estudos partem dessa preocupação, apontando que, em países da África, do Leste Europeu, da América Latina e em regiões rurais pauperizadas da Ásia, ocorreria uma forte tendência migratória de jovens do campo para as cidades. Essa leitura caracteriza a juventude rural como uma negação da sua própria identidade, atraída por um modo de vida urbano. As principais consequências seriam a não renovação da população, a descontinuidade dos padrões de herança e um envelhecimento e esvaziamento do meio rural.15

Produção de alimentos no Brasil depende fortemente da agricultura familiar

O tema se torna ainda mais importante na medida em que observamos nos últimos 20 anos uma redução no processo de fluxo da população do campo para a cidade e mesmo uma migração de retorno, ou seja, famílias que haviam migrado para centros urbanos retornam fortemente motivadas pelo incremento de políticas públicas para a agricultura familiar. Contudo, de uma redução populacional de 2 milhões de pessoas nos últimos 20 anos, a faixa etária que mais sofreu redução foi de 15 a 29 anos. Ainda que o fenômeno guarde diferenças importantes de região para região – como é o caso de áreas do Nordeste, em que os jovens homens migram para o trabalho sazonal e as jovens mulheres ficam –, observamos que ele envolve jovens que vivem em localidades já consolidadas da agricultura familiar. Ou seja, mesmo nas regiões onde a agricultura familiar está mais estabelecida, encontramos a “saída” de jovens do campo. Isso é ainda mais evidente pelo recorte de sexo, já que as mulheres jovens saem com mais frequência. Isso vem provocando uma diferença populacional importante entre jovens homens e mulheres. Em algumas regiões do país, há até 10% a mais de homens do que mulheres.16

Anita Brumer propõe que, “em lugar de procurar responder à questão ‘por que os jovens saem do meio rural?’, deve-se buscar responder à questão: ‘por que os jovens permanecem no meio rural’?”.17

Diversas pesquisas e a participação constante de jovens nos espaços de discussão sobre juventude nos mostram que muitos deles hoje preferem ficar no campo. Mais do que isso: há experiências muito bem-sucedidas como o a da Cooper-família, empreendimento de agricultura familiar dos municípios de Rio Fortuna, Grão Pará, São Ludgero e Braço do Norte, de Santa Catarina, que se organizaram para fornecer produtos orgânicos durante a Copa do Mundo 2014.18

A produção de alimentos no Brasil depende fortemente da agricultura familiar, como demonstram o Censo Agropecuário de 1995-1996 e o de 200619. A agricultura familiar é responsável pela maior parte da produção de mandioca, feijão, leite de vaca, suínos e, ainda, por parte importante da produção de milho, arroz, café, trigo e ovos consumidos pelas famílias brasileiras.20

As produções orgânica, agroecológica e livre de agrotóxicos vêm aumentando nos últimos anos no país21 e a maior parte da produção orgânica e a totalidade da produção agroecológica são geradas pela agricultura familiar.

Assim, termos uma agricultura familiar fortalecida é estratégico para o país. Termos gerações se sucedendo nessa missão é crucial para garantirmos a segurança alimentar que o Brasil vem conquistando.

Mas ser jovem e rural no Brasil deve significar, acima de tudo, a conquista de direitos iguais àqueles almejados pelos jovens que vivem nas grandes cidades. Acima de tudo, o direito a viver a vida com qualidade e reconhecimento de seu papel social e político. Mas também viver a vida como jovens que possam desfrutar a juventude no campo e na cidade.

ELISA GUARANÁ DE CASTRO é antropóloga. Professora associada da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro e coordenadora-geral de Políticas Transversais da Secretaria Nacional de Juventude/SG/PR. Graduada em Ciências Sociais, mestre em Sociologia e Antropologia e doutora em Antropologia Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2005).

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Silvia Schultz, Porto Alegre/RS, em desenho realizado para expressar conhecimento

O uso da tecnologia no cotidiano alterou não só a hierarquia do conhecimento como também as noções de tempo e espaço. A circulação de informações e a comunicação de forma instantânea estabelecem novos contornos às relações interpessoais. Por isso, especialista em educação sugere uma abordagem mais profunda para entender como a tecnologia impacta a relação do jovem com o mundo em que vive

Fluxo contínuo

Rosa Maria Bueno Fischer | UFRGS

O uso da tecnologia alterou não só a hierarquia do conhecimento, como também as noções de tempo e espaço, dando novos contornos às relações interpessoais. Especialista em educação sugere abordagem para entender relação do jovem com o mundo

Silvia Schultz, Porto Alegre/RS, em desenho realizado para expressar conhecimento

O historiador Eric Hobsbawm, em sua conhecida obra sobre o breve século XX, A era dos extremos1, já anunciava o que hoje se agudizou: em tempos pós-industriais, com o acesso a sofisticadas tecnologias de informação e comunicação, parece que os papéis relativos a “quem sabe”, “quem ensina a quem” se inverteram. A sabedoria não estaria numa pessoa mais velha, mais “vivida”, mas naqueles que dominam as mil opções de celulares inteligentes, tablets, aplicativos velozes e fascinantes, redes sociais que, literalmente, de modo instantâneo, nos colocam no mundo. E essa expertise que envolve quase magicamente o toque de nossos dedos e o movimento de nossos olhos, iluminados por uma pequena tela, parece pertencer, prioritariamente, a pessoas cada vez mais jovens.

Penso que, como nos ensina o filósofo Michel Foucault, o verbo mais indicado para discutir um tema polêmico como esse – a relação das pessoas jovens com as tecnologias digitais – é “problematizar”.2 Não se trata de apontar soluções, muito menos de arrolar acusações a crianças e adolescentes, por exemplo, quase adictos de seus pequenos aparelhos celulares, alheios a nossos conselhos e prescrições; ou, menos ainda, de nos contentarmos com a apologia um tanto descompromissada e mitológica de tudo aquilo (as tecnologias) que tornaria nossas vidas mais velozes, cooperativas e compartilhadas. Sim, problematizar me parece uma boa escolha, e é o que me disponho a fazer neste artigo.

Em que consistiria “problematizar” algo? Para Foucault – que se ocupou tão criativamente de experiências como a da loucura, da vida dos infames e dos anormais, do grande segredo do sexo, de uma sociedade ocidental “confidente”, do homem encarcerado –, fazer a história do pensamento não pode significar a mera análise das atitudes ou dos esquemas de comportamento de certa época, por exemplo, como se o pensamento se tornasse presente em certas práticas – tais quais as que envolvem juventude e tecnologias de comunicação. É preciso mais: fazer do pensamento uma prática de liberdade, em relação ao que somos, aos “perigos de nosso tempo”, num movimento segundo o qual nos separamos dessa dificuldade e a transformamos em objeto de pensamento. Em outras palavras, pensar as coisas que nos preocupam, efetivamente, na condição de um “problema”. Problematizamos algo que mereça entrar para o campo do pensamento, exatamente porque inúmeras variáveis permitem que ali nos deparemos com uma incerteza, uma dúvida. Como escreve Foucault, problematizar consiste em nos defrontarmos com aquela situação que perde a familiaridade para nós e apresenta-se com uma série de dificuldades (relacionadas, claro, a processos sociais, econômicos, geracionais e políticos diversos).3

Ora, o que nos leva a dizer que é necessário “problematizar” a relação dos jovens com as tantas tecnologias de informação e comunicação a que têm acesso hoje? Em um tópico anteriormente apontado, sugerido pelo historiador Hobsbawm: alteram-se entre nós os lugares de “sabedoria”, de quem detém a informação, a “verdade”. Isso, aliás, está diretamente relacionado ao debate contemporâneo sobre autoridade e educação. Mas outros temas se articulam a essa discussão: afinal, quais são os novos modos de ocupação do tempo? Que outras formas de estar no mundo social são agora “naturalizadas”?

“No meu tempo...”

Em pesquisas realizadas na região metropolitana de Porto Alegre, há pouco menos de uma década, um dos dados mais intrigantes foi escutar, de estudantes do ensino médio e de calouros universitários, uma nostalgia referida a “tempos antigos”, mesmo que estivéssemos diante de meninos e meninas de seus 11, 13 ou 14 anos.4 Como entender a idealização dos tempos de criança, a saudade de outras fases da vida, numa vida tão curta ainda? Esses estudantes nos deixavam perplexos, pois tudo ocorria como se eles já tivessem vivido muito, e como se para eles as coisas experimentadas em outras fases pudessem abruptamente desaparecer e deixá-los num vazio.

Ora, talvez seja possível pensar que o tempo da ampliação e sofisticação das tecnologias digitais, sincronizado e veloz, milimetricamente cronometrado, contrapõe-se a um tempo individual (ou até coletivo – da turma da creche, dos anos de alfabetização, da “primeira” adolescência etc.); de qualquer forma, tratava-se do “meu tempo”, da “minha história”, que muitos daqueles estudantes procuravam encontrar (buscando nos sites de relacionamento antigos colegas, “perdidos” como eles no tempo) ou mesmo “remontar” (postando fotos da vida de bebê ou criança pequena, no seu perfil das redes sociais na internet, por exemplo). Observa-se que o tempo passado, embora tão recente, adquire aqui uma força nostálgica, semelhante à dos adultos mais velhos, em relação à sua juventude, quando estes dizem, melancolicamente: “no meu tempo...”. Há, certamente, uma forte carga de afeto nesse sentimento em relação a si mesmo e a um tempo vivido.

Vagner Queiroz, Teresópolis/RJ, em expressão artística sobre ação

Confesso que me comovi com tais depoimentos, que me levaram a pensar quão pouco sabemos sobre um dado tão atual, tão próximo de cada um de nós, adultos ou jovens que sejamos, e que diz respeito ao que fazemos com essas tantas possibilidades permitidas pela internet e todos os seus recursos, num tablet, num celular, num notebook. De um lado, uma tecnologia sofisticadíssima; de outro, o desejo mais singelo de não desatar os laços mais antigos, de recuperar uma memória, individual ou coletiva, de não se perder por aí, de “salvar” imagens e textos (originalmente em papel, já envelhecido), transmutados em arquivos enviados para nuvens, que supostamente os guardarão para sempre. Mas há um paradoxo aí: a substituição do “concreto” pelo virtual, em busca de uma possível eternização de nossos registros e lembranças, e que adquire uma nova função – a do compartilhamento, a de tornar público “quem eu sou”, quem “eu fui” (o que pode me colocar num grupo, numa “turma”, numa espécie qualquer de coletivo).

Solidão ou sociabilidade?

O pesquisador Juarez Dayrell5, estudioso de juventude, trata do tema da sociabilidade a partir de como o sociólogo alemão Georg Simmel estuda tal conceito: para esse pensador, a sociabilidade refere-se a práticas em que os indivíduos estabelecem trocas, laços, em relações marcadas por certo equilíbrio entre as partes. Ocorreria com os pares uma arte do estar com o outro, mas de modo democrático – pode-se dizer. As relações estabelecidas entre si por grupos jovens, nesse sentido, passam a ser constitutivas da própria singularidade da condição juvenil – o que é visível em camadas populares, conforme pesquisado por Dayrell, na medida em que esses jovens encontram, nas suas relações de sociabilidade, novas referências para estruturar-se individual e coletivamente. Ora, as práticas dos jovens de todas as camadas sociais, e que cotidianamente utilizam celular, tablet, entrando nas redes sociais ou enviando torpedos em tempo real, não deixam de constituir-se como uma forma de “estar com o outro”. Claro, tais práticas podem concentrar-se na comunicação de meros registros, como o de “agora estou aqui, com Fulano”, ou “não gostei da aula de hoje”, “acabo de comer um sanduíche dos deuses” ou “comprei este sapato lindo”, “minha irmã e eu no shopping”.

Talvez uma boa chave de leitura dessa necessidade quase compulsiva de preencher todos os espaços e tempos da vida cotidiana, com o celular na mão, seja a que nos oferece a psicanálise lacaniana, tal como lida por Maria Rita Kehl: a autora nos diz que, quanto mais nos deixamos conduzir pelo imaginário (isto é, por aquelas imagens que circulam no social e que vão se cristalizando como significações cada vez mais estáveis), mais nos acostumamos a certo estado de conforto, dado por certezas e ilusões, muitas vezes totalizantes, já que prescindem do pensamento.6 Dito de outro modo: há um imaginário que se produz nas redes sociais, por exemplo, que tanto pode nos alertar sobre preconceitos a serem ultrapassados (de raça, etnia, sexualidade, situação social e econômica), como podem nos convocar a partidarismos totalitários (em relação a esses mesmos tópicos).

Penso aqui em um consumo diário de imaginários, pelos quais nossas inquietações mais genuínas acabam por obter respostas prontamente consoladoras (“sim, aprendi como ficar mais magra no site tal, sei que a atriz tal só come legumes e só bebe água, mais de dois litros por dia – e como isso é importante, como me ensina, como me aponta soluções para a minha vida...)”. Essas respostas confortáveis e confortantes, muitas delas absolutamente prosaicas, têm a ver também com os modos de ocupação do tempo, como se fosse praticamente impossível estar no mundo em silêncio, entendendo com tranquilidade que não há necessidade de obter imediatamente um retorno da mensagem que acabamos de enviar.

As práticas dos jovens de todas as camadas sociais, e que utilizam celular, tablet, entrando nas redes sociais ou enviando torpedos em tempo real, não deixam de ser uma forma de “estar com o outro”

Ou seja, talvez estejamos precisando de mais “espaços em branco”, “buracos”, lacunas não preenchidas – pois esses silêncios de sons e imagens talvez pudessem acionar, em nós mesmos, outras e diferentes formas criativas de nos inscrevermos no mundo social (exatamente naquela perspectiva de sociabilidade apontada por Dayrell). Penso aqui num convite à criação de si, nos espaços de alteridade, o que, por sua vez, significa também – com ou sem aplicativos informáticos – contestação, a possibilidade de alguém nos enfrentar e não repetir a nós mesmos, forçando-nos, amorosamente, a pensar diferentemente do que já pensávamos. Aliás, para Foucault, esse é o cerne da atividade filosófica. Eu diria que é o coração da atividade pensante, da relação criativa consigo: o desafio que o outro nos coloca, desde o momento em que não buscamos na comunicação a mera postagem “daquilo que sou”, e que “ninguém tasca”, ninguém pode desafiar.

Penso que poderíamos aqui levantar a hipótese de que há no Brasil muitos espaços não ocupados no social, pelos mais jovens – pela falta de programas de educação e de lazer, públicos, também pela sensação de medo em relação ao mundo da rua. Tais espaços, parece-me, estão sendo substituídos pela experiência muitas vezes solitária (mesmo que hiperconectada) dos jovens, diante do computador ou encurvados e digitando, sofregamente, no celular. Não se trata, obviamente, de uma vida sem festas, sem música, sem rua – o que não deixa de existir para os jovens, segundo várias pesquisas nos últimos anos, às quais tivemos acesso ou das quais somos parte integrante.7 Trata-se, sim, de pensar, de problematizar um tempo em que a experiência de pertencimento dos mais jovens passa, necessariamente, pelas mídias digitais – esse lugar fascinante e desejável ao qual todos desejam ter acesso.

Ciberespaço e ética

Independentemente de estarmos conectados ou não, o tema que chamaremos de “estética da inautenticidade” ou “estética da negação da surpresa e do imprevisto” parece fazer parte de nossas vidas neste século XXI: pais de classe média (sobretudo dessa classe, mas não somente dela) esforçam-se por educar seus filhos de modo que eles jamais se frustrem. A interdição do prazer parece que não deveria fazer parte do nosso tempo, das nossas vidas, como nos lembra tão bem a estudiosa Sherry Turkle no livro Alone together. Ora, penso que as relações afetivas e a vida com o outro acontecem sempre em meio a pequenos desapontamentos, no turbilhão que faz as nossas existências – esse misto de história, biologia, trauma, pequenas e grandes alegrias, expectativas frustradas ou não, riscos, desaparecimentos, acidentes, morte, epifanias possíveis...8

Pois bem, alguns gestos que aprendemos hoje serem perfeitamente “normais” (como não falar ao telefone ou não encontrar ao vivo alguém, preferindo enviar um “torpedo” e nos livrar do compromisso de talvez dizer um não...), já que concretamente facilitam nossa vida, talvez estejam nos trazendo um aprendizado que tem a ver com a negação da alteridade, a rejeição a um choque provável diante do outro – aquele que é radicalmente diferente de nós. Sim, as possibilidades de comunicação imediata, dadas pelas tecnologias e pelos inúmeros dispositivos técnicos à nossa mão, certamente participam desse aprendizado. Isso não quer dizer que elas existam como “causa” de tais modos de vida nem que devam por isso ser demonizadas. Esse, aliás, não seria um modo criativo de “problematizar” a chamada cultura digital e as possíveis mudanças em nossos comportamentos cotidianos, particularmente os dos jovens, referidos neste texto.

Danilo Gonçalves, São Paulo/SP, em desenho criado a partir do tema relações humanas

Não há como pensar fora dessa nova ordem social em que vivemos, constituída organicamente pela informação, uma informação para sempre simultânea, aberta e móvel, viva em qualquer tempo e lugar (como assinala o sociólogo Muniz Sodré)9. No entanto, é exatamente nesse mesmo tempo, calcado radicalmente na informação e na circulação em tempo real dos mais diferentes dados, que sobrevivem (e até renascem) projetos inscritos na contramão do reinado das opiniões e das posições particularizadas, ou da efemeridade dos laços sociais. É pela internet que os jovens, por exemplo, têm acesso a imagens com registros diversos da história política do Brasil, de cenas experimentadas por seus pais em décadas passadas, e assim por diante.

Cabe talvez imaginar aqui as tantas possibilidades abertas por esse acesso a uma quantidade tão imensa de informações, articulando-as a uma espécie de “sentimento” que pode ser fomentado nas escolas e nas famílias, pelo testemunho ético de adultos (pais, professores e mesmo personagens diversos da ficção – do cinema, da literatura, da televisão). Falo aqui do “sentimento” de adultos que assumem o desejo genuíno de transmitir aos mais jovens a riqueza da autenticidade, a beleza de afirmar-se com suas próprias escolhas, de justificá-las e de colocá-las à prova, nos espaços de relação com o outro. O tema da alteridade e da diferença emerge, a meu ver, como absolutamente necessário e urgente, em nosso tempo, para que se insira, no fluxo contínuo de imagens e informações, um corte, uma ruptura, alguma coisa que interrompa o clichê, a “coisa dada” como imutável e certa.

Pontes são necessárias para encontro com a alteridade e convívio com as diferenças

Então, independentemente de termos ou não acesso a tantas facilidades de comunicação e informação, nós nos colocamos como alguém que movimenta essa mesma mitologia referente às “maravilhas” da comunicação digital, ousando dizer que facilidades se constituem também como empecilhos, e que é imprescindível problematizar o que nos sucede, nesses modos de existir contemporâneos.

ROSA MARIA BUENO FISCHER é doutora em Educação e professora do Programa de Pós-Graduação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e pesquisadora do CNPq.

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Sobre temas relacionados ao universo jovem

1 Conexões

Com as novas tecnologias e o mundo ao alcance dos dedos, a geração conectada cria novas dinâmicas de convivência. A conjugação de mídias, ferramentas e redes sociais cria um novo tipo de sociabilidade juvenil. A busca por assuntos, relacionamentos, atividades de aprendizado e de trabalho se estabelece num ambiente que reordena as relações de tempo e de espaço. A noção de conhecimento está baseada em seu compartilhamento com outros. O aprendizado só tem valor quando dividido com a sociedade.

2 Educação

Seja por exigências do mundo do trabalho ou pela avidez pela descoberta de novas áreas de conhecimento, o conceito de educação continuada se apresenta como uma característica das novas gerações. Há a percepção de que o conhecimento se torna obsoleto e isso impacta negativamente a empregabilidade. Mesmo quando se está no exercício de uma atividade profissional, a necessidade de atualização é constante. Nos novos tempos, educação passa a ser uma condição perene, não restrita à conclusão de um ou outro curso. Atividades extracurriculares – não necessariamente vinculados à sua área de especialidade – são bem-vindas.

3 Participação

Segundo dados do IBGE, em 2010 existiam cerca de 290 mil organizações da sociedade civil, que empregavam 2,1 milhões de pessoas. Porém, 72,2% dessas entidades contavam apenas com trabalhadores voluntários. Esses números dão uma ideia da atuação do terceiro setor no país. Além do aspecto da generosidade dos envolvidos, vale ressaltar o efeito multiplicador das iniciativas realizadas por ONGs e demais instituições sem fins lucrativos. Grande parte dos participantes desses projetos são jovens. O desejo de empreender ações que impactem positivamente a vida de sua comunidade é um dos traços dessa geração.

4 Networking

Coletivos artísticos e culturais, encontros de hip hop, empreendedores em coworking, mobilizações políticas. As manifestações são de naturezas variadas, mas mostram que a criação de redes de relacionamento, reais ou virtuais, é uma competência das novas gerações. A conectividade dos tempos atuais potencializa esse caráter gregário dos jovens.

5 Empreendedorismo

O desejo de traçar a própria trajetória profissional confere novos contornos ao mercado de trabalho. Atualmente, o “querer fazer” se encontra muito mais próximo de “poder fazer” do que no passado. Há configurações inéditas nas formas de se articular economicamente, que vão além da tradicional relação “patrão-empregado”. Consultores, fornecedores, prestadores de serviço, criadores, parceiros, profissionais do terceiro setor... O vocabulário de atividades se enriqueceu. E as formas de trabalhar também ficaram mais plurais: coworking, parcerias por projetos, incubadoras, redes colaborativas. Essa variedade de conceitos tem um fator em comum: o empreendedorismo. Profissionais que querem fazer e encontram meios para tal.

6 Escola

O perfil do jovem está exigindo uma profunda reflexão por parte das instituições escolares. Numa geração com extrema capacidade de estabelecer conexões e de buscar temas e grupos de interesse, a escola deixa de ter a primazia em aspectos como socialização e apresentação de conteúdos. Em vários segmentos educacionais, o papel da escola está sendo repensado. Surgem questionamentos em relação aos processos de compartilhamento do conhecimento, de montagem curricular e, sobretudo, de a própria experiência escolar não ser encarada como uma passagem obrigatória para atingir determinados patamares de educação formal ou de preparação para o mercado de trabalho.

7 Ensino

Determinante para o futuro do país, o acesso à educação tem sido ampliado. Jovens das camadas com menor renda aumentaram a presença nas faculdades. De acordo com o Censo da Educação Superior 2013, do MEC, de 2003 a 2013 o total de matrículas aumentou 85,6%, de 3,9 milhões para 7,3 milhões. Em 1980, eram pouco mais de 1 milhão.

8 Carreira

A trajetória profissional ficou bem menos linear e óbvia do que nas últimas décadas. Se antes o profissional bem-sucedido era aquele que ficava vários anos na mesma empresa, escalando as caixinhas do organograma, a realidade agora é outra. O desejo de encontrar realização naquilo que faz, de ser reconhecido pela atividade executada, de impactar positivamente a própria vida e a de outras pessoas se sobrepõe a qualquer tipo de vínculo formal de trabalho. É normal o jovem pular de uma empresa para outra, sem preocupação com o tempo de casa. Ou criar o próprio negócio. Ser o dono da própria carreira é um desejo que caracteriza as novas gerações. Também é cada vez mais comum exercer mais de uma profissão ao longo da vida. Em muitos casos, até simultaneamente.

9 Violência

Se o Brasil conquistou avanços em relação aos índices de mortalidade infantil e aumento da expectativa de vida na população em geral, no que se refere aos jovens, os números mostram que não há motivo para comemoração. O Mapa da violência 2014, elaborado pela Flacso, aponta que, de 1980 a 2012, as taxas de mortalidade para o conjunto da população caem 3,7%, enquanto as mortes por causas externas, que atingem sobretudo os jovens, crescem 32,8%. Esse aumento é puxado por homicídios, que crescem 148,5%; suicídios, com um aumento de 62,5%; e acidentes de trânsito, que sobem 38,7% no período. Segundo o levantamento, considerando apenas dados de 2012, as taxas de homicídios a partir dos 13 anos pulam de 4,2 por 100 mil habitantes para 75 na idade de 21 anos.

10 Inversão

O uso das novas tecnologias reflete nas relações intergeracionais. Antes, o mais velho detinha mais conhecimento e, portanto, estaria mais apto a ensinar. Hoje, os filhos, imersos no mundo digital, orientam os pais a se comunicar dentro dessa nova realidade. Some-se a isso o fato de que muitos jovens hoje têm um nível de escolaridade maior que o dos pais. A relação entre aprender e ensinar, portanto, foi também relativizada.

1 Conexões

Com as novas tecnologias e o mundo ao alcance dos dedos, a geração conectada cria novas dinâmicas de convivência. A conjugação de mídias, ferramentas e redes sociais cria um novo tipo de sociabilidade juvenil. A busca por assuntos, relacionamentos, atividades de aprendizado e de trabalho se estabelece num ambiente que reordena as relações de tempo e de espaço. A noção de conhecimento está baseada em seu compartilhamento com outros. O aprendizado só tem valor quando dividido com a sociedade.

2 Educação

Seja por exigências do mundo do trabalho ou pela avidez pela descoberta de novas áreas de conhecimento, o conceito de educação continuada se apresenta como uma característica das novas gerações. Há a percepção de que o conhecimento se torna obsoleto e isso impacta negativamente a empregabilidade. Mesmo quando se está no exercício de uma atividade profissional, a necessidade de atualização é constante. Nos novos tempos, educação passa a ser uma condição perene, não restrita à conclusão de um ou outro curso. Atividades extracurriculares – não necessariamente vinculados à sua área de especialidade – são bem-vindas.

4 Networking

Coletivos artísticos e culturais, encontros de hip hop, empreendedores em coworking, mobilizações políticas. As manifestações são de naturezas variadas, mas mostram que a criação de redes de relacionamento, reais ou virtuais, é uma competência das novas gerações. A conectividade dos tempos atuais potencializa esse caráter gregário dos jovens.

6 Escola

O perfil do jovem está exigindo uma profunda reflexão por parte das instituições escolares. Numa geração com extrema capacidade de estabelecer conexões e de buscar temas e grupos de interesse, a escola deixa de ter a primazia em aspectos como socialização e apresentação de conteúdos. Em vários segmentos educacionais, o papel da escola está sendo repensado. Surgem questionamentos em relação aos processos de compartilhamento do conhecimento, de montagem curricular e, sobretudo, de a própria experiência escolar não ser encarada como uma passagem obrigatória para atingir determinados patamares de educação formal ou de preparação para o mercado de trabalho.

8 Carreira

A trajetória profissional ficou bem menos linear e óbvia do que nas últimas décadas. Se antes o profissional bem-sucedido era aquele que ficava vários anos na mesma empresa, escalando as caixinhas do organograma, a realidade agora é outra. O desejo de encontrar realização naquilo que faz, de ser reconhecido pela atividade executada, de impactar positivamente a própria vida e a de outras pessoas se sobrepõe a qualquer tipo de vínculo formal de trabalho. É normal o jovem pular de uma empresa para outra, sem preocupação com o tempo de casa. Ou criar o próprio negócio. Ser o dono da própria carreira é um desejo que caracteriza as novas gerações. Também é cada vez mais comum exercer mais de uma profissão ao longo da vida. Em muitos casos, até simultaneamente.

10 Inversão

O uso das novas tecnologias reflete nas relações intergeracionais. Antes, o mais velho detinha mais conhecimento e, portanto, estaria mais apto a ensinar. Hoje, os filhos, imersos no mundo digital, orientam os pais a se comunicar dentro dessa nova realidade. Some-se a isso o fato de que muitos jovens hoje têm um nível de escolaridade maior que o dos pais. A relação entre aprender e ensinar, portanto, foi também relativizada.

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Mudar o mundo e mudar com o mundo. Transformação é um conceito intrinsecamente conectado com a ideia de juventudes. O filósofo Renato Janine Ribeiro, o advogado especialista em mídias e tecnologia, Ronaldo Lemos, e o pesquisador e especialista em economia criativa André Martinez expõem suas percepções sobre a atuação do jovem no contexto atual.

Nunca na história da sociedade houve uma época com tantas conquistas individuais e coletivas quanto a atual. Apesar desses avanços, há um clima generalizado de rejeição à política. Essa é a percepção do filósofo Renato Janine Ribeiro, que analisa os motivos para esse descompasso. Na conversa a seguir, ele comenta o papel dos jovens na construção de um futuro melhor para o país

Tempo de aprendizado

POR PAULO JEBAILI

A sociedade jamais viveu uma época com tantas conquistas individuais e coletivas quanto a atual. Apesar desses avanços, há um clima de rejeição à política. Essa é a percepção do filósofo Renato Janine Ribeiro, que analisa os motivos para esse descompasso

A atividade política pode carregar uma série de imperfeições, mas ainda é o melhor instrumento para mudar a vida social. Esse é um ponto bastante enfatizado por Renato Janine Ribeiro nesta entrevista. Afinal, a recusa à participação na vida política abre brechas para práticas como corrupção, manipulação e instalação do pensamento único. Exercer a cidadania é também um processo de aprendizado, que se reflete tanto no debate político quanto no uso das redes sociais. Ele faz várias críticas a aspectos da cultura política no Brasil, como, por exemplo, o hábito de tratar um adversário como um inimigo, que precisa ser anulado ou desqualificado, em vez de discutir com profundidade programas e plataformas dos candidatos. Para o professor, o engajamento dos jovens é fator decisivo para o fortalecimento da cultura política no Brasil, seja pelo aspecto da formação de novas lideranças, seja pelo aspecto de garantir uma participação mais ativa nos rumos do país e na busca de soluções para melhorar a vida coletiva.

Janine Ribeiro: jovens e adultos compartilham sentimento de alheamento em relação à política

Pela sua percepção, qual é a postura predominante do jovem em relação à política?

O que tenho visto é que os jovens compartilham um sentimento – e muitos adultos também o têm – de alheamento em relação à política. Hoje, no Brasil e no mundo todo, cresce o número de pessoas descontentes com a política, porque acham que não é coisa de gente honesta, não funciona direito, está cheia de mistérios, a corrupção é alta nos escalões de governo. Isso é muito falado no Brasil, mas não podemos nos esquecer de que a França tem um ex-presidente, Jacques Chirac, acusado de alta corrupção; na Itália, um ex-primeiro-ministro [Silvio Berlusconi], está envolvido em um caso mais grave ainda, há exemplos parecidos na Espanha, o vice-presidente [Dick Cheney] do [George W.] Bush nos Estados Unidos também era uma pessoa acusada de participação em negociatas. Mesmo nos países mais desenvolvidos, as populações estão cada vez mais decepcionadas e sentem que, quando votam uma mudança política ou econômica, essa mudança não é respeitada pelos representantes que eles elegeram. Elegem um presidente que promete fazer uma política mais social e ele faz uma política de arrocho social e salarial. Esse descontentamento é mundial. E isso é paradoxal, porque nunca houve tanta liberdade no mundo. Eu costumo dizer que no tempo de Atenas, 2.400 anos atrás, apenas uma em cada mil pessoas no mundo viviam na democracia, que era a população de Atenas. Hoje, talvez de 60% a 70% da população mundial eleja seus governantes com alguma liberdade, ou escolham com alguma liberdade a profissão, a religião, o cônjuge. No entanto, com todo esse ganho, há uma decepção. O desafio é fazer os jovens e uma faixa significativa dos adultos perceberem que, se a política não é boa, fora dela a dificuldade de consertar as coisas erradas é maior ainda.

“O desafio é fazer as pessoas perceberem que, se a política não é boa, fora dela a dificuldade de consertar as coisas erradas é maior ainda”

O que provoca esse descompasso entre as liberdades conquistadas e o sentimento refratário à política?

Em algum momento da década de 1980 ou 90, a maior parte da população do mundo passou a viver em regimes democráticos. Depois de caírem as ditaduras de direita na América Latina e as que se diziam de esquerda na Europa oriental, a balança mudou. A maior parte do mundo tem liberdade de escolher governante, tem liberdade de expressão – isso tanto no plano político quanto pessoal. O problema é que isso não veio com outras conquistas que deveriam ter acontecido, a ponto de as pessoas sentirem que vale a pena fazer política.

Professor diz que democracia implica aprender que não existe uma única posição certa

Candidatos que se apresentam como alternativas e acabam tendo comportamento incoerente com o discurso contribuem para esse quadro?

Pelo menos desde o começo do século XX, uma proporção enorme de pessoas que adquirem direito a voto e à liberdade e não está acostumada a usar isso. Muita gente que não tinha conhecimento do que é voto, do que é eleição, do que é campanha passou a conviver com isso. Tanto gente pobre, às vezes analfabeta, quanto gente rica, prepotente, não acostumada a ter alguém que a tratasse como igual, porque estava acostumada a ser olhada sempre como superior. Esse é o gigantesco aprendizado de viver na democracia, de cem anos para cá. E há soluços enormes, por exemplo, o nazismo, o fascismo, o stalinismo, momentos em que multidões aderem a propostas liberticidas, antidemocráticas, porque perderam todos os referenciais e estão entrando nessa sociedade de massa. Com o tempo, isso tudo começa a ter um aprendizado, e esse é o lado muito positivo. Como, por exemplo, a internet. As redes sociais abrem um espaço enorme de discussão, se soubéssemos usá-las direito, teríamos feito uma discussão notável sobre projeto para a cidade, por exemplo, se vai derrubar o Minhocão em São Paulo ou não, projetos para o país, para a sociedade, todas essas discussões. Como não estamos acostumados a isso, vira um bate-boca.

Renato Janine Ribeiro define o que é ética

Não há contribuição das redes sociais no debate político?

As redes sociais são uma coisa incrível. Do século XVIII até o final do século XX, a imprensa é uma conquista fantástica. Os jornais cotidianos já existiam antes, mas eles crescem mesmo depois das grandes revoluções: a Inglesa, a Francesa, a Americana. E a imprensa é uma forma de discutir o poder, contestar e cobrar o governo, embora também sempre tenha havido imprensa governista, censura, perseguição etc. Quando surge a internet, aquela voz que estava basicamente nas mãos do empresário – que podia comprar um prédio, rotativas, pagar um monte de gente, ter caminhão para distribuir jornal etc. – se torna mundial. Essa liberdade de veicular que estava nas mãos de poucos, com a internet, praticamente todo mundo pode ter. O Facebook é uma plataforma fantástica, pela qual todos podemos falar o que quisermos. E aí vem o problema. O que se fala é muito medíocre. Não estou falando de quem só posta os seus momentos de consumo. Estou falando da discussão política. Quando alguém coloca alguma coisa, geralmente está querendo ouvir pessoas que estejam de acordo com ele. Não pessoas que o contestem, que digam que existe o outro lado. Então, o acréscimo de conhecimento que tem havido graças a essa plataforma é mínimo. O nosso país está rachado politicamente, grupos que se detestam, se atacam o tempo todo, e a gente vê isso também nas redes sociais. Democracia implica aprender que não existe uma única posição certa. Na política, por definição, é preciso ter pelo menos dois lados diferentes e igualmente legítimos. Se um lado for totalmente bandido, você não tem democracia, só tem um lado. E a cultura política brasileira é muito fraca, porque a tendência aqui é demonizar o adversário. Chamá-lo de inimigo. Inimigo você mata, é o que está do outro lado da guerra. Adversário é alguém que compartilha a vida com a gente, alguém que pertence à mesma sociedade. Às vezes é sua mãe, seu irmão, sua mulher que tem uma visão diferente da sua e temos de conviver, não podemos separar as pessoas conforme a linha política delas. Esse ponto é muito difícil de ser entendido no Brasil e assumido pela nossa discussão política. E a democracia acaba ficando um tanto limitada. Faz parte disso, por exemplo, haver campanhas para denunciar o outro como desonesto. A discussão de programas, de plataformas existe, mas é limitada.

Política demanda a percepção de que é preciso conviver com as diferenças na sociedade

A negação da política pode torná-la uma atividade sectária?

A política não é necessariamente boa ou bonita, mas é o melhor instrumento que temos para mudar a vida social. Quem pensa que a política está inteiramente corrompida, quem vira as costas para a política acaba favorecendo o que há de pior. Geralmente essa pessoa acaba sendo manipulada. Ela perde o controle sobre a sua vida porque deixa que façam o que quiserem, em vez de discutir. E um dos problemas da política hoje é que, sobretudo depois do triunfo relativo do neoliberalismo, ficou comum dizer: “existe apenas um lado possível”, “há apenas uma política sensata”, “qualquer outra política é loucura”. A palavra “populismo” é usada no debate político sul-americano com uma conotação muito negativa. Se alguém defende uma política com maior distribuição de renda, de maior apoio aos pobres, é prontamente alcunhado de populista. E isso é um ataque, como se ele estivesse querendo matar a galinha dos ovos de ouro, em vez de fazer um desenvolvimento responsável da economia. Mas se só houver um projeto econômico que funcione, não só você acaba com a democracia, como instala uma mentira, porque há mais de um projeto que funciona.

Na história recente do país, há marcações fortes na mobilização popular e sobretudo juvenil: a luta contra a ditadura e, como desdobramento, a campanha das Diretas Já; o impeachment de Collor e as jornadas de junho de 2013. O que essas agendas têm em comum e de diferente?

Essas grandes mobilizações populares têm em comum exatamente o fato de que, em certo momento, as pessoas se indignam profundamente e saem às ruas. Vão além da democracia representativa e querem elas mesmas fazer ouvir a sua voz, o que é muito bom. Agora, o que é preocupante nas duas últimas mobilizações – nas jornadas de 2013 pela melhora dos serviços públicos, e, 21 anos antes, em 1992, no movimento contra o Collor – é que geraram muito poucas lideranças. Da jornada de 2013 não surgiu ninguém para a disputa de um cargo político eletivo em 2014. No Chile, dois dos deputados, numa Câmara muito menor do que a nossa, foram eleitos a partir das mobilizações populares, estudantis, de 2013. O Chile tem uma cultura política melhor, ele consegue fazer uma tradução dessa discussão política. No Brasil, houve um problema sério, que é o fato de que essas multidões foram às ruas, seduzidas, apaixonadas pela possibilidade de ocupar o calçamento público e dizer: “Estamos cheios de certas coisas”, mas isso não teve continuidade. A maior parte dessas pessoas deixou isso passar. O meu receio nesses acontecimentos é que seja apenas uma brincadeira de juventude. Não pode ser. E uma parte das pessoas pensava: “Fomos para a rua, agora tudo vai mudar”. Como tudo vai mudar? Os problemas são grandes e estão aí há muito tempo. E a disposição e a disponibilidade depois disso? Essa disposição é pequena. Isso tudo ligado a um círculo vicioso, com uma cultura política fraca, inibe a capacidade de atuar para mudar o mundo e aumenta a nossa incultura política. Acabamos formando um ciclo crescente de alheamento à política e isso repercute diretamente nos jovens. Eles estão entrando num mundo novo, mas com um pequeno repertório político.

Occupy Wall Street, em Nova York: movimento em 2011 contra desigualdade social e econômica

O antídoto seria continuar exercendo a cidadania, cobrando?

O antídoto maior depende muito dos jovens: de eles realmente começarem a participar, defenderem causas nobres, estudarem, não seguirem necessariamente a cabeça dos pais, olharem esse drama. O Brasil tem uma chaga ética, que é ser um país extremamente desigual. Há toda uma discussão ética na política que fica só na questão da corrupção. Que é grave, mas a desigualdade social, a miséria, o fato de milhões de pessoas não terem perspectiva na vida, isso é muito mais escandaloso. E esse assunto tem de chegar a um ponto em que ninguém mais tolere. Hoje, por exemplo, um escandinavo pode aceitar de bom grado pagar mais imposto para não ter o espetáculo da pobreza, enquanto nós estamos acostumados a esse show de pobreza, a ver pessoas dormindo nas ruas, passando fome, a ver pessoas no centro das cidades visivelmente desequilibradas devido à solidão em que tem vivido. Tudo isso tem de mudar. A garra da juventude é importante, até porque, se não houver novos líderes sendo formados, haverá uma carência de líderes no Brasil dentro de um tempo.

“Há uma discussão ética na política que fica só na questão da corrupção. Que é grave, mas a desigualdade social, o fato de milhões de pessoas não terem perspectiva na vida, isso é muito mais escandaloso”

Em cenários e épocas distintas, acontecimentos como Maio de 68, crescimento do terceiro setor, Primavera Árabe, Ocuppy Wall Street tiveram uma grande participação de jovens. É da natureza da juventude esse anseio por mudança? Aquela piada de que o homem é incendiário aos 20 anos e bombeiro aos 40 faz sentido ou é só uma frase de efeito jocoso?

É claro que com o passar da vida as pessoas se tornam mais prudentes, às vezes até mais medrosas, conservadoras, pode acontecer isso. E os jovens têm uma coisa fabulosa na nossa sociedade: do final da adolescência até, digamos, o final da faculdade, ele está numa fase em que ele já não obedece tanto aos pais, já começa a pensar mais por conta própria – o que não quer dizer que ele esteja certo, mas que está tentando o caminho dele na vida – e ainda não tem emprego. Então, ele está um pouco livre da tutela do pai e livre da tutela do patrão. Passa um pouco, ele já está sob a tutela do patrão, com compromisso com a pessoa amada, com filhos, fica mais restrito. Mas há – de cinco a dez anos da vida de muita gente – um tempo que é de muita liberdade e que tem de ser aproveitado. E a melhor forma de aproveitá-lo é tentar encontrar o próprio rumo. Não é simplesmente desperdiçar a vida em festas. É pensar: “o que eu gosto?”, “o que eu posso fazer?”, “do que eu discordo do mundo na forma como ele está e como posso atuar para fazê-lo se aproximar um pouco do que eu quero?”. Com o passar do tempo, as pessoas veem que as coisas são muito mais vagarosas do que elas gostariam, mas acho muito importante ter essa pegada mais firme.

Cabe aos jovens decidir que rumo tomar na própria vida e na forma de participar da vida coletiva

Qual a importância da política para a elevação da vida coletiva?

A política é o momento em que você pega a vida social e tenta se tornar sujeito dela. Todos nós chegamos ao mundo sendo pouco sujeitos da nossa vida. Você depende dos seus pais, da sociedade em que está, e obedece. Com o passar do tempo, você começa a dominar as linguagens e a se igualar a essas pessoas que antes te dominavam. A política é uma das formas mais nobres e eficientes de tentar mandar um pouco na sua vida, na medida em que você manda na vida coletiva também. Mas, se eu quiser mandar na minha própria vida, isso depende muito de mim mesmo. Para mandar na vida coletiva, eu preciso me aliar a outros. Então, o importante da política é essa tomada de consciência de que não estou contente com o rumo geral das coisas e de que eu preciso me aliar a outras pessoas para que, juntos, nós tentemos mudar esse rumo.

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A geração que nasceu com a internet tem outras formas de criar, se relacionar, lidar com informações e orientar sua trajetória, tanto pessoal como profissional. Ronaldo Lemos, advogado especialista em temas como mídias, tecnologia e produção cultural, é otimista com o jovem brasileiro. Por sua energia criativa, sua capacidade de “se virar”, de empreender, de transformar e de ser feliz

Plugados no mundo

POR GISELE GOMES E ARIADNE GUIMARÃES

A geração que nasceu com a internet tem outras formas de criar, se relacionar e orientar sua trajetória. Ronaldo Lemos, advogado especialista em temas como mídias e tecnologia, é otimista com o jovem brasileiro e explica os motivos na entrevista a seguir

Para quem está conectado, o único limite é o da curiosidade. Quem afirma isso é Ronaldo Lemos, professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro e um dos principais criadores do Marco Civil da internet, a lei que garante a neutralidade e o caráter aberto da rede. Depois de ter passado pelo Media Lab do Massachusetts Institute of Technology (MIT) como pesquisador visitante, deu aulas na Universidade Princeton e na de Oxford. Ele é também um dos apresentadores do programa Navegador, da GloboNews, no qual discute casos que envolvem tecnologia, mídia e inovação – suas especialidades. Nesta entrevista, o advogado fala sobre a internet no Brasil e no mundo e os usos que os jovens fazem dela, dando origem a empreendimentos culturais, novas formas de expressão carregadas de criatividade e inovação, e até o engajamento em causas sociais e políticas.

Ronaldo Lemos: internet não desconecta o jovem do tecido social em que está inserido

A tecnologia reinventa as fronteiras?

Acho que ela não só reinventa, mas quebra as fronteiras. Uma das fronteiras que está caindo, por exemplo, é a questão do mundo conectado ou desconectado. A gente ainda tem aquela visão da internet de que você está on ou você está off. Isso vai acabar completamente. A internet já é parte inerente do mundo de quem é jovem.

Existe uma fronteira geracional que está sendo desafiada nesse processo. Ninguém pensa, por exemplo, com relação à eletricidade, se ela está ligada ou não. Já se parte da premissa de que você está o tempo inteiro com eletricidade disponível. Eu acho que há muito mais fronteiras do que essa especificamente, mas ela diz muito sobre como o mundo está mudando para a perspectiva do jovem, por exemplo.

A maioria dos jovens de hoje nasceu imersa no ambiente da internet. Eles conseguem enxergar o mundo de uma forma diferente do que é registrado pelos mapas-múndi da escola?

Conseguem. Uma coisa interessante para quem nasceu com a internet são os dois tipos de conexão que se abrem, que são quase opostos. Muitos acham que a internet vai desconectá-lo do seu contexto social, que ele vai se integrar num contexto muito mais difuso, mais amplo. Isso não é verdade. A gente sabe hoje que as primeiras conexões fortes que o jovem faz na internet são as conexões que ele tem com o seu próprio contexto social: a família, a escola, os grupos sociais próximos. Ele leva para o ambiente social o que está inserido no mundo real. O mais interessante acontece, justamente, quando o jovem vai crescendo e, no processo de amadurecimento, vai experimentando como ir além desse mundo social. Antes, como ele fazia isso? Saindo pela cidade, quando não estava sob a supervisão dos adultos, ia brincar na rua. Hoje, a rede faz o papel da rua, no sentido de que ele nasce na internet primeiramente conectado ao seu grupo social e depois começa a experimentar, ir além daquele grupo, tendo contato com estranhos, com gente que pensa diferente, pessoas que estão em outras cidades, outros países – com todos os benefícios e problemas que isso pode ocasionar. A internet não vai desconectá-lo do nosso tecido social. O jovem, quando se conecta na rede, o faz em primeiro lugar com as pessoas com quem está envolvido socialmente. A experiência de transcender o seu ciclo social, e como a rede é usada para isso é fundamental para o amadurecimento.

Ronaldo Lemos fala sobre economia criativa

Ainda falando de fronteiras, você considera que os jovens brasileiros são hoje em dia mais parecidos com, por exemplo, os jovens japoneses, do que eram nos anos 1950? A tecnologia tem esse poder de aproximar?

Eu acho que sim. E uma das razões pra isso é, primeiro, uma igualdade de oportunidades maior para quem está conectado. É muito comum o jovem brasileiro – eu acompanho isso muito de perto – se interessar, justamente, pela cultura japonesa. Com a internet, ela acaba tendo fãs no mundo inteiro. Para quem está conectado, o único limite é o da curiosidade. Quem é mais curioso tira muito mais da internet do que quem não é. Isso faz com que aconteça uma espécie de igualdade de oportunidades trazida pela tecnologia que é muito importante. E eu acho que a gente está apenas aprendendo os primeiros passos dessa transformação. A gente está na infância de entender o que essa equalização de oportunidades informacionais que a tecnologia traz vai significar.

Para o advogado, desenvolvimento da humanidade está ligado à ideia de informação

É um caminho positivo, na sua opinião?

É positivo porque tem a ver com a ideia de desenvolvimento. Quando a gente pensa no desenvolvimento futuro do mundo, da humanidade, ele está inevitavelmente ligado à ideia de informação. Você não tem mais como pensar modelos de desenvolvimento sem pensar no acesso à informação e qual é o contexto que as pessoas têm para se informar e trocar informações, para colaborar umas com as outras.

A tecnologia democratiza o acesso e a distribuição. Quando se fala em artes, esses dois itens são valiosos. Os jovens brasileiros já descobriram a tecnologia para fazer arte?

Está acontecendo, em todo o Brasil, uma explosão de criatividade jamais pensada. E não é de agora, não. Eu já estive envolvido em projetos de cultura brasileira, como, por exemplo, um site que montamos para mapear a produção cultural do Brasil inteiro. Em todas as áreas, nunca houve uma vitalidade cultural tão grande, e é uma curva ascendente, não está se estabilizando. Eu até acho que ela tende a virar exponencial, conforme as redes forem se conectando e as pessoas forem tendo oportunidades de trabalhar umas com as outras. E não é um fenômeno de classe A ou B, ele abrange a estrutura social inteira da sociedade brasileira. Agora, não espere essa ideia de criatividade ser uma reprodução do que a gente já conhece. Achar que agora a gente vai ter mais gente fazendo mais do mesmo. Porque as pessoas, às vezes, identificam o que é cultura e o que é criatividade como aquilo que elas já conhecem. E o que está acontecendo é justamente o contrário: as pessoas estão sendo criativas de novas formas que, muitas vezes, não são sequer percebidas como cultura. Há experimentações não só substantivas, mas formais, acontecendo o tempo inteiro e muita gente, infelizmente, tem ainda dificuldade de captar isso como cultura, como produção cultural.

Você participou ativamente da elaboração do Marco Civil da internet1. Apesar de a lei já ter entrado em vigor, ainda vemos casos de suspensão de aplicativos ou sites pela Justiça. Como você vê isso?

A internet é uma grande zona de experimentação, de fronteira, que vai testando princípios que, na verdade, estavam escritos nas constituições democráticas há dezenas de anos, mas que ficavam ali mais como teoria do que como prática. A gente está vendo a rede ocupando um espaço cada vez mais importante na nossa vida, e duas tendências são muito claras: uma é a dos países autoritários – não só a China, mas até mesmo democracias como a Rússia ou a Turquia – indo no sentido do Estado com poder absoluto e imediato sobre a internet. Por exemplo, na Rússia hoje há uma lei que obriga que qualquer blogueiro com mais de 3 mil visitas no seu blog se registre no governo russo. Além disso, não pode usar palavrão, tem de seguir normas de conduta que o governo estabeleceu. Na Turquia também vemos coisas muito duras: o governo pode remover, a qualquer momento, qualquer site que ache que prejudicial para a sociedade turca. E não há uma razão legal pra isso. É uma decisão política. As leis desses países foram para esse lado, em que ao Estado cabe ser uma espécie de grande pai das pessoas, que diz o que você pode e o que você não pode ver. É um modelo paternalista e autoritário de relação com a internet. O Brasil, felizmente, graças à batalha do Marco Civil – que levou sete anos, na qual estive envolvido desde o dia zero, na criação da ideia e do nome – foi para um outro lado, em que o governo não pode tirar sites do ar. Aqui no Brasil, o Estado, o poder Executivo, não tem nenhuma ingerência sobre o que é dito ou quais sites que estão na rede. A Agência Nacional de Telecomunicações do Brasil não tem poder nenhum sobre conteúdos na rede. O único poder que tem a possibilidade de tratar da internet cotidianamente é o Judiciário, avaliando questões como bullying, revelação de segredos industriais, ofensas, calúnias e difamações. Nesse sentido, o Marco Civil foi muito inteligente ao lidar com a relação de anonimato e liberdade de expressão com uma regra de equilíbrio. Ele diz que, no Brasil, todos os sites são obrigados a guardar os registros de conexão de quem os acessa por seis meses, no caso dos serviços de conexão, e por um ano, no caso dos serviços de acesso, serviços online. Depois de seis meses, ou um ano, esses dados são descartados. A beleza desse modelo é que ele faz com que, no Brasil, seja inadmissível retirar qualquer site do ar. Exatamente por isso, porque as pessoas são, em alguma medida, identificáveis. Você pode identificar quem violou a lei, quem usou aquilo para pedofilia, para coisas que são socialmente erradas.

Há cada vez mais jovens marcando presença em ações artísticas feitas por meio da tecnologia

Diante do cenário de inovação no Brasil, como você vê a atuação dos jovens em relação ao empreendedorismo e à criação de startups? A tecnologia tem ajudado nisso? Quais são os principais desafios?

Uma coisa que me empolga no Brasil é a onda de empreendedorismo que está em toda a parte: nas capitais e no interior do país. E o que é mais importante é que empreendedorismo é autonomia. É independência. Muito do empreendedorismo que a gente vê hoje é motivado por isso. E tem a ver, por exemplo, até com a ideia de crise das profissões. A gente viveu num mundo até hoje em que as pessoas tinham duas, três profissões ao longo da vida. E a gente vive hoje num momento em que as pessoas vão ter 15, 20 profissões ao longo da vida. E até o ponto de que a própria ideia de profissão está sendo posta em jogo. Todo mundo tende a ser mais de uma coisa ao mesmo tempo; a pessoa é designer, é DJ, é fotógrafa, é escritora – isso falando especialmente dos jovens dos grandes centros urbanos. E eu acho que o empreendedorismo está ligado a isso, primeiro à tecnologia, às histórias de sucesso de jovens que inventaram sites e aplicativos de sucesso. Isso é muito sedutor pro jovem no Brasil.

Mas eu acho que vai além disso: está havendo uma crise profissional, da ideia de emprego pro resto da vida, formal, de que você tem de se subordinar a alguma estrutura. As pessoas estão buscando a independência, a autonomia, nas quais elas mesmas escrevem seu próprio futuro, sua própria agenda. O que precisa ser feito é amparar essas pessoas. Deveria haver um esforço da sociedade brasileira de apoiar totalmente essa nova geração de jovens empreendedores, especialmente os que estão ligados à tecnologia. Isso é um bem precioso que o Brasil tem hoje, e muito do nosso desenvolvimento futuro, como país, vai vir muito mais dessa riqueza que está para ser criada do que as riquezas históricas que a gente tem – como a exploração de petróleo, minérios, a agricultura. Isso a gente já tem, está operando. Agora, o que a gente vai ter pro futuro depende desses jovens que estão hoje batalhando, ralando.

Ronaldo Lemos comenta a relação entre jovens e política

O que aproxima e o que diferencia os jovens brasileiros dos demais ao redor do mundo?

Eu acho que o jovem brasileiro é mais otimista do que o jovem com quem eu convivo em outros lugares do mundo. O Brasil gera uma sensação de que tudo ainda está por ser feito, as coisas não estão prontas. As instituições não estão construídas ainda, está tudo em transformação. Por outro lado, o jovem dos Estados Unidos sabe que o modelo mais provável para a vida dele é se encaixar em alguma peça institucional que já existe. Ele vai achar um lugar que, de alguma maneira, vai recebê-lo e ele vai fazer parte daquilo. O jovem brasileiro pensa o contrário, ele tem muito mais essa sensação de que, primeiro, precisa fazer alguma coisa, porque o nosso país demanda ação, é um país no qual você tem de gastar energia. No nosso país, eu acho que todo mundo tem um incentivo para a ação. O jovem brasileiro, mesmo nas condições precárias, é alegre, é otimista, tem energia – seja a da festa, seja a da criatividade – e isso é extremamente positivo. É uma vantagem comparativa, até em termos econômicos, para o Brasil que precisa ser explorada. Essa energia que a gente tem, e essa pressão para agir, eu acho que é algo precioso. A gente precisa capturar essa energia, pensar em como ela pode ser otimizada pra aprimorar as instituições e recompensar o esforço de quem quer participar da construção institucional do Brasil. Há muita coisa a ser feita, e a grande diferença que vejo talvez seja esse otimismo do jovem brasileiro. No Brasil, você não pode se dar ao luxo de ficar parado. Se você ficar parado, a onda te leva. Aqui tem um foguinho ali embaixo que te obriga a agir. É um foguinho difícil, eu não estou dizendo que é fácil, não; é algo que põe todo mundo numa situação de desconforto. Mas esse desconforto acaba sendo necessário, e o que me incomoda hoje é ver, em outras sociedades, que ocorre o contrário, o jovem está sempre na zona de conforto e a energia que precisa gastar é para sair dela. E isso gera uma sociedade anestesiada, acomodada, o que é muito complicado. Aqui há transformação o tempo inteiro.

“Instituições ultrassólidas do passado, que duravam 50, 60 anos, podem desaparecer em dois, três anos. A ideia de transformação permanente se acelerou. Nada mais é estável”

Algumas experiências, majoritariamente jovens, dão conta de que brasileiros sabem, sim, usar a internet para defender seus direitos, em plataformas ou listas eletrônicas de abaixo-assinados. Podemos dizer que a tecnologia está ajudando na construção de uma geração de brasileiros politicamente ativos?

Acho que o momento divisor de águas desse uso da rede para participação foram, de fato, as manifestações de junho de 2013. O brasileiro hoje está muito interessado nessas ferramentas. Já considero o Brasil como o país líder nesse uso de tecnologia para participação – eu acho que essa percepção é não só minha, mas é também, por exemplo, do Banco Mundial e de várias outras instituições globais que já veem o Brasil como o país que está mais experimentando com relação a ferramentas de tecnologia e democracia. E eu acho que isso é um trunfo, pois a gente pode liderar essa discussão no mundo inteiro.

Escadaria na Lapa, Rio de Janeiro: jovem brasileiro se caracteriza pelo otimismo e pelo desejo de mudar a realidade

Qual é a tendência para os usos da tecnologia, da internet e das redes sociais?

Eu acho que essas tecnologias vieram pra ficar. Mas são tecnologias mutantes. Se tem uma rede social que você adora hoje, daqui a cinco anos pode não ser mais. A gente está num momento em que aquelas instituições ultrassólidas que a gente conheceu no passado, que duravam 50, 60 anos, podem desaparecer num período de dois, três anos. Essa ideia de transformação permanente se acelerou. Então, nada mais é estável. Nós, como usuários da rede, viramos uma espécie de um grande contingente de aves migratórias. E a gente vai migrando. “Ah, agora o aplicativo do momento é esse aqui.” Aí vai todo mundo pro aplicativo do momento. Aí fica lá, um ano, dois. Depois, migra para outro. E essa migração faz com que tudo possa mudar. Esse é um mercado ainda muito competitivo, e o grande ponto é manter essa competição acontecendo. O que não pode acontecer é a concentração exagerada, com uma ou algumas empresas que dominem o mercado inteiro, e aí aquilo engesse essa mudança, essa transformação. Isso é péssimo. Além disso, tem discussões como privacidade, liberdade na internet. A questão da concentração de mercado na rede, nas novas mídias, são temas que precisam ser tratados com a devida seriedade, porque fazem com que a forma como a gente vive acabe sendo influenciada por essas empresas, por essas mudanças de hábitos de mídia. Então, nesse sentido, eu vejo um momento de otimismo, mas também de cautela. Enquanto isso acontecer, a gente está tendo um uso saudável da tecnologia.

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O mundo está menos óbvio e mais desafiador. O aprendizado não cessa no diploma. A carreira não se desenvolve de forma linear. A transformação dos comportamentos econômicos e sociais abre possibilidades de atuação e redefine as relações no mercado de trabalho. Especialista em economia criativa fala sobre o cenário que se descortina para os jovens profissionais

Relações e sinapses

POR PAULO JEBAILI

A transformação dos comportamentos econômicos e sociais abre possibilidades de atuação e redefine as relações no mercado de trabalho. Especialista em economia criativa fala sobre o cenário que se descortina para os jovens profissionais

Num recorte de 20, 30 anos, o ideal de carreira bem-sucedida estava ligado à noção de estabilidade. Era comum ver pessoas que desenvolviam a carreira inteira numa mesma empresa ou prestando concursos para o serviço público. O mundo mudou, e o mundo do trabalho também. Ficou mais complexo e desafiador, exige novas competências dos profissionais. Por outro lado, ampliou o leque de oportunidades e as pessoas têm maiores possibilidades de determinar o rumo de suas carreiras. Empreender passou a ser uma forma de viabilizar projetos, parcerias e trajetórias profissionais. Na economia criativa, esse traço é ainda mais acentuado. Há uma geração se capacitando, com habilidade em estabelecer conexões e diálogos para encontrar formas de garantir o fluxo de suas realizações. É sobre esse novo mercado de trabalho a conversa a seguir, com o pesquisador André Martinez, consultor em cultura e inovação, que há mais de 20 anos lida com economia criativa, definida como aquela que gera produtos e serviços a partir do uso do conhecimento, da criatividade e do capital intelectual.

O pesquisador André Martinez, que há mais de 20 anos lida com economia criativa

Que oportunidades e desafios o jovem prestes a ingressar no mercado de trabalho tem pela frente?

Há uma transformação enorme dos paradigmas desde a década de 1960. Muda o mundo, mudam as tecnologias, mudam as cabeças das gerações, os estilos de vida. Não existe apenas uma mudança de um padrão de mercado, existe uma deriva, uma enorme transformação em tudo, que foi muito acelerada nos últimos anos em função do desenvolvimento tecnológico. Esse jovem que opera no mundo em que vivemos – fala-se na geração Y, aqueles que nasceram entre meados da década de 1970 e meados da de 1990 – rompe um padrão relacionado à estabilidade. A prioridade antes era garantir a segurança: “Quero ter um emprego estável, acumular patrimônio, deixar para os meus filhos alguma coisa mais consistente do que eu encontrei”. A geração Y, criada por pais que pensavam assim, começa a buscar outra perspectiva: “Já vivencio uma escala de valores em que essa condição está razoavelmente assegurada, posso buscar algum tipo de realização que tenha a ver com o meu talento, com alguma coisa que me diferencie dessa fórmula”. A geração Z, geração zap [os nascidos a partir de meados da década de 1990], tem tudo isso potencializado por uma lógica de quem já nasceu dispondo de ferramentas de simulação, de quem lê hipertexto, de quem consegue operar processos colaborativos nas redes sociais e de quem tem acesso a todo o conhecimento do mundo, mas que não sabe que conhecimento é esse. O que é o mercado de trabalho nessa nova perspectiva? Existem as grandes empresas tentando compreender o que fazer para lidar com esse profissional que não quer fazer carreira na empresa e que precisa ser atraído por desafios que tenham a ver um pouco com estabilidade e segurança, mas muito com o encantamento e realização. Como o mercado reage a isso ainda é uma incógnita. Eu não vejo as corporações equipadas para lidar com essa questão, principalmente nos modelos mentais, até porque esse jovem não é formado para operar dentro das hierarquias e legitimá-las. Mas esse é um viés do mercado. Porque existe um outro, que é um mercado que opera em rede, baseado em princípios muitos mais colaborativos que competitivos: “Eu tenho um projeto e acho que consigo fazer”. Não existe uma fórmula econômica de viabilizar aquele projeto, mas ele acaba sendo realizado porque é executado numa teia em que existem outros jovens trocando potencialidades para esse tipo de desenvolvimento econômico que não segue um padrão.

Iniciativas culturais são viabilizadas a partir de novos comportamentos no mercado, que demandam competências além da criação artística

O perfil empreendedor se acentuou?

No Brasil, na economia criativa, existem profissionais liberais que são criadores, algumas grandes empresas, mas há uma plêiade de pequenas empresas de criadores, designers, publicitários, arquitetos. Na cultura, os artistas sempre foram assim. O comportamento dessa economia é de arranjos criativos, e não de arranjos produtivos. Os arranjos criativos se configuram dentro de uma necessidade de polinização: “Eu vou fazer um filme, tenho um roteiro, um amigo tem um estúdio em casa, um equipamento que pode fazer uma gravação que nada deixa a desejar a uma estrutura mais profissional, amigos atores e a gente consegue operar economicamente essa realização, ainda sem uma resposta para a monetização disso”. O profissional opera com um fazer atrelado a um articular de condições de tornar aquilo possível: “Eu não vou conseguir um emprego para fazer o que eu faço nem um patrocinador para financiar o meu CD, mas consigo realizar o meu CD e também dar aula, fazer projetos, concorrer em editais”. E, de certa forma, nesse caos, o mercado está se sustentando. Há ferramentas revolucionárias como financiamentos colaborativos, crowdfunding, surgem novos comportamentos que ainda não conseguimos compreender numa visão tradicional de mercado, mas que são economicamente potentes.

“Tornar-se um bom engenheiro, um bom arquiteto depende muito mais de elementos e referências de conhecimento do que da formação técnica. A escola precisa mudar a sua lógica”

Antes um músico fazia canções e a gravadora gerenciava a carreira dele. Hoje ele precisa também fazer o trabalho dele circular. Isso tem exigido novas competências dos profissionais criativos?

Nós temos muito mais pessoas se autorizando como criadores. Eu tive uma experiência assim quando escrevi o livro Democracia audiovisual1, sobre a minha experiência como gestor na Fundação de Cinema do Rio Grande do Sul. Depois que eu escrevi, achei que tinha faltado um capítulo sobre o impacto das novas mídias no audiovisual, porque eu não tinha vivido essa experiência como gestor. Na época, eu peguei uma câmera digital e saí fazendo filme. Como eu tinha experiência de dança na minha infância, resolvi fazer videodança. Depois, fui para os documentários e acabei fazendo um longa-metragem sobre o Jorge Mautner2, sem nunca ter feito um curso de cinema. Valeram ali a minha experiência e a minha inteligência para me apropriar desses elementos e criar um tipo de expressão narrativa. E eu sou dinossauro. Imagine essa molecada que nasceu dominando essas ferramentas.

Por outro lado, o artista precisou sair do seu gueto: “Sou artista, estou à procura de um produtor que me descubra e me lance”. Eu preciso me lançar, fazer o meu trabalho e para isso preciso de condições econômicas. Uma vez que o trabalho seja viabilizado, eu preciso que ele circule num espaço de acesso e de fluxo econômico. Outro aspecto é o desafio de criar essas estruturas além do empreendimento individual. Por exemplo, em Belo Horizonte existe uma rede de músicos jovens e independentes que estão empreendendo seus trabalhos, têm CDs, videoclipes. Eles conseguem fazer, só não conseguem viver disso. Então criaram essa rede para colocar um olhar ampliado sobre o comportamento de uma cadeia configurada e reinventá-la: buscar a adesão das rádios, criar um sistema de inteligência com banco de dados para saber quem está fazendo o quê, ou plataformas de economia de compartilhamento. Por exemplo: manter um estúdio tem um valor mensal que, se for dividido entre cinco bandas, viabiliza o trabalho de todos. Esses empreendedores não têm somente de dominar o seu aspecto artístico. O empreendedorismo, numa visão mais tradicional, envolvia aquele que tem força de vontade e vai. Nesse novo modelo, se você não colabora, não consegue realizar. Importa perseverar, aprender, contribuir, trocar – é uma outra lógica, equilibrada entre força e acolhimento. E que depende do coletivo. Não é uma economia competitiva, é dinergética, em que você precisa ser tão competitivo quanto colaborativo. Num pensamento mais sistêmico, colaborar e competir é plenamente possível.

Martinez: “A economia criativa é um processo vivo, que precisa ser nutrido”

Os modelos de educação têm acompanhado esse processo?

De forma alguma. Nos meus cursos, quando eu coloco a sequência de Fibonacci3 em linguagem matemática, quase ninguém sabe ler. Quem conhece a tabela periódica [de elementos químicos]? Ninguém. Que estranho: a gente passou anos estudando isso e, quando sai da escola, não sabe mais o que é. Que modelo de educação é esse? Se não aprendemos matemática ou química, é porque aquilo que era ensinado não fazia sentido. Hoje existe uma convergência enorme de conteúdos. Numa plataforma colaborativa, numa ferramenta de crowdfunding ou de participação social digital, em interfaces de troca de conhecimento, todo o processo de navegação é sináptico. Ele junta partes que vão polinizar e criar uma nova coisa. Vivemos imersos em espaços de aprendizagem, só que essa aprendizagem não é parametrizada por uma relação de mercado. Eu aprendo na deriva, não naquilo que o mercado me exigia. Desde o jardim de infância, a escola nos impõe um repertório de conteúdos à revelia de quem somos. Não aprendemos quase nada desses conteúdos, mas vamos avançando, refinando, até sairmos da escola numa categoria de homo economicus X ou Y, formado para ocupar um lugar predeterminado no mercado. Esse modelo tem de mudar, porque esse lugar predeterminado no mercado até existe, mas vai demandar outros tipos de comportamento. Tornar-se um bom engenheiro, um bom arquiteto depende muito mais de elementos e referências de conhecimento do que da formação técnica. A partir dela, o profissional vai evoluindo no aprendizado para lugares que fujam completamente do que está no diploma. A escola precisa mudar a sua lógica, a forma como entende a aprendizagem.

André Martinez comenta economia criativa

Quais os elementos necessários para que uma economia criativa floresça?

Gostei da palavra “floresça”, porque o primeiro elemento é esse. A economia criativa precisa florescer, ela não é um projeto mecânico. Prefiro utilizar uma abordagem mais orgânica, que trabalha dentro de um processo de relações multidimensionais. Eu vou fazer música, mas essa música considera que vivo em Porto Alegre, que tenho a minha história. A cultura e a arte estão numa expressão ambiental. A visão tradicional, que almeja converter a cultura em capital, em ativo econômico, não tem o menor pudor em transformar o artesanato de uma região ribeirinha, em mudar o design de uma peça, por exemplo, para que aquilo venda mais num grande centro urbano, nem em transformar o procedimento artesanal em processo industrial, para mudar o paradigma econômico daquela cidade. A economia criativa é um processo vivo, que precisa ser nutrido; as políticas têm de ser nutritivas e não condicionantes. E outro aspecto importante é a conectividade. Os arranjos criativos são espaços de polinização. Não faz sentido pensar o empreendedor criativo formado numa visão de planejamento estratégico estrito, formado para competir, para se diferenciar do outro. O processo criativo requer afeto. Se não tiver o outro, como vai sair uma coisa nova? Essa visão de economia criativa é completamente oposta à visão tradicional das indústrias culturais. Mas mesmo essas indústrias, em nenhum momento da história, foram fechadas em si mesmas. Hollywood pode fazer mil filmes seguindo padrões, mas eles vão exigir processos cocriativos. E, finalmente, capacidade de diálogo, de conversar com o outro. Eu posso até não gostar do outro, mas preciso colocá-lo na plenária para discutir nosso futuro. É preciso construir um espaço de mútua validação. “Eu não gosto do que você faz, mas preciso de você para gerar diversidade que nos dê potência econômica para podermos operar nesse mercado.”

André Martinez fala sobre empreendedorismo

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Quem são e o que querem os jovens atualmente? As respostas são variadas, embora seja possível detectar traços e aspirações comuns na camada da população que está construindo o futuro. Pesquisas qualitativas realizadas por quatro institutos diferentes revelam algumas dessas características, captadas em um documentário que buscou ouvir e mostrar alguns desses diferentes perfis.

FLASHES DE UMA ÉPOCA

Institutos de pesquisa especializados apontam as tendências de comportamento e de consumo e as inovações trazidas por aqueles que têm mais de 15 e menos de 30 anos hoje

Junto e misturado

O instituto Box 1824 ouviu mais de cem jovens, de 18 a 30 anos, das classes A e B de São Paulo, moradores dos bairros do centro expandido. Para entrevistá-los, foi usada a metodologia da “invasão de cenários”. Seguindo essa tática, pesquisadores de campo surgem, sem aviso, nos locais frequentados pelas pessoas com o perfil que pretendem analisar. De um piquenique na praça do Pôr-do-Sol (Zona Oeste de São Paulo) a uma balada em um clube no Centro, passando por uma festa aberta no Minhocão, eles encontraram jovens paulistanos que se encaixam nesse perfil e levantaram alguns de seus traços fundamentais.

Tudo ao mesmo tempo agora

Punks, metaleiros, góticos, hippies. Se esses rótulos serviam no passado para identificar as pessoas, suas tribos e suas músicas, hoje a realidade é outra. Os jovens são não lineares, percorrem caminhos paralelos e flexíveis que não se excluem. A lógica é a da hipermídia. Eles veem televisão com a segunda tela ligada, somam hobbies e interesses sem necessariamente abandonar o anterior. Podem ser músicos, jogadores de rúgbi, trabalhar no mercado financeiro e fazer ioga. Tudo ao mesmo tempo.

Equilíbrio em todas as fases

Satisfação pessoal vale mais que estabilidade no emprego. A grande busca é pelo trabalho que dê prazer. A evolução da carreira se dá como num videogame, com etapas, desafios e recompensas, tudo sem roteiro prévio; é o jogador quem constrói seu caminho. Extremamente abertos a mudanças e transformações, os jovens buscam o aperfeiçoamento constante. Não necessariamente em uma área só. Estão sempre somando.

Saindo do mundinho

Jovens das camadas mais abastadas da sociedade gostam de frequentar ambientes em que exista mistura social, a presença de gente de diferentes grupos de interesse. Seguindo a mesma lógica, referências estéticas, gírias e atitudes comuns aos jovens da periferia da cidade viraram moda e são adotadas pelo público da classe A e B. Eles valorizam a cultura da periferia, mesmo sem frequentá-la.

Vem pra rua

O jovem da elite paulistana cansou de circular apenas nos âmbitos privados. Quer explorar o ambiente urbano, ficar em praças, organizar festas ao ar livre, passear pelas ruas. Está ocupando o espaço público, a exemplo de várias metrópoles internacionais. O jovem da classe A e B valoriza, ao contrário das gerações anteriores, o lazer e entretenimentos gratuitos.

Articulados e conectados

A tecnologia os une. Literalmente. A maior parte dos programas é feita por convites pelas redes sociais, sites ou aplicativos de mensagens de celular. Nada é muito restritivo; são convocados aqueles que têm propósitos e interesses semelhantes.

Pé no chão

Foi-se o tempo das utopias distantes. As mudanças começam pelas microrrevoluções. O engajamento é maior pelas causas que possam ter impacto direto em sua rotina ou comunidade. A rede amplifica suas causas.

Novo patamar

Será que essas características se aplicam a jovens que moram distantes desses bairros de São Paulo? Outra pesquisa foi realizada entre os moradores dos bairros periféricos da capital. Pessoas que sentiram de perto os efeitos da mudança de perfil socioeconômico do país na última década, quando mais de 42,2 milhões de pessoas ascenderam à classe média brasileira. A Ponte Estratégia, empresa especializada em estudos sobre a chamada nova classe média, analisa quem são os jovens com esse perfil social no Brasil de hoje. Os entrevistados pertencem a essa camada da população cuja vida mudou de patamar. Com melhores condições de vida, esses jovens passaram a ter novos sonhos, novas conquistas e novas preocupações.

Vida melhor

Os jovens da nova geração da classe média são mais otimistas com o futuro: veem melhoria de renda, aumento de consumo, mais emprego e mais qualidade de vida em comparação à época em que seus pais eram jovens. Eles se definem como batalhadores, comprometidos, persistentes e esforçados e sentem que serão recompensados por seu mérito. Têm foco na carreira, investindo tempo e dinheiro em estudo e trabalho. Eles consideram ser praticamente impossível conseguir um bom trabalho sem ter um diploma superior.

Formadores de opinião

68% dos jovens da classe C estudaram mais que seus pais, segundo o Instituto Data Popular – porcentual que não passa de 10% entre os jovens da classe A e B. Mais educados e conectados, eles entram no mercado de trabalho com posições e salários mais valorizados. Assim, tornam-se frequentemente formadores de opinião em sua família, sua comunidade, seu bairro.

Eu sou daqui

A melhoria nas condições de vida reflete-se no aumento da autoestima, e esses jovens têm orgulho de ser quem são e vir de onde vieram. Se nascer na periferia já foi motivo de vergonha, hoje os jovens declaram não querer sair do bairro onde cresceram. Os afrodescendentes também mostram orgulho de suas raízes e cor de pele.

Não me representa

Os jovens da periferia não almejam o mesmo estilo de vida das elites e não se sentem representados pelo que é moda entre os mais ricos. Preferem produtos que valorizem sua origem, nem que para isso tenham de buscar inspiração fora do país. A pesquisa indica que os ídolos desses jovens paulistanos são músicos, celebridades e artistas negros e latinos norte-americanos (como Chris Brown, Beyoncé, Rihanna, Jay-Z, Usher, Flo Rida).

Ostentação

O sentimento de pertencimento ao grupo está ligado ao consumo – determinadas marcas de roupa, colares de ouro, os “tênis de mil reais”, bonés de abas retas, por exemplo –, ou de cultura e entretenimento – como o “funk ostentação”, rap e hip-hop. Tudo regado a espumantes, vodca e energético com uísque.

Para onde vai?

A aposta da Ponte é que essa tendência da periferia paulistana deve desembocar no fenômeno do swag, surgido nos EUA e tem a ver com autoconfiança, independência e criatividade. O que vale é se diferenciar. Isso se reflete na moda, no comportamento, no jeito de andar e na atitude.

Dentro do campus

Dois institutos analisaram o perfil do jovem universitário de cinco cidades: São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Brasília e Recife. Nessas capitais, a empresa Vox entrevistou 158 estudantes, de 18 a 30 anos, do 3º ou 4º ano de graduação, além de 17 professores e quatro especialistas. Os alunos vêm de 28 faculdades e universidades, federais, estaduais e particulares, dos cursos de Administração, Engenharia, Economia, Comunicação e Artes. O instituto CO.R falou com mais de 300 jovens em 37 faculdades do Rio e de São Paulo, de cursos de diversas áreas. O recorte incluiu estudantes de 18 a 24 anos, das classes A, B e C. Abaixo, os principais resultados dos dois levantamentos.

Frio na barriga

O período de imersão na universidade cria expectativas, mas também o medo de não conseguir alcançá-las. Perto de se formarem, alunos veem o mito do mercado cada vez mais próximo de tomar contornos reais, mas não têm ideia do que vão encontrar pela frente. Apesar de animados com a carreira que escolheram, sentem que conhecem muito pouco sobre o mercado de trabalho – o que gera ansiedade e medo.

Doce lar

A pesquisa revelou que muitos jovens universitários desta geração valorizam bastante elementos como o conforto do lar e a proteção dos pais. Em termos gerais, eles demoram mais para sair de casa e ir morar sozinhos, e se comportam de maneira diferente conforme a esfera: a familiar e a da faculdade. Se no âmbito da faculdade ele ele adota o perfil de um adulto com opiniões fortes, personalidade contestadora e crítica, entre os familiares é capaz de assumir uma postura adolescente. Entre os entrevistados, muitos não trabalham, não são responsáveis por seu sustento e não se incomodam por depender financeiramente dos pais. Essa característica se repete entre universitários de todas as camadas sociais.

Espírito crítico

A universidade (ou faculdade) é vista pela grande maioria dos entrevistados como um espaço de troca, no qual o mais importante está além da sala de aula; na interação, nos debates, na convivência e nas transformações subjetivas. Ao entrar no Ensino Superior, o jovem sente que começou a ter acesso a um novo mundo, ao circular entre novos grupos, entrar em contato com opiniões diferentes. Isso reforça seu pensamento crítico, definindo os contornos de sua personalidade.

Em descompasso

É unânime, entre alunos e professores, que a metodologia tradicional de ensino está ultrapassada. O principal desafio é como readequar o papel do professor diante de alunos que têm acesso a tudo e demandam protagonismo no processo de aquisição de conhecimento de fato. Critica-se também o pensamento setorizado: os cursos e áreas dentro das universidades são isolados uns dos outros e praticamente não há troca entre eles.

Mão na massa

Para os alunos, só há duas possibilidades: trabalhar em grandes empresas ou por conta própria, desconsiderando companhias de médio porte e/ou posições intermediárias como alternativas. O grande receio em relação ao ambiente corporativo é o de não se realizar pessoalmente, o temos de ser “medíocre” ou tornar-se um “apertador de parafuso”. O jovem acredita em seu potencial para fazer algo único.

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Minidocumentário mergulha no universo de jovens de menos de 30 anos e mostra como é viver essa fase da vida no Brasil de hoje, a partir de diversos pontos de vista. Recém-saído dessa faixa etária, o roteirista e criador do argumento do filme explica como foi o processo de realização da obra

A vida como
ela é

Por Lucas Bergallo Rodrigues

Minidocumentário mergulha no universo de jovens de menos de 30 anos e mostra como é viver essa fase da vida no Brasil de hoje, a partir de diversos pontos de vista. Recém-saído dessa faixa etária, o roteirista e criador do argumento do filme explica como foi o processo de realização da obra

O desafio era retratar um pouco das juventudes no Brasil. Assim mesmo, no plural. Porque são muitas as faces dessa etapa da vida. Uma etapa intensa e de autodescobrimento extremo. Uma etapa que já ocupou o exíguo espaço entre os 18 e os 24 anos. Hoje, com 30, eu mesmo ainda reluto em ser aquele adulto que os meus pais são.

Para construir o roteiro do minidocumentário Menos30, mergulhamos no universo de vários jovens com realidades muito distintas e comportamentos muito parecidos. Jovens com estruturas, oportunidades e objetivos distintos, vivendo em um mundo cada vez mais conectado, onde interesses comuns têm muito mais poder para aproximar do que as diferenças teriam para dividir.

Gilberto mora em Parelheiros, se desloca de ônibus e sonha acordado para um dia ser piloto de avião. Talita anda de bike, vive na Vila Madalena e trabalha para que todo mundo também possa andar de bike se quiser. Renan faz faculdade à noite, mora com os pais e, com a ajuda deles, comprou seu primeiro carro quando ainda nem tinha carteira. Eles por acaso vivem todos em São Paulo, mas são um recorte legítimo de um Brasil que se aproxima muito mais na atitude do que na geolocalização. Autênticos nos contrastes e nas similaridades.

Eles foram escolhidos para ilustrar diferentes perfis comportamentais. Gilberto é atento, ligeiro e batalhador, é um representante da novíssima classe média. Talita é empreendedora cultural, inovadora e ativista. Renan vive essencialmente sua relação com a faculdade. É um universitário se abrindo para o mundo.

Com produção da Content/Conspiração Filmes, direção de Fred Ouro Preto e roteiro de Lucas Bergallo Rodrigues e Felipe de Souza, o filme mostra que, no céu das juventudes, o sol está no topo, iluminando e aquecendo o “corre” de todos.

    Eu vim de uma família humilde e estou caminhando para o meu objetivo, que é me tornar um piloto de companhia aérea. E voar pelo mundo. Eu saio diariamente de Parelheiros, extremo sul de São Paulo, e espero viajar o mundo.

    Gilberto Lemos de Paula, 21 anos

  • Venho de uma sociedade um pouco perdida, que não sabe muito bem onde se encaixa, o que faz e quais os seus objetivos. E para onde eu vou não é importante enquanto eu discuto o que estou fazendo no meio do caminho. Com 28 anos, não posso falar de um futuro muito distante a não ser o presente e o que eu estou fazendo para as correrias do dia a dia.

    Talita Oliveira Noguchi, 28 anos

  • Venho de uma família de classe média que batalhou muito para conquistar algumas coisas. Acho uma vitória eu ter conseguido fazer faculdade, comprado o meu carro. Tenho dois grandes desafios: conseguir um cargo de gestão em uma empresa na área de petróleo e gás. E, como quero fazer algo realmente significativo para a sociedade, sonho um dia poder fazer parte da ONU.

    Renan de Oliveira Paz, 22 anos

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Veja aqui definições de termos utilizados em artigos e entrevistas desta edição do Caderno

Glossário

Veja aqui definições de termos utilizados em artigos e entrevistas desta edição do Caderno

Crowdfunding

Processo de financiamento coletivo para viabilizar uma ação ou projeto. Pode ser utilizado em iniciativas de várias naturezas, de filantrópicas a culturais. O termo ganhou força com a expansão da internet, já que permite a colaboração de doadores à distância. Com frequência, esse tipo de ação coletiva prevê contrapartidas proporcionais aos investimentos feitos por cada investidor. Por exemplo: receber um CD autografado pelo artista financiado, um CD autografado e um pôster, os dois itens anteriores e mais um ingresso para o show de lançamento. Quando o montante necessário para viabilizar o projeto não é captado, o valor é devolvido aos investidores.

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Crowdsourcing

Ver Plataforma colaborativa.

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Dinergética

Vem do termo “dinergia”, que se refere à criação de padrões por meio da junção de elementos opostos, numa representação das ordens harmônicas da natureza. O termo foi cunhado pelo arquiteto e designer húngaro naturalizado norte-americano Györgi Dóczi (1909-1995).

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Economia criativa

Definida como aquela que gera produtos e serviços pelo uso do conhecimento, da criatividade e do capital intelectual. Abrange atividades como música, design, moda, publicidade, arquitetura e gastronomia, entre outras.

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Empregabilidade

É a capacidade de o profissional se inserir ou se manter no mercado de trabalho a partir do rol de competências que possui.

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Geração Y

Conhecida também como geração do milênio, é aquela formada por indivíduos nascidos entre meados dos anos 1970 e meados dos 1990. Tem por característica a familiaridade com a tecnologia.

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Geração Z

Chamada também de geração zap, refere-se aos nascidos a partir de meados da década de 1990. Nativos digitais, cresceram em meio a uma ampla variedade de ferramentas e mídias. A conectividade é um traço característico dessa geração.

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Hipertexto

Forma de escrita e leitura não linear, com blocos de informação que podem estar ligados a palavras, a imagens ou a outros textos. O termo foi criado por Theodor Nelson, um dos pioneiros da tecnologia da informação, nos anos 1960, para designar a leitura no campo da informática.

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Midiativismo

Ativismo político baseado no uso das tecnologias de informação e comunicação (TICs).

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Midialivristas

Ativistas da mídia livre. Atividade que parte do pressuposto de que todo indivíduo com acesso ao mundo digital pode produzir e/ou difundir conteúdos, sem necessariamente pertencer a algum órgão de comunicação.

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Plataforma colaborativa

Espaços virtuais destinados à troca de informações sobre temas determinados. Neles, o usuário não apenas recebe o conteúdo, mas pode interagir, acrescentar informações, editar e debater temas. É nesses espaços que acontece o crowdsourcing, atividade que se caracteriza pela colaboração de várias fontes em torno de um objetivo comum. Pode ser utilizado nas relações de ensino-aprendizado, em ações sociais, em mapeamentos urbanos, entre outros fins. No âmbito empresarial, o crowdsourcing vem sendo usado como estratégia para criação ou aperfeiçoamento de produtos, envolvendo desenvolvedores, funcionários e consumidores.

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Startup

Termo usado para designar empresas com potencial de gerar dinheiro no futuro, mesmo em ambiente de risco. Geralmente têm uma proposta inovadora no modelo de negócio, a partir do produto ou serviço oferecido.

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